O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 46 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo XXI

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O trovejar distante, cavado e profundo levou Francisco a fixar os olhos no horizonte; dir-se-ia uma tempestade e a impressão não era inexata. Não se tratava porém de uma tempestade qualquer; não era feita de relâmpagos nem de chuva ou sequer de nuvens, mas de aço e fogo, de milhares de projéteis vomitados por centenas e centenas de peças de artilharia e de Katyushas que devastavam tudo.

“Os russos se aproximam, hein?”

O SS-Mann voltou-se para o oficial que nas suas costas se lhe dirigira num português tropical.

“Estão a sessenta ou setenta quilómetros”, calculou Francisco. “Mais uma ou duas semanas e chegam cá.”

Não era preciso ser-se perito em questões militares para aceitar a evidência, pelo que o Unterscharführer Pery Broad se voltou para o interior da grande sala do Theatergebäude, o velho teatro de Auschwitz transformado em armazém que então retornava à sua função original. A esmagadora maioria das cadeiras estava ainda vazia e sobre a porta um cartaz anunciava a apresentação prevista para daí a dez minutos. As letras góticas garrafais faziam um anúncio intrigante.

 

O Grande Nivelli apresenta

a mulher serrada ao meio

 

O SS brasileiro contemplou o cartaz.

“O espetáculo terá de começar uma horinha mais tarde.”

O português coçou a nuca, preocupado com a falta de público.

“Não sei o que se passa”, confessou. “Se calhar o pessoal não está tão entusiasmado com a magia como eu pensava...”

“Está brincando? Uma garota serrada ao meio? Todo mundo no Katzet fala nisso! É a melhor maneira de esquecer toda essa bagunça. O problema é a execução no campo das mulheres. Muitos camaradas foram chamados p’ra garantir a segurança e isso os está atrasando.”

“Qual execução?”

“Você não sabe? Uns agentes infiltrados na fábrica da Union-Werke descobriram quem foram as judias que ajudaram o Sonderkommando. Roubavam pólvora e a esconderam nos crematórios. Foi com essa pólvora que os prisioneiros fabricaram as granadas. O pessoal do Politische Abteilung as identificou e deu um aperto nelas.”

Francisco sobressaltou-se; teria Levin sido denunciado?

“Puseram a boca no trombone?”

“Que nada”, admitiu o SS brasileiro. “A chefona é uma tal Róza. Moça durona. Os açougueiros do Politische Abteilung deixaram a cara dela em papa, mas não abriu o bico. Está agora sendo enforcada com mais três cúmplices. É por isso que seu espetáculo está atrasado, entendeu? Mas espera um pouquinho e o pessoal já vai chegando. Ninguém quer perder a garota serrada ao meio.”

O Theatergebäude situava-se no exterior de Auschwitz I, embora encostado à vedação. Ao longe estava Birkenau, para onde os olhos de Francisco se desviaram. Onde antes se erguiam os crematórios números um e dois, nada restava já. O Sprengkommando havia feito bem o seu trabalho. Os dois grandes edifícios cor de tijolo tinham sido totalmente demolidos e no seu lugar estendia-se um descampado anónimo. O mesmo sucedia com a pequena casinha branca a que chamavam Bunker e com o crematório número três, que já fora destruído durante a revolta do Sonderkommando. Para compensar, o crematório mais longínquo permanecia em pé.

“Quando vão demolir o número quatro?”

“Em breve”, foi a resposta. “Esse Krema ainda é necessário para os Muselmänner e os executados.”

“O Himmler não deu ordens para que as execuções parassem?”

“Sim, mas essa ordem não se aplica aos condenados por tribunal marcial. Ainda ontem fuzilaram duzentos poloneses, homens e mulheres, por crimes menores. Vi a sentença de um deles. Mataram o homem no Katzet por receber em casa um familiar fugido da Gestapo.”

Uma voz interrompeu-os em alemão.

“Alguém disse Katzet?”

Os dois voltaram-se e viram o doutor Mengele, que acabara de chegar ao Theatergebäude impecavelmente fardado, como sempre.

“Ach, Doktor!”, desculpou-se Broad. “Estávamos a falar em português.”

“Por determinação superior, Auschwitz já não é um Katzet, um campo de concentração”, lembrou o médico. “É doravante um Arbeitslager, um campo de trabalho.”

“Justamente, Doktor. Diante do fuzilamento daqueles polacos condenados em tribunal marcial, aqui o meu camarada português perguntava-me quando vão acabar todas estas execuções.”

O doutor Mengele virou-se para Francisco.

“Mein Freund, es geht immer weiter, immer weiter...”, respondeu. “Meu caro, continua e continua...”

O médico afastou-se e encaminhou-se para o interior do edifício, manifestamente com a intenção de assistir ao espetáculo.

“P’ra ele é fácil falar”, observou Broad de novo em português. “Acabou de receber os papéis de transferência e vai regressar ao Reich. Nós teremos de permanecer aqui até a evacuação final. Que saco!”

Os dois ficaram a observar o doutor Mengele a percorrer a grande sala do Theatergebäude até se sentar na primeira fila, mesmo por detrás de um grupo de prisioneiros com instrumentos musicais. Pela sala deambulava também o Oberscharführer Knittel, o comandante do Abteilung VI, que com grande soberba afastou as cortinas e entrou no palco.

“O meu chefe gosta de brilhar e pedi-lhe que fosse o mestre-de-cerimónias”, explicou Francisco. “Entusiasmou-se durante os ensaios e até mandou mais gente ajudar-nos.” Indicou os prisioneiros com os instrumentos musicais. “É a orquestra de Auschwitz I. Passámos a última semana a ensaiar.”

Estas novidades suscitaram curiosidade a Pery Broad, intrigado com o que iriam ver essa noite, mas quando se preparava para fazer perguntas ouviram um burburinho e viraram-se para trás. A chegada do doutor Mengele tinha sido um prelúdio, pois uma multidão de SS aproximava-se à conversa. Vinham de Birkenau e encaminhavam-se para o edifício onde já tudo estava a postos para a exibição de magia. Claramente o enforcamento de Róza Robota e das suas três companheiras da Union-Werke tinha terminado e os alemães dirigiam-se ao Theatergebäude para o espetáculo seguinte.

Percebendo que chegara a hora, Francisco fez sinal aos camaradas do Abteilung VI com a função de figurantes e dois deles apareceram no exterior com baldes. Quando os oficiais vindos do campo das mulheres cruzaram a porta do Theatergebäude, os figurantes despejaram o conteúdo dos baldes nas sarjetas. Era sangue e a cena fez os recém-chegados olharem com estupefação.

“O que é isto?”

Um dos SS-Mann que despejara um balde de sangue endireitou-se e fez a saudação hitleriana a um dos superiores hierárquicos.

“Heil Hitler!”, saudou. “São as experiências que correram mal, Obersturmführer.”

“Que experiências?”

“As da mulher serrada ao meio, Obersturmführer. O Grande Nivelli ainda está a afinar a sua magia e às vezes a serra falha o alvo.”

Os SS esboçaram um esgar vagamente impressionado e entraram a comentar o caso. Ainda se ouviu um deles praguejar um “Scheiße!”, enquanto outro observava jocosamente que “as experiências deste Nivelli são piores do que as do Doktor Mengele”. Constatando que o efeito pretendido fora alcançado, Francisco conduziu o brasileiro para o interior do teatro e levou-o ao lugar que lhe reservara. Depois de prometer voltar para assistir ao espetáculo junto dele, encaminhou-se para os camarins.

Os SS instalavam-se nos seus lugares. Os civis apareceram entretanto e em breve a grande sala ficou cheia de gente, a maior parte oficiais e SS-Männer, mais respetivas famílias, mas também algumas Aufseherinnen, as mulheres SS. Muitos conversavam ainda sobre os enforcamentos dessa tarde no campo das mulheres, mas as famílias mantinham os olhares expectantes na cortina púrpura diante da plateia.

A magia ia começar em Auschwitz.