O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 30 de 50

Páginas do PDF

O Manuscrito de Birkenau

Capítulo V

.

 

 

O telefone tocou na altura em que Francisco procurava um pretexto para sair do Abteilung VI e ir visitar Tanusha ao Kanada. Ouviu a voz do Oberscharführer Kurt Knittel atender no seu gabinete e, depois de um curto silêncio e de algumas palavras ininteligíveis, ouviu o aparelho ser desligado. Instantes volvidos, o chefe do departamentoapareceu diante dos subordinados.

“Temos de preparar uma ação especial de propaganda”, anunciou em tom grave. “Acabei de ser informado pelo comandante Baer de que estalou uma sublevação em Varsóvia. Com os russos nos arredores e os apelos à revolta na rádio inimiga, os polacos atacaram os nossos homens à traição e assumiram o controlo do centro da cidade. O inimigo vai usar isto para atiçar ainda mais a população contra nós. Não podemos ficar de braços cruzados. Temos instruções para lançar uma Aktion de contrapropaganda que assegure a tranquilidade no Katzet. É preciso que os prisioneiros polacos não levantem a grimpa.”

“Deveremos decretar um recolher obrigatório, Oberscharführer?”

“De modo nenhum”, respondeu o chefe do departamento. “Não podemos dar sinais de nervosismo. Temos de mostrar firmeza e tranquilidade. É preciso que os prisioneiros percebam que estamos no controlo da situação.”

Ora ali estava o pretexto que procurava, percebeu Francisco.

“Antes de fazermos o que quer que seja, Oberscharführer, talvez fosse conveniente sentirmos o pulso ao ambiente no Katzet”, propôs. “Tenho bons contactos entre os prisioneiros em Birkenau e poderia ser útil falar com eles.”

“Boa ideia”, aprovou o chefe do Abteilung VI. “Faça isso.” Voltou-se para outro subordinado. “Wolf, convinha que se começasse já a...”

Sem perder tempo, o SS português abalou dali.

 

O ambiente entre os prisioneiros no Kanada era diferente do habitual. Ao entrar no setor, Francisco apercebeu-se de que os semblantes dos reclusos se mostravam mais sorridentes que o normal e por toda a parte se viam pessoas a cochichar com entusiasmo indisfarçável. As notícias corriam depressa e estavam a galvanizar os prisioneiros. Os próprios guardas davam sinais de perturbação.

“Então, camarada?”, atirou a um SS-Mann de sentinela. “Como estão os prisioneiros?”

“Excitados”, foi a resposta. “Esta história de Varsóvia não veio nada a calhar. Já viste isto? Está bonito, sim senhor.”

“Achas que os prisioneiros poderão fazer alguma coisa?”

O rosto do alemão contraiu-se num esgar pouco tranquilo.

“Eles que tentem...”

Depois de se afastar da sentinela, Francisco ainda se abeirou de prisioneiros que conversavam como se conspirassem, mas a simples aproximação de um SS era suficiente para que as conversas fossem suspensas. Os reclusos nunca confiariam nele.

No barracão onde Tanusha trabalhava, a Blockälteste mostrou-se embaraçada quando Francisco a interpelou e perguntou pela russa. A responsável pelo trabalho, uma polaca de triângulo vermelho, pestanejou nervosamente.

“Ela... uh... não... não está aqui de momento.”

“Não está? Então está onde?”

“Bem... penso que... que foi às latrinas.”

O comportamento da Blockälteste, mais que estranho, era suspeito. Para quê tanto embaraço por causa de uma simples ida às latrinas? Desconfiando que algo de anormal se passava, o português pegou-lhe subitamente pelo pescoço e ergueu-a no ar.

“Onde está a Tanusha?”

“Agh... ah...”

Sempre com a Blockälteste pendurada e a espernear, Francisco segredou-lhe ao ouvido.

“Ou me dizes imediatamente o que se está a passar ou parto-te o pescoço e depois conto que te ouvi a gabar a insurreição em Varsóvia.”

A polaca percebeu que ele não estava a brincar.

“A... ali”, gaguejou, com dificuldade em respirar. “Agh... ela está... ali.”

Francisco pousou-a no chão.

“Onde?”

Afogueada e ainda a tentar recuperar o fôlego, a Blockälteste indicou uma porta ao fundo do barracão.

“Foi para o... o armazém.”

A atenção do português fixou-se na porta. O que se passaria ali que a responsável do barracão não queria que ele visse? No momento em que se ia dirigir ao local, a porta abriu-se e viu sair um homem loiro, com farda SS branca e estatura mediana. Conhecia-o de vista e sobretudo de reputação; tratava-se do Hauptscharführer Otto Moll. Ignorando as pessoas em volta, o chefe dos crematórios ajeitou ao peito a Kriegsverdienstkreuz com espadas com que acabara de ser condecorado pelos elevados serviços que prestara ao Reich, percorreu o barracão em passo apressado e saiu porta fora.

Depois de atirar um olhar perplexo à Blockälteste, que baixou os olhos, Francisco encaminhou-se para o local de onde o oficial SS acabara de sair. A porta ficara encostada e o português empurrou-a. Viu um vulto no chão.

“Tanusha?”

A rapariga pôs-se em pé e, cambaleando, olhou para ele; estava despenteada e sangrava do canto do lábio.

“Fran... Francisco!”

Correu para ela e amparou-a nos braços.

“O que aconteceu?”

“Foi... foi ele”, titubeou a russa, a voz fraca. “Exigiu que lhe organizasse umas pedras preciosas. Obrigou-me a tirar uns colares e vir aqui para o armazém, para que ninguém o visse a... a ficar com eles.”

A prática dos SS de irem ao Kanada exigir que os prisioneiros lhes entregassem valores encontrados nas bagagens dos deportados era comum e conhecida de Francisco. O ouro dos judeus era roubado por grande parte dos SS em proveito próprio, tendo em vista as dificuldades que se adivinhavam no pós-guerra. Ele mesmo já ficara com algumas joias que a namorada lhe organizara; tratava-se de uma forma de juntarem um pé-de-meia muito útil para quando um dia saíssem de Auschwitz. O que o português não compreendia era o estado em que Tanusha se encontrava.

“Porque te bateu ele?”

Os olhos azuis da rapariga começaram a humedecer.

“Porque... porque...”

A russa não conseguiu terminar a frase, mas não foi preciso porque Francisco reparou nesse instante numa pequena peça branca de roupa rasgada no chão e logo percebeu que eram as cuecas que Moll lhe havia arrancado à força.