O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 32 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo VII

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A planta pregada na parede, com as representações geométricas das fileiras de barracões nos diversos campos, só era compreensível para quem estivesse familiarizado com os Konzentrationslager, e em particular Auschwitz-Birkenau. A vara tocava nesse instante no desenho dos edifícios no topo da planta de Birkenau, que Francisco e todos os SS no auditório sabiam ser os crematórios, e o homem que a manuseava era o Hauptscharführer Otto Moll. Como de costume estava fardado de branco e mantinha pregada ao peito a Kriegsverdienstkreuz com espadas de que tanto se orgulhava.

“O que aconteceu com o Katzet de Majdanek não pode suceder aqui”, sublinhou o chefe dos crematórios. “Fomos apanhados de surpresa pela rapidez do avanço do inimigo e não houve tempo de destruir as câmaras de gás. O inimigo capturou pelo menos uma delas intacta. Temos de impedir que o mesmo aconteça no nosso Katzet. É preciso começar imediatamente a destruir os Kremas.”

O novo comandante de Birkenau, o Hauptsturmführer Kramer, interveio.

“Pois, isso é muito bonito de dizer”, considerou. “O problema é que há transportes a chegar com matéria-prima. Já me avisaram que os judeus de Łódź vêm aí. Como sugere que os submetamos a uma Aktion sem os Kremas?”

“Recebemo-los, fechamo-los com todos os outros judeus no campo e à noite, enquanto estão a dormir, retiramos a guarda. A seguir a artilharia e os Junkers bombardeiam o campo. Daremos assim cabo de quase toda a gente. Os nossos homens liquidarão os que sobreviverem.”

O comandante riu-se.

“Ach, isso não é possível”, disse Kramer. “Berlim quer preservar os judeus em condições de trabalhar. Não se esqueça de que precisamos de manter as fábricas a laborar. Temos a IG Farben, temos a Union-Werke, temos a...”

“Está bem”, percebeu o chefe dos crematórios. “Então porque não mandamos para outros campos os prisioneiros de que não precisamos?”

“Quais campos? Majdanek caiu, enquanto Bełżec, Sobibór, Chelmno e Treblinka já foram desmantelados. Mandamo-los para onde?”

O Hauptscharführer Moll não desarmou.

“Para os campos a oeste. Dachau, Mauthausen... sei lá.”

“Esses são simples Konzentrationslager e Arbeitslager, não têm instalações específicas para tratamento especial”, lembrou o Hauptsturmführer Kramer. “O último campo com câmaras de gás operacionais é o nosso. Se as destruirmos, o Reich perderá definitivamente a capacidade de exterminar as raças inferiores. Não preciso de vos recordar a enorme tragédia que uma coisa dessas seria para a Alemanha e a humanidade. Perderemos esta grande oportunidade de viabilizar a evolução da raça humana para a sua fase divina. Por isso a ordem de desmantelamento dos Kremas só pode ser dada pelo Reichsführer-SS.”

“Bem... uh, está bem”, concedeu mais uma vez Moll. “Mas isso não nos impede de iniciar a planificação. Chamamos os engenheiros para estudarem a melhor maneira de destruir as instalações, quanta dinamite será necessária, onde irá ser colocada... essas coisas. Mandamos também os homens do Sonderkommando para tratamento especial. É imperativo que não escape um único, pois conhecem o segredo.”

Um murmúrio de aprovação percorreu o auditório. Ninguém ignorava que a BBC e o The New York Times já haviam noticiado que Auschwitz era uma fábrica de morte e muitos dos presentes tinham até sido referidos pelo nome, o que os deixara muito nervosos. Para agravar as coisas, e apenas uma semana depois de o Exército Vermelho ter cruzado a fronteira da Prússia Oriental, chegara a notícia de que Paris caíra. Os Aliados avançavam a oeste e a leste e a Wehrmacht não parava de recuar em todas as frentes. Os SS estavam ainda sob o efeito do choque. A necessidade de não deixar testemunhas que os comprometessem em tribunal era compreendida por todos.

“Soube por um Kapo polaco que o Sonderkommando anda a preparar uma revolta”, acrescentou o chefe dos crematórios. “Temos de acabar com eles. Liquidámos um contingente em Majdanek e a seguir vamos eliminar um novo grupo. Alguns irão para as unidades de Sprengkommando, destinadas a demolir os crematórios, mas também esses serão liquidados. Não sobrará nem um cabelo que possa servir de prova.”

No auditório, o único que o interrompia, como de resto constituía seu direito e dever, era o comandante de Birkenau.

“Como iremos tratar dos tipos do Sonderkommando sem que desconfiem?”

A pergunta tocava num ponto delicado da operação, uma vez que o Kommando dos crematórios era constituído por homens corpulentos e sem ilusões quanto ao seu destino último, o que os tornava perigosos. O chefe dos crematórios respondeu com um sorriso críptico.

“Deixe isso comigo.”