O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 19 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo IV

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No momento em que se deparou com Tanusha deitada no beliche, ali designado koya, Francisco constatou que ela regressava gradualmente ao que fora. As suas visitas periódicas ao campo das mulheres, levando-lhe o conforto da sua presença e sobretudo alimentos, medicamentos e roupa, pareciam ter consumado uma espécie de milagre da ressurreição. A russa deixara de ser um esqueleto ambulante, o rosto recuperara cores e o corpo formas. O cabelo loiro já reluzia, apesar de ainda muito curto, e as feições tinham readquirido as linhas, talvez não ainda com o esplendor de outrora, mas já o suficiente para se fazer notada entre os homens e invejada pelas mulheres.

Quando viu o namorado, Tanusha teve de reprimir a vontade de correr para ele e abraçá-lo. Era madrugada e o primeiro Appell do dia seria em breve. As visitas de Francisco haviam-se tornado regulares, embora ele só aparecesse uma vez por semana, pois dependia do passe que lhe dava acesso a Birkenau, mas eram sempre muito aguardadas por ambos. O problema é que tinham de ser discretos. Consciente de que as outras prisioneiras os observavam, o SS-Mann dirigiu-se-lhe com modos bruscos.

“Prisioneira vinte e cinco quatrocentos e quatro?”

“Presente.”

“Vai ser transferida para um novo Kommando”, anunciou o português num tom neutro. “Acompanhe-me.”

Fingindo-se intimidada, a russa desceu da koya e pôs-se em sentido diante do SS. Cheirava muito mal. Com ela no encalço, Francisco dirigiu-se à Blockälteste.

“A prisioneira vinte e cinco quatrocentos e quatro tem a partir de hoje um novo Kommando”, comunicou-lhe em tom seco. “De agora em diante não lhe serão atribuídas outras funções.”

“Jawohl, SS-Mann.”

Juntamente com as restantes prisioneiras, Tanusha plantou-se durante uma hora no exterior do barracão para o Appell. O português aproveitou para informar a Blockowa da alteração e mostrar-lhe os documentos de transferência. Quando a contagem foi concluída e se começaram a formar os Kommandos, Francisco ordenou à prisioneira que o acompanhasse, sempre com modos bruscos. Atravessaram ambos o campo das mulheres em direção à saída. Caminhavam calados, para não mostrarem a menor intimidade, e só falaram quando tiveram a certeza de que ninguém os podia escutar.

“Temos de ter cuidado”, avisou ela. “As mulheres da minha koya começaram já a fazer graçolas e tive de as calar com pão. A Blockälteste e a Califactorka também andam desconfiadas.”

“Desconfiadas como? À frente das outras sou sempre tão bruto...”

“Eu que o diga. O problema é que nos veem todas as semanas juntos e depois surpreendem-me com pão, queijo, mel, medicamentos, roupas boas... isso tudo. Não são parvas.”

“O que sugeres?”, questionou o SS-Mann. “Que te espanque sempre que te visito? Que deixe de te visitar? Que não te traga mais comida?”

A russa calou-se por momentos. De facto, o que poderiam fazer? Deixarem de se encontrar estava fora de questão. Além do mais, os bens que Francisco lhe trazia eram imprescindíveis para a sua sobrevivência. Se não fosse ele, havia muito que teria morrido com uma doença ou se teria transformado numa morta-viva e sido transferida para tratamento especial.

“Tens razão, não há nada que possamos fazer.”

Francisco virou-se pela primeira vez para ela.

“Olha lá, que pivete é esse?”

A namorada arregalou os olhos, intimidada.

“O quê? Nota-se?”

“Estás com diarreia?”

Ela baixou a cabeça com embaraço.

“É que... enfim, a Blockälteste anda um bocado chateada por te ver ao pé de mim e, como já percebeu que este é o dia das tuas visitas, destacou-me ontem para o Scheißkommando.”

“Scheiß... quê?”

“Scheißkommando. Não sabes o que é?”

O SS-Mann conhecia as palavras Scheiß e Kommando, claro, embora nunca as tivesse ouvido juntas.

“Kommando da merda?”

A russa corou de vergonha.

“É a unidade que... sabes como é, a unidade que... que limpa as latrinas. Como quase não há água no campo das mulheres, não me pude lavar.”

Estava explicado o fedor.

 

Quando chegaram ao portão, Francisco mostrou à sentinela dois passes, o seu e o da prisioneira. O soldado que controlava as entradas e saídas do campo das mulheres inspecionou-os em pormenor e lançou um olhar analítico a Tanusha. Estava tudo em ordem.

“Já sabes da última?”, perguntou a sentinela, devolvendo-lhe os documentos. “Lançámos uma das nossas armas secretas.”

“A sério? Um supercanhão?”

“Umas bombas-foguetes. Voam sozinhas para Inglaterra e estão a arrasar Londres. Ach, agora é que vamos ganhar, hem?”

Os dois saíram para a Hauptstrasse, dominada pela nova Judenrampe dos caminhos de ferro. O português ia fazer uma observação sarcástica sobre as tão propaladas armas secretas dos alemães mas calou-se quando viu SS e cães a encherem a plataforma, juntamente com Kapos e Kommandos das bagagens. Ao fundo estava o Doktor Mengele. Preparava-se uma receção. Devia estar para chegar mais um transporte e iria proceder-se a uma Selektion na rampa.

“De onde vêm os desgraçados que estão a chegar?”

“Estão previstos três transportes de Budapeste”, respondeu Francisco. “Começaram a enviar para cá todos os judeus da Hungria.”

“Ah, os húngaros. Noutro dia foi uma confusão no campo das mulheres, nem imaginas. Quando chegaram os primeiros comboios da Hungria, os vagões vinham cheios de polícias húngaros para escoltar os seus judeus. Pois as húngaras do campo das mulheres, coitadas, reconheceram as fardas e correram para o portão aos gritos e aos saltos, a chorar de alegria, parecia que Deus tinha descido à Terra. Passaram pelo portão e pelos SS como enlouquecidas e foram abraçar os polícias do seu país. Pensavam que tinham vindo para as salvar. Até cantaram o hino da Hungria e tudo. Os SS carregaram à bastonada, dispararam uns tiros e elas foram forçadas a regressar ao campo. Depois colaram-se à vedação e dali perceberam que os polícias húngaros afinal não as vinham libertar. Vinham era entregar mais judeus. Assistiram dali à Selektion na Judenrampe e ao envio da maioria para os crematórios. Pobrezinhas, ficaram de rastos.”

Para evitar confusões com os SS que enchiam a Judenrampe, viraram à direita, como se se dirigissem ao grande miradouro, mas enfiaram de imediato pela Lagerstrasse A, uma estrada em terra batida entre o campo de trânsito e o campo dos homens. Foi nessa altura que Francisco lhe passou para as mãos um pão com uma salsicha. Ela devorou-o ao longo de toda a Lagerstrasse A e quando viraram para a Lagerstrasse B, que conduzia aos crematórios números três e quatro, entregou-lhe um chocolate.

“Onde vamos?”

“Ao Canadá.”

“O grande armazém?”

A resposta espantou Francisco.

“Conheces o Canadá?”

“Toda a gente no campo conhece o Canadá, tonto”, foi a resposta dela, já a lamber o chocolate que lhe manchava os lábios. “Tchort! Dizem que é o melhor Kommando de Birkenau. Melhor ainda que o Esskommando, o Kommando das cozinhas. O que vamos lá fazer?”

“É o teu novo Kommando.”

A novidade apanhou Tanusha de surpresa.

“Estás a brincar...”

“Eu disse-te que ia arranjar maneira de te tirar dali, não disse?”

Ela mal cabia em si de contentamento.

“Que... que maravilha!”, exclamou, e quase deu um salto. “Será que te posso beijar?”

“Só se quiseres ser executada”, riu-se o português. “É essa a ideia?”

“Claro que não.”

O SS-Mann lançou-lhe um olhar perscrutador.

“Hmm... estás a ganhar formas.”

“É a comida que me organizas”, respondeu ela. “Engordei dez quilos, vê lá tu. As minhas companheiras de koya roem-se de inveja. Para que andas a olhar para o meu corpo, meu maroto?”

Ele encarou-a com um ar sonso.

“Para ver se começas a dar-me mais do que um beijo.”

Tanusha ergueu os olhos para o céu e fez com os braços um gesto teatral.

“Vocês, os homens, são todos iguais!”

 

Depois de verificar as credenciais, a sentinela deixou-os entrar no perímetro do Effektenlager, o nome oficial do campo de depósito de objetos que toda a gente em Auschwitz conhecia por Kanada. O campo era composto por uma trintena de barracões de madeira que pareciam cavalariças. As prisioneiras que circulavam por ali tinham um aspeto normal; estavam bem nutridas e vestiam boas roupas, quase como se fossem civis. O contraste com os reclusos andrajosos dos restantes campos não podia ser maior.

“Sabes porque chamam a isto Canadá?”

O SS fez um trejeito com a boca.

“Já ouvi a expressão, mas não a entendo. Tanto quanto sei, é para aqui que vem toda a riqueza que os deportados judeus trazem nos comboios. Esses produtos são empacotados e enviados para o Reich.”

“O Canadá é a terra da abundância”, disse ela. “O Effektenlager é o Canadá de Birkenau, pois aqui há de tudo.” Baixou a voz. “Mas parece que muitos SS aproveitam para meter coisas ao bolso. Há no meu campo raparigas que trabalham aqui e que estão muito bem, olaré se estão. E é para aqui que vou agora viver. Que bom!”

Ele fez uma careta embaraçada.

“Não é bem assim, infelizmente. Passarás o dia no Canadá, mas quando a jornada acabar terás de voltar ao campo das mulheres.”

“Oh.”

Fazia sol e a temperatura era agradável, pois o verão estava à porta. Quando se dirigiam ao edifício indicado na guia de transferência viram raparigas estendidas no chão a gozar o calor, a conversar e a rir perto das vedações que separavam o Kanada do crematório número três. Não era habitual ouvirem-se risos entre os reclusos, sobretudo as prisioneiras.

“... tão, Magda?”, perguntava uma das raparigas quando passaram por elas. “Tu que és a primeira a saber dos transportes, o que vai chegar hoje?”

“Nada de especial”, respondeu a do lado, os olhos fechados e a cara sempre virada para o Sol. “Apenas húngaros. Uma seca. Os transportes franceses é que são bons. Ah, o perfume, os vestidos...”

“Mas as húngaras trazem bons bordados...”

“Não digo que não.” Suspirou. “Mas os vestidos de Paris são tãaao chiques. Além do mais, os franceses têm um...”

As vozes perderam-se atrás de Francisco e Tanusha, que trocaram um olhar de perplexidade. Aquelas prisioneiras falavam sobre os bens que os deportados deixavam na Judenrampe ou nos crematórios como se a função dos transportes fosse abastecê-las dos melhores produtos da Europa.

 

Uma vez inspecionada a documentação que Francisco lhe entregara, a responsável do barracão ao qual Tanusha foi destinada, uma polaca de triângulo verde, inspecionou-a da cabeça aos pés.

“O Canadá pode ser um paraíso, minha linda”, disse. “Aqui não falta comida e trabalha-se cá ao abrigo do frio e da chuva. A boa roupa é abundante e as prisioneiras até podem deixar crescer o cabelo.” Ergueu o dedo, em jeito de aviso. “Mas há regras. Ai de ti se roubares. Haverá inspeções de surpresa e serás sempre revistada à saída. Se fores apanhada a roubar o que quer que seja que pertença ao Reich, serás fuzilada. Já aconteceu no passado a umas tolas que foram imprudentes e tenho a certeza que voltará a acontecer no futuro, pois a tentação é grande. Se fosse a ti, minha linda, teria muito cuidado.”

A Blockälteste agarrou-a pelo braço e virou-se para a levar, mas Francisco travou-a.

“Tenho instruções especiais relativas a esta prisioneira”, interveio. “Por ordem do responsável do Abteilung VI, não pode ser molestada sem autorização nossa.”

“Peço desculpa, Herr SS-Mann, mas só respondo perante a minha hierarquia. Com o devido respeito, o chefe do Abteilung VI não é a minha hierarquia.”

O português apontou-lhe o dedo com agressividade.

“Estou a avisá-la de que esta prisioneira é importante para o nosso trabalho”, rosnou. “Virei cá com frequência visitá-la e não gostaria de saber que lhe aconteceu algo de desagradável. Tenha muita atenção, pois fica pessoalmente responsabilizada pela segurança dela. Além do mais, volta e meia trarei comigo um prisioneiro do Sonderkommando para preparar com ela um espetáculo organizado sob a superior orientação do Abteilung VI e aprovado pela Kommandantur. Sempre que isso acontecer, preciso que a dispense de funções.”

“Desde que haja uma autorização escrita, Herr SS-Mann, não haverá problema.”

O português espreitou o interior do barracão; viu caixas e caixas cheias de roupa e uma fila de prisioneiras debruçadas sobre um estrado a examinar com cuidado cada peça de vestuário.

“O que fazem neste bloco?”

“Procuramos os tesouros que os deportados escondem nas roupas, sobretudo notas e joias. Temos de inspecionar tudo de fio a pavio.”

“O meu chefe informou-me de que no Canadá existem muitos materiais...”

“Vem cá parar de tudo”, confirmou a Blockälteste. “E agora que começaram estes transportes da Hungria tem sido uma verdadeira loucura. Muito material está a ser despejado nos blocos que servem de armazém até os transportes acalmarem, porque de momento, e apesar de haver aqui quase oitocentas prisioneiras, não temos capacidade para processar tanto produto. Isto mais parece uma feira.”

“É possível que algum desse material seja necessário para os adereços do espetáculo que o Abteilung VI está a preparar”, observou Francisco. “Precisava que o cedesse em função do que o prisioneiro do Sonderkommando solicitar.”

“Como lhe disse, traga-me uma autorização escrita da Kommandantur e far-se-á como diz.”

Ou seja, teria de convencer o Oberscharführer Knittel a pedir ao comandante de Birkenau uma autorização naqueles termos. O chefe do seu departamento iria espernear, mas tinha a certeza de que acabaria por fazer o que era preciso.

A um sinal de Francisco a dispensá-la, a Blockälteste voltou a puxar Tanusha pelo braço.

“Vamos, minha linda”, ordenou. “Primeiro vais tomar banho. Não quero aqui ninguém a cheirar a esgoto. Depois começas logo a trabalhar.”

A responsável pelo barracão entregou a prisioneira a uma adjunta que levou Tanusha para o exterior. O SS-Mann permaneceu no seu lugar, observando-as a atravessarem o Kanada e a dirigirem-se à Zentral Sauna, um longo edifício de tijolo avermelhado onde habitualmente se enviavam para o banho os prisioneiros que haviam sobrevivido à Selektion na Judenrampe. Para ter a certeza de que tudo corria bem, aguardou que as duas saíssem.

Reapareceram quinze minutos mais tarde. Tanusha vinha limpa e com novas roupas; parecia outra pessoa. Observou-a a entrar no barracão, a ocupar o seu local de trabalho, onde recebeu instruções acerca do que se esperava dela. Viu-a começar a vasculhar nas peças de roupa que lhe depositaram à frente e só então abandonou o barracão para regressar a Auschwitz I, já elucidado. O Kanada era o sítio onde se roubavam os mortos.