Os Ensaios
Sobre versos de Virgílio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
sem roupagens. Com em os e bebem os com o os anim ais: m as essas não são atividades que im pedem nossa alm a de cum prir sua função. Portanto, nessas
m antem os nossa vantagem sobre eles. Mas aquela outra atividade põe
qualquer outro pensam ento sob seu j ugo: por sua im periosa autoridade
em brutece toda a teologia e bestializa toda a filosofia que há em Platão, que
no entanto não se queixa. Em qualquer outra circunstância podeis m anter
certa decência: todas as outras atividades toleram regras de decoro: esta não
podem os sequer im aginar senão viciosa ou ridícula. Tente-se encontrar um
j eito sensato e discreto de fazê-la! Alexandre dizia que sabia ser m ortal
principalm ente por esse ato, e por dorm ir: o sono abafa e suprim e as
faculdades de nossa alm a, o ato sexual as absorve e igualm ente as dissipa.
Sem dúvida, é um a m arca não só de nossa corrupção original m as tam bém de
nossa inanidade e deform idade. De um lado, a natureza incita-nos a isso,
tendo ligado a tal desej o a m ais nobre, útil e agradável de todas as suas
funções; e, de outro lado, deixa-nos acusá-la e evitá-la com o algo indecente e
desonesto, fazendo que nos envergonhem os e recom endem os sua
abstinência. Não som os um tanto brutos ao cham arm os de brutal ao ato que
nos cria? Os povos, nas suas religiões, têm coincidido em várias tradições,
com o sacrifícios, círios, incensos, j ej uns, oferendas: e, entre outras, na
condenação desse ato. Todas as opiniões convergem , além do uso tão
difundido das circuncisões. Tem os talvez razão de nos criticarm os por
criarm os um a obra tão parva com o o hom em : de cham ar de vergonhoso esse
ato, e de vergonhosas as partes que servem para isso (atualm ente as m inhas
são propriam ente vergonhosas). Os essênios de que fala Plínio m antiveram -se
por vários séculos sem am a de leite e sem enfaixar os bebês:428 graças à chegada dos estrangeiros que, seguindo essa bela atitude, se j untavam
continuam ente a eles; pois todo aquele povo arriscou-se a se exterm inar em
vez de envolver-se com um abraço de m ulher, e a perder a linhagem dos
hom ens em vez de engendrar um . Dizem que Zenão só teve relações com
m ulher um a vez na vida. E que foi por civilidade, para não parecer desprezar o
sexo com m uita obstinação. Todos evitam ver nascer um hom em , todos
acorrem para vê-lo m orrer. Para destruí-lo, procuram os um cam po espaçoso
em plena luz; para construí-lo, escondem o-nos num canto escuro e o m ais
estreito possível. É dever esconder-se para fazê-lo, e é um a glória, da qual
nascem várias virtudes, saber desfazê-lo. Num caso, é desonra, no outro, é
favor: pois Aristóteles diz, segundo certa expressão de seu país, que
“favorecer alguém ” quer dizer “m atá-lo”. Os atenienses, para igualar o
desfavor desses dois atos, ao terem de purificar a ilha de Delos e j ustificar-se
perante Apolo, proibiram no recinto da ilha qualquer enterro e qualquer parto
tam bém . Nostri nosmet poenitet. 429Tem os vergonha de nós m esm os.] Há nações em que as pessoas se escondem ao com er. Conheço um a senhora, e
das m aiores, que tem essa m esm a opinião de que m astigar é um gesto
desagradável: que rebaixa m uito a graça e a beleza das m ulheres: e não
gosta de se apresentar em público com fom e. E conheço um hom em que não
tolera ver os outros com erem nem que o vej am , e foge da presença deles
m uito m ais quando se enche do que quando se esvazia. E no im pério do grão-
turco se encontra grande núm ero de hom ens que, para se m ostrarem
superiores aos outros, nunca se deixam ver quando fazem suas refeições; que só fazem um a por sem ana; que se cortam e trincham o rosto; que nunca falam com ninguém . Pessoas fanáticas, que pensam honrar sua natureza
desnaturando-se; que se prezam pelo próprio m enosprezo e m elhoram -se
piorando-se. Que m onstruoso anim al que causa horror a si m esm o, que
renega seus prazeres, que se considera um desgraçado! Há hom ens que
dissim ulam sua vida,
Exilioque domos et dulcia limina mutant, 430
E, exilados, abandonam o lar e a soleira que lhes é doce,
e a escondem da vista dos outros hom ens: que evitam a saúde e a alegria
com o qualidades hostis e prej udiciais. Não só diversas seitas m as diversos
povos am aldiçoam o nascim ento e abençoam a m orte. Há aqueles para quem
o sol é abom inado, as trevas, adoradas. Só som os engenhosos para nos
m altratarm os: som os a verdadeira presa caçada pela força de nosso espírito,
esse perigoso instrum ento quando está desregulado.
O miseri! quorum gaudia crimen habent! 431
Ó infelizes! que de suas alegrias fazem um crim e!
Ei, pobre hom em , tens suficientes dissabores necessários sem aum entá-los
por tua invenção: e és bastante m iserável por tua condição natural sem sê-lo
por tua arte: tens feiuras reais e essenciais suficientes sem forj ares outras,
im aginárias! Achas que és m uito feliz se a m etade de tua felicidade não te
contraria? Achas que cum priste todas as tarefas necessárias que a natureza
te propõe, e que ela estej a ociosa se não te im puseres novas obrigações?
Não tem as ofender suas leis universais e indubitáveis, e te agarres nas tuas,
parciais e im aginárias: e quanto m ais particulares, incertas e contraditórias elas sej am , m ais tu lhes dedicas teus esforços. As regras positivas de tua
invenção, as de tua paróquia, te prendem : as do m undo não te afetam .
Percorre um pouco os exem plos dessas considerações: tua vida está cheia
deles! Os versos desses dois poetas432 tratando da lascívia com reserva e discrição, com o fazem , parecem -m e revelá-la e esclarecê-la m ais de perto.
As senhoras cobrem o seio com um véu, os padres, várias coisas sacras, os
pintores som breiam sua obra para dar-lhe m ais brilho. E dizem que o efeito do
sol e do vento é m ais intenso quando refletido do que quando direto. A quem
perguntava a um egípcio: “Que levas aí, escondido sob teu m anto?”, ele
respondeu sensatam ente: “Escondo-o sob m eu m anto a fim de que não saibas
o que é”. Mas há certas outras coisas que escondem os para m ostrá-las.
Escutai este agora, m ais solto:
Et nudam pressi corpus adusque meum. 433
E nua apertei-a contra m eu corpo.
Parece-m e que ele m e castra! Quando Marcial arregaça a roupa de Vênus a
seu j eito, não consegue m ostrá-la tão inteiram ente. Quem diz tudo nos farta e
nos enj oa. Quem se expressa com receio leva-nos a pensar em m ais do que
existe de fato. Há revelação nessa espécie de m odéstia: e notadam ente
quando nos entreabrem , com o fazem aqueles dois, um tão belo cam inho para
a im aginação: tanto o ato com o sua descrição devem ser com o que furtados.
O am or dos espanhóis e dos italianos, m ais respeitoso e tem eroso, m ais de
dengos e disfarces, agrada-m e. Não sei quem , antigam ente, desej ava ter a
goela com prida com o o pescoço de um grou para saborear m ais tem po o que
engolia. Esse desej o vem m ais a calhar na volúpia rápida e apressada: até m esm o em naturezas com o a m inha, que tenham o defeito da precipitação.
Para deter sua fuga e prolongá-lo em preâm bulos, entre eles tudo serve de
favor e recom pensa: um a olhadela, um a inclinação, um a palavra, um sinal. Não
faria um a bela econom ia quem pudesse j antar só a fum aça do assado? É
essa um a paixão que m escla bem pouca essência sólida com m uito devaneio
febril e vão: é preciso pagá-la e servi-la da m esm a m aneira. Ensinem os as
m ulheres a se valorizarem , a se estim arem , a nos divertir e a nos em bair. Nós,
franceses, fazem os nossa últim a investida prim eiro: há sem pre a
im petuosidade francesa. Se elas vão tecendo seus favores, oferecendo-os a
varej o, então cada um de nós, de acordo com seu valor e seu m érito, aí
encontrará um a ponta de ourela onde se segurar, até sua velhice m iserável.
Quem só tem a fruição na fruição, quem só ganha se ganhar tudo, quem na
caça só gosta da captura, não lhe cabe introm eter-se em nossa escola.
Quanto m ais escadas e degraus houver, m ais altura e honra haverá no últim o
assento. Deveríam os nos com prazer em ser levados a ele, com o se faz nos
palácios m agníficos, por diversos pórticos e corredores, longas e agradáveis
galerias e vários desvios. Esse escalonam ento de favores aum entaria nosso
prazer, nele nos deteríam os e am aríam os m ais tem po: sem esperança e sem
desej o não fazem os nada que valha. As m ulheres têm infinitam ente a tem er
nossa dom inação e nossa posse integral: depois que se entregaram
totalm ente à m ercê de nossa fé e de nossa constância estão um tanto em
perigo: essas duas virtudes são raras e difíceis, e, no caso das m ulheres,
assim que são nossas j á não som os m ais delas.
Postquam cupidae mentis satiata libido est,
Verba nihil metuere, nihil perjuria curant. 434
Depois que é saciado o desej o de sua im aginação ávida, eles não m ais
tem em o efeito de suas palavras, pouco lhes im portam os perj úrios.
E Trasônides, j ovem grego, depois de conquistar o coração de um a am ante
ficou tão apaixonado pelo am or que se recusou a possuí-la: para não
am ortecer, saciar e enlanguescer pelo gozo aquele ardor inquieto de que se
glorificava e se nutria. O preço alto dá sabor à carne. Vede com o a form a das
saudações, que é particular à nossa sociedade, abastardiza por sua facilidade
a graça dos beij os, que Sócrates diz serem tão poderosos e perigosos para
roubarem nossos corações. É um costum e desagradável e inj urioso para as
senhoras terem de em prestar seus lábios a qualquer um que tiver três lacaios
em seu séquito, por repugnante que sej a,
Cujus livida naribus caninis,
Dependet glacies, rigetque barba:
Centum occurrere malo culilingis. 435
Daquele que, de seu focinho de cão, pendem pedaços de gelo
esverdeados e cuj a barba se eriça, prefiro cem vezes lam ber-lhe o cu.
E nós m esm os nada ganham os com isso: pois com o o m undo está assim
repartido, para três belas cum pre-nos beij ar cinquenta feias, e para um
estôm ago sensível, com o são os de m inha idade, um beij o ruim significa pagar
caro dem ais por um bom . Na Itália, eles cortej am e fazem -se de am antes
enlevados até m esm o com aquelas que estão à venda, e desculpam -se dizendo que há graduações no prazer e que eles, m ediante seus serviços,
querem obter para si o que for o m ais com pleto. Elas só vendem o corpo: a
vontade não pode ser posta à venda, é livre dem ais e só pertence a si
m esm a. Assim , dizem eles que é a vontade que conquistam , e têm razão. É a
vontade que devem os cortej ar e convencer. Tenho horror a im aginar que
possa ser m eu um corpo privado de afeto. E parece-m e que essa loucura é
análoga à do rapaz que foi poluir por am or a bela estátua de Vênus que
Praxíteles fizera; ou à daquele egípcio furioso, inflam ado pelo cadáver de um a
m orta que ele estava em balsam ando e am ortalhando, e que m otivou a lei feita
depois no Egito, pela qual os corpos das m ulheres j ovens e bonitas e daquelas
de fam ília nobre seriam guardados três dias antes de passarem às m ãos dos
encarregados de cuidar do enterro. Periandro agiu m ais horrivelm ente:
estendeu o am or conj ugal (m ais regrado e legítim o) ao gozo com Melissa, sua
m ulher m orta. E não parece ter sido um capricho lunático da Lua, por não poder de outra form a desfrutar de Endim ião, seu favorito, fazê-lo adorm ecer
por vários m eses e alim entar-se com o gozo de um rapaz que só se m exia em
sonho? Da m esm a m aneira, digo que am am os um corpo sem alm a quando
am am os um corpo sem seu consentim ento e sem seu desej o. Nem todos os
gozos são iguais: há gozos éticos e lânguidos. Mil outras razões além do bem -
querer podem conceder-nos esse favor das dam as. Isso não é prova
suficiente de afeição. Nisso pode caber traição, com o em qualquer coisa: às
vezes elas só chegam com a m etade do traseiro; 436
tanquam thura merumque parent:437
com o se elas preparassem o incenso e o vinho:
absentem marmoreamve putes. 438
pareceria ausente ou de m árm ore.
Conheço um as que preferem em prestar aquilo a em prestar seu coche, e que
só se com unicam dessa form a. É preciso ver se vossa com panhia agrada-lhes
para m ais algum outro fim ou som ente para aquele, com o a de um robusto
cavalariço qualquer; saber em que nível e a que preço sois estim ado por ela,
tibi si datur uni
Quo lapide illa diem candidiore notet. 439
se ela só se dá a ti, e com que pedra m ais branca m arca esse dia.
E que dizer então se ela com e vosso pão com o m olho de um pensam ento
m ais agradável?
Te tenet, absentes alios suspirat amores. 440
Ela te abraça m as seus suspiros vão para am ores ausentes.
Com o? Não vim os em nossos dias alguém ter usado esse ato para um a
terrrível vingança, para assim envenenar e m atar um a m ulher honesta? 441 Os que conhecem a Itália j am ais acharão estranho se, para esse assunto, não
procuro exem plos em outros lugares. Pois essa nação pode se considerar a
regente do m undo nesses assuntos. Eles têm correntem ente m ais m ulheres
belas e m enos m ulheres feias do que nós, m as quanto às belezas raras e
extraordinárias, considero que estam os par a par. E considero o m esm o
quanto aos espíritos: dos de qualidade corrente têm m uito m ais, é evidente.
Lá, a estupidez é, sem com paração, m ais rara, m as em alm as singulares e do
m ais alto nível, não lhes devem os nada. Se eu tivesse de prolongar esse
paralelo, m e pareceria poder dizer a respeito da valentia que, ao contrário, ela é, em com paração com eles, popular e natural entre nós, m as por vezes a
vem os, entre eles, tão plena e tão vigorosa que supera todos os exem plos
m ais tenazes que tem os. Os casam entos desse país falham no seguinte: seus
costum es fazem em geral a lei tão dura para as m ulheres e tão escravizante
que a m ais rem ota relação com um estranho é considerada tão grave quanto
a m ais íntim a. Essa lei faz que todas as abordagens se tornem
necessariam ente carnais: e j á que tudo para elas vem a dar no m esm o,
podem escolher com facilidade. E terão elas quebrado essas barreiras?
Pode-se acreditar em m im , elas pegam fogo: Luxuria ipsis vinculis, sicut fera
bestia, irritata, deinde emissa. 442 A luxúria irritada pelos ferros é com o um a fera que soltam os.] É preciso soltar-lhes um pouco as rédeas.
Vidi ego nuper equum contra sua frena tenacem
Ore reluctanti fulminis ire modo.443
Vi outrora um cavalo rebelde ao freio lançar-se, com a boca rebelde, com o
um raio.
Atenua-se o desej o de com panhia dando-lhes certa liberdade. É um belo
costum e de nosso país que nossos filhos sej am recebidos com o paj ens nas
boas casas para aí serem criados e educados com o em um a escola de
nobreza. E dizem que é descortesia e inj úria recusar-se um fidalgo. Observei
(pois cada casa tem seus estilos e form as diferentes) que as senhoras que
quiseram dar às donzelas de seu séquito as regras m ais austeras não tiveram
m ais êxito. Nisso é preciso m oderação. É preciso deixar boa parte de sua
conduta à própria sensatez delas, pois assim não há disciplina que consiga
refreá-las de todo. Mas é bem verdade que aquela que escapou, com os anéis salvos, de um a educação livre inspira bem m ais confiança do que outra
que saiu incólum e de um a escola severa e sem elhante a um a prisão. Nossos
pais form avam o com portam ento de suas filhas para a vergonha e o m edo (os
corações e os desej os sem pre foram iguais), e nós, para a segurança: m as
nada entendem os do assunto. Isso é coisa para as sárm atas, que só têm
direito de deitar com um hom em se com as próprias m ãos tiverem m atado
outro na guerra. Para m im , que nisso não tenho direitos senão o de ser
ouvido, basta que elas m e retenham com o conselheiro, de acordo com o
privilégio de m inha idade. Aconselho-as então, e a nós tam bém , a abstinência:
m as se este século é grande inim igo dela, pelo m enos que m ostrem discrição e m odéstia. Pois, com o reza a história de Aristipo falando a rapazes que
enrubesciam ao vê-lo entrar na casa de um a cortesã: “Vício não é entrar aqui,
m as não sair daqui”. Quem não quiser salvar sua consciência, que salve ao
m enos seu renom e: se o fundo não vale m uito, pelo m enos que a aparência
resista. Louvo a gradação e a dem ora com que elas dispensam seus favores.
Platão m ostra que em toda espécie de am or a facilidade e a presteza são
proibidas aos j ovens cortej ados. Entregar-se assim por inteiro, de m odo
tem erário e irrefletido, é sinal de gula, que elas devem encobrir com toda a
sua arte. Com portando-se em suas concessões de form a ordenada e
com edida, aguçam bem m ais nosso desej o e escondem o seu. Que fuj am
sem pre diante de nós: refiro-m e até m esm o àquelas que pretendem se deixar
apanhar. Elas nos vencem m elhor fugindo, com o os citas. Na verdade,
segundo a lei que a natureza lhes dá não lhes cabe propriam ente querer e
desej ar: seu papel é suportar, obedecer, consentir. É por isso que a natureza
lhes deu um a disponibilidade perm anente; e a nós, rara e incerta. Para elas
sem pre é hora, a fim de que estej am sem pre prontas para a nossa: Pati
natae. [Nascidas para suportar.
E enquanto a natureza quis que nossos apetites fossem visíveis e
proem inentes, fez que os delas fossem ocultos e internos. E m uniu-as de
partes im próprias à ostentação e sim plesm ente para a defensiva. Devem ser
deixados para a licenciosidade das am azonas os exem plos que se seguem .
Passando Alexandre pela Hircânia, Talestris, rainha das am azonas, foi
encontrá-lo com trezentos soldados de seu sexo, bem m ontados e bem
arm ados, tendo deixado o restante de um grande exército que a seguia para
lá das m ontanhas vizinhas. E ela lhe disse bem alto e em público que o rum or
de suas vitórias e de seu valor a levara até lá para vê-lo, oferecer-lhe seus
m eios e sua força a serviço de suas em preitadas: e que, achando-o tão belo,
j ovem e vigoroso, ela, que era perfeita em todas as suas qualidades, o
aconselhava a que deitassem j untos a fim de que da m ais valente m ulher do
m undo e do hom em m ais valente que então houvesse em vida algum a coisa
grande e rara nascesse para o futuro. Alexandre agradeceu-lhe as propostas
restantes: m as para dar tem po à realização de seu últim o pedido, deteve-se
treze dias naquele lugar, festej ando-os da m aneira m ais alegre que pôde, em
favor de tão coraj osa princesa. Som os em quase tudo j uízes iníquos das
ações das m ulheres, com o elas são das nossas. Confesso igualm ente a
verdade quando m e prej udica e quando m e serve. É um detestável
desregram ento que as leva com tanta frequência às m udanças e as im pede de firm ar sua afeição em qualquer obj eto que sej a: com o nos m ostra essa
deusa a quem se atribuem tantas m udanças e am antes. 444 Mas é verdade que é contra a natureza do am or não ser violento, e contra a natureza da violência
ser constante. E os que se espantam e clam am contra isso, e nas m ulheres
procuram as causas dessa doença, considerando-a desnaturada e
inacreditável, por que não veem quão frequentem ente são atacados por ela,
sem se apavorarem e sem achar que é m ilagre? Seria talvez m ais estranho
ver no am or a constância. Não é ele um a paixão sim plesm ente corporal. Se a
avareza não tem fim , nem a am bição, tam pouco tem fim a devassidão. Ela
ainda vive depois da saciedade: e não é possível prescrever-lhe satisfação
constante nem térm ino: sem pre vai além do que possui. E a inconstância delas
é talvez um pouco m ais perdoável que a nossa. Podem alegar, com o nós, a
tendência que nos é com um à variedade e à novidade. E alegar, em segundo
lugar, que, à diferença de nós, com pram gato por lebre. Joana, rainha de
Nápoles, m andou estrangular Andreosso, seu prim eiro m arido, nas grades de
sua j anela com um laço de ouro e seda, tecido por suas próprias m ãos:
porque nos deveres m atrim oniais não encontrava nele as partes nem os
esforços que respondessem o suficiente à esperança que sentira ao ver seu
tam anho, sua beleza, sua j uventude e disposição, razão pela qual fora
seduzida e enganada. Podem alegar que a ação dem anda m ais esforço que a
passividade: assim , que da parte delas, ao m enos, fornecem o necessário,
m as que de nossa parte pode acontecer outra coisa. Por isso, Platão
estabeleceu sabiam ente em suas leis que antes de qualquer casam ento, para
decidir sobre sua oportunidade, os j uízes vej am os rapazes pretendentes
totalm ente nus, e as m oças, nuas só até a cintura. Pondo-nos à prova, elas
talvez não nos achem dignos de sua escolha:
experta latus madidoque simillima loro
Inguina, nec lassa stare coacta manu,
Deserit imbelles thalamos. 445
depois de apalpar seu flanco e seu sexo m uito parecido com couro
m olhado, cansada de não ter conseguido erguê-lo com sua m ão, ela
abandona o leito nupcial, sem com bate.
Não basta ter vontade para que tudo ande direito: pela lei, a im potência e a
inabilidade anulam um casam ento:
Et quaerendum aliunde foret nervosius illud,
Quod posset Zonam solvere virgineam.446
Seria preciso procurar em outro lugar algum obj eto m ais m em brudo que
pudesse desatar o cinto virginal.
Por que não, e de acordo com a expectativa fem inina, um com portam ento
am oroso m ais licencioso e m ais ativo?
si blando nequeat superesse labori. 447
se ele não consegue executar essa doce tarefa.
Mas não é grande im pudência levar nossas im perfeições e fraquezas a um
lugar onde desej am os agradar e deixar de nós boa estim a e boa reputação?
Para o pouco de que preciso atualm ente,
ad unum
Mollis opus, 448
m ole, m esm o para um só trabalho,
não gostaria de im portunar um a pessoa que devo reverenciar e tem er.
Fuge suspicari,
Cujus undenum trepidavit aetas
Claudere lustrum. 449
Não desconfias daquele cuj a idade se apressou em com pletar seu décim o
prim eiro lustro.
A natureza devia contentar-se em ter tornado m iserável essa idade, sem
torná-la tam bém ridícula. Detesto ver a velhice, por um pingo de m ísero vigor
que a esquenta três vezes por sem ana, apressar-se e arm ar-se com a m esm a
veem ência com o se tivesse no ventre um a grande e legítim a proeza:
verdadeiro fogo de palha. E adm ira-m e que sua cham a tão viva e im paciente,
em um instante sej a tão gravem ente congelada e extinta. Esse apetite só
deveria pertencer à flor de um a bela j uventude. Só para ver, fiai-vos nisso
para sustentar esse ardor incansável, pleno, constante e m agnânim o que
existe em vós: e vereis que ele vos deixará, realm ente, bem no m eio do
cam inho! Devolvei o ardor de preferência a algum a terna, assustada e
ignorante j uventude, que ainda trem a diante da férula e que ainda enrubesça,
Indum sanguineo veluti violaverit ostro
Si quis ebur, vel mista rubent ubi lilia, multa
Alba rosa. 450
Com o se tivéssem os im pregnado um m arfim indiano de um púrpura
sangrento ou que lírios brancos se averm elhassem m esclados a um a braçada de rosas.
Quem conseguir, sem m orrer de vergonha, enfrentar no dia seguinte o
m enosprezo daqueles lindos olhos, testem unhas de sua flacidez e de sua
im potência,
Et taciti fecere tamen convitia vultus, 451
E seus olhares m udos estão porém carregados de censura,
este j am ais terá sentido a alegria e o orgulho de tê-los golpeado e em baçado
pelo vigoroso exercício de um a noite bem ocupada e ativa. Quando vi um a
m ulher entediar-se com igo, não a acusei im ediatam ente de leviandade: fiquei
na dúvida se não seria m ais razoável acusar, de preferência, a natureza. Sem
a m enor dúvida, ela m e tratou de m odo descortês e ilegítim o,
Si non longa satis, si non bene mentula crassa:
Nimirum sapiunt videntque parvam
Matronae quoque mentulam illibenter,452
Se m eu sexo não é longo o bastante nem m uito grosso: seguram ente elas
entendem disso, e veem com desprazer, as m atronas tam bém , um sexo
pequeno,
e causou-m e um dano enorm e. Cada um a de m inhas partes é igualm ente
m inha, com o qualquer outra. E nenhum a outra m e faz m ais propriam ente
hom em do que esta. Devo dar ao público m eu retrato com pleto. A sabedoria
de m inha lição está toda na verdade, na liberdade, na essência, desprezando,
no rol de seus verdadeiros deveres, essas pequenas regras falsas, usuais,
provincianas; ela é toda natural, constante, geral. Dela são filhas, m as bastardas, a civilidade e a cerim ônia. Vencerem os os vícios da aparência
quando tiverm os vencido os da essência. Quando tiverm os liquidado com
estes, correrem os contra os outros, se acharm os que é preciso correr. Pois
há o perigo de inventarm os deveres novos para desculpar nossa negligência
com os deveres naturais e para criar confusão entre eles. Vê-se que é assim
porque nos lugares onde os erros são crim es os crim es são apenas erros. E
nas nações onde as leis das regras sociais são m ais raras e frouxas, as leis
prim itivas da razão com um são m ais bem observadas, pois a inum erável
m ultidão de tantos deveres sufoca nosso zelo, enfraquecendo-o e dissipando-
o. A atenção às coisas pequenas afasta-nos das graves. Oh, com o esses
hom ens superficiais pegam um cam inho fácil e aprovado, com parado com o
nosso! São som bras com que nos cobrim os e nos pagam os m utuam ente. Mas
com elas não pagam os, ao contrário agravam os nossa dívida com esse
Grande Juiz que arregaça nossas fraldas e farrapos em torno de nossas
partes pudendas: e não hesita em ver-nos por inteiro, até nossas im undícies
m ais íntim as e secretas: nosso pudor virginal seria útil em sua decência se
conseguisse proibi-lo de nos descobrir. Afinal, quem liberasse o hom em de
um a superstição verbal tão escrupulosa não acarretaria grande perda ao
m undo. Nossa vida consiste parte em loucura, parte em sensatez. Quem só
escreve sobre ela com reverência e pelas regras deixa para trás m ais da
m etade. Não m e desculpo com igo m esm o: e se o fizesse, m e desculparia
m ais de m inhas desculpas que de outro erro m eu. Peço desculpas a certos
tem peram entos, que estim o m ais num erosos do que os que estão do m eu lado. Em consideração a eles, direi ainda isto (pois desej o contentar a todos,
coisa, porém , difícil, esse unum hominem accomodatum ad tantam morum ac
sermonum et voluntatum varietatem453 desej o] ser um hom em capaz de se adaptar a um a variedade tão grande de costum es, de discursos, de
sentim entos]): que não devem censurar-m e pelo que faço dizerem os autores
aceitos e aprovados há vários séculos; e que não é j usto que, por falta de
rim as, eles m e recusem a liberdade de que gozam neste século até m esm o
hom ens eclesiásticos, dos nossos. Aqui estão dois deles, e dos m ais
em inentes:
Rimula, dispeream, ni monogramma tua est. 454
Que eu m orra se tua fenda não for m ais que um a linha estreita.
Un vit d’amy la contente et bien traitte.
Um pênis de am igo a contenta e a trata bem . 455
E que dizer de tantos outros? Gosto da m odéstia, e não foi por m eu
j ulgam ento que escolhi esse m odo de falar escandaloso: foi a natureza que o
escolheu por m im . Não o louvo, não m ais que a todas as form as contrárias ao
uso consagrado: m as desculpo-o: e por circunstâncias tanto gerais com o
particulares atenuo sua condenação. Continuem os. Da m esm a form a, de onde
pode vir essa autoridade soberana e usurpada que nos arrogam os sobre as
m ulheres que, à própria custa, nos garantem seus favores?
Si furtiva dedit nigra munuscula nocte, 456
Se, num a noite negra, ela concedeu pequenos favores furtivam ente.
A ponto de investirm os im ediatam ente os direitos, a frieza e a autoridade de
um m arido? O am or é um a convenção livre, por que não nos ligarm os a ele com o desej am os que elas o façam ? Não há regras prescritas para as coisas
voluntárias. Isso é contra a praxe, m as a verdade é que em m eu tem po
conduzi essa negociação, tanto quanto sua natureza pode tolerar, tão
conscienciosam ente com o qualquer outra negociação, e com algum a
aparência de j ustiça: e que só m anifestei a elas a afeição que sentia; e
m ostrei-lhes com sinceridade sua decadência, seu vigor e seu nascim ento, os
acessos e as calm arias. Pois nisso não se anda sem pre na m esm a toada. Fui
tão avaro em prom eter que penso ter m ais cum prido do que prom etido ou
devido. Elas encontraram fidelidade, até m esm o a serviço de sua inconstância:
refiro-m e à inconstância confessa e às vezes m últipla. Nunca rom pi com elas
enquanto estava preso, ainda que fosse pela ponta de um fio. E nas poucas
ocasiões que m e deram para isso, j am ais rom pi até o desprezo e o ódio. Pois
tais intim idades, m esm o quando adquiridas pelos conluios m ais vergonhosos,
ainda m e obrigam a certa benevolência. Por vezes dem onstrei-lhes cólera e
im paciência um pouco exagerada, devido às suas artim anhas e esquivas. Pois
sou por tem peram ento suj eito a exaltações bruscas que, em bora sej am leves
e curtas, costum am prej udicar m eus negócios. Se quiseram pôr à prova m inha
liberdade de j ulgam ento, não hesitei em dar-lhes opiniões paternais e
m ordazes nem em cutucá-las ali onde lhes doía. Se deixei se queixarem de
m im foi m ais por terem achado m eu am or, se com parado com a prática
m oderna, tolam ente consciencioso. Respeitei m inha palavra em coisas de que
facilm ente teriam m e dispensado. Nessa época, às vezes se entregavam ,
salvaguardando sua reputação, m ediante cláusulas que facilm ente tolerariam que o vencedor infringisse. Mais de um a vez, no interesse da honra delas, fiz
ceder m eu prazer quando ele estava no auge. E quando a razão m e
pressionava até as arm ei contra m im , de tal m odo que se com portavam com
m ais segurança e severidade por m inhas regras, às quais se rem etiam
sinceram ente, do que o teriam feito por suas próprias. Tanto quanto pude
assum i sozinho o risco de nossos encontros para desobrigá-las disso; e
organizei nossas intrigas am orosas sem pre pelo cam inho m ais difícil e m ais
inesperado, por ser o m enos suspeito e tam bém , em m inha opinião, o m ais
prático. Muitos são descobertos principalm ente pelos lugares que consideram
os m ais escondidos. As coisas m enos tem idas são as m enos proibidas e as
m enos observadas. Podem os ousar m ais facilm ente aquilo que ninguém pensa
que ousarem os, e que se torna fácil por sua dificuldade. Nunca um hom em
teve com o eu suas abordagens m ais im pertinentem ente genitais. Esse m odo
de am ar é m ais consoante às boas regras. Mas quanto é ridículo e pouco
eficaz para os nossos contem porâneos, quem o sabe m elhor que eu? Todavia,
não m e virá o arrependim ento. Nada m ais tenho a perder,
me tabula sacer
Votiva paries, indicat uvida,
Suspendisse potenti
Vestimenta maris Deo. 457
o quadro votivo que suspendi na parede do tem plo m ostra que fiz oferenda
ao poderoso deus do m ar de m inhas roupas ainda m olhadas.
Chegou a hora de falar sobre isso abertam ente. Mas assim com o a um outro eu talvez dissesse: “Meu am igo, estás sonhando, o am or no teu tem po tem
pouco com ércio com a lealdade e a honestidade”,
haec si tu postules
Ratione certa facere, nihilo plus agas,
Quam si des operam, ut cum ratione insanias:458
se pretendesses sobm eter tudo isso à regra da razão, seria exatam ente
com o se te esforçasses para delirar racionalm ente:
assim , ao contrário, se m e coubesse recom eçar seria sem dúvida da m esm a
m aneira e no m esm o ritm o, por infrutífero que m e pudesse ser. A
incapacidade e a tolice são louváveis num a atividade não louvável. Quanto
m ais m e afasto dos hum ores dos outros, m ais m e aproxim o do m eu. Aliás,
nesse negócio eu não m e deixava levar por com pleto, deliciava-m e m as não
esquecia de m im m esm o, conservava intacto esse pouco de discernim ento e
de j ulgam ento que a natureza m e deu, para o serviço delas e para o m eu: um
pouco de em oção m as nada de loucura. Minha consciência tam bém se
envolvia até a libertinagem e a devassidão, m as não até a ingratidão, a
traição, a m aldade e a crueldade. Eu não com prava por qualquer preço o
prazer desse vício: e contentava-m e com seu custo próprio e sim ples. Nullum
intra se vitium est. 459Nenhum vício é fechado em si m esm o.] Detesto quase na m esm a m edida um a ociosidade estagnada e sonolenta e um a azáfam a
espinhosa e cansativa. Esta m e atazana, a outra m e entorpece. E gosto tanto
dos ferim entos com o das contusões, e dos golpes cortantes com o dos que
não rasgam a pele. Nesse m ercado encontrei, quando ele m e era m ais
propício, um a j usta m oderação entre esses dois extrem os. O am or é um a agitação esperta, viva e alegre. Não m e deixava perturbado nem aflito, m as
inflam ado e tam bém alterado; é preciso parar aí: ele só é nocivo para os
loucos. Um j ovem perguntava ao filósofo Panécio se ficaria bem para o sábio
estar apaixonado: “Deixem os de lado o sábio”, ele respondeu, “m as tu e eu,
que não o estam os, não nos envolvam os em coisa tão tum ultuada e violenta,
que nos escraviza aos outros e nos torna desprezíveis para nós m esm os”.
Dizia a verdade: não se deve confiar coisa em si tão im petuosa a um a alm a
que não tenha com o resistir às investidas e com o refutar em atos a palavra de
Agesilau, de que “o siso e o am or não podem andar j untos”. É um a vã
ocupação, é verdade, indecente, vergonhosa e ilegítim a. Mas conduzida desse
j eito considero-a saudável, própria a desentorpecer um espírito e um corpo
pesados. E com o m édico eu a receitaria a um hom em de m eu tem peram ento
e condição, com tanto gosto quanto qualquer outro rem édio: para despertá-lo
e m antê-lo forte bem avançado nos anos e retardar os efeitos da velhice.
Enquanto ainda estam os só nas suas redondezas, enquanto o pulso ainda
bate,
Dum nova canities, dum prima et recta senectus,
Dum superest Lachesi quod torqueat, Et pedibus me
Porto meis, nullo dextram subeunte bacillo, 460
Enquanto m eus cabelos apenas estão grisalhos, enquanto ainda ereto
com eço m inha velhice, enquanto ainda resta o que fiar a Láquesis e m e
aguento sobre m inhas pernas, sem a aj uda de nenhum caj ado na m ão
direita, precisam os ser solicitados e estim ulados por certa agitação m ordicante com o
é essa. Vede o quanto ela restituiu de j uventude, vigor e alegria ao sábio
Anacreonte. E Sócrates, m ais velho que eu, falando de um obj eto am oroso,
dizia: “Tendo apoiado m eu om bro contra o seu, e aproxim ado da sua a m inha
cabeça, quando líam os j untos um livro senti de repente, sem m entir, um a
picada no om bro, com o de algum a m ordida de bicho; e durante m ais de cinco
dias ela m e form igou derram ando-m e no coração um a coceira contínua”. Um
toque tão fortuito, e no om bro, foi aquecer e alterar um a alm a esfriada e
enfraquecida pela idade, e, de todas as hum anas, a prim eira em
reform ação. 461 Por que não? Sócrates era hom em e não queria ser nem parecer outra coisa. A filosofia não luta contra os prazeres naturais, desde
que acom panhados pelo com edim ento: e prega sua m oderação, não seu
abandono. Seu poder de resistência aplica-se contra os prazeres bastardos e
estranhos à natureza. Ela diz que os apetites do corpo não devem ser
am pliados pelo espírito. E adverte-nos habilm ente para não quererm os
despertar nossa fom e pela saciedade, não quererm os nos em panturrar em
vez de m atar a fom e; para evitarm os qualquer gozo que nos faça sentir sua
escassez, e qualquer com ida e bebida que nos traga sede ou fom e. Da
m esm a form a, para o serviço do am or ela nos ordena pegar um obj eto que
sim plesm ente satisfaça a necessidade do corpo, que não perturbe m uito a
alm a, a qual não deve levar isso em conta, m as seguir e auxiliar o corpo.
Porém , acaso não tenho razão de j ulgar que esses preceitos, a m eu ver, aliás,
um tanto rigorosos, se referem a um corpo capaz de fazer seu trabalho: e que
é desculpável para um corpo prostrado, com o para um estôm ago deteriorado,
aquecê-lo e sustentá-lo por um artifício e por interm édio da fantasia, fazê-lo
recuperar o apetite e a alegria, j á que por si m esm o ele os perdeu? Acaso
não podem os dizer que enquanto estam os nesta prisão terrestre não há nada
em nós puram ente corporal nem espiritual, e que separar os dois é
inj ustam ente desm em brar um hom em vivo, e que parece haver razão em nos
com portarm os diante do prazer de m odo tão favorável, pelo m enos, com o o
fazem os diante da dor? A dor violenta até a perfeição, pela penitência, na
alm a dos santos (por exem plo). O corpo participava naturalm ente disso, pelo
direito de sua aliança com a alm a, e podia, porém , estar pouco em causa; os
santos não se contentaram em vê-lo sim plesm ente acom panhar e assistir a
alm a m altratada. Eles m esm os o m altrataram com castigos atrozes e
apropriados, a fim de que, alm a e corpo à porfia, m ergulhassem o hom em na
dor, tanto m ais salutar quanto m ais dura. No caso dos prazeres corporais, não
será inj ustiça esfriar a alm a e só arrastá-la com o para algum a obrigação, um a
necessidade im posta e servil? Mais cabe a ela incubá-los e aquecê-los,
oferecer-se a eles e apresentar-se: cabendo-lhe a tarefa de dirigi-los. Com o
tam bém , a m eu ver, incum be-lhe, nos prazeres que lhe são próprios, insuflá-
los e infundir no corpo todas as sensações inerentes à sua condição e
esforçar-se para que lhe sej am doces e salutares. Pois é m uito j usto, com o
dizem , que o corpo não obedeça a seus apetites em prej uízo do espírito. Mas
por que não será igualm ente j usto que o espírito não obedeça aos seus em
prej uízo do corpo? Não tenho outra paixão que m e m antenha na expectativa.
O que a cupidez, a am bição, as contendas, os processos fazem com outros que, com o eu, não têm ocupação determ inada o am or faria m ais
agradavelm ente. Devolver-m e-iam a vigilância, a sobriedade, a graça, o
cuidado com m inha pessoa: fortaleceriam m eu com portam ento para que as
caretas da velhice, essas caretas disform es e lastim áveis, não fossem
estragá-lo. Pôr-m e-iam de novo nos estudos saudáveis e sábios, pelos quais
eu poderia m e tornar m ais estim ado e m ais querido, tirando de m eu espírito o desespero de si próprio e de sua utilidade, e devolvendo-o a si m esm o.
Desviar-m e-iam de m il pensam entos tediosos, de m il tristezas m elancólicas
com que a ociosidade e o m au estado de nossa saúde nos prostram em tal
idade. Reaqueceriam , pelo m enos em sonho, esse sangue que a natureza
abandona; sustentariam o queixo e prolongariam um pouco os nervos, e o
vigor e a alegria da vida deste pobre hom em que vai a toda a cam inho da
ruína. Mas com preendo que o am or é um a vantagem m uito difícil de
recuperar. Por fraqueza e longa experiência, nosso gosto tornou-se m ais
delicado e m ais caprichoso. Pedim os m ais quando m enos oferecem os.
Querem os escolher m ais quando m enos m erecem os ser aceitos. Sabendo
com o som os, tornam o-nos m enos ousados e m ais desconfiados: nada pode
nos garantir que serem os am ados, tendo em vista nossa condição e a delas.
Tenho vergonha de m e encontrar entre essa viçosa e fervilhante j uventude,
Cujus in indomito constantior inguine nervus,
Quam nova collibus arbor inhaeret. 462
Cuj o m em bro está m ais solidam ente im plantado na sua virilha indom ada do
que um a árvore nova nas colinas.
Por que iríam os expor nossa m iséria no m eio dessa alegria?
Possint ut juvenes visere fervidi
Multo non sine risu,
Dilapsam in cineres facem. 463
Para que a fervilhante j uventude possa ver com grandes risadas nossa
tocha reduzida a cinzas.
Eles têm a seu favor a força e a razão: cedam os lugar a eles; não tem os m ais
com o resistir. E esse germ e de beleza nascente não se deixa m anipular por
m ãos tão entorpecidas nem se seduz por m otivos m eram ente m ateriais. Pois,
com o respondeu aquele filósofo antigo a quem dele debochava por não ter
sabido conquistar as boas graças de um a m ocinha a quem perseguia: “Meu
am igo, o anzol não m orde queij o tão fresco”. Ora, o am or é um com ércio que
precisa de relação e reciprocidade. Os outros prazeres que recebem os
podem ser agradecidos com recom pensas de natureza diversa: m as este só
se paga com a m esm a espécie de m oeda. Na verdade, nesse divertim ento o
prazer que provoco estim ula m ais docem ente m inha im aginação do que o
prazer que m e dão. Ora, nada tem de generoso um hom em que pode receber
prazer quando não dá: é um a alm a vil aquela que quer ser devedora em tudo e que se deleita em alim entar relações com pessoas para as quais é um a
carga. Não há beleza, nem graça, nem intim idade tão preciosa que um
cavalheiro deva desej ar a esse preço. Se elas só nos podem fazer bem por
piedade, prefiro não viver a viver de esm ola. Gostaria de ter o direito de pedir-
lhes isso, no estilo em que vi esm olarem na Itália: Fate ben per voi, [Fazei o
bem por vós m esm os,] ou do j eito com o Ciro exortava seus soldados: “Quem
m e am ar m e siga”. Juntai-vos, m e dirão, com as de vossa condição, 464 que um m esm o destino vos tornará as m ulheres m ais fáceis. Oh, que tola e insípida
com binação!
Nolo
Barbam vellere mortuo leoni. 465
Não pretendo arrancar a barba de um leão m orto.
A obj eção e a acusação que Xenofonte faz contra Menon são o fato de em
seus am ores ele ter lidado com m ulheres passadas da flor da idade. Encontro
m ais prazer em ver apenas a j usta e doce união de duas j ovens belezas, ou
em som ente im aginá-la pela fantasia, que em tornar-m e eu m esm o a segunda
pessoa num a união triste e disform e. Deixo esse apetite fantástico ao
im perador Galba, que só era dado às carnes duras e envelhecidas. E a esse
pobre m iserável,
O ego di faciant talem te cernere possim,
Charaque mutatis oscula ferre comis,
Amplectique meis corpus non pingue lacertis! 466
Oh, perm itam os deuses que eu te possa ver assim , beij ar ternam ente teus
cabelos grisalhos e estreitar em m eus braços teu corpo em agrecido!
E entre as piores feiuras, conto as belezas artificiais e forçadas. Êm ones,
j ovem de Quíos, pensando adquirir por belos atavios a beleza que a natureza
lhe recusava, apresentou-se ao filósofo Arcesilau e perguntou-lhe se um sábio
poderia ficar apaixonado. “Sim ”, respondeu o outro, “contanto que não sej a de
um a beleza enfeitada e sofisticada com o a tua.” A feiura de um a velhice
confessa é m enos velha e m enos feia, a m eu ver, do que outra pintada e bem polida. Direi isso, contanto que não m e agarrem pelo pescoço? O am or não
m e parece própria e naturalm ente em seu tem po a não ser num a idade
próxim a da infância:
Quem si puellarum insereres choro,
Mille sagaces falleret hospites,
Discrimen obscurum, solutis
Crinibus, ambiguoque vultu. 467
Quem , m isturado a um coro de m oças, elim inando qualquer diferença com
seus cabelos soltos e seus traços delicados, enganaria m il anfitriões sutis.
E tam pouco a beleza. Pois se Hom ero a prorroga até que o queixo com ece a
som brear-se, o próprio Platão observou que é flor rara. E é notória a causa
pela qual o sofista Díon cham ava os pelos esparsos da adolescência de
aristogitonos e harm odianos. 468 Na virilidade acho que o am or j á está fora do lugar, e não falem os na velhice.
Importunus enim transvolat aridas
Quercus. 469
Intratável, de fato, ele afasta seu voo dos carvalhos sem seiva.
E Margarida, rainha de Navarra, sendo m ulher, prolonga m uito além a
vantagem das m ulheres, prescrevendo que aos trinta anos é tem po de
trocarem o título de “belas” pelo de “boas”. Quanto m ais curta a posse que
derm os a Cupido em nossas vidas, m ais valerem os. Vede seu aspecto: é um
queixo pueril. Quem não sabe que em sua escola se faz tudo às avessas de
qualquer ordem ? O estudo, o exercício, a prática são cam inhos para o
fracasso: ali os noviços são professores. Amor ordinem nescit. 470O am or ignora a ordem .] Certam ente, sua conduta tem m ais elegância quando é
m esclada à inadvertência e ao distúrbio: os erros, os insucessos dão-lhe
m alícia e graça. Contanto que sej a violento e esfom eado, pouco im porta que
sej a prudente. Vede com o lá ele vai cam baleando, tropeçando, brincando;
quando o guiam com arte e sabedoria, colocam -lhe a peia. E reprim em sua
divina liberdade quando o subm etem a m ãos calosas e peludas. Aliás, volta e
m eia ouço as m ulheres pintarem esse entendim ento totalm ente espiritual,
desprezando levar em consideração o interesse que nossos sentidos têm nele.
Tudo lhes serve. No entanto, posso dizer ter visto m uitas vezes perdoarm os
nelas a fraqueza do espírito em benefício de suas belezas corporais, m as
ainda não vi nenhum a que, em benefício da beleza do espírito, por m ais
m aduro e distinto ele sej a, queira estender a m ão a um corpo que cai, um
m ínim o que sej a, em decadência. Por que um a delas não tem vontade de
fazer essa nobre troca socrática, do corpo pelo espírito, com prando pelo
preço de suas coxas um relacionam ento filosófico e um a fecundidade
espiritual: o m ais alto preço a que possa ser guindada? Platão ordena em suas leis que quem tiver realizado um a façanha útil e notável na guerra não
pode, durante a expedição, ver recusado, e sem considerar-se sua feiura ou
idade, um beij o ou outro favor am oroso de quem ele quiser. O que ele acha
tão j usto com o retribuição do valor m ilitar não pode ser tam bém recom pensa
de um outro valor? E por que algum a outra m ulher não tem vontade de
conquistar antes de suas com panheiras a glória desse am or casto? Casto,
digo bem ,
nam si quando ad praelia ventum est, Ut quondam in stipulis magnus sine viribus ignis
Incassum furit. 471
pois se por acaso se chegar ao com bate, ele é às vezes com o um grande
fogo de palha desprovido de força: é em vão que causa estragos.
Os vícios que se sufocam no pensam ento não são os piores. Para concluir
este com entário apreciável, que m e escapou de um fluxo de tagarelice, fluxo
às vezes im petuoso e nocivo,
Ut missum sponsi furtivo munere malum,
Procurrit casto virginis e gremio:
Quod miserae oblitae molli sub veste locatum,
Dum adventu matris prosilit, excutitur,
Atque illud prono praeceps agitur decursu,
Huic manat tristi conscius ore rubor, 472
Assim com o a m açã, presente furtivo de seu am ado, escapa do casto seio
da j ovem : sem pensar que ela a colocara nas dobras de sua túnica, à
chegada de sua m ãe, a pobrezinha se ergue de um pulo e deixa cair a fruta
que prossegue obstinada sua viva corrida. Seu rosto desolado ganha o
rubor da vergonha,
digo que os hom ens e as m ulheres são j ogados no m esm o m olde; salvo a
educação e os costum es, a diferença não é grande. Platão, em sua
República, cham a indiferentem ente uns e outros para um a com unidade de
todos os estudos, exercícios, cargos e ocupações guerreiras e pacíficas. E o
filósofo Antístenes negava qualquer distinção entre a virtude delas e a nossa.