O Manuscrito de Birkenau
Capítulo IV
.
Quando os desconhecidos entraram no perímetro do crematório número três com as fardas do Exército Vermelho, Levin estava a analisar a panela de sopa e os vestidos que Róza Robota lhe fizera chegar através de Tanusha. O mágico perscrutou o rosto dos recém-chegados, tentando perceber se sabiam que iam morrer. O estranho é que, ao que tivesse conhecimento, não haviam chegado ordens específicas para ligarem os fornos. Além do mais, os dezanove prisioneiros russos eram acompanhados por um Kapo alemão, o que não era normal numa Aktion.
“O Malakh HaMaves disse-me que estes russos não vieram para ser mortos”, indicou Kaminsky. “Vão ficar convosco no número três.”
“Estes tipos vieram para o Sonderkommando?”
“Parece que sim.”
“Mas para quê, se já temos aqui tanta gente e os transportes diminuíram? Para que querem os alemães aumentar o Sonderkommando?”
“O Malakh HaMaves não me explicou.”
A chegada dos russos e do seu Kapo deixou toda a gente preocupada, pois o crescimento do Sonderkommando numa altura em que havia menos judeus para gasear era perigoso. Simples aritmética. Para meter mais homens num lado, os alemães teriam de cortar noutro. Onde cortariam, estava-se mesmo a ver, seria nos judeus.
Enquanto andava às voltas com a panela de sopa e os vestidos de Róza, Levin viu os recém-chegados instalarem-se nos dormitórios do crematório. Depressa se tornou claro que formavam um grupo à parte. Os russos agarraram nas garrafas de vodka e nos maços que com abundância se encontravam no setor do Sonderkommando e puseram-se a beber e a fumar sem limites. Não se empenharam em nenhuma tarefa adstrita ao Sonderkommando nem os SS lhes deram qualquer ordem nesse sentido. Isso significava que, se formalmente estavam no Sonderkommando, na prática não passavam de prisioneiros de guerra cujo estatuto era regulado pela Convenção de Genebra.
Acompanhado por Gradowski, Levin abeirou-se do homem que entrara no perímetro do crematório com um lenço sobre a cara a empurrar um carrinho de mão. O recém-chegado, um judeu sefardita holandês chamado Pais, estranhou ver os dois camaradas dirigirem-se a ele; normalmente os efetivos do Sonderkommando afastavam-se do Scheißkommando.
“Deixa-nos ver isso.”
O holandês do Scheißkommando imobilizou-se. Com Gradowski ao lado, Levin inspecionou o carrinho de mão. Apesar do fedor característico, o veículo apenas trazia uma pequena camada de excrementos.
“Vem sempre com pouca merda?”
“Em geral. Não se esqueça de que venho retirá-la do crematório, não trazê-la para cá.”
Não era o que o mágico queria ouvir.
“Mas acontece trazeres um pouco mais do que isto?”
“Às vezes entregam-me o carrinho mal lavado e há mais merda no interior, sim. Mas é raro.”
“Quando isso acontece, a sentinela inspeciona-o?”
“É evidente. Vê o carrinho.”
“Pois, mas espreita o interior do carrinho ou mexe na merda para se assegurar de que não trazes nada cá dentro?”
A pergunta arrancou um sorriso do prisioneiro do Scheißkommando.
“A sentinela? Mexer na merda? Claro que não.”
“Nunca?”
“Nunca.”
Era o que Levin queria ouvir.
Os prisioneiros russos mostravam uma grande animosidade contra os polacos, ao ponto de se recusarem a falar com os judeus polacos dos crematórios, incluindo Gradowski. Com os restantes, porém, não havia problemas. Depois de Levin fazer com o seu baralho de cartas uns truques simples que os divertiram, um dos russos, com galões de major, chamou-o.
“Tovaritch, idi syuda!”
O mágico hesitou, na dúvida sobre se teria sido insultado; os russos eram conhecidos pela liberalidade com os palavrões. Mas a expressão nos rostos era amigável e o movimento dos dedos universal. O major queria apenas que ele se aproximasse.
“Vodka”, disse-lhe o russo, estendendo uma garrafa. “Napitok.”
“Não percebo.”
“Getränk Schnapps”, insistiu. “Bebe a aguardente.”
Afinal o major sempre falava alemão. Por cortesia, até porque seria indelicado rejeitar o gesto amigável, o mágico provou um trago. Um ardor leve aqueceu-lhe a garganta.
“Hmm... não é mau.”
“Mais.”
Não tinha grande desejo de lhe fazer a vontade, mas percebeu que se tratava de uma espécie de rito de iniciação; para ser aceite pelos russos precisava de lhes mostrar que era capaz de beber vodka. Voltou a meter a garrafa à boca e, enchendo-se de coragem, engoliu dois goles de uma assentada. Um braseiro violento incendiou-lhe a garganta e marejou-lhe os olhos.
“Aaaah!”
“Toma pão, tovaritch”, recomendou o major, estendendo-lhe uma fatia. “Respira nele.”
Aflito com o incêndio que lhe devorava as vias respiratórias, Levin obedeceu e respirou para o pão. Para sua surpresa, o ardor acalmou. Bufou de alívio, secando as lágrimas com as costas das mãos.
“Ufa! Isto é... é forte.”
Os russos riram-se e o mágico riu-se com eles; era como se a partir desse momento fossem todos membros da mesma fraternidade, a dos bebedores de vodka. Levin não passara a fazer parte do grupo, não era russo nem soldado, mas fora aceite e os rostos distantes e carrancudos abriram-se. Podiam não ter cara de amigos, mas quando as barreiras caíam os sorrisos apareciam e os russos tornavam-se calorosos.
“Chamo-me Antipov e sou de Irkutsk”, revelou o major. “Saltámos de paraquedas por detrás das linhas alemãs, mas as coisas não correram bem e fomos feitos prisioneiros.”
“Desculpe a pergunta”, atreveu-se Levin. “Como se explica que o Exército Vermelho tenha entrado na Polónia em janeiro e ainda não tenha chegado cá?”
“Em janeiro apenas ocupámos algumas posições. Mas agora que expulsámos os alemães da Bielorrússia e lhes destruímos o Grupo do Centro começou o grande avanço sobre a Polónia.”
“Pois sim, mas isso está a ser lento e...”
“Blyad! As nossas forças acabaram de entrar em Lublin, o que querem mais?”
“O Exército Vermelho está em Lublin?”, admirou-se Levin. “Como sabem vocês isso?”
“Saímos agora de lá.”
“Saíram de Lublin?”
“Sim. Estávamos presos num campo chamado Majdanek, perto de Lublin. Um sítio terrível, mais ou menos como este. Fazia-se lá o que vocês fazem aqui. Com a aproximação das nossas forças, os alemães fugiram à pressa e mandaram-nos para aqui.”
Aquela informação era inesperada. E se...?
“Há umas semanas alguns dos nossos companheiros foram transferidos para Lublin”, apressou-se o mágico a dizer. “Estamos preocupados com eles. Por acaso sabe onde se encontram?”
“Duzentos judeus corpulentos?”
“Sim. Viu-os?”
O major Antipov fez um gesto de impotência.
“Lamento, tovaritch, mas é melhor rezarem um dos vossos Cadish.”
A notícia da chacina dos duzentos homens do Sonderkommando transferidos para Lublin correu célere pelos crematórios de Birkenau. Já não havia dúvidas, os alemães tinham começado a eliminar a unidade dos crematórios recorrendo aos seus habituais subterfúgios. Como podiam ter sido tão tolos? Haviam acreditado porque tinham querido acreditar. Mas não mais. A novidade dada pelos prisioneiros russos desfizera-lhes as últimas ilusões. Os transportes haviam diminuído e os SS começavam a liquidar o Sonderkommando. Ninguém tinha já dúvidas de que em breve haveria mais “transferências” daquelas.
“O que vamos fazer quando anunciarem uma nova transferência?”
A pergunta foi formulada por Gradowski numa reunião de emergência da cúpula do Sonderkommando, envolvendo também os oficiais russos, e exprimia o dilema diante de todos.
“Temos de desencadear a revolta”, respondeu o Oberkapo Kaminsky. “Caso contrário, seremos liquidados.”
“Os polacos e os alemães estão de acordo?”
Tratava-se de uma referência aos prisioneiros de triângulo vermelho, os políticos que enchiam Auschwitz I e constituíam a essência da resistência subterrânea no campo. Os alemães eram sobretudo comunistas e socialistas deportados para o KL, enquanto os polacos eram resistentes nacionalistas.
“Estão relutantes, como sabem. Andamos há um ano a tentar convencê-los e os tipos arrastam os pés. Dizem que não é oportuno e mais não sei quê.”
O major Antipov interveio; a área operacional era a sua especialidade.
“A revolta tem de ser conjunta e coordenada. Existem em Auschwitz uns oitenta mil prisioneiros, dos quais vinte e cinco mil aptos a combater. É muita gente, sobretudo se considerarmos que só cá estão três mil SS. Os alemães não serão capazes de lidar com uma rebelião que envolva todos os prisioneiros. Mesmo que matem quarenta mil, sobrarão outros quarenta mil. É por isso que não pode ser só o Sonderkommando a revoltar-se.”
“Sem dúvida”, concordou Kaminsky. “Temos de acabar com os constantes adiamentos, sob pena de os alemães darem cabo de todos. Não podemos esperar mais. Vou falar com os gajos do Kampfgruppe Auschwitz e dizer-lhes que temos de desencadear a revolta o mais cedo possível.” Hesitou e olhou para o oficial russo. “Precisamos de um plano.”
Percebendo que faltavam conhecimentos militares aos elementos do Sonderkommando, o major esboçou uma expressão condescendente.
“Eu trato disso”, concedeu. “De qualquer modo, as linhas gerais são simples. É preciso um levantamento simultâneo em toda a parte. Nós podemos dar o sinal, fazendo rebentar os crematórios, por exemplo, mas é muito importante que toda a gente se erga. Campo dos homens, campo das mulheres, Auschwitz I... toda a gente. Um levantamento geral. Se tivermos ajuda do exterior, melhor.”
“Podemos contar com o Exército Vermelho?”
O Oberkapo disse-o quase como se quisesse meter uma cunha.
“Sabe bem que não.”
“Os únicos no exterior que nos podem dar uma ajuda são os partisans polacos”, indicou Kaminsky. “Em volta do Katzet encontra-se a unidade Sosienka, que recebe auxílio e reforços dos ingleses, e junto às montanhas de Beskid Zywiecki está a unidade Garbnik. Um dos partisans, o Urban, treinou em Inglaterra e chegou cá de paraquedas. É ele que estabelece a ligação entre os partisans e o Kampfgruppe Auschwitz.”
“Os partisans ajudam-nos?”
“Desde que lhes paguemos.”
Os homens entreolharam-se.
“Creio que ainda temos valores que organizámos dos transportes”, disse Gradowski. “Não sei é se será suficiente.”
Um Kapo até ali silencioso, o Kapo Lemke, do crematório número dois, interveio.
“Isso não é problema”, indicou. “Se for preciso mais dinheiro, as miúdas do Kanadakommando podem organizar-nos uma joias. O principal é convencermos o Kampfgruppe Auschwitz. Eles têm muitos contactos e recursos. Se a rede de resistência alinhar, o resto virá por acréscimo.”
“Suponhamos que a resistência alinha connosco”, sugeriu o major Antipov. “Quando a hora chegar, o Sonderkommando combaterá com quê?”
O olhar do Oberkapo Kaminsky desviou-se para Levin endereçando-lhe a responsabilidade da resposta.
“Tenho tudo a postos”, indicou o mágico. “Falta-me apenas a ordem para avançar.”
Os diversos Kapos e chefes da revolta do Sonderkommando olharam uns para os outros, como se se consultassem para saber se haveria alguma objeção, mas todos sabiam que estavam encostados à parede e que, apesar dos enormes riscos, já não havia margem para mais hesitações.
“Avance.”
Como todos os dias, o Kommando da sopa saiu da zona dos crematórios sob escolta de um SS e chegou às cozinhas muito cedo; era na verdade a primeira unidade a entrar ali para se abastecer para o almoço, justamente de modo a evitar contactos com o Kommando da sopa dos restantes campos. Para transportar a sopa só eram necessários dois homens, mas o Oberkapo Kaminsky convencera o Kommandoführer de que o melhor seria irem quatro, uma vez que a panela era pesada e os prisioneiros estavam debilitados pela diminuição da comida dos transportes. Dois prisioneiros das cozinhas apareceram com uma grande panela de sopa e pousaram-na diante dos quatro recém-chegados.
“E o pão?”
Os prisioneiros da cozinha foram buscar um grande cesto de vime carregado de pão e entregaram-no ao Sonderkommando. Levin pegou no cesto enquanto os companheiros se prepararam para levantar a panela.
“Um momento.”
O SS que os escoltava, inquieto por ter vindo com quatro judeus, pegou numa grande colher de pau e meteu-a na sopa. Remexeu o líquido durante alguns segundos em busca de qualquer anomalia, mas não encontrou nada. Satisfeito, retirou a colher.
“Vamos.”
O Kommando da sopa fez o caminho de regresso, três homens a segurarem a panela de sopa e um com o cesto do pão, e a escolta só os largou depois de cruzarem o portão e entrarem no perímetro do crematório número três.
A sopa foi distribuída por todos nos aposentos do crematório. Quando a panela ficou vazia, Levin inclinou-se sobre o interior e, revirando as patilhas no fundo, soltou a base da panela e revelou assim uma cavidade oculta. Pegou nos sacos guardados nessa cavidade e retirou-os, exibindo-os à plateia como se tivesse acabado de executar um passe de magia.
“Surakabaia, surakabaia!”
Os companheiros aplaudiram. Depois de fazer uma vénia de agradecimento, o mágico estendeu o saco ao major Antipov. O oficial russo abriu-o, retirou o pó negro do interior e cheirou-o.
“Pólvora da boa”, constatou. Voltou-se para um subalterno. “Oleg, vai buscar as latas.”
O subordinado acocorou-se e retirou uma caixa de baixo da cama. Levou-a para junto dos restantes prisioneiros e entregou uma pequena lata ao major. Na lata vinha um papel em carateres gregos e o desenho de uma sardinha; era uma lata de conserva já devidamente esvaziada e limpa. Antipov inspecionou o interior e deitou-lhe um bocado de pólvora.
“O mecanismo?”
Como em resposta, Levin abriu os pães que trouxera da cozinha e retirou do interior várias peças pequenas. O oficial pegou nelas e, com grande habilidade, montou um mecanismo.
“Os estilhaços?”
Oleg entregou-lhe com deferência uns pedaços de metal aguçados; eram espinhas de arame farpado que os prisioneiros russos haviam cortado às escondidas das vedações. Depois de os introduzir na lata de conserva, o major Antipov selou-a. Quando terminou, e perante o olhar expectante de toda a gente, entregou-a a Gradowski com um sorriso vitorioso.
“A nossa primeira granada.”
Um “urrah!” ergueu-se do crematório.
Apesar de os transportes terem diminuído com o fim da deportação dos judeus húngaros, os comboios ainda iam dando entrada na Judenrampe. Além disso, as Selektionen regulares em Birkenau arrebanhavam Muselmänner que já não estavam em condições de trabalhar e eram enviados para os crematórios. Havia ainda casos de nacionalistas polacos ou pessoas que por uma razão ou outra as autoridades entendiam eliminar. Como sempre, a liquidação era feita nas câmaras de gás quando o número de vítimas envolvidas era elevado ou a tiro sempre que se tratava de algumas pessoas.
Esse dia estava a ser calmo. As conversas centravam-se na notícia sensacional da chegada do Exército Vermelho aos arredores de Varsóvia e nos apelos da rádio russa à revolta da população da capital polaca. Tudo era discutido pelos homens do Sonderkommando com grande excitação quando apareceu no crematório uma rapariga com um bebé de dois dias. O guarda de serviço era um holandês. Os SS holandeses gozavam de boa reputação entre os prisioneiros; tratavam os judeus com decência e havia mesmo um que se recusava a matar.
O holandês que nesse dia ali se encontrava, fiel a essa reputação, deixou a judia confraternizar com os homens do Sonderkommando. Sentaram-se junto aos fornos e Levin foi buscar comida e leite. Enquanto ia contando a sua vida, a rapariga devorou um pão com salsichas e bolos ao mesmo tempo que alimentava a criança com o leite. Tratava-se de uma cantora de Budapeste que à chegada a Birkenau escapara dos crematórios e fora enviada para o campo das mulheres, destinada a trabalho escravo. Conseguira sobreviver durante vários meses sem que os SS se apercebessem da sua gravidez. Tivera o parto às escondidas, mas o choro da recém-nascida traíra-a e ambas foram enviadas para o crematório; daí que tivesse aparecido ali sozinha. Ficaram à conversa durante algum tempo. O SS holandês participou e até distribuiu cigarros. Todos se entristeceram com a narração de episódios dramáticos e se riram com os cómicos. Ao cabo de meia hora, o guarda olhou para o relógio.
“Bom, não podemos continuar eternamente sentados à conversa”, disse, pegando na espingarda que deixara encostada à parede. “Chegou a hora da roda da morte.” Encarou-a. “Como prefere? Começo por si ou pela criança?”
A jovem húngara suspirou e abraçou o bebé, cobriu-o de beijos e, resignada, pôs-se também de pé.
“Por mim”, murmurou numa voz triste. “Não seria capaz de ver a minha menina morrer.”
Os homens do Sonderkommando afastaram-se e Levin virou as costas, recusando-se a observar a cena. O primeiro tiro foi um estampido brutal que o sobressaltou. Escutou o som surdo de algo a cair, como se um saco de batatas tivesse tombado no chão, e o choro assustado do bebé irrompeu no crematório para ser silenciado pelo segundo disparo.
Nesse dia não houve mais nada para fazer no crematório número três, até porque o único transporte que chegara à Judenrampe fora encaminhado para o número um. Enquanto os companheiros deambulavam pelo perímetro, ociosos e taciturnos, Levin sentou-se à entrada do crematório à conversa com Gradowski. Os primeiros temas foram as notícias da chegada dos russos aos arredores de Varsóvia e um incidente na véspera com um companheiro do Sonderkommando. Uma rapariga enviada para a morte implorara-lhe por sexo, dizendo que não queria morrer sem conhecer o amor, mas ele recusara. O assunto gerara uma discussão à noite no dormitório; uns criticaram-no, considerando desumano rejeitar o último desejo de uma condenada, outros apoiaram-no, argumentando que fizera bem em salvaguardar a dignidade da vítima. Depressa, porém, passaram ao que verdadeiramente os preocupava. O armamento do Sonderkommando.
“Como os fornos do nosso Krema estão inoperacionais, pareceu-me mais seguro começar por aqui porque há menos SS nas redondezas”, explicou o mágico. “Quando estivermos abastecidos de armas e munições, será a vez do quatro, depois do um e finalmente do dois.”
“Quanto tempo levará isso?”
“Alguns dias.”
Gradowski ficou momentaneamente calado.
“O esquema do fundo falso na panela de sopa é um achado”, acabou por dizer. “Como diabo se lembrou dessa?”
“Simples truque de ilusionista.”
“E como é que a pólvora chegou à panela da sopa? Foi a Róza?”
“Sim. Preparei uns vestidos femininos com uns esconderijos subtis nos colarinhos, nas mangas e na borda das saias e entreguei-lhos, juntamente com a panela da sopa já devidamente tratada. A Róza fez chegar esses vestidos às raparigas da Union-Werke. Elas meteram a pólvora nos esconderijos dos vestidos e quando saíram da fábrica os SS que as revistaram não deram com nada. A seguir foi simples. Entregaram os vestidos à Róza, ela retirou a pólvora e meteu-a no fundo falso da panela. A seguir deu a panela a um contacto no Kommando da cozinha, que só teve de a encher de sopa.”
“Isso é brilhante!”, considerou o judeu polaco, fascinado com o engenho do mágico. “Absolutamente brilhante! Imagino o...”
O interlocutor interrompeu-o com um salto brusco, a atenção voltada para o portão de entrada. O prisioneiro do Scheißkommando acabava de entrar no perímetro do crematório número três. Sem perder tempo, os dois homens dirigiram-se apressadamente às latrinas, onde o aguardaram. Mandaram-no parar e acercaram-se do carrinho, fixando a atenção nos excrementos.
“Está cá dentro?”
“Sim.”
Levin e Gradowski trocaram um olhar embaraçado, como se perguntassem um ao outro a quem cabia a responsabilidade de extrair o pacote. Como o Schreiber era o veterano, o mágico teve de se resignar. Alçou a manga do braço direito e, sustendo a respiração, mergulhou a mão na massa amarelo-acastanhada das fezes. Enojado e agoniado, retirou o embrulho. Pousou-o no chão e destapou o conteúdo.
Uma pistola.