O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 3 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo II

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Ao chegar ao beliche após o encontro dessa noite com a família na Lagerstrasse, Herbert Levin deparou-se com o seu poiso habitual ocupado por Václav como se fosse rei e senhor do lugar. Estranhou vê-lo ali e esperou que ele saísse e o deixasse deitar-se no pequeno espaço que se tornara o seu canto privado nas camaratas. O antigo elemento da polícia judaica de Theresienstadt nem se mexeu.

“Dá-me licença?”

Só então Václav se dignou registar a sua presença.

“Vá lá para cima”, resmungou, apontando para o nível superior do beliche. “O seu lugar agora é lá.”

“Diz quem?”

“Digo eu, ora essa”, devolveu com insolência. “Quer discutir comigo?”

“Não quero discutir com ninguém. Só que estou nesse lugar desde que cá chegámos e é aí que durmo.”

“Era, mas já não é. Vá lá para cima.”

A situação era inesperada.

“Porque está no meu lugar?”

“Agora é meu”, foi a resposta seca. “Vá para cima, não volto a dizer.”

Parecia evidente que Václav não iria explicar o seu comportamento. O ilusionista olhou em redor e constatou que o caso não era único. Muitos lugares tinham mudado e quem passara a ocupar os beliches mais baixos eram os prisioneiros mais encorpados. Não era difícil entender o que se passava. Quando de manhã o Blockälteste percorria as camaratas a despertar os prisioneiros sob o olhar do Blockführer, batia nos que se atrasavam. E quem se atrasava mais? Os de baixo saltavam logo para o corredor, mas os do meio e sobretudo os de cima tinham de descer e essa demora sujeitava-os a apanharem. Era evidentemente por isso que muitos dos prisioneiros mais fortes haviam decidido ocupar os estrados de baixo.

Não se podia dizer que fosse uma surpresa. Levin já havia reparado que a situação difícil em que se encontravam transformava muitas pessoas. Nuns casos, como acontecia com Alfred Hirsch, revelavam o que tinham de melhor; tornavam-se solidárias, cooperantes, empenhadas. Noutros, como sucedia com Václav, emergia o lado pior; revelavam-se egoístas, centradas em si próprias, agressivas e hostis. Já vira isso acontecer nos Arbeitskommandos e naquele barracão, onde alguns ofereciam uma pequena parte dos seus alimentos aos que estavam em dificuldades e outros os roubavam sem qualquer hesitação. Chegara mesmo a ver um filho tirar a comida ao pai. A expulsão para o estrado de cima era apenas uma nova versão desse fenómeno.

Resignando-se, subiu ao terceiro patamar do beliche e ocupou o antigo lugar de Václav, mesmo na borda. Era possível que daí em diante experimentasse mais vezes o sabor da cana do Blockälteste. Para compensar, consolou-se, seria agora Václav a levar com a diarreia vinda dos estrados superiores. Azar. Nada era perfeito neste mundo.