O Manuscrito de Birkenau
Capítulo XVIII
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Pareciam pedaços de algodão soltos ao vento. Vinham de nenhures e cortavam o ar em milhares de traços brancos até pousarem suavemente na imensa alvura que cobria os telhados e o solo a perder de vista. Uma espécie de neblina abatera-se sobre Birkenau, clara embora espessa, transformando as torres de observação em fantasmas silenciosos; estavam lá mas apenas se vislumbravam vultos sombrios, como árvores escondidas no nevoeiro.
Apertando a gola do sobretudo, Francisco virou a cara de lado para se proteger da neve e do vento e acelerou o passo. Novembro chegara e aquele nevão era o primeiro da estação. Apenas ouvia a sua própria respiração, o som abafado das botas a mergulharem na neve e o vento a sibilar no arame farpado. Pensou que, se alguma vez fosse feita uma música sobre Birkenau, o assobio desafinado do arame teria de lá estar. Um outro, também obrigatório nas memórias sonoras daquele sítio, cortou o ar nesse momento; era o apito de um comboio que se aproximava da Judenrampe. O português teria de passar pela plataforma da via-férrea a caminho do crematório número dois e do Kanada, onde ia abastecer Levin e Tanusha de bens que adquirira na cantina SS. Ainda teve esperança de cruzar a linha antes que o transporte chegasse, mas o monstro negro, com fumo denso e escuro a rolar da chaminé, atravessou-se à sua frente, impetuoso e compacto, e travou com um guincho e um bafo prolongado. O comboio imobilizou-se na plataforma.
Havia vários SS plantados na Judenrampe. Ia pelos vistos decorrer mais uma das temíveis Selektionen. Enquanto se aproximava, Francisco ia tentando destrinçar o médico que decidiria quem seguiria para a direita e para a esquerda, quem viveria e quem morreria. Seria o doutor Mengele ou o doutor Wirths? Na verdade até podia ser qualquer outro, pois havia vários em Auschwitz habitualmente destacados para a Judenrampe. Perscrutando os rostos dos alemães, contudo, não lobrigou nenhum médico. De repente reconheceu Pery Broad. O que diabo estaria o brasileiro ali a fazer? Ao lado dele encontravam-se elementos do Politische Abteilung.
As portas dos vagões abriram-se e os prisioneiros, debilitados, desaguaram na Judenrampe. Percebia-se que se tratava de Muselmänner vindos de um campo de trabalho qualquer e enviados para Birkenau para tratamento especial. Os guardas que vinham no comboio gritaram-lhes instruções e deram-lhes uma ou outra bastonada, mas tudo parecia bem mais calmo do que era habitual. Não se viam cães nem Kommandos provenientes do Kanada para recolherem as malas nem hordas de SS a ladrarem ordens e a sovarem os recém-chegados.
Enquanto os prisioneiros formavam na Judenrampe, o grupo de Broad dirigiu-se aos guardas do comboio e falou com eles. À distância não se percebia o que diziam, mas a cara dos alemães recém-chegados mostrava surpresa. A seguir, e para espanto de Francisco, os guardas ordenaram aos prisioneiros que voltassem aos vagões. Contrariados, e sem perceberem a verdadeira natureza do sítio onde haviam chegado, os judeus regressaram ao comboio.
As portas dos vagões fecharam-se, a locomotiva apitou e a composição começou a recuar, voltando na direção de onde viera até cruzar novamente a grande torre que marcava o portão ferroviário de Birkenau e desaparecer na alvura da neblina e do nevão. O português estava estupefacto. Fora a primeira vez que vira um comboio sair da Judenrampe carregado de prisioneiros judeus. Com a plataforma de novo vazia, os homens do Politische Abteilung abandonaram a Judenrampe e encaminharam-se para um barracão, passando por Francisco.
“Oi”, cumprimentou-o Broad. “Tudo bem?”
“O transporte voltou para trás. O que aconteceu?”
“Chegou pela rádio uma nova ordem do Reichsführer-SS”, disse o brasileiro. “A partir de hoje é estritamente proibido matar prisioneiros no Katzet. O pessoal desse trem não sabia. Mandaram-nos para tratamento especial, mas já não podemos processá-los.”
O olhar de Francisco iluminou-se.
“Está a falar a sério? Acabaram os gaseamentos?”
“Ordens do Reichsführer-SS.”
“Mas... mas isso é magnífico!”
O brasileiro sorriu, concordando com o subordinado.
“É legal.”
“E agora?”
Broad apontou para os crematórios números um e dois, situados ao lado da Judenrampe.
“Vamos destruir os Kremas e tudo o que está relacionado com o tratamento especial. Não vai ficar pedra sobre pedra. Ninguém pode encontrar a menor prova da existência desses edifícios.”
“Então e o Sonderkommando?”
“Vão ser todos liquidados.”
“Mas acabou de dizer que Himmler proibiu que se liquidassem mais prisioneiros...”
“É verdade”, confirmou o oficial. “Mas o Sonderkommando é diferente. Temos de destruir as provas e as testemunhas do tratamento especial, mas não todas ao mesmo tempo. Uma agora, outra depois. Queremos usar alguns judeus p’ra desmontar os Kremas, pois sabem melhor do que ninguém o que há lá.”
Francisco coçou a cabeça. O mágico corria grande perigo.
“E os restantes prisioneiros do campo?”, perguntou, preocupado com Tanusha. “O que lhes vai acontecer?”
“Os russos estão se aproximando. Em breve vamos evacuar o Katzet.” Fez um gesto com a mão, indicando a neve em redor. “Não será moleza com esse tempo. O frio está chegando e os prisioneiros serão retirados a pé, porque os trens são necessários p’ros soldados. O pessoal levará dias p’ra chegar aos campos no Reich. Com tanto frio e sem comida, muitos vão morrer. As caminhadas serão marchas de morte. Temos outras prioridades nesse momento, n’é? Vai ser meio chato.”
“Marchas de morte?”
Broad assentiu.
“Não morrem no gás, morrem na estrada.”