O Manuscrito de Birkenau
Capítulo XIX
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Plantado de pernas abertas à entrada do perímetro do crematório número um, o Oberscharführer Müshfeldt fez sinal aos homens do Sonderkommando que deambulavam entre os carris da Judenrampe.
“Alle eintreten!”, gritou o SS. “Todos para dentro!”
Ao ouvir a ordem do Kommandoführer, Levin trocou um olhar alarmado com os companheiros. As chamadas eram normais em Birkenau e decorriam todas as manhãs e noites para o Appell. Aquela estava a ser feita a meio do dia. Péssimo sinal.
“Eintreten!”, insistiu o Oberscharführer Müshfeldt, impacientando-se. “Schnell! Schnell! Alle eintreten!”
Nervosos mas impotentes, os homens do Sonderkommando encheram o pátio onde um grupo de SS bem armados os aguardava. O mais extraordinário era que nenhum dos elementos do Sonderkommando parecia surpreendido; todos sabiam que a hora chegaria e aí estava ela finalmente. O fim da linha.
“Levem-nos”, ordenou Müshfeldt aos seus homens. “Los! Los!”
Os SS fortemente armados escoltaram os judeus para o crematório número dois e encaminharam-nos para a sala dos fornos. Os homens do Sonderkommando entraram, os SS não. Em vez disso, trancaram-nos. Ninguém tinha ilusões quanto ao seu destino. Levin espreitou pela janela, bloqueada por barras de ferro, e viu sentinelas a rodear o edifício, as armas preparadas e os dedos nos gatilhos. O que tinha de acontecer aconteceria em breve.
“Como achas que será?”, perguntou em tom fatalista um dos companheiros, um homem chamado Lewenthal. “Irão gasear-nos?”
“Aqui, na sala dos fornos?”, devolveu o mágico com um semblante cético. “Não há entradas para os cristais do gás.”
“Então vão metralhar-nos...”
“Mas eles estão todos lá fora e as paredes protegem-nos”, argumentou Levin. Abanou a cabeça. “O mais provável é que bombardeiem o edifício. Destroem o crematório e matam-nos a todos.”
“Ou então atiram uma bomba de fósforo pela janela”, alvitrou outro homem, um médico chamado Miklós. “Não se lembram dos deportados do ghetto de Milo? Foi assim que acabaram com eles, coitados. Bem capazes de...”
O som da fechadura a destrancar-se calou-os a todos. A porta abriu-se e mais elementos do Sonderkommando entraram na sala dos fornos; eram agora os homens do crematório número quatro. O espaço tornou-se apertado e os judeus sentaram-se onde encontravam lugar, a maior parte no chão de cimento, outros encostados às paredes ou aos fornos. Todo o Sonderkommando estava ali; não faltava ninguém.
“Irmãos judeus.”
A voz sobrepôs-se ao burburinho nervoso. Tratava-se de Leib Langfus, o dayan, o juiz religioso do crematório número um que confortara Levin após o gaseamento do campo das famílias.
“Foi a inescrutável vontade de Deus que enviou o nosso povo para a morte”, disse Leib num tom grave. “O destino entregou-nos a mais cruel das tarefas, a de participar na nossa própria destruição e a de testemunhar o nosso desaparecimento até às cinzas a que nos vão reduzir. Nunca os céus se abriram para apagar as chamas das piras funerárias. Foi esta a vontade de Deus e nós, filhos de Israel, temos de aceitar com resignação que as coisas estão destinadas a ser assim, assim e não de outro modo. O Todo-Poderoso o decidiu. Porquê? Não nos cabe a nós, simples seres humanos, responder. Este destino é o que foi escolhido para nós e temos de o aceitar.”
Um murmúrio de comiseração elevou-se entre os presentes.
“Irmãos judeus, não receeis a morte”, prosseguiu o dayan, o tom aparentemente sereno mas os olhos incendiados pelo fogo da paixão. “De que serviria a nossa vida mesmo que, por um estranho milagre, conseguíssemos sobreviver? Regressaríamos às nossas terras para encontrar as casas vazias e pilhadas. Todos os cantos estariam assombrados pela memória dos que desapareceram, enchendo de mais dor os nossos olhos que tanta dor já viram. Sem as nossas famílias, deambularíamos pelo mundo como almas penadas, sombras do que outrora fomos, espíritos perdidos a viver de lembranças dolorosas. Não encontraríamos paz em parte alguma. Passemos pois por esta última provação com a coragem dos judeus que somos. Enfrentemos a morte com a dignidade que nunca conseguiram tirar-nos.”
Um silêncio profundo impôs-se na sala dos fornos quando Leib acabou de falar. Aqueles homens já tinham visto tudo e não alimentavam a menor ilusão sobre o que os esperava. A maior parte deixara de acreditar na religião, considerava até insultuosa a referência a Deus perante tudo o que haviam visto e feito. No entanto, as palavras do dayan tocaram-nos profundamente. Acreditassem no que acreditassem, haviam nascido judeus, vivido como judeus e morreriam judeus. Não era uma escolha, mas um destino.
Ouviram a porta destrancar-se mais uma vez e voltaram-se, expectantes. A porta abriu-se e o Unterscharführer Steinberg, Kommandoführer do crematório número dois, entrou com uma resma de folhas nas mãos e acompanhado por dois SS armados de MP 40.
“Ärzte heraus!”, ordenou o oficial. “Médicos para fora!”
O doutor Miklós e três outros homens, todos médicos do crematório número um que habitualmente trabalhavam com o doutor Mengele, abandonaram a sala. A seguir, e lendo de uma das folhas que segurava, o Unterscharführer Steinberg chamou algumas dezenas de números. Os homens foram-se apresentando um a um até a chamada terminar.
“Vocês vão para o Sprengkommando”, comunicou-lhes o oficial. Enfrentou os restantes. “Os que não foram chamados serão transferidos para Gross Rosen.”
Todos sabiam que o Sprengkommando era a unidade encarregada de demolir os crematórios e fazer desaparecer os vestígios da máquina de extermínio e Gross Rosen um campo de concentração perto de Auschwitz. Claro que ninguém acreditou nesta última parte; não passava do velho estratagema de prometer uma “transferência” para os enganar.
Uma vez a chamada terminada, o Unterscharführer Steinberg virou-se para sair, mas já à porta parou e, como se lhe tivesse ocorrido algo, consultou os seus papéis de novo.
“O A mil seiscentos e setenta e seis?”, perguntou. “Onde está o A mil seiscentos e setenta e seis?”
Aliviado, Levin deu um passo em frente.
“Presente.”
O Kommandoführer indicou o exterior com a cabeça. Ainda a tremer, o mágico esgueirou-se da sala dos fornos. Não sabia o que lhe iria suceder, mas sabia que para os companheiros que deixava para trás apenas haveria morte.
Os alemães escoltaram os judeus selecionados para fora do perímetro do crematório; eram ao todo quase uma centena. Uma vez no exterior, os do Sprengkommando foram encaminhados para o campo dos homens enquanto os cinco restantes ficaram com o Unterscharführer Steinberg. O oficial SS acompanhou-os até às linhas do comboio, mesmo ao lado da Judenrampe. Uma vez aí, entregou ao doutor Miklós a resma de folhas que trazia nas mãos.
“Risque o seu número e os dos seus companheiros.”
Os cinco judeus espreitaram a lista. Continha uma série de números que todos perceberam serem os tatuados nos braços dos prisioneiros do Sonderkommando. O doutor Miklós procurou o seu e riscou-o. A seguir identificou os números de cada um dos companheiros que trabalhavam com o doutor Mengele e por fim, obedecendo a uma indicação de Levin, que também localizara o seu número, riscou-o igualmente.
“Dirijam-se aos vossos aposentos”, ordenou o Unterscharführer Steinberg. “Ai de quem saia de lá.”
Escoltados por dois SS, os cinco judeus obedeceram. Ao atravessar a linha férrea, Levin lançou um olhar à Judenrampe e lobrigou, imobilizados na plataforma com os braços atrás das costas a observá-los, os dois homens a quem ele e o seu pequeno grupo deviam a vida. O doutor Mengele, protetor dos quatro médicos, e Francisco, o anjo guardião do mágico de Auschwitz.