O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 21 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo VI

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Os gemidos atraíram a atenção de Francisco. O português tinha ido ao bloco onze de Auschwitz I procurar Pery Broad quando ao passar por um corredor foi surpreendido pelo barulho numa das salas. Espreitou pela porta e viu um homem pendurado com os braços atrás das costas numa corda, o tronco ensanguentado e três SS diante dele, um com uma chibata.

“Onde está o Lederer?”, perguntou o da chibata. “Fala, idiota!”

“Eu... eu não sei”, balbuciou o prisioneiro, ofegante. “Separámo-nos em Praga e não sei para onde ele foi.”

O SS desferiu-lhe dois golpes com a chibata, atingindo-o no peito e deixando-lhe marcas vermelhas.

“Sabes sim senhor! Onde está o Blockälteste Lederer?”

Fitando com atenção o homem pendurado, Francisco reconheceu-o. Tratava-se do SS romeno da unidade de trabalho de Levin que desaparecera havia alguns meses. Sentiu movimento e percebeu que havia um outro SS na sala a dirigir-se à porta para sair. Deu um passo para o lado, para o deixar passar, e reconheceu-o; era o Rottenführer Baretzki, com quem já se cruzara na Judenrampe e no campo das famílias. O Rottenführer tinha um ar perturbado. Viu-o cambalear no corredor e cair no chão.

“Sente-se bem?”

Ajudou-o a levantar-se.

“Eu... preciso de água.”

A salinha junto à latrina estava impecavelmente limpa, o que era raro em Auschwitz e se explicava por aquela divisão se destinar aos SS. Havia uma bacia com uma torneira, que o português abriu. Lavou a cara do camarada e deu-lhe de beber. Logo que se sentiu melhor, o Rottenführer sentou-se num banco.

“O interrogatório está a ser duro, hem?”, observou Francisco. “Quem é aquele?”

“Pestek”, foi a resposta. “Um camarada.”

Era isso, lembrou-se o português. O homem que estava a ser interrogado chamava-se Pestek. Um alemão da Roménia.

“Não foi o SS que desapareceu?”

“Hmm-hmm.”

“O que aconteceu?”

“Desertou”, indicou o alemão, abrindo os olhos para fitar o interlocutor. “Pior, ajudou um prisioneiro a fugir. Deu-lhe uma farda, passaram pelos portões e meteram-se num comboio para Praga.”

“Caramba!”, exclamou Francisco. “Estava mesmo com vontade de se ir embora.”

O alemão respirou fundo.

“O idiota é católico e não andava muito contente com o que se passa no Katzet. Ainda por cima parece que ficou embeiçado por uma judia do campo das famílias. Foi isso que o perdeu. Uma vez em Praga, obteve documentos falsos em nome dela e voltou a Auschwitz para a ajudar. O problema é que ela recusou, porque não queria abandonar a mãe, e o Pestek organizou a fuga de outro prisioneiro, um Blockälteste do campo das famílias. A coisa correu mal e apanharam-no em Birkenau.”

O SS-Mann português manteve o olhar preso no Rottenführer Baretzki. Bastava já o ter visto várias vezes na Judenrampe durante as habituais Selektionen para perceber que, ao contrário de Pestek, não tinha objeções ao que se passava em Auschwitz. No entanto, ali estava ele perturbado com o interrogatório a um desertor.

“Conhece o Pestek?”

O SS alemão assentiu.

“Desde a infância.”

“Ah.”

Já restabelecido, o Rottenführer Baretzki fitou o português.

“Não o vi já no campo das famílias?”

“Tive de ir lá algumas vezes tratar de um prisioneiro. Creio que nos cruzámos numa ou noutra ocasião.”

“Ach so.” Voltou para a bacia e abriu de novo a torneira, molhando mais uma vez a cara com água fria. “Vou muitas vezes ao barracão-escola desse campo ver os miúdos. Cantam, fazem teatro, leem poemas... é bonito.” Respirou fundo. “É pena que isso vá acabar.”

“Vão encerrar a escola?”

O alemão fechou a torneira.

“Não sabe?” Pegou numa toalha para secar as mãos. “A Cruz Vermelha Internacional visitou Theresienstadt. Foi um sucesso, graças às medidas para embelezar o ghetto. Os delegados fizeram um relatório favorável e acreditaram na peta que o Eichmann lhes enfiou de que Theresienstadt é o destino final dos judeus e que dali não há deportações. Por isso a Cruz Vermelha não virá a Auschwitz. Isto significa que o campo das famílias perdeu a utilidade. Veio de Berlim a ordem para o fechar.”

A novidade alarmou Francisco; havia algum tempo que a aguardava, mas mesmo assim era um choque.

“O que vai acontecer aos prisioneiros?”

“Começámos já a fazer Selektionen para enviar os mais saudáveis para campos de trabalho”, revelou o Rottenführer Baretzki. “Os outros vão para o tratamento especial. O campo será liquidado.”

“E... e as crianças?”

O alemão respirou fundo.

“Pois, esse é que é o problema”, reconheceu com desalento. “Vão igualmente para tratamento especial.”

Francisco grunhiu. O Rottenführer Baretzki passou a mão pelos cabelos; era evidente que o assunto também o incomodava.

“Ach, é horrível, eu sei”, desabafou. “Normalmente estas coisas não me afetam. Vou todos os dias à Judenrampe ajudar na Selektion e não tenho o menor problema com as crianças e bebés enviados para tratamento especial. Às vezes até os acompanho aos crematórios.” Engoliu em seco. “Mas este caso é diferente. Conheço estes miúdos. Tantas vezes fui ao barracão-escola vê-los cantar e fazer os teatrinhos que acabei por me afeiçoar a eles. Cheguei a jogar à bola com alguns e a dar-lhes bombons, veja lá. Até sei o nome de muitos. Por isso custa-me esta situação. Custa-me. A mim e a outros camaradas.” Sacudiu a cabeça. “Não vai ser fácil mandá-los para os crematórios.”

Não sendo inesperada, a intenção de matar as crianças no ato de liquidação do campo das famílias era terrível. Além do mais, deixava o filho de Levin numa situação muito delicada. A mulher do mágico tinha instruções para se candidatar às primeiras transferências e levar o miúdo com ela, mas quem garantia que as coisas iriam correr bem?

“Não será possível impedir que matem as crianças?”

“Sabe muito bem que não há lugar em Birkenau para crianças. Não só não trabalham como impedem as mães de trabalhar. Não passam de um estorvo, bocas inúteis que é preciso alimentar. Além do mais, se a solução do problema judaico passa pelo extermínio, que sentido faz preservar as crianças? Se não queremos que haja um futuro para os judeus e se as crianças são justamente o futuro, é evidente que temos de as liquidar. É por isso que, quando elas chegam nos transportes, são imediatamente enviadas para tratamento especial. As mães que não se querem separar dos filhos também vão.”

“Oiça, não será possível ao menos salvar algumas?”

“O que entende por algumas?”

“Umas... enfim... umas quinhentas crianças.”

O SS fez um gesto perentório com a mão.

“Isso significaria salvá-las todas”, disse. “Os nossos chefes nunca o permitiriam.”

“E menos?”

O Rottenführer Baretzki abanou a cabeça.

“Sinceramente, gostaria de as salvar, mas... não vejo como.”

O português esfregou o queixo, sempre à procura de uma solução. Pressentia naquele SS a vontade de fazer alguma coisa.

“O Rottenführer não disse que vários camaradas também se afeiçoaram aos miúdos e não estão contentes com a ordem?”

“E então?”

“Porque não nos unimos? Fale com os camaradas e protestemos junto do Lagerführer. Não é o Lagerführer que tem filhos e adora crianças?”

“Sim, é verdade. O Obersturmführer Schwarzhuber tem dois miúdos, um de seis e o outro de oito anos, e está muito ligado a eles. Uma vez o mais pequerrucho meteu-se pelo campo fora e desapareceu. Foi um susto. O Lagerführer pensou que alguém o poderia ter levado por engano para o crematório. Desde então que o miúdo anda sempre com um papel pendurado ao pescoço a identificá-lo.”

“Então o homem é sensível às crianças...”

“Sem dúvida.”

“Ora aí está!”, exclamou. “Porque não juntar os camaradas e ir falar com ele? Pode ser que o consigamos convencer.”

O Rottenführer Baretzki atirou um olhar interrogador ao SS-Mann. Pelo seu semblante percebia-se que a possibilidade que o português suscitava não lhe parecia totalmente disparatada. Não seria fácil convencer o Lagerführer, mas, considerando que outros camaradas não estavam contentes com os planos, uma coisa daquelas não se afigurava impossível.

Subitamente impelido à ação, o SS alemão abriu a porta do quarto do lavatório e saiu para o corredor.

“Venha comigo.”