O Manuscrito de Birkenau
Capítulo X
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Fazia calor em Auschwitz, pois era verão, o sol estava a pique e os termómetros subiam acima dos trinta Celsius. Ao chegar à borda da água, Francisco descalçou as botas e despiu a camisa e as calças da farda até ficar em cuecas. Sentou-se à beira da piscina e mergulhou as pernas na água. Estava fria e não muito limpa, mas isso não o perturbou.
“Herr SS-Mann!”, chamou um prisioneiro alemão, decerto um Kapo, que se banhava nessa altura. “Não me diga que vai dar um mergulhinho...”
“Vamos ver, vamos ver...”
Era o primeiro dia de folga do português em mais de duas semanas. Como sempre, por sua vontade daria um salto ao Kanada para passar a tarde com Tanusha. Como quase sempre, refreou esse desejo. Não podia passar a vida com a namorada, tanto mais que o apoio que lhe dera após a violação pelo Hauptscharführer Moll intensificara os burburinhos sobre a sua relação com ela. Tinha de ter cuidado, não só por sua causa mas também por Tanusha. Se houvesse um inquérito e ambos fossem considerados culpados de confraternização ilícita, a namorada seria executada e ele arriscava o mesmo fim.
Foi o medo de serem denunciados que nesse dia de folga o impediu de a visitar no Kanada. O problema era o que fazer com a folga. Noutros tempos teria dado um salto a um bordel, mas desde que conhecera Tanusha desinteressara-se do amor comprado. Outra opção seria imitar os seus camaradas SS e ir emborrachar-se na Haus der Waffen-SS ou em qualquer cervejaria da cidade. Os hábitos nórdicos não condiziam contudo com a sua natureza latina. Um português que se prezasse não se embebedava, muito menos com cerveja.
“Então, Herr SS-Mann?”, desafiou-o de novo o prisioneiro alemão. “Esse mergulho?”
O calor tornava-se insuportável e a água estava de facto convidativa, até porque com a diminuição dos transportes as cinzas haviam-se tornado raras. É certo que ainda se via à distância o tracejado a carvão do fumo de uma das chaminés a dispersar-se pelo céu azul, com certeza os judeus de Łódź a serem queimados, mas o que nessa altura se passava não tinha a menor comparação com a loucura que fora a liquidação quase completa dos judeus da Hungria nos dois meses anteriores.
Contemplou o retângulo azul diante dele e suspirou. A piscina de Auschwitz, situada no Stammlager entre a vedação e os blocos B6 e B7, era na verdade um reservatório de água no qual os bombeiros do KL haviam instalado uma prancha de mergulho. Alguns prisioneiros selecionados a dedo, sobretudo Kapos que as autoridades queriam premiar, eram autorizados a frequentá-la, o que explicava a presença daquele recluso.
Usando os braços como alavancas, impulsionou-se para a frente e deslizou enfim para a água.
Após o terceiro mergulho, emergiu à tona e apercebeu-se de um vulto. Um SS estava plantado à borda da piscina a olhar para ele com as mãos na cintura. Sacudiu a cabeça para expulsar a água que lhe turvava a visão e reconheceu-o.
“Opa!”, saudou-o o Unterscharführer Pery Broad. “Está gostosa?”
Francisco olhou em redor. O Kapo alemão já tinha abandonado a piscina e estava a sós com o brasileiro das SS.
“Nada má. Vai uma banhoca?”
“Quem dera! Essa água parece mesmo legal.” Abriu os braços num gesto de frustração. “Mas não posso.” Apontou para os barracões na esquina do campo, a centena e meia de metros de distância. “Estou indo p’ra uma reunião do Politische Abteilung no B11. A barra está pesada, n’é?”
“O que aconteceu?”
“Como os americanos entraram no Reich, o chefão quer...”
“Os americanos o quê?!”
Ao ver a surpresa no rosto do interlocutor, o brasileiro percebeu que ele não estava a par da novidade.
“Puxa, você não sabe? O inimigo chegou à Linha Siegfried e está atacando Aix-la-Chapelle. É a primeira cidade da Alemanha sob fogo inimigo terrestre. O povo já foi retirado, mas está todo mundo preocupado. Parece que o comandante da divisão panzer local disse ao inimigo que não resistiria à tomada da cidade, mas esse mau caráter já foi detido e terá de responder perante tribunal marcial. O meu chefe convocou o pessoal p’ra uma reunião de emergência.”
A notícia era em bom rigor esperada havia muito, tal a rapidez com que as forças aliadas tinham cruzado a França em direção à fronteira alemã. Mas uma coisa era prever que isso acontecesse e outra saber que acontecera mesmo. A importância de uma evolução daquelas no teatro de operações não podia ser menosprezada.
“E agora?”
“Agora... vamos à briga.”
Não era a resposta que Francisco esperava.
“Qual briga? Está tudo a desmoronar-se...”
“Não é bem assim”, corrigiu-o Broad. “Estamos falando da invasão da própria Alemanha. P’ros nossos soldados, essa já não é mais uma guerra dos nazis, não. É uma guerra dos alemães, você entendeu? Agora é mesmo a doer. Nem pensar em recuar.”
“Ninguém vai recuar?”
“Antes a morte.” Espreitou o relógio e pareceu alarmado. “Nossa! Estou atrasado!”
Acenou em despedida e abalou dali.
A pele dos dedos de Francisco já estava de tal modo enrugada pela água que ele saiu da piscina; passara uma hora inteira lá dentro e apetecia-lhe estender-se ao sol. Ao elevar-se para o exterior ouviu vozes e percebeu que vinha gente. Na verdade eram dois camaradas. Enquanto se secava com uma toalha, saudou-os com o “Heil Hitler!” obrigatório. A seguir alongou a toalha no chão e sentou-se sobre ela, preparando-se para se deitar e acolher o sol da tarde. Foi nessa altura que se apercebeu de um zumbido familiar. Subitamente alerta, perscrutou o céu. A noroeste viu um enxame de pontos escuros entre as nuvens.
Uma sirene começou a soar em contínuo pelo campo. Havia no KL vários tipos de sirenes, mas todos sabiam que o alarme em contínuo era o mais grave. Os SS acabados de chegar estavam a despir-se e ficaram momentaneamente desorientados, quase como galinhas aturdidas, sem saber se deveriam continuar a tirar as fardas ou se teriam de se vestir novamente, se deveriam ficar ali ou regressar aos seus postos.
“Scheiße!”
Com a palma da mão sobre a testa, como a pala de um boné, Francisco fixou os olhos nos enormes aviões que eram os pontos do enxame e não teve dificuldade em identificá-los. O nariz em vidro, os quatro motores e as vastas asas sobre o longo corpo mostravam que se tratava de Consolidated B-24 Liberator, os grandes bombardeiros capazes de atravessar o Atlântico graças à nova base dos Aliados nos Açores. Pormenor importante, eram americanos.
A primeira explosão não foi uma bomba, mas uma sucessão de bombas que erguiam colunas de pó em grandes penachos e um fragor tal que o ar começou a agitar-se e os próprios ossos do português estremeceram. Vendo as explosões para os lados de Birkenau aproximarem-se de Auschwitz I, onde se encontravam, os SS recém-chegados atiraram-se à piscina, embora ainda não se tivessem despido completamente, e Francisco imitou-os. Melhor abrigo do que aquele só um bunker subterrâneo de betão maciço.
Encolhidos dentro de água, as mãos agarradas à borda do tanque como se segurassem uma boia, os três homens assistiram a uma explosão em pleno Stammlager e depois viram os aviões passar sobre eles com um ronco medonho. As colunas de poeira levantavam-se já do outro lado entre detonações brutais, engolindo dessa feita Auschwitz III, onde se situava o complexo industrial de Monowitz. As explosões multiplicavam-se aí com uma intensidade hedionda. Dir-se-ia que a própria terra se abria para devorar a grande fábrica da IG Farben, onde tantos escravos judeus e polacos laboravam.
Os aviões seguiram a sua viagem e o zumbido depressa desapareceu, deixando o complexo concentracionário envolto em colunas gigantescas de poeira branca e fumo negro. Os principais danos pareciam ter ocorrido na fábrica de Monowitz, claramente o principal alvo, mas a preocupação de Francisco, como sempre, estava em Birkenau. Saiu da piscina, indiferente à nuvem de poeira que se abatera sobre o local, e vestiu-se apressadamente. Estaria Tanusha bem? Um dos postos de observação encontrava-se deserto, uma vez que os soldados tinham fugido para se abrigarem nos bunkers, pelo que o escalou em movimentos rápidos.
Uma vez lá em cima, fitou Birkenau no horizonte. Havia penachos de poeira sobre os barracões distantes. A metrópole da morte claramente tinha sido atingida, mas a zona onde se encontravam o Kanada e os crematórios permanecia intacta.