O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 50 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Nota final

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Nenhum romance me custou tanto a escrever quanto este. Cheguei a desistir dele antes de o começar, pois o que tinha para contar era de tal modo terrível, a história do que em Birkenau verdadeiramente se passou tão aterradora, que me pareceu que a sua leitura resultaria repugnante. Ora como por uma questão de honestidade não sou capaz de adoçar a verdade para a tornar digerível, pois isso seria falseá-la, vi-me numa situação impossível. Para quê escrever uma obra que ninguém seria capaz de ler?

O que me forçou a avançar para um romance que achava a priori ilegível foi uma compulsão, esta inexplicável obrigação de verter em palavras a narrativa que trazia dentro de mim e da qual só me poderia libertar se a gravasse em palavra escrita. Como se a emoção me impusesse o que a razão me interditava. Talvez precisasse de contar esta história para fazer dela uma catarse, a forma de me libertar de tudo o que carregava como um fardo, um processo de purificação interior, uma janela que abria para expulsar os demónios que me assombraram durante a preparação desta obra.

Para compreender isto é preciso que se entenda que não há texto capaz de reproduzir fielmente a dimensão e a profundidade do horror de Birkenau. Não só o que ali se passou é inexprimível, como uma obra que tente criar no leitor a sensação de lá estar corre o sério risco de jamais ser lida, pois estar lá, mesmo que apenas pelo fio da ficção, é uma experiência insuportável. Por outro lado, já tantos livros foram escritos sobre o Holocausto em geral e Auschwitz em particular que se poderia pensar que nada mais haveria para contar e que tudo já se sabe sobre o assunto.

É contudo importante perceber que os trabalhos literários sobre o Holocausto sofrem da miopia do sobrevivente, isto é, tendem a centrar-se nas histórias das pessoas que lograram salvar-se, gente que enfrentou enormes adversidades e que de algum modo excecional conseguiu prevalecer contra todas as probabilidades, gente ordinária em situação extraordinária, pessoas comuns que as circunstâncias tornaram heróis. Tais histórias são seguramente admiráveis mas negligenciam o facto fundamental de que as pessoas que viveram toda a experiência do Holocausto não foram os sobreviventes, mas os que morreram. O que faz que o Holocausto seja o Holocausto não são os que escaparam, são os que lá ficaram. Apesar de as narrativas individuais com que somos habitualmente confrontados nas obras de ficção deixarem emocionalmente implícito o contrário, em momento algum podemos esquecer que os sobreviventes constituem a exceção, jamais a regra.

A esta primeira constatação, tão fácil de ignorar porque os mortos não falam e por isso é como se as suas vivências nunca tivessem ocorrido, junta-se uma outra. A da suavização da experiência do Holocausto. Todos já ouvimos falar nos milhões de mortos e já vimos ou lemos descrições mais ou menos vagas do que se passava nas câmaras de gás, por exemplo. Porém, nenhum leitor aguenta ser prolongadamente confrontado com tais realidades. Podemos fitar o Sol por momentos, mas é impossível fazê-lo muito tempo seguido. É por essa razão que a ficção tende a suavizar ou a abreviar a parte mais intolerável do sucedido. Essas cenas aparecem em romances e em filmes, é certo, mas, apesar do horror que encerram, o horror da ficção acaba sempre por ficar aquém da realidade. Essa é a segunda constatação que tem de se fazer. Por incrível que possa parecer, o que normalmente é apresentado nas obras literárias ou cinematográficas não faz justiça à realidade do Holocausto. A realidade é pior do que a ficção.

O pior dos piores não deixou testemunhas. Estou naturalmente a falar das pessoas que foram fechadas nas câmaras de gás ou levaram um tiro na nuca. Nenhuma sobreviveu para contar o que lhe aconteceu, o que pensou, o que sentiu, o que passou naquela sala fechada com três mil pessoas nuas apertadas em redor ou à espera da sua vez na fila das execuções. Raramente se fala, por exemplo, do que sucedeu em Treblinka, em Bełżec ou em Sobibór. Será porque não se passou nada de relevante por lá? Treblinka, Bełżec e Sobibór eram os piores dos piores. Piores ainda que Birkenau. O problema é que não escapou quase ninguém desses campos da morte. Sem testemunhas não há história, pois os mortos não falam. Aconteceu, mas como ninguém sobreviveu para contar o que lá aconteceu é como se não tivesse acontecido. Ou seja, não aconteceu.

Os únicos testemunhos de que dispomos sobre o Holocausto são de pessoas que não foram para as câmaras de gás, e consequentemente não tocaram no fundo daquele abismo. Uma delas, Dov Kulka, chegou mesmo a escrever que “como jovem que era não senti o tormento e a inquietação aguda, assassina, destrutiva sentida pelos reclusos adultos”. Isto é, viveu em Birkenau sem verdadeiramente compreender e sentir o horror de Birkenau. A única coisa de que se lembra mesmo a esse respeito é dos cadáveres esqueléticos de idosos e doentes retirados dos barracões e que ele evitava a caminho do barracão-escola de Alfred Hirsch. “Pede-me que explore a minha memória de uma forma racional”, respondeu-me Dov quando o questionei sobre o assunto. “Eu próprio fico espantado por não haver cenas de violência preservadas na minha mente.” Também Werner Reich o constatou. “Pode parecer estranho”, disse-me ele, “mas a minha vida em Birkenau não foi tão má como a que tive mais tarde em Mauthausen, para onde fui levado quando Auschwitz foi encerrado e onde ia morrendo de fome.”

É certo que Dov e Werner eram na altura adolescentes, e os mais novos, além de serem em geral protegidos da violência, tendem a considerar a sua situação normal, uma vez que não dispõem de termos de comparação. Além disso, Dov e Werner encontravam-se no campo das famílias, o menos mau dos vários campos de Birkenau, por se destinar a uma visita da Cruz Vermelha que afinal acabaria por nunca ocorrer. O pior momento foi mesmo o gaseamento dos seus ocupantes, mas os gaseados não viveram para contar e os sobreviventes como Dov e Werner necessariamente não passaram pelas câmaras de gás. Isso cria uma distorção inevitável na perceção do que foi a experiência global do Holocausto.

Contudo, há maneiras de corrigir essa distorção e chegar às vivências dos que morreram asfixiados pelo Zyklon B. Podemos não ter os seus relatos em primeira mão, é certo, podemos nunca vir a saber como eram os primeiros momentos em que os cristais de gás caíam na câmara e o pânico e o tumulto violento que desencadeavam, podemos apenas imaginar o desespero cego de uma pessoa que nesses instantes terríveis tentava a todo o custo sair, ao ponto de arranhar as paredes até arrancar as próprias unhas, mas ao menos temos relatos na primeira pessoa daqueles que com as vítimas partilharam os seus últimos momentos. Estou a falar dos prisioneiros destacados para trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios, as chamadas unidades especiais.

O Sonderkommando.

A esmagadora maioria dos elementos do Sonderkommando não sobreviveu. Pelas razões apresentadas neste romance, e nas circunstâncias aqui expostas, também eles foram quase todos assassinados. Mas, ao contrário das pessoas que o Sonderkommando ajudou a matar, alguns homens desta unidade lograram escapar no meio da confusão que envolveu a fuga desordenada dos SS de Auschwitz perante o avanço russo. Desse punhado, alguns depuseram no processo de Cracóvia e dois, Filip Müller e Miklós Nyiszli, verteram as suas experiências em livros de memórias. Todavia, isso aconteceu apenas um ou vários anos depois dos acontecimentos e a receção que na altura tiveram variou entre a indiferença e a frieza, para não dizer hostilidade aberta. Em bom rigor, a atitude dominante para com eles revelou-se altamente negativa, sobretudo entre os próprios judeus, traumatizados pelo extermínio mas também pela forma dócil como os seus se deixaram matar e pelo envolvimento cúmplice de outros judeus em todo o processo da matança.

Intimidados e receando as inevitáveis acusações de traição e colaboracionismo com o extermínio, os restantes elementos do Sonderkommando fundiram-se na multidão e mantiveram-se calados durante décadas e décadas. O seu silêncio foi tão profundo que até alguns historiadores especializados no Holocausto desconheciam que havia sobreviventes entre os homens da unidade dos crematórios. Tornaram-se judeus malditos, testemunhas silenciosas, fantasmas vivos das câmaras de gás.

É preciso sublinhar que em certos casos tal reputação era merecida. Os SS mencionam o comportamento de indiferença, de bestialidade até, de alguns elementos do Sonderkommando em relação aos que iam morrer. “A disponibilidade com que eles desempenhavam as suas funções nunca cessou de me surpreender”, escreveu o Obersturmbannführer Höss, o fundador e primeiro comandante de Auschwitz-Birkenau, sublinhando que “não apenas eles nunca informavam as vítimas do que lhes ia acontecer, e ajudavam-nas até a despir-se, como estavam dispostos a recorrer à violência contra as que resistissem”. Esta alegação foi confirmada pelos próprios sobreviventes da unidade dos crematórios. “Sim, lamento dizer que alguns eram assim”, admitiu Josef Sackar, antigo elemento do Sonderkommando, quando questionado por Gideon Greif sobre se era verdade que alguns companheiros seus se comportavam com agressividade e crueldade com os que iam morrer. Batiam-lhes “com as mãos”, explicou Sackar, sobretudo “para os apressar” a despirem-se e irem para a câmara de gás. Nunca saberemos se essa era a postura dominante dos prisioneiros que trabalhavam nos crematórios, até porque se fosse os sobreviventes nunca o admitiriam, embora os manuscritos deixem supor que tal comportamento seria minoritário ou até raro.

A atitude em relação ao Sonderkommando só começou a mudar na década de 1980 graças ao trabalho de historiadores como Gideon Greif e Ber Mark, que reavaliaram as experiências dos homens da unidade especial dos crematórios. O que estes viveram passou a ser encarado de um outro prisma, e só então alguns saíram do anonimato e aceitaram dar a cara para contar o que viram e experienciaram. Todos estes relatos, no entanto, pecam por ter sido feitos muito depois dos acontecimentos. Na maioria dos casos, e pelas razões que acabei de enunciar, tais testemunhos levaram décadas a ser prestados e são marcados por múltiplas contradições e incorreções. Por exemplo, há versões diferentes da forma como o Oberkapo Kaminsky foi morto pelo Hauptscharführer Moll. Neste caso acabei por confiar no depoimento de um sobrevivente do Sonderkommando que afirmou ter assistido a tudo e transportado o corpo do Oberkapo depois da execução, o que faz dele uma testemunha ocular desse acontecimento específico. Noutras situações, porém, a solução revelou-se menos evidente.

Le temps qui passe c’est la vérité qui s’enfuit, estabelece uma velha máxima francesa, e o mesmo se poderá dizer das memórias. O tempo brinca com as lembranças. Apaga-as, reconstrói-as e até as ludibria, um fenómeno muito conhecido das neurociências. Nada suplanta por isso um testemunho registado na hora dos acontecimentos, quando a recordação do que se passou permanece fresca e vívida, os pormenores nítidos, as impressões quase intactas. O problema é que, como vimos, os sobreviventes do Sonderkommando apenas falaram sobre o assunto mais tarde ou muito mais tarde. O tempo passou e as memórias alteraram-se ou apagaram-se.

Acontece que há uma classe de testemunhos do Sonderkommando que recua ao período em que os acontecimentos se estavam a produzir. Trata-se de um conjunto de manuscritos redigidos por elementos da unidade especial na altura dos gaseamentos e enterrados junto aos crematórios para serem descobertos mais tarde, quando os campos fossem libertados. Todos os seus autores foram mortos, à exceção de Marcel Nadsari, mas esses manuscritos chegaram de facto até nós. Constituem os registos mais aterradores do que realmente se passou nas câmaras de gás.

Apenas uns dias depois da libertação de Auschwitz-Birkenau, corria fevereiro de 1945, foi encontrado o primeiro de tais documentos, um texto em francês de Haim Herman. Logo no mês seguinte foram localizados alguns dos textos mais importantes, os manuscritos em ídiche de Zalman Gradowski, Schreiber do crematório número três, e em abril um texto em ídiche de Leib Langfus, conhecido no Sonderkommando por dayan. Sete anos mais tarde, em 1952, veio à luz um outro texto não assinado, mas atribuído igualmente a Langfus, e em 1961 e 1962 foram encontrados dois textos de Zalman Lewenthal, também em ídiche. Um último manuscrito apareceu em 1980, redigido em grego e da autoria de Marcel Nadsari, quase ilegível e só restaurado em 2017.

São estes textos que nos conduzem diretamente ao “coração do inferno”, como Gradowski intitulou os seus manuscritos. Foi neles que me baseei em grande parte para descrever os acontecimentos no Sonderkommando, dos gaseamentos e das cremações aos pormenores da revolta de 7 de outubro de 1944. De resto, o epílogo do romance, referente ao gaseamento do campo das famílias, constitui quase uma cópia de parte de um dos manuscritos de Zalman Gradowski. Isso foi intencional, embora não malicioso. Já na trilogia do Lótus, uma sequência de romances anteriores dedicados ao autoritarismo e ao totalitarismo, as palavras de Salazar, de Mao Tsé-tung e de Chang Kai-shek constituíram cópias ipsis verbis de declarações que os três ditadores haviam realmente proferido em vida. Tal não foi feito para me apropriar indevidamente do trabalho alheio, mas para respeitar o mais possível a verdade dos seus pensamentos e personalidades.

No caso do epílogo desta obra, quis mostrar o que se passava dentro dos crematórios e percebi que isso não era possível se não usasse as palavras, as ideias e as emoções dos próprios intervenientes, pois não há relato mais fiel de um acontecimento do que aquele que é feito por alguém que o viveu. O manuscrito de Gradowski foi talvez dos textos mais horríveis em que alguma vez pus os olhos e estou convencido de que não podia fazer justiça ao que realmente se passou em Birkenau se não usasse o testemunho de quem tudo viu para melhor exprimir o que sucedeu.

O problema é que, por mais que a ficção ou o discurso histórico se esforcem por reproduzi-la, a realidade de Birkenau nos foge como a nossa sombra quando corremos para ela. Talvez consigamos aproximações, e tal já não seria mau, mas nunca poderemos apresentá-la em toda a sua dimensão e profundidade. Isso foi algo que os próprios homens do Sonderkommando fizeram questão de nos dizer. “O que aqui escrevo não passa de uma parte mínima do que realmente aconteceu”, avisou Gradowski no seu manuscrito, enquanto Lewenthal sublinhou que “toda a verdade contém muito mais tragédia e muito mais horror”. Ou seja, até as próprias testemunhas dos acontecimentos se sentiam incapazes de exprimir a enormidade do que viam e viviam. O que se passou em Birkenau, quando a globalidade da experiência é compreendida, ultrapassa tudo o que qualquer texto é capaz de apresentar.

Poderíamos ser tentados a pensar que o epílogo desta obra apresenta uma única situação ficcional que, por ser tão extrema, a realidade não foi capaz de apresentar. Estou a referir-me ao encontro do homem do Sonderkommando com a sua família nos crematórios. Porém, tal situação era infelizmente comum. Os testemunhos dos elementos do Sonderkommando estão repletos de referências a encontros com familiares nessas circunstâncias, momentos que eles descrevem como o seu maior pesadelo. “Alguns no Sonderkommando reconheciam com frequência os seus”, afirmou Miklós Nyiszli, enquanto Zalman Lewenthal escreveu no seu manuscrito: “Quão terrível e trágica era a cena quando se percebia que [...] as mesmas pessoas que arrastavam os corpos e os queimavam [...] compreendiam que se tratava dos mesmos que tinham deixado para trás, os seus familiares, os seus entes queridos. Alguns encontravam os pais, outros as mulheres e os filhos.” Também Olga Lengyel, sobrevivente do campo das mulheres, observou nas suas memórias que no Sonderkommando “muitas vezes um marido tinha de cremar a mulher; um pai os filhos; um filho os pais; um irmão a irmã”.

Os exemplos concretos abundam. Shlomo Venezia revelou que no crematório “reconheci o primo do meu pai”, por quem intercedeu junto do SS de serviço, sem resultado, e a quem depois cremou o corpo. Eliezer Eisenschmidt confidenciou que “uma vez identifiquei o corpo de um primo” nos fornos e Shaul Chazan disse que um dos seus companheiros deu de caras com o irmão na câmara de gás e pediu a um SS que o salvasse, mas o rapaz acabou com um tiro na cabeça. Jehuda Bacon contou que um elemento do Sonderkommando chamado Kalmin Furman chegou a ser forçado a levar os pais para a câmara de gás e depois tentou enforcar-se, embora tenha sido salvo no último momento, enquanto um texto de Krystyna Zywulska fala no caso de um homem do Sonderkommando que se deparou com a mãe no vestiário e, ocultando-lhe até ao fim o que lhe iria acontecer, escolheu seguir com ela para a câmara de gás e morrer. O próprio Filip Müller escreveu ter recebido no crematório o cadáver do pai, que teve de cremar.

Até o comandante Höss assistiu a uma situação do género. “Este incidente testemunhei-o eu”, escreveu nas suas memórias. “Quando os corpos eram retirados da câmara de gás, um membro do Sonderkommando parou subitamente e inclinou-se como se tivesse sido atingido por um raio. A seguir puxou o corpo, ajudando os seus camaradas. Perguntei ao Kapo o que lhe havia sucedido. Ele apurou que o judeu chocado tinha descoberto a mulher entre os cadáveres. Fiquei a observá-lo um bom bocado sem notar qualquer alteração nele. Continuou simplesmente a arrastar corpos. Passado um bocado voltei a cruzar-me com a equipa dele. Estava sentado com os outros a comer, como se nada se tivesse passado. Foi ele realmente capaz de esconder os seus sentimentos tão completamente ou estaria tão embrutecido que uma coisa destas já não o incomodava sequer?” Esta pergunta de Höss é pertinente, mas não deixa de ser surpreendente que o comandante de Auschwitz-

Birkenau não a tenha formulado em relação a si mesmo e aos seus próprios atos.

Situações semelhantes, neste caso envolvendo encontros indiretos, aconteciam no Effektenlager, conhecido no campo por Kanada, para onde os bens dos gaseados eram enviados para futura distribuição pelo Reich. As judias que trabalhavam no Kanada descobriam com alguma frequência roupa, objetos íntimos e fotografias que pertenciam aos seus familiares — e era assim que tomavam conhecimento da sua morte.

O essencial do que aparece neste romance resulta, como bem se percebe, do registo histórico. Da invasão alemã da Checoslováquia ao que se passou em Theresienstadt e em Auschwitz-Birkenau. As descrições do campo das famílias, do campo das mulheres, de Auschwitz I, dos bordéis, da Haus der Waffen-SS, do Kanada, da Judenrampe, dos crematórios, dos gaseamentos, dos preparativos e da revolta do Sonderkommando e de uma sucessão de outros episódios, uns de grande importância e outros menores, correspondem a situações documentadas. Até a fuga de Auschwitz, apresentada no último capítulo com pormenores que poderão à primeira vista parecer fantasiosos e rocambolescos, é na verdade inspirada no que aconteceu durante uma fuga levada a cabo pelos prisioneiros polacos Kazimierz Piechowski, Jósef Lempart e Stanislaw Jaster e pelo prisioneiro ucraniano Eugeniusz Bendera. Convém aliás não esquecer que o Holocausto não envolveu apenas os judeus, embora estes se tivessem tornado o seu alvo privilegiado, mas abrangeu também os polacos, os ciganos e os soldados soviéticos.

Herbert Levin, a sua Gerda e o seu Peter são personagens verdadeiras. Levin era o elemento mais novo da Bolsa de Berlim, de onde foi despedido devido às leis raciais introduzidas por Adolf Hitler. Mudou-se então com a família para Praga, onde fazia espetáculos de magia com o nome artístico de Nivelli e onde abriu lojas de artigos de ilusionismo como o Hokus-Pokus. A família Levin foi deportada para Theresienstadt e depois para Birkenau, onde Herbert ficou alojado no bloco doze do campo das famílias e partilhou o beliche com Werner Reich. Sabemos que Gerda e Peter foram gaseados em Birkenau e que Levin sobreviveu, mas faltam-nos os pormenores. A passagem do mágico pelo Sonderkommando é uma ficção, embora os eventos no Sonderkommando aqui apresentados, incluindo o modo de vida, os episódios, os gaseamentos, as execuções a tiro e a revolta de 7 de outubro de 1944 não o sejam. Também o espetáculo de magia com que se conclui esta obra é produto da minha imaginação, embora seja verdade que Levin tenha sobrevivido a Birkenau à custa dos seus truques de ilusionismo.

Depois da guerra, Herbert Levin recuperou o Grande Nivelli e regressou à Alemanha para apresentar espetáculos de magia. Quando em 1947 conseguiu um visto ao abrigo de uma quota para deslocados que lhe permitia emigrar para os Estados Unidos, fez um derradeiro espetáculo no Teatro Schiffbauerdamm, em Berlim. A tabuleta à porta do teatro mostrava o título “Riso e Lágrimas”. O Grande Nivelli apareceu pela última vez perante o público alemão com uma farda listada de prisioneiro. Durante o espetáculo tirou a farda e vestiu os trajes exuberantes de um Harlequim, a sua forma de cortar com o passado negro e depositar esperança num futuro que desejava colorido. Uma vez na América, prosseguiu a sua carreira de ilusionista. Casou em 1948 com Lotte Sommers, uma alemã que era a única sobrevivente de uma família enorme. Lotte tornou-se sua assistente. Os espetáculos do Grande Nivelli ganharam alguma reputação, tendo o ilusionista chegado a exibir os seus números no Palace Theater de Nova Iorque e a fazer apresentações em cruzeiros. Herbert Levin morreu em 1977, dois dias depois de apresentar o seu último espetáculo, na Pensilvânia.

As figuras reais desta obra não se limitam aos Levin. Todos os elementos do Sonderkommando aqui apresentados correspondem a personagens históricas, a começar por Zalman Gradowski, Leib Langfus e Zalman Lewenthal, autores dos manuscritos que já referi. Também têm existência histórica o Oberkapo Yaakov Kaminsky, o Kapo Georges, o Kapo Eliezer, o Kapo Lemke, o Kapo Morawa e Miklós Nyiszli, e ainda Chaim, o homem que deu o primeiro golpe na revolta de 7 de outubro. O mesmo se passa com Shlomo. Róza Robota é igualmente uma figura histórica, o mesmo acontecendo com personagens do campo das famílias como o dinâmico Alfred Hirsch, que todos conheciam por Fredy; o Blockälteste Bondy, assassinado quando tentava evitar que as pessoas do campo das famílias entrassem nos camiões que as iam conduzir aos crematórios; e o Blockälteste Wítězslaw Lederer, que logrou escapar com a ajuda do SS Viktor Pestek e tentou comunicar ao mundo o que se passava em Auschwitz.

Do mesmo modo, quase todos os SS mencionados no romance são personagens reais. Comecemos pelos chefes. O Obergruppenführer Reinhard Heydrich, arquiteto da Solução Final, foi assassinado em Praga nas circunstâncias que este romance descreve. O Obersturmbannführer Rudolf Höss, o primeiro comandante do KL Auschwitz e responsável pela Aktion Höss, a operação de extermínio dos judeus húngaros em Birkenau, foi enforcado na Polónia em 1947. Höss deixou escritas memórias que constituem hoje uma importantíssima fonte de informação sobre o processo do Holocausto. O Sturmbannführer Richard Baer, terceiro comandante de Auschwitz I, viveu durante anos com uma identidade falsa. Capturado, acabaria por morrer no cárcere em 1963 quando aguardava julgamento. O Hauptsturmführer Josef Kramer, adjunto de Höss e depois comandante de Auschwitz II, ou Birkenau, foi enforcado na Alemanha em 1945. O Obersturmführer Johann Schwarzhuber, comandante do campo dos homens e do campo das famílias de Birkenau, foi enforcado na Alemanha em 1947. A Lagerführerin Maria Mandel, comandante do campo das mulheres de Birkenau, foi enforcada na Polónia em 1948. Já o Oberscharführer Kurt Knittel, responsável pelo Abteilung VI do KL Auschwitz, nunca foi preso; tornou-se professor depois da guerra e alcançou cargos honoríficos na Alemanha, vindo a morrer de causas naturais em 1998.

Quanto aos subordinados ligados ao processo de gaseamento, o Hauptscharführer Otto Moll, chefe dos crematórios e o mais temido de todos os SS de Birkenau, condecorado pelas autoridades nazis pelos seus “feitos” no extermínio dos judeus, foi enforcado na Alemanha em 1946. Desconhece-se o destino do seu inseparável comparsa, o Unterscharführer Josef Eckardt. O Hauptsturmführer Josef Mengele, médico em Birkenau e conhecido pelas suas experiências com gémeos, conseguiu fugir para a América do Sul e morreu afogado no Brasil em 1979. O Oberscharführer Peter Voss, chefe dos crematórios antes de Otto Moll, morreu de causas naturais em 1976. Desconhece-se o destino do Rottenführer Scheinmetz, um dos homens que lançavam o Zyklon B nas câmaras de gás. O Oberscharführer Erich Müshfeldt, Kommandoführer do crematório número um, foi enforcado na Polónia em 1948. Desconhece-se o destino do Unterscharführer Karl Steinberg, Kommandoführer do crematório número dois. O Scharführer Hubert Busch, Kommandoführer do crematório número três, foi condenado na Polónia a quinze anos de prisão e morreu de causas naturais. Por fim, o Unterscharführer Johann Gorges, Kommandoführer do crematório número quatro, nunca foi acusado e também morreu de causas naturais.

Por último, uma palavra sobre os SS mencionados neste romance e que não prestavam habitualmente serviço nos crematórios. O Unterscharführer Pery Broad, SS brasileiro nascido no Rio de Janeiro e que trabalhava no Politische Abteilung, a Gestapo de Auschwitz, tornou-se tradutor do exército britânico e passou quatro anos na prisão; morreu de causas naturais em 1993. O relatório que Broad escreveu para as autoridades britânicas permanece uma das melhores fontes sobre Auschwitz do ponto de vista das SS. O Hauptsturmführer Wilhelm Boger, também do Politische Abteilung, andou fugido durante anos até ser detido em 1959 e condenado a prisão perpétua, tendo morrido na cadeia em 1977. O Unterscharführer Viktor Pestek, Volksdeutscher romeno apreciado pelos prisioneiros do campo das famílias e que ajudou o Blockälteste Wítězslaw Lederer a fugir, foi capturado, torturado e executado pelo Politische Abteilung em 1944. O Unterscharführer Fritz Buntrock, envolvido na Selektion das oitenta e nove crianças que escaparam do campo das famílias, foi enforcado na Polónia em 1948. O Rottenführer Stefan Baretzki, Blockführer em Birkenau, só foi detido em 1960, tendo posto fim à vida no cárcere em 1988. O Rapportführer Oswald Kaduk foi sentenciado em 1965 a prisão perpétua e libertado em 1989 por razões de saúde, tendo morrido em 1997.

O personagem de Francisco é inspirado numa figura histórica que combateu de facto na Guerra Civil de Espanha pela Legião Estrangeira, ao lado do general Franco, e diante de Leninegrado pela Divisão Azul espanhola. Este personagem já tinha aliás aparecido nos meus romances A Vida Num Sopro e O Anjo Branco. Pouco se sabe sobre os portugueses que combateram pelo Terceiro Reich. O historiador alemão Hans Werner Neulen confirmou que havia “centenas de soldados portugueses na Divisão Azul, a maior parte dos quais vivia em Espanha”, e que “alguns deles, habitualmente voluntários, envolveram-se nos combates de retirada no Reich e pertenciam às Waffen-SS”. Com a ajuda da minha editora alemã, contactei a Deutsche Dienststelle, a agência governamental alemã que mantém registos de todos os combatentes das forças armadas alemãs, incluindo os soldados estrangeiros, e ainda o Bundesarchiv-Militärarchiv, o arquivo militar alemão, mas em nenhum dos dois organismos foram fornecidos dados úteis sobre os portugueses que integraram as SS.

Uma derradeira referência à relação entre a magia e o Terceiro Reich. As alusões à ligação do nazismo ao ocultismo são absolutamente rigorosas, ao ponto de o escritor Thomas Mann dizer que “as tendências fascistas [...] estão impregnadas de magia”. O nacional-socialismo tem várias origens intelectuais e entre elas encontram-se justamente as correntes esotéricas tão em voga naquele tempo por todo o Ocidente, mas em especial na Alemanha e na Áustria, com referências à Atlântida, às lendas nórdicas, à espiritualidade, à sabedoria do Tibete, à parapsicologia, à astrologia, à telepatia e demais ciências ocultas. Esse misticismo tendia a apresentar o mundo como um confronto entre o bem e o mal, a luz e as trevas, deuses e demónios, o espiritualismo e o materialismo. Os loiros nórdicos seriam virtuosos e teriam a centelha divina, os escuros seriam maléficos e demoníacos. Uma espécie de maniqueísmo extraído da banda desenhada de super-heróis belos e radiosos e vilões feios e tenebrosos, na qual muitos nazis, e em particular os SS, acreditavam com sinceridade.

Estas crenças desempenharam um papel importante no Holocausto, como a historiografia começa a reconhecer. A primeira obra que relacionou o nazismo com o ocultismo recua ao próprio ano da ascensão ao poder do nazismo, 1933, quando o jornalista francês Pierre Mariel, que aparentemente seria também um espião ao serviço do seu país, publicou Les Sept têtes du dragon vert. Seguiram-se outras obras publicadas em França ao longo dessa década e que culminaram em 1939 em Hitler et les forces occultes, de Edouard Saby, e Gespräche mit Hitler, de Hermann Rauschning, um nazi que conheceu pessoalmente o Führer e que terá descrito o nazismo como «socialismo mágico». Também Lewis Spence publicou, em 1941, uma obra com o título The Occult Causes of the Present War.

A ligação esotérica do nazismo foi sendo depois secundarizada, apesar de recuperada aqui e ali por obras como Le Matin des magiciens, de Jacques Bergier e Louis Pauwels, e The Spear of Destiny, de Trevor Ravenscroft. Até que por fim a historiografia se apercebeu de que a questão era mais séria do que à primeira vista poderia parecer e passou a dedicar-lhe maior atenção. “Os historiadores veem frequentemente as obsessões de Himmler pelo oculto como um aspeto exótico e marginal de uma vida dedicada ao policiamento eficiente e ao genocídio impiedoso”, observou o historiador Christopher Hale, mas “a verdade é que o entusiasmo de Himmler pelas civilizações perdidas, pela arqueologia pré-histórica, pelo Santo Graal e especialmente pelas origens das raças ‘indo-germânicas’ está intimamente ligado às ‘teorias’ que exigiam a eliminação dos desqualificados.” Também Heather Pringle constatou que “durante anos a maior parte dos historiadores desvalorizou o intenso interesse de Himmler pela antiguidade, considerando-o puro charlatanismo e misticismo mal-amanhado, um disparate que não desempenhou qualquer parte relevante nos planos para um estado nazi”, mas começa agora a emergir “uma imagem muito diferente”.

Cresce a convicção de que o papel que o charlatanismo ocultista exerceu no Holocausto não foi marginal, mas central. Juntamente com outros conceitos, as ideias místicas contribuíram diretamente para o extermínio de milhões de pessoas devido à crença nazi de que só assim se poderia recuperar a natureza divina dos arianos e consequentemente resgatar a humanidade do abismo animalesco a que a miscigenação com as raças demoníacas a estava a lançar.

Sei que este romance contém episódios duros de ler e de digerir. Porque os descrevi deste modo tão cru? Porque é assim que encaro a ficção. A literatura não existe simplesmente para nos entreter ou para fazer experiências de linguagem ou para que se ostentem exercícios de virtuosismo estilístico, embora tais caminhos sejam evidentemente legítimos, pertinentes e valiosos. A literatura existe sobretudo para nos dizer coisas, abrir janelas e derrubar barreiras. Ou pelo menos é assim que a vejo. “Penso que apenas devíamos ler livros que nos mordem e que nos perfuram”, defendeu Franz Kafka. “Se o livro que estamos a ler não nos abala e desperta como uma marretada no crânio, para quê lê-lo? [...] Um livro tem de ser um machado para o mar gelado dentro de nós.” É para isso que os romances servem, é por isso que os escrevo e foi por isso que escrevi este e o fiz desta forma.

Uma vasta bibliografia teve de ser consultada para que esta obra fosse possível. Sobre o Holocausto e Auschwitz em geral, recorri a Auschwitz — The Nazis & The ‘Final Solution’, de Laurence Rees; KL — A History of the Nazi Concentration Camps, de Nikolaus Wachsmann; The Origins of the Final Solution — The Evolution of Nazi Jewish Policy, 1939-1942, de Christopher Browning; Hommes et femmes à Auschwitz, de Hermann Langbein; L’État SS — Le Système des camps de concentration allemands, de Eugen Kogon; Ressources inhumaines — La Gestion des gardiens de camps de concentration, de Fabrice d’Almeida; Auschwitz — La Mémoire d’un lieu, de Annette Wieviorka; Hyppocrate aux enfers — Les médecins des camps de la mort, de Michel Cymes; Five Chimneys — A Woman Survivor’s True Story of Auschwitz, de Olga Lengyel; Forgotten Voices of the Holocaust — A New History in the Words of the Men and Women Who Survived, de Lyn Smith; Des Voix dans la nuit — La Résistance juive à Auschwitz, de Ber Mark; Guide historique d’Auschwitz — Et des traces juives de Cracovie, de Jean-François Forges e Pierre-Jérôme Biscarat; e O Ocidente no Divã — Uma Análise do Nazismo na Civilização Ocidental, de Jean-Louis Vullierme.

Toda a informação relativa ao que aconteceu no Sonderkommando de Birkenau resultou da consulta de Auschwitz — A Doctor’s Eyewitness Account, de Miklós Nyiszli; Eyewitness Auschwitz — Three Years in the Gas Chambers, de Filip Müller; Sonderkommando — Dans l’enfer des chambres à gaz, de Shlomo Venezia; Au Coeur de l’enfer — Témoignage d’un Sonderkommando d’Auschwitz, 1944, de Zalman Gradowski; Dans l’horreur des atrocités, de Leib Langfus; Notes, de Zalman Lewenthal; e We Wept Without Tears — Testimonies of the Jewish Sonderkommando from Auschwitz, de Gideon Greif.

A propósito das SS e da forma como encaravam o Holocausto e Auschwitz, as obras consultadas foram “Speech of the Reichsführer-SS at the SS Group Leader Meeting in Posen (Poznan)”, de Heinrich Himmler; Commandant of Auschwitz — The Autobiography of Rudolf Hoess, de Rudolf Höss; Reminiscences, de Pery Broad; Diary, de Johann Paul Kremer; Für Volk and Führer — The Memoir of a Veteran of the 1st SS Panzer Division Leibstandarte SS Adolf Hitler, de Erwin Bartmann; Voices of the Waffen SS, de Gerry Villani; Waffen SS — Hitler’s Black Guard at War, de Christopher Ailsby; e The SS: Hitler’s Instrument of Terror — The Full Story from Street Fighters to the Waffen-SS, de Gordon Williamson. Ainda o estudo “The Third Reich Enlists the New Soviet Man: Eastern Auxiliary Guards at Auschwitz-Birkenau in Spring 1943”, de David Rich.

A respeito dos deportados do campo das famílias e de Herbert Levin, as fontes a que recorri foram Triumph of Hope — From Theresienstadt and Auschwitz to Israel, de Ruth Elias; Somewhere There Is Still a Sun — A Memoir of the Holocaust, de Michael Gruenbaum; Trapped — Essays on the History of the Czech Jews, 1939-1943, de Ruth Bondy; Theresienstadt, 1941-1945 — The Face of a Coerced Community, de H. G. Adler; Terezín — Voices from the Holocaust, de Ruth Thomson; In Spite of Auschwitz — Survival, Liberation, A New Life in America, de Klaus Pollak; Memoirs of the Birkenau Boys — After Those Fifty Years e Spring’s End, de John Freund; Landscapes of the Metropolis of Death — Reflections on Memory and Imagination, de Dov Kulka; The Death Camp Magicians — A True Story of Holocaust Survivors Werner Reich and Herbert Nivelli, de William Rauscher; Captivity, Flight and Survival in World War II, de Alan Levine; e Un Vivant qui passe — Auschwitz 1943 — Theresienstadt 1944, de Claude Lanzmann.

Sobre a invasão nazi da Checoslováquia, as fontes usadas foram Prague in Black — Nazi Rule and Czech Nationalism, de Chad Bryant; Prague in Danger — The Years of German Occupation, 1939-45: Memories and History, Terror and Resistance, Theater and Jazz, Film and Poetry, Politics and War e Prague in Black and Gold — The History of a City, de Peter Demetz; Under a Cruel Star — A Life in Prague, 1941-1968, de Heda Margolius Kovály; e The Killing of SS Obergruppenführer Reinhard Heydrich, de Callum MacDonald.

No que diz respeito ao impacto da magia e do esoterismo no pensamento nazi, recorri a Le Matin des magiciens, de Jacques Bergier e Louis Pauwels; Hitler’s Monsters — A Supernatural History of the Third Reich, de Eric Kurlander; Digging for Hitler — The Nazi Archaeologists Search for an Aryan Past, de David Barrowclough; The Occult Roots of Nazism — Secret Aryan Cults and Their Influence on Nazi Ideology, de Nicholas Goodrick-Clarke; Himmler’s Crusade — The True Story of the 1938 Nazi Expedition into Tibet, de Christopher Hale; The Master Plan — Himmler’s Scholars and the Holocaust, de Heather Pringle; Nazis and the Occult — The Dark Forces Unleashed by the Third Reich, de Paul Roland; Occult Reich, de J. H. Brennan; The Nazi Occult, de Kenneth Hite; Hitler’s Master of the Dark Arts — Himmler’s Black Knights and the Occult Origins of the SS, de Bill Yenne; From a “Race of Masters” To a “Master Race”: 1948 to 1848, de A. E. Samaan; e Aleister Crowley, the Beast in Berlin — Art, Sex, and Magick in the Weimar Republic, de Tobias Churton.

Sobre a magia e o ilusionismo em geral, as minhas fontes foram Hiding the Elephant — How Magicians Invented the Impossible, Art & Artifice and Other Essays on Illusion e The Last Greatest Magician in the World — Howard Thurston Versus Houdini & the Battles of the American Wizards, de Jim Steinmeyer; Magic, de Noel Daniel, Mike Caveney, Ricky Jay e Jim Steinmeyer; Sleights of Mind — What the Neuroscience of Magic Reveals About Our Brains, de Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde; Patter — Gags and Patter Lines for the Talking Magician, de Sid Lorraine; e The Book of the Law e The Book of Lies, de Aleister Crowley.

Por fim, o ângulo português, com o impacto do Holocausto entre os judeus portugueses e o envolvimento de portugueses na causa nazi, baseou-se na consulta de Portugueses no Holocausto — Histórias das Vítimas dos Campos de Concentração, dos Cônsules Que Salvaram Vidas e dos Resistentes Que Lutaram contra o Nazismo, de Esther Mucznik; Portugueses nos Campos de Concentração Nazis — As Histórias dos Portugueses Deportados para os Campos da Morte de Adolf Hitler, de Patrícia Carvalho; An deutscher Seite — Internationale Freiwillige von Wehrmacht und Waffen-SS, de Hans Werner Neulen; La División Azul — Sangre Española en Rusia, 1941-

1945, de Xavier Moreno Juliá; Rusia no es Culpable — Historia de la División Azul, de Enrique de la Veja Viguera; Más que unas Memorias — Hasta Leninegrado con la División Azul, de Vicente Linares; e A Mí La Legión! — De Millan Astray a las Misiones de Paz, de José Rodríguez Jiménez.

Não posso terminar sem uma palavra a todos aqueles a quem um agradecimento é devido pelo seu envolvimento neste projeto. Primeiro a um conjunto de pessoas que me deram indicações sobre pormenores diversos, como a minha editora alemã, Nicole Luzar, que me ajudou na pesquisa na Alemanha e em detalhes relacionados com a língua alemã; o meu primo Jan-Lukas Zeitz, que também me ajudou na língua alemã, o mesmo acontecendo com André Häbler Rente; Inês Espada Vieira e Miguel Vázquez Espada, no castelhano; Jitka Jaroměřská, no checo; e José Milhazes, no russo.

Obrigado ainda ao rabino Shlomo Pereira, por precisões relativas à cultura judaica; a Irit Doron, que me levou ao Yad Vashem, o Centro de Memória do Holocausto, em Jerusalém; a David Britland, que me deu alguns dados gerais sobre a vida do Grande Nivelli; e a Ondrej Psenicka e Karel Hybš, pelas pistas sobre o mundo da magia em Praga. Depois a Luís de Matos, o grande ilusionista português, pelas informações sobre a sua arte, e sobretudo por me ter apresentado Werner Reich e facilitado a nossa conversa. O Luís foi o primeiro grande entusiasta deste projeto.

A seguir um agradecimento aos rapazes de Birkenau. Dos oitenta e nove miúdos do campo das famílias que o doutor Mengele selecionou para viverem na altura do extermínio final, Selektion que decorreu nas circunstâncias que esta obra documenta, estive em contacto com três que me comunicaram pormenores e explicações que em muito enriqueceram o texto. Obrigado a Dov Kulka e John Freund, com quem troquei vários emails ao longo de todo o projeto, pela paciência e dedicação nos esclarecimentos.

Obrigado sobretudo a Werner Reich, meu amigo. O Werner, um judeu alemão de origem sefardita, conheceu pessoalmente Herbert Levin, a quem chamava Herr Levin. Partilhou com ele o beliche no bloco doze do campo das famílias e aí aprendeu as artes do ilusionismo, ao ponto de mais tarde, já nos Estados Unidos, vir a considerar a possibilidade de se tornar mágico profissional. Trocou centenas de emails comigo e passámos horas à conversa sobre a sua experiência em Birkenau. Sem o Werner, esta obra não existiria.

Levitando acima de todos, como a própria princesa Karnac, sempre a Florbela.

Table of Contents

 

PARTE UM

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

XII

XIII

XIV

PARTE DOIS

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

PARTE TRÊS

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

XII

XIII

XIV

XV

XVI

XVII

XVIII

XIX

XX

XXI

XXII

XXIII

A magia das cinzas

Nota final

Você terminou O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos

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