O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 37 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo XII

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Mais um dia de espera. Com a acentuada diminuição dos transportes, os alemães começaram a usar apenas o crematório número um para as cada vez mais raras Aktionen de tratamento especial, deixando os restantes crematórios inativos. No crematório número três Levin era o único que ainda tinha uma missão. Nessa manhã acordou por isso mais cedo do que os companheiros e foi tomar banho e vestir-se. O seu objetivo do dia era trabalhar na carpintaria do crematório número dois, na esperança de que Francisco o visitasse enfim.

Os companheiros estavam já a acordar quando se sentou para o pequeno-almoço. Não passava de um chá. Pelo menos era quente, mas bebericou-o com desconsolo. Depois pousou a chávena e, resignado, dirigiu-se à porta para sair.

“Pst!”

O major Antipov fazia-lhe sinal.

“Dobre utro”, cumprimentou-o. “Bom dia.”

“Não pode sair do crematório.”

“Perdão?”

O oficial do Exército Vermelho levantou a ponta do colchão da sua cama e mostrou uma pistola escondida.

“É hoje.”

“É hoje o quê?”

“O que você sabe.”

O mágico ficou um longo momento plantado no mesmo sítio, a digerir o anúncio. Uma vez que eram eles os militares, os russos estavam encarregados dos pormenores operacionais da sublevação. Nesse momento Levin tornara-se um soldado. Aquele dia já devia ter sido escolhido havia algum tempo, mas decerto fora mantido em segredo para impedir novas fugas de informação.

“O que... o que tenho de fazer?”

“O que toda a gente fará. Terá de pegar numa das armas e quando o momento chegar atacará os alemães. A ação começará pelo crepúsculo, às seis da tarde, para aproveitarmos ao máximo a escuridão. Está tudo articulado com os outros crematórios. O Krema número um fará um sinal de luz ao número dois, que nos fará um sinal de luz a nós e nós ao número quatro. Será então lançada a insurreição. Portanto prepare-se.”

Levin olhou para os companheiros do Sonderkommando que se levantavam.

“O pessoal já sabe?”

“Vamos agora passar a palavra.”

Nervoso, o mágico deu meia volta e pôs-se à janela, de onde contemplou as vedações como se receasse ver os SS aparecerem para suprimir a revolta que ainda não começara. Não viu nenhum. Na verdade, tudo parecia estranhamente calmo. Os fios de arame farpado roçavam uns nos outros ao vento, sempre a zumbir, e na paisagem árida revoluteavam pequenas nuvens de pó amarelado. Como era possível tanta calma? O campo não deveria estar já em polvorosa? Mas o único alvoroço era o que lhe incendiava a alma. Birkenau parecia adormecido na sua rotina, de tal modo alheado que ele próprio chegou a duvidar que alguma coisa acontecesse realmente nesse dia. Fez um esforço para registar mentalmente a data: 7 de outubro de 1944. O dia em que os prisioneiros de Auschwitz iam enfim dar troco. O dia da revolta do Sonderkommando.

O dia em que iria morrer.

 

A manhã foi passada em preparativos. Para quem pensava que acordara para mais um dia sem nada que fazer, esse 7 de outubro estava a revelar-se uma verdadeira surpresa. A ansiedade e a excitação apoderaram-se dos elementos do Sonderkommando. Todos conversavam animadamente sobre o que iriam fazer quando a hora chegasse, como atacariam os alemães, como escapariam, dúvidas e medos e anseios para os quais não havia respostas. Shlomo chegou a mostrar a Levin uma almofada de poliestireno que tinha preparado para a ocasião.

“Vais defender-te dos alemães com uma almofada?”

“A almofada é para cruzar o Vístula, idiota”, devolveu o grego sefardita. “Como não sei nadar, atiro-me ao rio e passo para o outro lado a boiar na almofada.” Apontou para uma caixa. “Há ali outras. Não queres?”

A ideia não era má. A preocupação do mágico, todavia, não estava ainda no Vístula, pois nem sequer acreditava que conseguissem sair do perímetro do crematório, mas em como iria lutar. Tinha uma faca, um pau e pedras. Nada mais. Não lhe parecia que pudesse ir longe. As armas mais poderosas, como as latas de conservas transformadas em granadas e as pistolas, estavam destinadas aos elementos com experiência de combate, pois estes decerto dar-lhes-iam melhor uso. Havia metralhadoras, mas encontravam-se na posse dos companheiros do crematório número um.

As armas foram entregues aos russos e aos homens do Sonderkommando que as sabiam manusear. Gradowski e o major Antipov decidiram manter as granadas no esconderijo, um buraco oculto na parede do dormitório, para apenas serem distribuídas perto da hora. Os únicos explosivos à vista eram garrafas de água cheias de gasolina e com um pano embebido no gargalo; tratava-se de uma invenção dos prisioneiros russos. Todos se afadigavam com os preparativos de última hora. Alguns juntavam os poucos alimentos que haviam guardado para a fuga, outros limpavam as armas ou preparavam as roupas.

Com uma resma de folhas sob o braço, Gradowski cruzou-se com Levin.

“Vou pôr o meu manuscrito a salvo. Não queres fazer o mesmo?”

Era uma boa ideia. No meio da confusão instalada no dormitório, o mágico levantou uma tábua do soalho debaixo da sua cama, revelando um esconderijo. Meteu a mão e retirou o texto que escrevera no rescaldo do extermínio do campo das famílias. Com os papéis escondidos nas roupas, saíram ambos do crematório e dirigiram-se às traseiras do edifício. Pegaram em pás e, por sugestão de Gradowski, abriram buracos na zona onde estavam enterradas as cinzas de muitas das vítimas dos gaseamentos.

“Este é o sítio com mais probabilidade de ser escavado quando tudo isto acabar”, justificou o Schreiber. “Aqui há mais possibilidades de os manuscritos serem descobertos.”

Levin espreitou uma última vez o título do seu manuscrito, A Magia das Cinzas, antes de o proteger num embrulho e metê-lo num cilindro usado para materiais de carpintaria. Tal como Gradowski, inseriu o cilindro num buraco e tapou-o. A tarefa concluída, regressaram ao crematório.

 

Os mapas da região, desenhados à mão por um dos elementos do Sonderkommando, foram estendidos no chão e o grupo juntou-se para analisar as opções de itinerário.

“A melhor maneira é juntarmo-nos aos do Krema número quatro e metermos pelas árvores em direção ao rio”, opinou o Kapo Eliezer. “Depois de passarmos o Vístula temos de correr para a floresta, oito quilómetros adiante. Estende-se até à fronteira e há lá muitos esconderijos.”

Para Levin tudo aquilo equivalia a sonhar em voz alta; era sem dúvida agradável fantasiar sobre o momento em que cruzariam o Vístula, mas não alimentava ilusões.

“O problema é sair do Krema.”

“Se despacharmos os alemães, sairemos pelo portão, claro. A maior dificuldade surgirá quando passarmos o rio.”

“Não podemos contar com os partisans?”

Essa questão era muito importante, pois sem ajuda local, e uma vez que desconheciam a região, seria difícil escaparem à perseguição que os SS prontamente lhes montariam com os cães.

“A minha esperança era o Urban”, admitiu Gradowski, referindo-se ao paraquedista que os ingleses haviam lançado meses antes para estabelecer a ligação entre a resistência exterior e interior do campo. “Mas os alemães apanharam-no.”

“Onde está ele?”

Gradowski suspirou, evitando a resposta pois ela era evidente.

“Estamos entregues a nós próprios.”

“E o Exército Vermelho?”

“Os russos não querem saber de nós para nada. Basta ver como deixaram os alemães aniquilar os polacos em Varsóvia.”

“A não ser que nos colemos aos homens do major Antipov”, alvitrou Eliezer. “Se conseguirem sair daqui, estabelecerão contacto com o Exército Vermelho.”

Os olhares do grupo desviaram-se para os prisioneiros russos. Todos sabiam que quase de certeza iriam morrer, mas é próprio dos seres humanos manterem a esperança e a esperança deles eram os russos.

 

Embora a sopa ainda estivesse quente, só a fome impelia Levin e os companheiros a levá-la à boca. Na verdade até se poderia dizer que não era um caso de fome mas de sede, de tal maneira o caldo viera aguado. Talvez fosse mais correto considerá-la água quente salpicada por vestígios de nabos. Foi por isso com ar desconsolado que encostaram a borda da tigela aos lábios e começaram a sorver.

“Appell!”, bramiu uma voz no exterior. “Schnell! Schnell! Appell!”

Ao ouvir a ordem para a chamada, os prisioneiros deram um salto e vários precipitaram-se para a janela. Viram o Scharführer Busch, Kommandoführer do seu crematório, acompanhado pelo Unterscharführer Gorges e por um pequeno destacamento de SS.

“Appell! Los! Los!”

Os elementos do Sonderkommando trocaram olhares assustados.

“Os tipos sabem tudo! Alguém deve ter bufado e eles sabem que vamos revoltar-nos e...”

“Vieram foi buscar-nos para a transferência!”

Estabeleceu-se no crematório a desorientação geral, pois a presença dos SS era inesperada. Não podia ser coisa boa e se calhar não era de facto coincidência, além de que ameaçava os planos da revolta. Sobretudo, precipitava uma decisão.

“E agora? O que fazemos?”

“Calma, calma!”

“O que fazemos?”

Os olhares ansiosos voltaram-se para os mesmos de sempre, Gradowski e o major Antipov. Esperava-se deles a liderança. Não era contudo fácil ver claro naquela situação confusa, até porque lhes faltavam dados. Acabou por ser o oficial russo a tomar a decisão.

“É melhor atacarmos.”

Ao ouvir isto, os homens começaram de imediato a pegar nas suas armas e a preparar-se para pegar lume às garrafas cheias de gasolina.

“Esperem”, interveio Gradowski. “Primeiro temos de perceber as intenções deles. Pode ser que se trate de um Appell de rotina.”

“A esta hora?”, questionou o major Antipov. “Isto é uma manobra de antecipação. Os tipos tomaram conhecimento dos nossos planos para esta noite e querem matar-nos antes que nos revoltemos. Ou então vieram buscar-nos para a transferência dos trezentos. É melhor atacarmos já.”

“Mas... e se for mesmo um Appell de rotina?”, insistiu Gradowski. “Ao desencadear a revolta mais cedo que o combinado com os outros crematórios não estaremos a pôr em perigo toda a operação por uma coisa que pode não passar de um equívoco? Não seria melhor esperarmos até perceber as intenções deles?”

O argumento não era despiciendo, percebeu o oficial do Exército Vermelho, até porque a improvisação constituía de facto uma péssima maneira de desencadear uma operação militar. Começar nesse instante o levantamento do Sonderkommando era sem dúvida prematuro, não só porque a revolta iria ocorrer muito antes da hora combinada, o que tinha implicações sérias na articulação com os restantes crematórios, mas também porque isso significaria que o essencial das operações decorreria à tarde, em plena luz do dia, o que faria deles alvos fáceis para as miras dos SS. O ideal, não o podia negar, seria aguardar pela noite. Mas seria o ideal possível?

“Pois, mas... qual a alternativa? Imaginem que nos querem mesmo matar. Se formos para o Appell perdemos qualquer margem de manobra.”

“Porque não uma solução intermédia?”, propôs Levin. “Alguns de nós descem, mas não todos. Isso permitir-nos-á ganhar tempo para compreender o que pretendem eles realmente. Se for um simples Appell, vamos todos à chamada e depois voltamos aos nossos aposentos, o que nos permitirá manter o plano original. Se for o que receamos... vamos a eles!”

“Parece-me bem”, acedeu o major Antipov. “Um grupo que desça, para parecer que lhes estamos a obedecer. Mas escondam as armas nas roupas e ataquem se virem que se trata de algo mais do que um simples Appell.”

“Quem dará o sinal?”

A pergunta de Gradowski suscitou um silêncio súbito.

“Dou eu.”

O homem que falou era um judeu polaco habitualmente discreto. Chamava-se Chaim, era um dos que estavam na lista dos trezentos e tinha um martelo na mão. As atenções surpreendidas viraram-se para ele; ninguém dava nada por aquele meia-leca e ali estava Chaim a emergir do anonimato.

“Tu?”

“Sim, eu. Porquê? Duvidam de mim?”

Os chefes dos revoltosos trocaram um olhar. Alguém tinha de dar o sinal e aquele homem parecia-lhes tão bom como qualquer outro.

“Qual será o sinal?”

Chaim ergueu o martelo.

“Isto.”

A voz no exterior voltou a fazer-se ouvir.

“Sonderkommando!”, chamou o SS responsável pelo crematório número três. “Vocês já trabalharam muito arduamente. Por ordens superiores, serão agora enviados num comboio para um campo aqui na Silésia. Nada têm a temer. Irão receber boas roupas, terão muita comida e a vida será mais fácil. Vou chamar-vos um a um pelos números tatuados. Quando ouvirem o vosso número, saiam e alinhem-se no pátio.”

Ou seja, não era um Appell de rotina mas a transferência. Tudo ficou claro. Ciente de que não deveria dar aos alemães um pretexto para entrarem nos dormitórios, pois encontrariam o material de combate ali acumulado, Gradowski fez um gesto com a mão a indicar aos companheiros a porta de saída.

“A dez cinquenta e sete dois.”

O último homem do contingente húngaro do Sonderkommando do crematório número três abandonou o dormitório e juntou-se aos companheiros alinhados no pátio para o Appell; eram de facto os primeiros nomes colocados na lista dos Kapos. Todos os selecionados tinham um ar assustado mas ninguém desobedecera.

“Estão a chamar-nos segundo a ordem da lista”, constatou Shlomo. “Os húngaros já saíram todos.”

Ficaram a observar o que se passava no exterior. A chamada pareceu ter sido suspensa, e foi-o de facto pois, em vez de chamar o número seguinte, uma unidade de SS enquadrou os húngaros e deu-lhes ordem de marcha. O grupo de prisioneiros abandonou em formação o perímetro do crematório escoltado pelos alemães, dirigindo-se aparentemente para o vizinho campo dos homens. Logo que os húngaros desapareceram para lá do perímetro, os SS que permaneceram no pátio retomaram a chamada.

“A dezasseis setenta e seis.”

O número foi reconhecido por Levin; era o seu. Ficou por instantes paralisado. Pelos vistos o seu nome não fora retirado da lista. Ia mesmo ser “transferido”. Respirando fundo para ganhar coragem, o mágico despediu-se dos companheiros com um sinal de cabeça e, movendo-se como um dos robôs profetizados na obra de Karel Čapek, saiu do edifício e plantou-se diante dos alemães.

“A onze vinte e oito dezanove.”

Um a um, os homens do Sonderkommando iam saindo e alinhavam-se no pátio. O essencial da chamada incidia nessa altura sobre o contingente grego. Estes não foram tão prestimosos como os húngaros a obedecer à ordem de se alinharem, mas mesmo assim apareceram. Ao lado de Levin ficaram Shlomo e o seu irmão Abraham.

Uma vez concluído o Appell dos gregos, chegou a vez dos polacos. O Scharführer Busch chamou um primeiro número e todos ficaram em suspenso a ver quem iria aparecer. Ouviu-se um rumor de vozes no interior do crematório, dir-se-ia um protesto, mas o prisioneiro saiu e foi plantar-se na primeira fila, junto aos Kapos. Tratava-se de Chaim.

“A treze zero oitenta e nove.”

Dessa feita ninguém apareceu. Após uma espera de dois minutos, o guarda dos crematórios repetiu a chamada do número.

“A treze zero oitenta e nove.”

Mais uma vez ninguém deu sinal de vida. O Scharführer Busch hesitou, desconcertado. Como nunca nenhum prisioneiro desobedecera a uma ordem sua, presumiu que houvesse um engano. Consultou a lista e olhou para os prisioneiros diante dele. Os elementos do Sonderkommando formavam por filas, como sempre durante o Appell, com a diferença de que não somavam os cento e cinquenta do costume, mas talvez dois terços desse número quando considerados os húngaros. Na realidade o número de judeus no pátio era de tal modo reduzido que não foi preciso fazer a contagem para que o Scharführer Busch percebesse que faltavam ainda muitos homens.

“Onde estão os outros?”

“A vestir-se, Herr Scharführer”, foi a resposta tensa de Chaim. “Como não temos tido trabalho e não sabíamos que ia haver um Appell, ninguém estava preparado.”

“Vocês têm de estar sempre preparados”, cortou Busch com irritação. “Não vos avisei há dias de que ia haver uma transferência e teriam de estar prontos para partir a qualquer momento?”

“Sim, Herr Scharführer.”

Todos os prisioneiros tinham as armas escondidas por baixo da roupa. Levin posicionara-se a meio do grupo, a faca e o pau ocultados dentro da camisa, os bolsos carregados de pedras. Os olhares dos homens do Sonderkommando perscrutaram o exterior do perímetro do crematório. O mágico apercebeu-se de que para lá da vedação, não muito longe dos portões, se encontrava a lona verde da carga dos camiões. Vira aqueles veículos tantas vezes transportar deportados para os crematórios que seria capaz de os reconhecer em qualquer parte. Era portanto nos camiões de morte que os queriam “transferir” para o destino final, o tal campo “de repouso” que os fazia antes pensar no repouso eterno.

Agastado com a demora em ser obedecido, Busch consultou o relógio.

“Mas o que está aquela gente a fazer que não aparece?”, questionou-se. “Quem são os que ficaram lá em cima?”

“São os polacos, Herr Scharführer.”

O oficial SS formou um megafone com as mãos em concha.

“Appell!”, gritou de novo. “Desçam imediatamente ou teremos de vos ir aí buscar à paulada! Los! Los! Não temos o dia todo! Onde está o A treze zero oitenta e nove?”

Do interior do crematório não veio nenhum sinal. Os alemães trocaram olhares inquisitivos. Pairava no ar um clima insurrecional e os judeus alinhados no pátio perceberam que teriam de atuar depressa se ainda queriam apanhar o inimigo de surpresa. Com as mãos perto das armas, todos estavam preparados para passar à ação mas aguardavam o sinal combinado, as atenções fixas em Chaim à espera que atuasse. O que o estaria a demorar?, queriam lá ver que ele se acobardara?, será que teriam de...

Um martelo materializou-se de repente na mão do judeu polaco e este saltou sobre o Scharführer Busch, acertando-lhe com violência na cabeça.

“Urrah!”

A revolta começara.