O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 9 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo VIII

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“Singen!”

A ordem do Unterscharführer Pestek arrancou um sorriso a Levin; sabia que era ele o destinatário. Pestek era o único SS que conhecera em Birkenau que se mostrava simpático e até preocupado com os prisioneiros. Coisa extraordinária, este Volksdeutscher da Roménia por vezes sorria-lhes. Quando o conheceu, pensou que se tratava de fingimento, mas com o tempo foi percebendo que Pestek era genuíno. No campo das famílias chamavam-lhe miláček, querido em checo. Levin tivera sorte em ir parar ao seu Arbeitskommando. Não só o Unterscharführer se mostrava afável como o seu comportamento dissuadia o Kapo de se comportar como era habitual.

Se Pestek lhe pedia que cantasse, fá-lo-ia com gosto.

 

A la gerra me vo ir;

y no se si vo a venir.

la trompeta va...

 

“Quem é o A-1676?”

A pergunta foi feita por um SS corpulento que Levin nunca tinha visto. O Unterscharführer Pestek encarou-o com desconfiança.

“Para que quer saber?”

“Sou do Abteilung VI e venho questionar o prisioneiro número A-1676”, anunciou o recém-chegado. “Onde está ele?”

Pestek nem se mexeu.

“Só pode falar com os homens do meu Arbeitskommando se for autorizado pelo Lagerführer.”

Pelo aspeto meridional e pela maneira de falar percebia-se que o SS desconhecido não era alemão. O homem tirou uma folha do bolso e estendeu-a a Pestek.

“Onde está a assinatura do Lagerführer?”

O SS-Mann apontou para o fundo da folha.

“Aqui.”

“É mesmo a assinatura do Obersturmführer Schwarzhuber?”, duvidou. “De certeza?”

Pestek protegia os prisioneiros.

“Oiça, Unterscharführer”, disse o recém-chegado num tom subitamente tenso. “Não estou aqui para joguinhos. Tenho ordens para falar com o prisioneiro número A-1676. Ou me deixa falar com ele ou não deixa. Se não deixar, irei ter com o Oberscharführer Knittel, dar-lhe-ei o seu nome e ele entender-se-á com o Obersturmführer Schwarzhuber. Estou certo de que o Obersturmführer estará interessado em saber por que razão um SS ignorou um documento com a assinatura dele.”

Contrariado, Pestek voltou-se para os homens do Arbeitskommando.

“Quem é o A-1676?”

Todos os prisioneiros sabiam que não era bom serem procurados por um SS. A medo, a tremer, Levin levantou o braço.

“Sou... sou eu, Herr Unterscharführer.”

O SS desconhecido aproximou-se dele.

“Herbert Levin?”

O ilusionista estranhou ser interpelado pelo nome e não pelo número.

“Jawohl, Herr SS-Mann.”

“O Grande Nivelli?”

A pergunta apanhou Levin de surpresa; era a segunda vez em poucos dias que um SS invocava o seu nome artístico.

“Jawohl, Herr SS-Mann.”

Para espanto de todos, o SS sorriu. Depois de Pestek, era apenas o segundo SS de Birkenau que viam sorrir a um judeu.

“Sou o SS-Mann Francisco Latino”, apresentou-se o recém-chegado com a naturalidade de quem acabava de travar conhecimento com alguém num café; só faltava apertar-lhe a mão. “Tem um minuto?”

Tanta cortesia era inaudita.

“Naturalmente, Herr SS-Mann.”

Preocupado em assegurar a privacidade, Francisco conduziu Levin para um lugar mais isolado. Todos os prisioneiros do Arbeitskommando, mais o Kapo e Pestek, atiravam olhares de curiosidade na direção dos dois, mas àquela distância não era possível captar mais do que sons ininteligíveis.

“Disseram-me que é um grande ilusionista”, indicou o SS. “Falaram-me muito bem dos seus espetáculos em Budapeste.”

“Em Praga, Herr SS-Mann”, corrigiu o mágico. “Agradeço os elogios, mas quem lhe falou em mim exagerou.”

“Espero bem que não, pois tenho uma proposta para si.” O recém-chegado fitou-o com intensidade. “Sente-se capaz de fazer um espetáculo de magia?”

“Aqui?”

“Sim. Sente-se capaz disso?”

“Bem... claro. Se me forem dados os meios necessários, penso que se poderia fazer alguma coisa. O barracão da škola, por exemplo, é capaz de ser o lugar ideal, uma vez que conheço o...”

“O espetáculo seria para os SS.”

O mágico arregalou os olhos, horrorizado.

“Perdão?”

“Estou a trabalhar para o Abteilung VI, o departamento de Auschwitz encarregado do entretenimento das tropas. Organizamos sessões de cinema, de teatro, de música... enfim, tudo o que possa entreter os SS. Ouvi dizer muito bem de si e dos seus espetáculos e parece-me que poderíamos fazer qualquer coisa.” Esboçou um ar vagamente embaraçado. “O trabalho não é pago, claro, mas se aceitar estou convencido de que o poderei livrar deste Arbeitskommando com o pretexto de que precisa de preparar os seus números.” Indicou os prisioneiros que nessa altura transportavam já as pedras de um lado para o outro. “Creio que seria muito vantajoso para si.”

Era verdade, e Levin sabia. Porém, a questão não se lhe afigurava fácil. A brutalidade no campo tornava-o cuidadoso nos contactos com os SS; quanto menos estivesse com essa gente melhor.

“Obedeço a ordens, Herr SS-Mann.”

“Isto não é uma ordem. Fá-lo-á se quiser.”

O judeu não conseguiu disfarçar um esgar de alívio.

“Se assim é, Herr SS-Mann, peço que me desculpe mas prefiro não fazer.”

“Ora essa!”, admirou-se Francisco. “O senhor é um mágico e estou a oferecer-lhe a oportunidade de exercer o seu ofício. Qual é a dúvida?”

O ilusionista hesitou. A dúvida era que teria de estar perante os SS, mas isso não o podia dizer.

“É que... enfim... não sei se estarei à altura”, alegou. “Sou um amador e iria fazer um espetáculo fraco. Não me parece boa ideia.”

“Creio que se está a subestimar”, considerou Francisco. “O camarada que me falou de si fez-lhe os maiores elogios. Pelo que me contou, penso que seria um êxito.”

Levin abanou a cabeça, mais convicto ainda.

“Não creio, Herr SS-Mann”, disse. “Insisto que sou um amador e nunca estaria à altura de uma coisa dessas. É melhor não arriscar.”

A recusa deixou o SS dececionado.

“Lamento ouvir isso. Estava muito entusiasmado e...”

“As minhas desculpas, Herr SS-Mann.”

Desalentado com o fracasso de uma ideia que lhe parecera promissora, Francisco começou a afastar-se. Ao fim de poucos passos, deteve-se.

“Tinham-me dito que o senhor era judeu alemão.”

“E sou.”

“Então porque canta em espanhol?”

“Não era espanhol, Herr SS-Mann”, corrigiu Levin. “Era ladino. Uma língua judaica com origem no castelhano e no português.”

“No português?”

“Para dizer a verdade, Herr SS-Mann, o meu ladino nem vem por via espanhola mas portuguesa. A minha mãe era uma judia portuguesa da Holanda. Foi ela que me ensinou essa canção.”

O SS fitou o judeu, embasbacado.

“Está a falar a sério?”

A estupefação do recém-chegado surpreendeu Levin; o que teria dito assim de tão extraordinário?

“Bem... sim, claro.”

Francisco mantinha o olhar colado nele.

“O senhor tem a noção de que sou português?”

Só nesse instante o judeu percebeu a reação do SS.

“Ah, bom”, exclamou o mágico. “Confesso que... enfim, nunca imaginei encontrar aqui um SS português.”

“Você também é português!”

“Não sou propriamente português...”

“Era a sua mãe”, sublinhou o SS. “Ela veio de Portugal?”

“Nasceu em Amesterdão”, clarificou Levin. “Os antepassados é que vieram de Portugal. Mas lembro-me que sabia de cor orações em português.” Fez um esforço de memória. “‘Abençoado sejas tu, Adonai, que nos deste a vida e a faculdade de estarmos aqui hoje.’”

Reconhecendo as palavras, o português quase se comoveu.

“Isso é... é extraordinário.”

“Foi o que ela me ensinou. Aprendeu-o com os pais e eles com os pais deles.”

“De que terra em Portugal vieram os seus antepassados?”

“De um sítio chamado... uh... Alfambra do Fé.”

“Alfândega da Fé?”

“Ou isso.”

Francisco abanou a cabeça, incrédulo.

“Eu sou de Bragança”, indicou. “É perto de Alfândega da Fé. Somos conterrâneos, meu caro!”

A ligação emocional de Levin a Portugal era nula, uma vez que se limitava a velhas histórias de família, mas percebeu que aquilo significava muito para o SS. E de facto Francisco sentia que os laços do judeu com o seu país os aproximavam.

O português voltou a abeirar-se de Levin. Não o podia cumprimentar nem convidá-lo para um café ou tirá-lo daquele sítio, pelo que fez a única coisa realmente ao seu alcance. Retirou do bolso um dos dois embrulhos que tinha preparado para Tanusha e baixou-se, como se quisesse limpar as botas. Ciente de que cometia uma infração grave, pousou discretamente o embrulho no chão.

“É para si e para a sua família”, sussurrou. “Lá dentro há pão e salsichas, e ainda medicamentos para a disenteria. Finja que vai aliviar os intestinos, acocore-se e guarde o embrulho.”

O gesto foi tão inesperado que espantou o judeu; nem Pestek alguma vez fizera algo assim.

“Eu... obrigado, Herr SS-Mann.”

“Se puder, passarei de novo por cá para lhe trazer mais alguma coisa.”

Preocupado em não atrair atenções indesejáveis, Francisco virou-lhe as costas e começou a afastar-se. O embrulho teria dado muito jeito a Tanusha, mas não podia deixar de o oferecer ao prisioneiro. Mesmo sem nunca ter posto os pés em Portugal, aquele homem tinha-lhe dado um sabor da sua terra e uma coisa assim num lugar daqueles não tinha preço.

“Herr SS-Mann!”

Voltou-se para trás.

“Hmm?”

“Temos de falar sobre as condições.”

“Quais condições?”

“Para fazer o espetáculo.”

Francisco parou e encarou de novo o prisioneiro. Estavam separados por dez metros, mas perceberam nesse instante que algo forte os unia. Talvez fosse a velha canção em ladino. Ou toda a história por detrás dela.