O Manuscrito de Birkenau
Capítulo III
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Duas centenas de prisioneiras alinhavam-se na Appellplatz do campo das mulheres, todas nuas, os ossos e as costelas protuberantes, os edemas na pele à vista de todos. Diante delas estava um punhado de homens e mulheres fardados. Francisco reconheceu a Lagerführerin Mandel, que já tinha visto na hora da saída dos Arbeitskommandos. Atrás havia dois camiões de caixa aberta a aguardar as selecionadas para as levar para os crematórios. O português plantou-se junto das Blockältesten e das Califactorkas e, enchendo-se de coragem, preparou-se para ver o que o destino reservava à sua noiva.
O espetáculo era deprimente. Se as prisioneiras daquele campo já tinham um ar miserável, as que ali estavam eram as piores das piores. A maior parte não passavam de mortas-vivas que mal se tinham em pé. Umas estavam já prostradas no chão, indiferentes ao que lhes pudesse suceder, e outras balouçavam como se a qualquer momento fossem cair. As restantes também faziam aflição. A maioria parecia doente, os olhares febris e mortiços. E a nudez de todas era uma tristeza. Calvas, pele e osso, com feridas, arranhões e nódoas negras por todo o corpo, lama e excrementos nas nádegas e nas pernas. Nunca imaginara que uma mulher nua pudesse ser tão repugnante.
Lobrigou Tanusha numa das filas e sentiu o ânimo afundar-se ainda mais. Encontrava-se pior do que lhe parecera quando a vira vestida. Também ela tinha os ossos protuberantes e as costelas esculpidas sob a pele. Lá estavam os excrementos, a lama e as feridas. Era incrível que a rapariga tão bonita por quem se apaixonara na dacha de Sablino estivesse reduzida àquele espetro. Tanusha era uma sombra do que fora. Não se tornara ainda uma morta-viva, mas não andava lá longe. A diferença em relação às outras é que parecia aguentar-se. Mantinha-se ereta e não vacilava.
A voz da Lagerführerin soou na Appellplatz.
“O Doktor vai ver-vos uma a uma para decidir quem beneficiará da transferência”, anunciou. “Comecem a desfilar! Schnell! Schnell!”
Um SS com galões de Hauptsturmführer, o equivalente a capitão, deu nesse momento um passo em frente. Obedecendo à ordem da responsável do campo, as prisioneiras começaram a passar diante dele. Com um movimento subtil do dedo, e sem pronunciar uma única palavra, o oficial ia-lhes indicando o lado para onde deveriam ir.
Esquerda.
Esquerda.
Esquerda.
Direita.
Esquerda.
Esquerda...
Iam quase todas para a esquerda, percebeu Francisco. O que quereria aquilo dizer? Deu um passo para o lado e encostou-se a uma Califactorka.
“O que é a esquerda?”
A rapariga pareceu surpreendida com a pergunta.
“É... é a transferência, Herr SS-Mann.”
Ou seja, as da esquerda iam ser mortas. E de facto as que tinham sido selecionadas para esse lado estavam já a ser conduzidas, ainda nuas, para a carga dos camiões. As mortas-vivas que não conseguiam andar eram mesmo atiradas para o interior dos veículos como sacos de batatas.
Esquerda.
Esquerda.
Esquerda...
Fixou os olhos no Hauptsturmführer que conduzia a Selektion. Estava bem fardado, como requerido nas SS, com luvas brancas e as botas de cano alto impecavelmente engraxadas. Parecia impossível apresentar tanto aprumo no meio de tanta lama, mas o oficial conseguia-o.
“Quem é este Hauptsturmführer?”
A Califactorka voltou a lançar-lhe um olhar de espanto, como se a pergunta fosse ainda mais extraordinária do que a anterior.
“É Herr Doktor Mengele, Herr SS-Mann.”
Uma das Blockältesten juntou-se à conversa.
“O homem mais bonito do Katzet”, observou, como se esse dado fosse de enorme relevância. “Olhem para aquilo! Que espetáculo!”
“Parece o Clark Gable!”
As Blockältesten e as Califactorkas desataram a comentar em voz baixa a figura do Hauptsturmführer. Francisco atirou-lhes um olhar de estupefação. Aquelas prisioneiras pareciam mais interessadas nos atributos físicos do médico do que no destino das mulheres que ele selecionava para a morte.
Esquerda.
Direita.
Esquerda...
“Sabem se é casado?”
“Há de ser”, opinou outra Blockälteste. “De certeza que já alguém lhe deitou a unha.”
“Talvez dê umas voltinhas por fora...”
“Olha-me esta serigaita, a fazer-se ao piso. Aquilo não é peixe para as tuas águas, minha linda. Um homem destes nem repara em nós.”
Esquerda.
Esquerda...
O grupo da esquerda não parava de aumentar, enquanto para a direita iam pouquíssimas mulheres. Francisco sentia-se muito nervoso; o coração ribombava-lhe no peito. Queriam lá ver que o estafermo ia selecionar a sua Tanusha? O impensável começava a tornar-se provável. O homem ia mesmo mandá-la para a esquerda! Teve vontade de tapar os olhos; aquilo era de mais. Fitou Tanusha e viu-a na fila, a aproximar-se passo a passo do oficial, trémula, os olhos baixos.
Esquerda.
Esquerda...
O que faria se, como lhe parecia inevitável, o médico selecionasse Tanusha? Aquele esqueleto careca e ambulante coberto de feridas e excrementos nada tinha a ver com a rapariga das tranças de ouro que pedira em casamento em Pushkin. E, apesar de parecerem pessoas diametralmente diferentes, uma bela e esta hedionda, eram a mesma. A mesma. Aquele monte de ossos era a sua Tanusha.
Quase em pânico com a iminência de a ver enviada para a morte, teve assim resposta à pergunta que fizera a si mesmo pouco antes. Gostava dela ou da imagem dela? Apaixonara-se pela sua essência ou pela sua beleza? A verdade tornava-se clara. Parecesse Tanusha como parecesse, uma princesa ou uma bruxa, um anjo palpitante de vida ou um destroço à beira da morte, era a sua Tanusha. É certo que fora a beleza dela que primeiro o atraíra, mas agora o que amava era a sua essência. A essência, já não apenas a beleza.
Esquerda.
Esquerda...
O que faria então quando o médico das SS a enviasse para a esquerda? Ficaria passivamente a vê-la ser metida no camião e levada para os crematórios? Como viveria com isso? Teria de fazer alguma coisa. Mas o quê?
Esquerda.
Esquerda.
Esquerda...
Quando a Selektion terminasse iria falar com o médico e dir-lhe-ia que houvera um engano e uma das prisioneiras selecionadas era imprescindível. O médico acederia e mandá-la-ia sair do grupo das condenadas. Tanusha seria salva. Reconsiderou. As coisas não seriam assim tão fáceis. Ela era imprescindível para quê exatamente? À pergunta do médico, o que responderia? Que aquele esqueleto ambulante era uma peça fundamental para o bom funcionamento de um Kommando? Qual Kommando?
Uma coisa dessas não pegaria. O mais natural é que o médico nem se desse ao trabalho de lhe dar troco. Tratava-se de um Hauptsturmführer e ele não passava de um simples SS-Mann, ainda por cima estrangeiro. Mandá-lo-ia calar-se e dir-lhe-ia que não se metesse onde não era chamado. E seria a resposta mais benevolente, pois poderia muito bem ser acusado de desrespeito à hierarquia e punido.
Na fila, Tanusha tinha agora apenas umas vinte prisioneiras à sua frente.
Esquerda.
Esquerda...
Tinha de ser realista. O médico não iria aceitar nenhuma objeção. Lealdade e honra. Não era esse o lema das SS? Lealdade e honra. As ordens não se discutiam. O soldado podia não as compreender, podia nem concordar com elas, mas tinha de as cumprir escrupulosamente. Lealdade e honra.
Esquerda.
Esquerda...
Tanusha a dez prisioneiras de distância. A rapariga atirou-lhe um olhar ansioso e ele, buscando ânimo onde já não o tinha, devolveu-lhe uma expressão de confiança, como se já tivesse tratado de tudo e ela pudesse ficar descansada.
Esquerda.
Esquerda...
O coração de Francisco dava saltos no peito e o estômago começou a doer-lhe. O tempo esgotava-se. Voltou à questão que se pusera a si mesmo. O que faria quando Tanusha fosse selecionada? Teria de interceder pela noiva, isso parecia-lhe inevitável. O médico recusaria, isso era igualmente claro, e então o que faria? Deixá-la-ia ser levada para a morte sem nada fazer? E a fazer, faria o quê?
Esquerda.
Esquerda...
Tanusha a cinco prisioneiras de distância.
Tomou a decisão. Sacaria da pistola que trazia à cintura e mataria o Hauptsturmführer. A seguir abateria a Lagerführerin e os SS que estavam ao lado dela e... e....
E o quê? Onde os levaria isso? À salvação? Numa situação daquelas não havia salvação possível. Não podia enfrentar o campo todo, não podia matar todos os SS que lhe aparecessem, nada disso era realista. A verdade, a terrível verdade, é que não havia esperança.
Esquerda...
Tanusha a três prisioneiras de distância.
Esquerda...
Tanusha a duas.
Esquerda...
Era agora era agora era agora.
Direita.
Direita! Quase soltou um grito de alegria. Direita! Tanusha não fora enviada para a morte!