O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 42 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo XVII

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A noite já envolvia Birkenau quando Levin abandonou o esconderijo. Com movimentos lentos e cuidadosos, esgueirou-se do forno e estacou para se certificar de que estava sozinho no crematório. Ainda havia fumo a erguer-se do edifício, mas era simplesmente o rescaldo do incêndio. Parte do telhado tinha desabado sobre a câmara da cremação e as estrelas cintilavam no céu negro. Fazia frio, pois outubro começara e à noite as temperaturas desciam mais. As primeiras neves não tardariam. Com mil cautelas, pegou numa barra de ferro que encontrou entre os escombros e avançou cosido à parede, parando de metro a metro para se assegurar de que ninguém se apercebera da sua presença.

Chegou a um buraco na parede e espreitou para fora. Viu a vedação e para lá dela o recorte dos barracões do Kanada, fracamente iluminados por candeeiros de luz amarelada. Milhares de pequenos pontos luminosos em linhas retas cruzavam-se por Birkenau, assinalando as múltiplas vedações, e vários focos de luz passeavam-se pelo campo a partir das torres de observação. Não viu ninguém dentro do perímetro do crematório e isso tranquilizou-o. Saiu do edifício em ruínas pelas zonas de sombra. O céu limpo era dominado pela Lua, que lhe iluminava o caminho mas também o expunha. Tinha de ter cuidado. Avançou devagar para o portão, mas vislumbrou vultos e agachou-se. A via de fuga estava cortada.

Ouviu os SS falar. Àquela distância não compreendia o que diziam. Aproximou-se mais um bocado e as vozes ganharam definição.

“... escapou ninguém aqui”, dizia alguém. “Uns ainda fugiram para o Krema número quatro, mas apanhámo-los. Já viu os corpos?”

“Vi, vi. Nada.”

“Às tantas o tipo estava no Krema número um. Houve aí um grupo que escapou e só foi apanhado horas depois num barracão em Rajsko. Ouvi dizer que foram todos mortos. É possível que esteja entre eles.”

“Não, eu sei que ele estava aqui no três.”

“Verificou os corpos que retirámos?”

“Um a um.”

Ouviu um fósforo a ser aceso.

“Se calhar foi esmagado pelo telhado e está no meio dos destroços...”

“É o que eu estava a pensar. Posso inspecionar o Krema?”

“Outra vez?”

“Tenho de me certificar porque senão o meu chefe dá cabo de mim. Sabe como é, ordens são ordens.”

A sentinela respirou fundo.

“Está bem.”

O vulto encaminhou-se para o portão e Levin ficou imóvel. Em circunstâncias normais teria corrido de regresso ao que restava do crematório e voltaria para dentro do forno. O que o travou foi a voz do SS, e sobretudo o sotaque. Permaneceu quieto na sombra, a ver o soldado cruzar o portão. A luz prateada da Lua iluminou o rosto do homem e o mágico confirmou o que já tinha deduzido. Era Francisco.

“Pst!”

O português apontou a MP 40 na direção do barulho.

“Quem está aí?”

“Sou... sou eu”, soprou o judeu com a voz fraca. “Levin.”

A voz da sentinela veio do portão.

“Passa-se alguma coisa?”

“Tudo tranquilo”, disse Francisco, refeito da surpresa. “Estou a ensaiar a conversa com o meu chefe quando lhe anunciar que já não vai haver espetáculo de magia.”

O alemão riu-se.

“Ach so.”

Quando a sentinela se afastou, o português fez sinal a Levin e foram ambos para os escombros do crematório.

“Estou contente por vê-lo”, murmurou Francisco quando entraram no edifício em ruínas. “Já me tinha convencido de que você morrera.”

“Nem eu sei como escapei. Tem notícias dos outros?”

“Os alemães mataram uns quatrocentos homens do Sonderkommando. Duzentos em combate e outros duzentos fuzilados. Apenas estão vivos os do Krema número dois e um punhado dos restantes.”

“Meu Deus.”

“Vocês fizeram isto tudo mal feito”, repreendeu-o Francisco. “A ação devia ser à noite e com método. À luz do dia e desta forma desorganizada é que não podia ser.”

“Eu sei, mas eles vieram buscar-nos para nos matar, os acontecimentos precipitaram-se e... enfim, deu nesta catástrofe. Ao menos provocámos algum dano nos SS?”

“Andam para aí a dizer que só morreram três SS”, foi a resposta. “Mas vi muitos camaradas pelo chão e já me contaram que o verdadeiro número de mortos na nossa força é de setenta, incluindo um Obersturmführer e dezassete Oberscharführer. Isto para não falar nos feridos. Os alemães nunca imaginaram que vocês fossem capazes de uma coisa destas. Até os outros judeus no campo andam de cabeça mais levantada.”

O português entregou-lhe o seu cantil. O mágico engoliu sofregamente a água enquanto o SS vigiava o portão. Não podia permanecer ali muito tempo sob pena de atrair a atenção da sentinela.

“Tem de sair daqui.” Olhou em redor. “Sabe de algum sítio onde se possa esconder?”

Depois de esvaziar o cantil, Levin apontou para os fornos.

“Ali dentro.”

“Boa ideia!”, aprovou Francisco. “Já sei como vamos fazer. Um dos Kapos aqui do três, um tipo chamado... uh... Lizer ou...”

“Eliezer?”

“Esse mesmo. O gajo conseguiu fugir para o Krema número dois. Dá-se bem com ele?”

“É um bom homem.”

“Ótimo. Soube há pouco que ele foi destacado para a unidade do Sonderkommando que virá aqui amanhã de manhã limpar os escombros. Ponha-se à coca e quando o vir junte-se a ele. No meio da confusão e entre tantos homens do Sonderkommando, ninguém dará por nada. Entendeu?”

“Sim.”

Tirou do bolso uma barra de chocolate que comprara na cantina dos SS para Tanusha e ofereceu-a ao judeu.

“Tome isto”, disse. “Amanhã vou ter consigo ao Krema número dois e digo ao Kommandoführer que durante a confusão você esteve todo o tempo na carpintaria a preparar o espetáculo. Isso chegará para que o deixem em paz.”

Sem mais uma palavra, Francisco abandonou as ruínas e encaminhou-se em passo lesto para o portão. Levin ficou a vê-lo afastar-se. Quando o SS desapareceu, o mágico abriu uma das portinholas e meteu-se lá dentro. Seria uma noite desconfortável, mas ao menos estava vivo.