O Manuscrito de Birkenau
Capítulo II
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“Sonderkommando?!”
Os olhos de Francisco arregalaram-se no momento em que viu a palavra escrita na guia de transferência. Não quis acreditar e perscrutou o documento de uma ponta à outra, até no verso, em busca de algo que lhe mostrasse que vira mal, que se enganara, que havia um equívoco. Mas a palavra permanecia lá, preto no branco, fria, brutal e incontornável.
O Oberscharführer Knittel fitou-o com um certo enfado.
“Qual é agora o problema?”
O SS português sabia que tinha de ser cauteloso na argumentação.
“Este espetáculo de magia vai dar ânimo aos nossos camaradas para que prossigam a sua missão sagrada de eliminar as raças inferiores para salvar a humanidade. Eles precisam de coisas que os distraiam, que os façam rir, pois o trabalho é, como o Oberscharführer sabe, penoso.”
“E então?”, impacientou-se o responsável do Abteilung VI. “Qual é o problema de o seu mágico ir para o Sonderkommando?”
“O que se passa, Oberscharführer, é que ele precisa de condições para conceber e preparar o espetáculo. Não me parece que as tenha no Sonderkommando.”
O chefe do departamento cultural fez um gesto irritado.
“Claro que tem”, retorquiu. “Você disse-me que ele precisava de um lugar onde comesse bem e tivesse conforto. Aqui no Katzet essas duas condições só existem nas SS e no Sonderkommando. Como presumo que não estivesse à espera que o seu judeu fosse para as SS, só restava o Sonderkommando.”
“É indiscutível, Oberscharführer, mas não bastam essas condições. Ele também precisa de tempo para preparar o espetáculo. No Sonderkommando estará sempre muito ocupado.”
“Disparate! O Sonderkommando trabalha em dois turnos. O mágico pode usar o turno em que está livre para fazer os seus preparativos. Tanto quanto sei, no período de descanso ninguém incomoda o Sonderkommando. Eles até têm tempo para ler e jogar futebol...”
Tudo isto era novidade para Francisco, que em bom rigor desconhecia quase tudo sobre o Sonderkommando, exceto o essencial.
“Pois... sem dúvida, Oberscharführer. Mas permita-me recordar que o mágico precisa de um local para preparar os seus adereços, montar e pregar estruturas, construir peças... essas coisas.”
O alemão sorriu, muito satisfeito consigo próprio.
“No Krema número dois existe uma carpintaria. Pode trabalhar lá. Como vê, o Sonderkommando é a unidade com as melhores condições para o seu judeu fazer o que precisa. O que mais quer afinal?”
Francisco nem soube o que dizer. Cada problema que suscitava encontrava uma resposta pertinente. O que poderia invocar para tentar meter Levin num posto diferente?
“O problema, Oberscharführer, é que, tanto quanto sei, os homens do Sonderkommando são eliminados de três em três meses.”
“Isso é um problema?”
“Bem... se o mágico for morto, não haverá magia.”
“Não me diga que o seu judeu vai levar mais de três meses a preparar o espetaculozinho...”
“Há muito trabalho de carpintaria para executar e ele não dispõe propriamente do dia todo livre”, sublinhou, sentindo que a sua linha de argumentação por aqui era mais sólida. “Não se esqueça de que o mágico desempenhará funções de Sonderkommando e, ao que sei, elas são bem pesadas, física e psicologicamente. Ficando no Sonderkommando, o trabalho de carpintaria será obrigatoriamente lento. Nessas condições não vejo como o homem consiga completar tudo em menos de três meses. O que significa que acabará por ser morto antes do espetáculo.”
O Oberscharführer Knittel fez um esgar de indiferença.
“Esse problema não existe.”
“Com certeza o Oberscharführer tem toda a razão, mas se o mágico for executado ao fim de três meses como vamos fazer o espetáculo?”
“Não sabe que vem aí muita matéria-prima para o Sonderkommando?”
“Matéria-prima, Oberscharführer?”
“Sim, matéria-prima da Hungria. Como decerto não desconhece, ao verem os vermelhos ganharem-nos terreno, os húngaros, quais cães traiçoeiros, roeram a corda e tentaram chegar a um acordo com o inimigo. Foi por isso que tivemos de intervir militarmente na Hungria. O Eichmann foi para lá e os húngaros aceitaram entregar-nos todos os seus judeus. Começaram já a chegar-nos transportes de Budapeste carregados de matéria-prima para os crematórios. O Obersturmbannführer Höss informou-me de que toda a população judaica da Hungria virá para Birkenau e será encaminhada, na sua maioria, para tratamento especial. São mais de setecentas mil pessoas. Sabe o que isso significa, presumo eu.”
“Que essa gente será morta.”
O responsável do Abteilung VI fez um estalido agastado com a língua.
“Claro que vai ser morta, isso é óbvio. O que quero dizer é que os homens do Sonderkommando não correm o risco de ser liquidados de imediato, está a perceber? Bem pelo contrário, e considerando o trabalho que aí vem, o contingente será até aumentado para que haja capacidade de processar todos esses transportes. Parece aliás que o novo chefe dos crematórios, o Hauptscharführer Otto Moll, que substituiu o bêbado do Voss, anda neste momento muito ativo a selecionar deportados para o Sonderkommando. Portanto o seu judeu será liquidado, sim, mas não necessariamente ao fim de três meses.”
O Sonderkommando estava longe de ser a unidade de trabalho onde Francisco gostaria de ver Levin, mas perante o que o superior hierárquico lhe dizia não tinha muito por onde ripostar. O problema é que, presente na sua mente, estava o destino de Tanusha. A ideia sempre fora colocá-la junto do mágico num qualquer setor tranquilo de Birkenau e, com o pretexto de estarem a preparar o tal espetáculo, fazê-los passar ali a guerra na esperança de que os Aliados entretanto chegassem. Não tinham as notícias da véspera revelado que os americanos haviam tomado Roma? Com a transferência de Levin para o Sonderkommando, porém, tudo se complicava.
“Sem dúvida que o Oberscharführer está a ver muito bem e que o seu raciocínio é brilhante”, disse Francisco, tentando amaciar o ego do chefe. “O problema é que, no meio de tudo isto, não foi resolvida a questão da assistente.”
O alemão fez uma careta relutante.
“Não me agrada nada juntar dois prisioneiros de sexos diferentes”, confessou. “Pôr um homem a trabalhar com uma mulher aqui no Katzet nunca dá bom resultado, até porque Birkenau não é propriamente um bordel. Esse mágico precisa mesmo de assistente?”
Pelos vistos o chefe do Abteilung VI ainda não ficara convencido quanto a Tanusha.
“É absolutamente imprescindível”, sublinhou o SS português. “Se está preocupado com a possibilidade de algo acontecer entre os dois, eu fico de olho em ambos. A questão é estritamente técnica. Sem assistente, não há espetáculo. Como lhe disse, encontrei no campo das mulheres a pessoa perfeita para essa função. É importante que ela esteja com o mágico a preparar os números. Só que a ida dele para o Sonderkommando é um problema porque, que eu saiba, as mulheres não são autorizadas nessa unidade.”
“É um facto.”
“Então como vamos fazer isto?”
O Oberscharführer Knittel ficou pensativo.
“Se calhar o melhor seria deixá-la onde está e no dia do espetáculo levá-la para o teatro.”
“Não pode ser, Oberscharführer. Quando subir ao palco a assistente terá de estar perfeitamente articulada com o mágico. O ilusionismo é uma arte de precisão e a menor falha destrói um número. Eles precisam de trabalhar juntos para ensaiar as suas artes. Além do mais, não se esqueça de que as condições no campo das mulheres são penosas. As prisioneiras comem pessimamente, mal têm água, as doenças são endémicas e as seleções multiplicam-se. Eu próprio vi esta rapariga escapar por um triz a uma Selektion do Doktor Mengele. Já imaginou o que seria não podermos ter o espetáculo só porque a moça morreu de fome ou de tifo ou foi enviada pelo Doktor Mengele para tratamento especial? Um absurdo. Além do mais, nem é judia. Temos de a transferir para um sítio onde seja bem tratada e se consiga reunir com o mágico.”
“Oiça, isto não é um campo de férias”, lembrou o chefe do departamento. “Não há em Birkenau lugares perfeitos.”
“Tenho consciência disso, Oberscharführer. Mas decerto a transferência de uma única prisioneira não constitui um problema intransponível quando há vontade de o resolver. Faço notar que, pelo preço de solucionar uma questão simples relacionada com apenas dois prisioneiros, um dos quais nem sequer é judeu, poderemos ter um espetáculo que ficará nos anais dos Katzet do Reich. O próprio Obersturmbannführer Höss e a sua esposa não deixarão de estar presentes e ele mostrar-se-á com toda a certeza muito agradado com o trabalho do Abteilung VI. Não se esquecerá decerto de mencionar ao Reichsführer-SS a inovação que com este espetáculo o nosso departamento introduzirá no entretenimento dos nossos camaradas.”
A referência ao responsável pela operação de extermínio em Birkenau e a Himmler arrancou um brilho aos olhos de Oberscharführer Knittel. Os dois chefes eram realmente muito próximos, como se provava pela visita que o Reichsführer-SS fizera dois anos antes a casa do Obersturmbannführer Höss, e um espetáculo daqueles chamaria inevitavelmente a atenção da chefia para as atividades do departamento. Projetar filmes, juntar orquestras, montar peças de teatro ou organizar jogos de futebol e combates de boxe eram coisas banais e muito vistas nos diversos KL do Reich. Mas um espetáculo de magia constituía algo absolutamente diferente. Tão diferente que era realmente provável que o assunto acabasse por chegar aos ouvidos do próprio Reichsführer-SS. Isso faria maravilhas pela sua carreira, pensou o chefe do Abteilung VI. Tudo pelo preço de dois prisioneiros.
O Oberscharführer Knittel lançou um olhar à folha na parede do gabinete com a planta de todo o complexo de Auschwitz. Os seus olhos colaram-se ao quadrado reservado ao maior campo do complexo, Birkenau, e em particular aos crematórios. O mágico tinha sido transferido para o Sonderkommando, não era verdade? A assistente não poderia ir para ali. As únicas mulheres que entravam no perímetro dos crematórios eram as que saíam pelas chaminés. Então para onde a poderia enviar? Para onde? Os olhos vaguearam pelo espaço vizinho e, de repente muito abertos, prenderam-se num enorme retângulo.
“O Canadá!”
“Perdão?”
“Vamos mandá-la para o Canadá!”
O português olhou-o, embasbacado. Teria enlouquecido?
“Canadá?!”
O Oberscharführer Knittel dirigiu-se à planta e pousou o dedo gordo num grande perímetro traçado à esquerda do crematório três, a palavra Kanada impressa por cima.
“Aqui.”
Francisco levantou-se e juntou-se ao chefe diante do setor da planta dedicado a Birkenau, tentando identificar o local.
“O que é isto?”
“É o sítio perfeito”, considerou o alemão. “Está mesmo ao lado dos Kremas onde o Sonderkommando trabalha, o que permitirá que o mágico vá ter com a moça para os ensaios. Além do mais, aqui no Canadá ela terá...”
Um súbito burburinho no exterior do gabinete, com vozes alteradas e passos apressados, interrompeu a conversa.
Alguém bateu à porta.
“Entre.”
A porta abriu-se e o secretário do chefe do Abteilung VI transpôs a entrada do gabinete de braço vagamente estendido num esboço de saudação hitleriana, quase como se não houvesse tempo nem cabeça para formalidades, o cabelo despenteado e o olhar transtornado.
“Heil Hitler!”, saudou, como era da praxe. “O Oberscharführer está a par do que se passa?”
“Passa onde?”
“Na guerra, Oberscharführer. Já sabe o que aconteceu?”
O chefe do departamento fez com a mão um gesto a desvalorizar o assunto.
“Roma caiu, já sei. Mas a Wehrmacht vai...”
“Não é Roma, Oberscharführer. É a França.”
Alçou o sobrolho.
“A França?”
O secretário transpirava profusamente e não era por causa do calor; o seu nervosismo afigurava-se evidente. As notícias estavam longe de ser as melhores.
“Os americanos desembarcaram em França.”