O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 2 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo I

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O preço da existência

 

É a guerra eterna

 

ALEISTER CROWLEY, The Book of Lies

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I

 

O choque de perceber que a rapariga cadavérica castigada no portão do campo das mulheres era Tanusha deixou Francisco desorientado. Duvidava dos próprios olhos. Tanusha? Aquele monte de ossos? Aquela careca de pele amarelada? Aquele farrapo imundo de gente? Tanusha? O que o convenceu foi a prisioneira ter pronunciado o nome dele.

Passado o impacto inicial, Francisco libertou-se do torpor e esbofeteou-a, projetando-a para a lama.

“Cala-te, cabra!”, vociferou. “Como te atreves a dirigir-me a palavra? Só falas com autorização, ouviste?” Virou-se para a Blockowa. “Há aqui algum sítio onde a possa interrogar a sós?”

“Só se for nos blocos, SS-Mann. Os quartos das Blockältesten são fechados.”

Com um movimento rude, Francisco pegou em Tanusha e obrigou-a a levantar-se. Puxando-a pelo braço com firmeza, fez sinal à Blockowa.

“Leve-me lá.”

Depois de seguir a mulher SS para o barracão mais próximo, o português entrou com Tanusha no quarto da Blockälteste e deu instruções estritas para não ser importunado enquanto interrogava a prisioneira. Fechou a porta e ficou a sós com ela. A rapariga fitava-o a tremer, ainda incrédula e visivelmente desorientada. Enternecido, Francisco envolveu-a com os braços e estreitou-a a si.

“Tanusha...”

Molhada e enregelada, a russa tremia sem cessar. Por uns segundos não reagiu, como se não passasse de um objeto inerte; estava sem resposta, decerto em choque. Um gemido suave assinalou o momento em que pareceu despertar e com os braços magríssimos devolveu-lhe o abraço.

“És tu?”, sussurrou, a voz fraca e trémula. “És mesmo tu?”

“Shhh!”, soprou-lhe ele, consolando-a. “Pronto, está tudo bem. Estou aqui. Está tudo bem.”

Ela chorou convulsivamente durante alguns minutos, a testa mergulhada no ombro enquanto ele a afagava e lhe segredava palavras de conforto. Cheirava a fezes e urina, mas o português não a largou. Ao fim de algum tempo, sentindo-se mais calma, Tanusha apartou-se ligeiramente.

“O que fazes aqui?”

“É uma longa história”, respondeu Francisco. “Mas pode-se dizer que me alistei nas SS para te salvar.”

A rapariga pestanejou, a esperança a bordejar-lhe nas pálpebras.

“Vais... vais tirar-me daqui?”

Ele engoliu em seco.

“Não é assim tão simples”, respondeu. “Vou tentar, mas será difícil.”

A deceção dela embaraçou-o. Jurara protegê-la, fizera desse juramento um propósito de vida, mas falhara e continuava a falhar.

“O mais importante neste momento é que te encontrei”, apressou-se a acrescentar. “O resto... veremos.”

“Porque me bateste?”

“Não posso ser visto a confraternizar com uma prisioneira. Se for apanhado serei punido e talvez executado. E tu também.”

Ela abanou a cabeça.

“Estes alemães são horríveis”, murmurou. “Horríveis. Isto parece um dos campos lá da Rússia. Se visses as coisas que se passam aqui...” Estremeceu. “A Margarita morreu no barracão e estes animais levaram a Olga.”

“Estive com ela.”

A afirmação surpreendeu-a.

“Com a Olga? Ela está bem?”

“Engordou e tudo.”

“Ah, que bom!”, suspirou, aliviada. “Andava tão ralada...”

O português deitou a mão ao bolso do sobretudo.

“Tu também precisas de engordar. Deves estar cheia de fome.”

Uma faísca de expetativa iluminou o rosto chupado de Tanusha.

“Trouxeste-me alguma coisa?”

O noivo tirou do bolso um embrulho envolto em papel de jornal que trouxera do Stammlager. A russa pegou nele, quase como se tivesse medo que desaparecesse, e com movimentos frenéticos rasgou o papel e abocanhou o pão com salsicha que o interior revelou. Mastigou com sofreguidão, como um animal selvagem, ainda mais voraz do que daquela vez em que lhe aparecera escanzelada no rio Ishora.

“Calma!”, aconselhou ele. “Come com calma, senão faz-te mal.”

Tanusha devorou o pão e a salsicha em apenas alguns segundos. A seguir pegou na maçã que ele lhe estendeu e trincou-a com a mesma sofreguidão.

“Hmm...”, gemeu de boca cheia. “Tão bom!” Mastigava com a fúria de uma selvagem. “Tchort! Não comia maravilhas destas há meses. Meses!” Depois de engolir um pedaço, meteu à boca o bocado final da maçã, incluindo os caroços. “Hmm... que delícia!”

Estudando-a com atenção, o português não pôde deixar de se sentir chocado com o estado a que ela chegara. Além de se começar a assemelhar a um dos mortos-vivos do campo, a noiva tinha a cabeça calva e a pele acinzentada coberta de edemas. O cheiro era nauseabundo.

“Estás doente?”

Ela lambia o suco da maçã que lhe ficara nos dedos.

“Toda a gente aqui está doente”, disse. “Todas as manhãs são retirados dez a vinte corpos do meu bloco durante o Appell.” Olhou para o cantil que ele trazia no cinto. “Tens água?”

Francisco tirou o cantil e deu-lho a beber. A noiva inclinou o cantil sobre a boca e engoliu tudo em goles sôfregos.

“Ena! Isso é que é sede!”

Quando esvaziou o cantil, lambeu o gargalo e, quase dececionada por não haver mais, devolveu-lho.

“Não bebia água assim tão boa desde... sei lá. É a melhor água do mundo.”

“Não há água aqui?”

Ela olhou-o com uma expressão fatigada.

“Deves estar a brincar”, disse. “Temos um poço para o campo todo.” Ergueu o indicador para sublinhar o número. “Um poço. Um. E somos trinta mil.” Arrotou, ainda sob o efeito da água que acabara de engolir. “Ainda por cima a água desse poço está contaminada. Antes de deitar os baldes temos primeiro de retirar os cadáveres.”

“Cadáveres? No poço?”

“Sim, cadáveres. Há pessoas que têm tanta sede que não aguentam e atiram-se lá para baixo. As mortas-vivas são peritas nisso. Puxar os corpos delas lá do fundo é o cabo dos trabalhos. Depois é uma luta para conseguir uma simples tigela de água. Parecemos uns animais. Empurramo-nos umas às outras, batemo-nos, arranhamo-nos. Só não puxamos os cabelos porque não os temos.” Ao referir-se aos cabelos passou a mão pela cabeça nua, subitamente consciente da sua imagem. “Estou... estou feia?”

“És linda.”

“A sério. Estou muito mal?”

Ele sorriu, tentando tranquilizá-la.

“Já estivemos os dois melhor, é verdade, mas fica descansada que voltaremos ao normal.”

A russa ia dizer qualquer coisa quando se dobrou, agarrada ao ventre. Com movimentos atabalhoados, retirou apressadamente do interior do vestido uma tigela de cobre imunda e, acocorando-se, colocou-a entre as pernas. Um líquido amarelado esguichou sobre a tigela, salpicando-lhe as coxas e libertando um odor ácido. Eram fezes.

Tanusha olhou-o, envergonhada.

“Desculpa.”

O noivo estava atónito com o que acabava de observar.

“Andas com um penico?”

“É... é a minha tigela da comida.”

“Que nojo!”, exclamou ele, reprimindo um vómito. “Cagas na tigela onde comes?”

“Todas fazemos isto”, defendeu-se a russa numa voz sumida de embaraço. “O que queres que te diga? Somos trinta mil no campo das mulheres e apenas temos uma latrina, que só estamos autorizadas a frequentar duas vezes por dia. Quando sofremos de diarreia, o que acontece a toda a hora, como querem que nos aguentemos? Imagina trinta mil prisioneiras com diarreia a tentarem entrar de manhã ao mesmo tempo na única latrina existente. Como ainda por cima quase não há água nas torneiras, a porcaria acumula-se por toda a parte. A merda chega-nos até aos joelhos. Se por acaso conseguirmos um lugar na bancada das retretes, as mulheres ao meu lado estão tão próximas que salpicam para mim. Portanto não vale a pena ir lá. Ora se não podemos ir à latrina e se não podemos cagar noutro sítio, porque senão matam-nos à pancada, o que sugeres que façamos? Temos de usar as tigelas da comida. Não há outra solução.”

O rosto de Francisco mantinha-se contraído num esgar enojado. A degradação das reclusas do campo das mulheres ultrapassava tudo o que lhe haviam dito no Stammlager.

“E vocês... vocês comem nessas tigelas?”

“Que remédio! Tento lavá-la o melhor que posso com a neve ou a pouca água que por aí há, claro, mas tenho mesmo de a usar. Só me dão comida se apresentar a tigela. Nem sei como vou fazer quando chegar o verão e a neve acabar...”

A rapariga pousou a tigela cheia de fezes líquidas num canto do compartimento, tentando afastá-la da vista do noivo, mas não tinha nada com que limpar-se. Estava reduzida a um estado selvagem.

“Há quanto tempo tens diarreia?”

“Desde que cheguei. Eu e todas as outras. Isto é um martírio constante, não calculas.”

Francisco retirou de outro bolso um pequeno embrulho.

“Trouxe-te uns medicamentos da farmácia das SS”, revelou. “Incluindo umas tabletes para a diarreia.”

“Como sabias que tinha diarreia?”

O SS começou a desembrulhar o pacote.

“Tu própria o disseste, toda a gente tem diarreia”, respondeu. “A disenteria é uma praga nos campos de concentração. Tens de ter cuidado com o que bebes, porque senão a diarreia não para. Não podes voltar a beber desse poço nem cagar na tigela onde comes.”

“O que sugeres? Que morra de sede ou à pancada por me borrar no chão?”

Era uma boa pergunta.

“Vou arranjar-te outra tigela.” Com o pacote já desfeito, estendeu-lhe o papel do embrulho. “Para já, usa isto.”

A russa pegou no papel e limpou o ânus e as coxas sujas de excrementos frescos. Enquanto se esfregava ia olhando para a seringa e as diversas embalagens que tinham saído do embrulho.

“O que é isso?”

“Na farmácia das SS disseram-me quais são as doenças generalizadas no campo. Além da disenteria, há tifo e tuberculose. Mandei embrulhar tudo o que existe para as tratar.” Pegou numa das embalagens. “Isto são vitaminas. Tens de as tomar para compensar as deficiências da alimentação.” Passou-lhe os olhos pelo corpo emaciado. “Tens pulgas?”

Quase como reação reflexa, Tanusha começou a coçar-se.

“Estou cheia delas.”

Francisco pegou na seringa e, fitando a ponta da agulha, fez um pequeno esguicho.

“Isto é uma vacina para a febre tifoide”, explicou. “Dá-me o braço.”

Enquanto a inoculava, o SS português estudava-a; era incrível como uma rapariga tão bonita se tinha gasto tão depressa. Tornara-se quase uma velha. Perguntou a si mesmo se gostaria dela ou da imagem dela. A imagem já ali não estava; o que ficara era a essência. A situação confrontava-o com os seus sentimentos. Se gostava de Tanusha por ser bonita, o objeto do seu amor já desaparecera. Mas se gostava dela por ser ela, ainda ali a tinha. Não sabia já o que verdadeiramente sentia. Amor pela beleza dela ou amor por ela? Sempre achara que se tratava da mesma coisa, afinal fora a beleza de Tanusha que primeiro o atraíra, mas percebia nesse momento que eram coisas diferentes. Amor à imagem ou amor à essência?

Retirou a agulha e a russa viu-o guardar a seringa.

“É verdade que estão a matar pessoas em fábricas?”

“Porque perguntas isso?”

Tanusha fez um gesto para o exterior do compartimento.

“Aqui ao lado do campo das mulheres há uma fábrica sempre a deitar fumo e a cheirar a churrasco”, disse. “Vemos muita gente a entrar e nenhuma a sair. Aparecem pessoas a pé ou em camiões, sempre com soldados e cães à volta. Às vezes ouvimos uns gritos e uns tiros. Corre por aí um boato sobre o que lhes acontece. Perguntámos à Blockälteste, mas ela disse-nos que é uma padaria e que não temos de nos preocupar.” Estreitou as pálpebras. “É mesmo uma padaria?”

As regras não escritas entre os SS interditavam-nos de falar sobre o assunto, sobretudo com os prisioneiros. Se dissesse alguma coisa e essa informação se espalhasse, Francisco sabia que ele próprio poderia ser detido e executado por traição ao Reich e conluio com o inimigo.

“O que achas?”

“Isso é o que eu te pergunto”, devolveu ela. “Há quem diga que estão a matar pessoas e que as labaredas na chaminé e o cheiro a churrasco são os cadáveres a ser queimados. As padarias não cheiram a churrasco. Mas... não pode ser, pois não?”

“Bem...”

“São mulheres, crianças e velhos. Que ameaça pode representar essa gente? Até vi bebés! Porque iriam os alemães matar bebés? Isso é absurdo. Os alemães não têm medo de invadir a Rússia, a França e mais não sei quantos países, mas têm medo de bebés? Não faz sentido. Além do mais, a Alemanha é um país civilizado, um país de progresso, muito mais avançado do que a minha pobre Rússia. Essa história não tem ponta por onde se lhe pegue.” Inclinou-se para ele, o olhar penetrante. “Ou estou enganada? A fábrica é uma padaria ou...”

Francisco não soube o que dizer. O edifício a que ela se referia era o crematório número um, contíguo ao campo das mulheres. Sentia-se tentado a revelar-lhe o que sabia, mas conteve-se. O risco era enorme e tinha de ser cauteloso. Para bem dos dois. Tanusha poderia contar às outras reclusas que a informação viera da boca de um SS. A notícia espalhar-se-ia e se o Politische Abteilung investigasse o assunto Tanusha e Francisco poderiam ser executados. Além disso, de que lhe serviria a informação?

“Não ligues a rumores”, acabou por responder. “O import...”

Um alvoroço repentino no exterior interrompeu-lhe o raciocínio. Ficaram ambos calados, atentos ao que se passava lá fora. A porta do compartimento abriu-se de repente.

“Appell!”, gritou a Califactorka. “Appell!”

A ajudante da Blockälteste desapareceu tão depressa como aparecera, percorrendo o barracão aos gritos de “Appell!” no meio de um grande rebuliço. Apanhados de surpresa, Francisco e Tanusha trocaram um olhar, ele de espanto, ela de pânico.

“Um Appell!”, exclamou a russa, levando a mão à boca. “E agora?”

“Vocês não tiveram já o Appell da manhã?”

“Isto é uma Selektion, não percebes?”

“Ela disse Appell...”

“Um Appell especial na hora do trabalho é uma Selektion. Estão a presumir que quem não saiu nos Kommandos e ficou no campo é porque está doente. Este Appell é uma Selektion!”

Ninguém no campo ignorava o que era uma Selektion, e muito menos eles. Os SS juntavam os presos e escolhiam alguns, muitos ou poucos conforme as circunstâncias e os objetivos, e levavam-nos. Se Tanusha apenas ouvia rumores assustadores sobre o destino dos selecionados, Francisco sabia muito bem o que lhes acontecia. Eram executados. Pery Broad contara-lhe que o novo comandante de Auschwitz tentara pôr fim àquela prática, na verdade chegara mesmo a suspendê-la, mas em janeiro fora forçado a retomá-la por imposição de Berlim.

O português olhou em redor, em busca de opções.

“Não há um sítio onde te possas esconder?”

“Qual sítio?”, perguntou ela, muito assustada. “Eles revistam o barracão. Além do mais a Blockowa sabe muito bem que estou aqui e a Califactorka acabou de nos ver.”

Ainda mais do que a noiva, o português sabia perfeitamente o que significava um prisioneiro ser apanhado nas redes de uma Selektion. Mas Tanusha tinha razão. Ninguém ignorava que ela se encontrava ali e os SS não descansariam enquanto não a localizassem. Se Tanusha se escondesse, seria inevitavelmente apanhada e executada.

A Califactorka voltou a passar em corrida diante da porta.

“Appell!”, gritou ainda. “Todos para o Appell! Schnell! Schnell! Depressa! Depressa! E dispam-se!”

Sabendo que não havia alternativa, Tanusha baixou-se para pegar na tigela cheia de excrementos e saiu cabisbaixa do compartimento.

“Vou deixar as minhas coisas na koia.”

Sozinho no quarto da Blockälteste, Francisco sentia-se absurdamente impotente. Com um suspiro pesado, também abandonou o compartimento e encaminhou-se para a saída do barracão. Que raio de homem era ele que jurara a si mesmo protegê-la e afinal se aprestava a vê-la ser selecionada para morrer?