O Manuscrito de Birkenau
Capítulo V
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As costas doíam a Levin enquanto fazia força com a esfregona para limpar uma nódoa mais resistente; havia passado as últimas três horas de joelhos a esfregar o chão e o trabalho aproximava-se do fim. Girou a cabeça para avaliar o que tinha ainda para fazer e concluiu, com uma ponta de satisfação de que não se orgulhava, que faltava pouco. Começara pelos cristais azul-esverdeados de Zyklon B que não se haviam vaporizado e depois passara para o resto. O trabalho estava a ser tão minucioso que ali até cheirava a lixívia, embora houvesse ainda excrementos e vómito a limpar numa parede. Quando tudo estivesse impecável, usaria um dos perfumes encontrados na bagagem das últimas vítimas para espalhar a fragrância pela câmara.
Trabalhar na Gaskammer, mesmo quando estava vazia, deixava-o sempre perturbado. Milhares e milhares de pessoas já ali tinham morrido e milhares iriam ainda morrer; era como se os seus fantasmas assombrassem o lugar. Mas havia que reconhecer que o Oberkapo Kaminsky tivera razão. A primeira vez que entrara naquela sala para retirar corpos fora horrível. Pensara que enlouquecia. O segundo dia voltara a ser muito duro. Mas o efeito de choque perdera-se. Todos os dias foram difíceis, embora o seguinte sempre menos do que o anterior. Até ao momento em que, por incrível que parecesse, e parecia, deu consigo a encarar tudo aquilo quase como se fosse normal. Seria mesmo possível que os seres humanos se habituassem a tudo?
Levin estabelecera no Sonderkommando uma estranha rotina. Acordava às cinco da manhã, tomava banho, vestia-se e tomava um pequeno-almoço bem abastecido de pão, doces e iguarias que sobravam dos transportes. Pelas seis e meia aparecia um oficial SS e faziam o Appell dentro do bloco. Depois seguiam com a escolta para a zona interdita, a dos crematórios, onde o Hauptscharführer Moll, o seu inseparável ajudante, o Unterscharführer Eckardt, e os outros SS destacados para o serviço os vigiavam quase em permanência.
À parte alguns incidentes, a partir do momento em que os novos prisioneiros adquiriam maior traquejo nas funções, os SS quase deixavam de interagir com eles. Os oficiais alemães falavam diretamente com o Oberkapo Kaminsky, que tinha a desconcertante característica de não mostrar o menor medo deles, e com os restantes Kapos, como o francês Georges e outros, e eram estes que davam as ordens ao Sonderkommando. Os SS de baixa patente revelavam-se até simpáticos, mas apenas quando estavam a sós com os prisioneiros; logo que aparecia um segundo SS mudavam de comportamento.
A verdade, a inconcebível verdade, é que Levin se habituara. Quando entrava na câmara da morte e se deparava com os cadáveres enlaçados em abraços de sangue, excrementos e vómitos proibia-se de pensar. Tornava-se um autómato e executava as suas funções alheado, quase com indiferença. Uma indiferença forçada, é certo, mas indiferença mesmo assim. As pessoas que carregava já não eram pessoas, mas corpos inertes, estátuas amontoadas no meio da merda e dos vómitos e de um fedor repugnante a peixe podre. Eram objetos inanimados nos quais pegava como se agarrasse sacos de batatas ou simples calhaus, transportando-os de um lado para o outro como antes fazia no Kommando das pedras do campo das famílias.
Sobretudo não pensava. Respirava, mexia-se, executava. Pensar não. Nunca. Era como se a mente se desligasse. Estava ali mas não estava. O espírito fora-se e apenas ficara o corpo em modo ativo, uma máquina sem alma, uma mente sem consciência. Abeirava-se de um cadáver, encaixava-lhe a pega da bengala no pescoço ou atava-lhe um cinto a uma perna e puxava-o para a sala onde o Kommando dos dentistas e o Kommando dos barbeiros faziam o seu trabalho. Uma vez este concluído, os objetos inertes eram entregues ao Heizerkommando para os fornos até se desvanecerem em cinza e fumo.
Descobriu que o gás não era a única maneira de matar nos crematórios. Quando o número de vítimas era pequeno e não justificava o uso do Zyklon B, a que se recorria apenas para as grandes matanças, faziam-se fuzilamentos. Nalguns casos as vítimas eram executadas umas à frente das outras, as de trás a verem as da frente sabendo que a seguir seriam elas. Eram terríveis aqueles momentos, até porque a tarefa de conduzir essas pessoas para o local de abate fora entregue aos homens do Sonderkommando. Ele próprio já arrastara cinco nacionalistas polacos para o pátio das execuções e vira-os cantar o seu hino no momento de serem baleados.
O que lhe causava mais impressão, porém, eram as execuções de surpresa, não apenas pelo que sucedia à vítima, mas como sobretudo pelo que se exigia do Sonderkommando. Um SS plantava-se num canto escondido da zona dos fornos e os homens do Sonderkommando recebiam ordens para levar as vítimas até lá. Pormenor importante, tinham de as puxar com firmeza por uma orelha. Ao entrarem na câmara dos fornos, os prisioneiros do Sonderkommando conduziam a vítima pela orelha em direção a umas escadas que levavam ao sótão e era nessa altura que o SS escondido baleava o desgraçado na nuca. Um dos homens do Sonderkommando que habitualmente fazia essa operação, um judeu sefardita grego chamado Shlomo, contara-lhe que era necessário baixar imediatamente a cabeça da vítima de modo a evitar que o sangue jorrasse para a farda do SS, o que provocaria punições terríveis. Tudo aquilo era horrivelmente penoso e um dos maiores medos de Levin era que lhe dessem ordens para ajudar neste tipo de execuções.
Apesar disso, até a conviver com aquelas situações se começou a habituar. Essa parecia ser, de resto, a postura de todos os elementos do Sonderkommando. Tinham-se acostumado à realidade grotesca e davam a impressão de a encarar já como se fosse banal. O mágico via-os fumar e comer diante dos corpos e dera até com dois dos mais antigos sentados sobre os cadáveres, durante uma pausa nos trabalhos, a bebericarem um chá. Começou a perceber que daí a um ou dois meses ele próprio se comportaria da mesma maneira. O horror tornava-se rotina.
“Levin?”
Reconheceu a voz e olhou para a porta da câmara de gás; recortado pela luz, estava ali o Oberkapo Kaminsky.
“Há aqui um SS a perguntar por si.”
A informação surpreendeu o mágico. Uma vez que no Sonderkommando os SS raramente falavam com os prisioneiros, aquilo era inesperado. Pôs-se de imediato em pé e, ligeiramente dobrado pela dor nas costas por estar tanto tempo de joelhos, saiu do crematório. Francisco esperava-o no átrio.
“É você o A um seis sete seis?”
O português fingia não o conhecer.
“Jawohl, Herr SS-Mann.”
O SS fez-lhe sinal de que o acompanhasse e caminharam ambos na direção da vedação que dava para o grande campo vizinho, o Kanada.
“Então?”, quis saber Francisco quando estavam a uma distância segura. “Como vão as coisas?”
“Isto é horrível”, murmurou Levin. “Como é possível que me tenha enviado para aqui? Tem a noção do que se passa neste sítio? Matam pessoas com gás. Milhares de cada vez. Mulheres, crianças, bebés... é uma barbárie, não se imagina uma coisa destas. Não se imagina. E nós temos de pegar nos corpos com as nossas próprias mãos e mandá-los para os fornos.”
“Lamento que tenha vindo para aqui”, desculpou-se o SS-Mann. “Pedi ao meu chefe que o transferissem para onde se pudesse alimentar, estivesse confortável e tivesse tempo para preparar o espetáculo. Nunca imaginei que o fossem pôr a trabalhar em... nisto. Lamento muito.”
Levin fechou os olhos e massajou as têmporas.
“Pode tirar-me daqui?”, perguntou, quase a implorar. “Por favor, tire-me o mais depressa possível. Prefiro mil vezes voltar ao campo das famílias. Além do mais tenho lá a minha mulher e o meu filho, de quem nem sequer me despedi. Devem estar raladíssimos.”
O português suspirou de impotência.
“Não tenho passe para ir lá. Contudo, através de um SS brasileiro meu amigo, e a título excecional, consegui dar um salto ao campo das famílias e informar a sua mulher de que você está bem. Entreguei-lhe uns pães com salsichas e medicamentos.”
“Como... como estão eles?”
“Estão bem, fique descansado. Ela e o menino encontram-se de saúde e andam a embelezar o campo, pois é possível que a Cruz Vermelha venha cá fazer uma visita. O tratamento dos prisioneiros melhorou e até plantaram jardins à frente dos barracões, veja lá. Insisti muito com ela que se candidate às transferências para os campos de trabalho quando essas candidaturas abrirem. Contudo, receio que não possa voltar lá e...”
O mágico juntou as mãos, como se implorasse.
“Transfira-me de novo para o campo das famílias, por favor. Só lhe peço isso. Por favor, por favor.”
Francisco abanou a cabeça.
“Infelizmente não é possível”, disse. “A partir do momento em que um prisioneiro entra no Sonderkommando, não há caminho de retorno. Enquanto Geheimnisträger, ou portador do segredo, nenhum elemento do Sonderkommando pode falar com qualquer outro prisioneiro do Katzet a não ser em situações excecionais e muito controladas.”
“Não contarei nada a ninguém. Nem uma palavra. Juro.”
“Oiça, os alemães não são parvos”, ripostou o SS. “Sabem que, prometa o que prometer, qualquer elemento do Sonderkommando que contacte outros prisioneiros contará inevitavelmente o que se passa aqui. Isso seria um grande problema, uma vez que os nazis percebem que estão a cometer um crime. É por isso que tentam manter tudo secreto. Se um elemento do Sonderkommando contactar alguém do exterior, o segredo espalhar-se-á.”
“Já espalhou”, argumentou Levin. “Para quê tantos cuidados? Se a própria BBC noticiou na semana passada o que aqui se está a passar, o que tentam ainda esconder?”
A resposta surpreendeu o português.
“Como sabe isso?”
“As notícias circulam depressa no Sonderkommando, até porque os SS holandeses são bem mais humanos do que os alemães e falam abertamente com os nossos Kapos. Além do mais, conseguimos organizar jornais e alguns dos Kapos leem-nos todos os dias. Desde que a notícia sobre os campos saiu na BBC, os alemães gritam menos connosco. Até o Moll amansou um bocadinho. Consta que os ingleses divulgaram o nome de vários oficiais responsáveis pela matança, incluindo o comandante, e anunciaram que depois da guerra vão todos prestar contas. Isso deixou-os em sentido. Portanto já não há segredo para guardar.”
“É verdade que os nazis ficaram nervosos com a divulgação da existência de Auschwitz e de tudo o que por aqui se passa, mas não se iluda. A notícia sobre a matança de judeus é tão incrível que ninguém lá fora acredita. Toda a gente acha que a notícia da BBC não passa de propaganda igual à da Grande Guerra, quando se disse que os alemães faziam sabão a partir de cadáveres e outros disparates do género. As mentiras da outra guerra tornam difícil acreditar nas verdades desta. Isso faz com que a vossa situação de Geheimnisträger seja ainda mais delicada, está a perceber? Enquanto portador do segredo, nunca o deixarão regressar ao campo das famílias, sob pena de no futuro aparecerem testemunhas que consubstanciem este tipo de informações. Os alemães jamais o permitirão.”
O judeu suspirou em desânimo.
“Quer dizer que... que só saio daqui pela chaminé?”
A pergunta, tão terrível pela sua lucidez e fatalismo, deixou Francisco desconcertado.
“Esperemos que os russos cheguem depressa.”
O olhar de Levin estendeu-se para lá do perímetro do crematório número três.
“E a minha família?”
“Como lhe disse, a sua mulher está informada e abastecida. O problema é que o campo das famílias não vai durar para sempre. Fui muito insistente com ela quanto à necessidade de se candidatar às transferências para os campos de trabalho, mas sendo eu SS tenho a certeza de que não confia em mim. É por isso que a sua palavra é crucial.” Fitou-o com intensidade. “Deu-lhe essas instruções quando lhe disse que as desse?”
“Sim. Logo que pedirem candidatos para Arbeitskommandos fora de Birkenau, ela e o miúdo vão inscrever-se.”
“Ela percebeu a importância disso?”
“Absolutamente.”
Com aquele problema resolvido, o português desviou a atenção para os barracões do Kanada, no perímetro fronteiro ao crematório.
“O próximo mês será muito complicado, pois vão chegar ainda mais transportes de Budapeste. O meu chefe falou de si ao chefe dos crematórios e pediu que o deixasse ir uma vez por semana ao Canadá preparar o espetáculo com a assistente que lhe designei. O pedido foi rejeitado devido ao enorme volume de trabalho no Sonderkommando.”
“Sim, tem sido infernal”, anuiu o mágico. “Chegámos ao ponto de ontem haver cinco comboios parados à entrada de Auschwitz, à espera que se matassem os deportados da frente. O maior problema nem é a matança, pois as câmaras de gás aguentam até três mil pessoas de uma vez e ao que parece a liquidação é relativamente rápida, mas a cremação. Há momentos em que temos um comboio parado na linha à espera que o comboio que está na Judenrampe descarregue os seus deportados. O problema é que estes deportados também estão parados na Judenrampe à espera que o grupo à sua frente avance. Mas este grupo está parado diante da secção BIIf à espera que o grupo à sua frente avance. E este grupo está parado no bosque, já despido, à espera que o grupo à sua frente, já enviado para a câmara de gás, seja liquidado. E estes deportados, uma vez mortos, estão a ser amontoados à espera de vaga nos fornos para serem cremados.”
O português observava-o, siderado.
“Porra! Isto até parece uma linha de montagem!”
“Não imagina o requinte da coisa. Sempre que chega um comboio, o Oberfeldwebel informa qual o crematório que nesse momento está disponível para receber os deportados para os liquidar e desse modo gerir a disponibilidade das instalações, mas mesmo assim já atingimos o limite de operacionalidade.”
“Com tantos fornos?”
“Isto é uma loucura, o que é que pensa? Os quatro fornos trabalham vinte e quatro horas por dia e ainda assim não têm capacidade para tanta gente.”
“Mas cada forno dispõe de três câmaras de combustão...”
“É verdade. Só que os alemães fizeram as contas e concluíram que cada câmara de combustão leva vinte minutos a cremar três corpos, o que dá nove por hora. O Hauptscharführer Moll acha pouco. Para aumentar a eficiência, aquele camelo pôs-se a fazer experiências para apressar a cremação e poupar combustível. Inventou um sistema que designou «trabalho expresso». A ideia é misturar um corpo gordo com dois corpos magros, um de um Muselmann e o outro de uma criança. A gordura do gordo serve de combustível para alimentar a combustão dos dois magros sem usar mais carvão, entende?”
Embora fosse um veterano de guerra e julgasse já ter visto tudo, o SS-Mann estava embasbacado.
“Puta qu’os...”
“O máximo da capacidade conjunta dos fornos são dez mil cadáveres por dia. Mas há fornos que estão sempre a avariar-se quando se exige de mais. Neste momento os tipos da Topf und Söhner estão a fazer reparações no Krema número quatro. Além disso, é preciso parar os fornos em intervalos regulares para manutenção e limpeza. Com tudo isto, a capacidade máxima de cremação nem sempre é alcançada. Chegamos a amontoar corpos em salas à espera que haja vagas para serem cremados. Não há palavras que descrevam o que aqui se passa.”
Ao longo da sua vida de soldado, Francisco já vira muita coisa; participara até no massacre de Badajoz, durante a guerra civil espanhola. Mas o que acabara de lhe ser descrito era diferente; não havia execução de combatentes, que ele considerava normal, mas de civis, incluindo bebés e crianças.
“Já observou algum gaseamento?”
“Felizmente não. Estou no Shleppernkommando e apenas apareço quando as pessoas já estão mortas e é preciso rebocar os corpos da câmara de gás para as salas dos dentistas e dos barbeiros. Não imagina como é.”
Fez-se um breve silêncio; o tema era pesado e o português não se sentia à vontade, até porque fazia parte daquela grande máquina.
“O chefe dos crematórios, esse tal Moll, não o dispensa para preparar o espetáculo”, acabou por revelar, retomando o fio à meada. “Insisti com o meu chefe, mas não foi possível. Parece que o extermínio dos judeus tem prioridade sobre tudo o resto, incluindo o esforço de guerra. Quando os transportes húngaros terminarem, no entanto, a pressão do trabalho será menor e nessa altura você poderá ir ao Canadá ensaiar com a sua assistente e usar a carpintaria do Krema número dois. Enquanto isso não acontecer, convém que aproveite todo o tempo livre para conceber o espetáculo.”
“Não tenho cabeça para isso.”
“Terá de ter”, foi a resposta imediata de Francisco. “Diga-me quais são os materiais de que precisa.”
“É fácil”, devolveu o mágico. “Madeira, espelhos, pregos, um serrote e um martelo.”
“Deve haver isso e muito mais na carpintaria”, observou o SS. Espreitou o relógio. “Quando surgirem novidades, virei cá. Boa sorte.”
“Espere!”, travou-o Levin. “Como se chama a minha assistente no Canadá?”
“Tanya Tsukanova.”
Disse-o como quem dizia adeus. O português abandonou o perímetro do crematório número três e o judeu regressou à câmara da morte para concluir a limpeza.