Os Ensaios
Sobre versos de Virgílio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
m adeira, requintadam ente talhado, grande e pesado, cada um a segundo sua
força: além daquele que a estátua de seu deus apresentava e que
ultrapassava em m edida o resto do corpo. As m ulheres casadas, aqui perto,
form am com seus chapéus um a im agem dele sobre a testa, para se
vangloriarem do j úbilo que lhes proporciona: e quando ficam viúvas o j ogam
para trás e o escondem sob o penteado. As m ais sábias m atronas de Rom a
sentiam -se honradas em oferecer flores e coroas ao deus Príapo. E faziam as
virgens se sentar, no m om ento das núpcias, em suas partes m enos pudicas. E
eu m esm o não sei se ainda não vi em m eus dias um a atitude de sem elhante devoção. Que queria dizer aquela ridícula peça da calça de nossos pais, que
ainda vem os nos nossos guardas suíços?387 Para que serve a exibição que fazem os atualm ente da form a de nossas partes íntim as, sob nossas ceroulas,
e, o que é pior, quase sem pre exagerando seu tam anho natural por
falsificação e im postura? Dá-m e vontade de crer que esse tipo de traj e foi
inventado em séculos m elhores e m ais conscienciosos para não tapear o
m undo: para que cada um prestasse contas, em público, de sua situação. As
nações m ais sim ples ainda o adotam , m ais com patível com a realidade.
Naquela época, instruíam o artesão a respeito dessa ciência, com o se faz
com a m edida do braço ou do pé. Aquele bom hom em que na m inha j uventude
m andou castrar tantas e belas estátuas antigas em sua grande cidade, para
não corrom per a visão, seguindo o conselho desse outro bom hom em da
Antiguidade,
Flagitii principium est nudare inter cives corpora, 388
É o início da depravação expor corpos nus no m eio da cidade,
deveria ter desconfiado que, assim com o nos m istérios da Boa Deusa389 toda aparência m asculina era proibida, isso nada adiantaria se ele não m andasse
tam bém castrar tanto os cavalos com o os burros, e a natureza enfim .
Omne adeo genus in terris, hominumque ferarumque,
Et genus aequoreum, pecudes pictaeque volucres,
In furias ignemque ruunt. 390
Todas as espécies sobre a terra, hom ens e anim ais selvagens, espécies
m arinhas, rebanhos e voláteis coloridos, se precipitam para os furores e os
fogos do am or.
Os deuses, diz Platão, forneceram -nos um m em bro desobediente e tirânico:
que, com o um anim al furioso, em preende, pela violência de seu apetite, tudo
subm eter a si. Da m esm a form a, proveram as m ulheres de um anim al glutão e
ávido que, se lhe recusam os alim entos no m om ento adequado, enlouquece,
im paciente com a dem ora; e soprando sua fúria nos corpos delas, entope-lhes
os condutos e interrom pe a respiração, causando m il tipos de m ales: até que,
tendo provado o fruto da sede com um , lhes haj a largam ente regado e
sem eado o fundo do útero. Ora, m eu legislador391 tam bém devia perceber que é talvez um a atitude m ais casta e proveitosa fazê-las conhecer bastante cedo
a realidade, em vez de deixá-las adivinhar segundo a liberdade e o calor de
suas fantasias. Em lugar das partes verdadeiras, elas as substituem , por
desej o e esperança, por outras extravagantes e três vezes m aiores. E alguém
de m eu conhecim ento perdeu-se por ter m ostrado as suas num lugar onde
ainda não estava em condições de em pregá-las em seu uso m ais sério. Que
estrago não causam esses enorm es desenhos que os j ovens andam
espalhando pelos corredores e escadarias das casas do reino? 392 Daí lhes vem um cruel desprezo por nossas capacidades naturais. Quem sabe se
Platão não pensou nisso ao ordenar, a exem plo de outras repúblicas bem
instituídas, que os hom ens, m ulheres, velhos e m oços se apresentem nus à
vista uns dos outros em suas ginásticas? As índias, que veem os hom ens nus,
pelo m enos arrefeceram o sentido visual. As m ulheres daquele grande reino
de Pegu393 só têm para se cobrirem , abaixo da cintura, um pano rasgado na frente, e tão estreito que, por m ais que procurem um a cerim oniosa decência,
a cada passo são inteiram ente vistas. Elas dizem que é um a invenção feita com a finalidade de atrair os hom ens para si e afastá-los dos m achos, ao que
essa nação está totalm ente entregue. Poder-se-ia dizer que nisso elas
perdem m ais do que ganham , e que um a fom e com pleta é m ais violenta do
que a fom e saciada ao m enos com os olhos. Pois dizia Lívia que, para um a
m ulher honesta, um hom em nu não é m ais que um a estátua. As lacedem ônias,
m ulheres m ais virgens do que são nossas filhas, viam todo dia os rapazes de
sua cidade despidos nos exercícios: pouco preocupadas, elas m esm as, em
cobrir as coxas ao andar, e considerando-se, com o diz Platão, cobertas o
suficiente por sua virtude sem vertugade. 394 Mas aqueles de quem fala Santo Agostinho conferiram um fantástico poder de tentação à nudez, a ponto de pôr
em dúvida se, no dia do j uízo final, as m ulheres ressuscitarão com o próprio
sexo, e não com o nosso, para ainda não nos tentar naquela santa situação.
Em sum a, nós as atraím os e as excitam os por todos os m eios: esquentam os
e incitam os sua im aginação, sem parar, e depois nos queixam os do ventre!
Adm itam os a verdade, não há entre nós quem não receie m ais a vergonha que
sente pelos vícios de sua m ulher que pelos seus; quem não se preocupe m ais
(adm irável caridade!) com a consciência de sua boa esposa que com a sua
própria; que não preferisse ser ladrão e sacrílego, e que sua m ulher fosse
asassina e herege, a saber que ela não era m ais casta que o m arido. Iníqua
avaliação dos vícios. Nós e elas som os capazes de m il corrupções m ais
prej udiciais e desnaturadas do que a lascívia. Mas praticam os e avaliam os os
vícios, não segundo sua natureza e sim segundo nosso interesse. Por isso
eles adotam tantas form as desiguais. A severidade de nossas leis torna a
dedicação das m ulheres a esse vício m ais acerba e viciosa do que a própria
natureza da lascividade, e isso leva a consequências piores que suas causas.
E com m uito gosto elas se ofereceriam para ir ao tribunal à procura de
ganhos, ou à guerra pela reputação, em vez de ter, em m eio à ociosidade e
às delícias, de m ontar um a guarda tão difícil. Não veem que não existe
m ercador nem procurador, nem soldado que não deixe seu serviço para correr
atrás desse outro serviço, e nem m esm o o carregador nem o rem endão, por
m ais estafados e alquebrados que estej am de trabalho e de fom e?
Num tu quae tenuit dives Achaemenes,
Aut pinguis Phrygiae Mygdonias opes,
Permutare velis crine Licinniae,
Plenas aut Arabum domos,
Dum fragrantia detorquet ad oscula
Cervicem, aut facili saevitia negat,
Quae poscente magis gaudeat eripi,
Interdum rapere occupet? 395
Desej arias, contra os tesouros do rico Aquêm enes, as riquezas de Mígdon,
rei da fértil Frígia, ou contra os palácios opulentos da Arábia, ter um cabelo
de Licínia no m om ento em que ela se debruça, oferecendo sua nuca a teus
beij os perfum ados, ou quando, com um a doce crueldade, te recusa esses
beij os que lhe pedes, que ela desej a m ais que ti deixar-se roubar, às vezes porém se antecipando a ti?
Não sei se as façanhas de César e de Alexandre superam em dificuldade a
resolução de um a bela m ulher j ovem criada à nossa m aneira, à luz e em
contato com o m undo, exposta a tantos exem plos contrários, m antendo-se
íntegra em m eio a m il assédios fortes e contínuos. Não há ação m ais
espinhosa nem m ais ativa do que essa inação. E é o voto da virgindade o m ais
nobre de todos os votos, por ser o m ais difícil. Diaboli virtus in lumbis est, [O
poder do diabo está nos rins,] diz São Jerônim o. Certam ente, o m ais árduo e
m ais coraj oso dos deveres hum anos nós o deixam os para as m ulheres, e a
elas cedem os toda essa glória. Ele deve lhes servir com o um singular incentivo
para nisso se obstinarem : é um a bela oportunidade para nos desafiarem e
espezinharem a vã preem inência em m atéria de valor e virtude que
pretendem os ter sobre elas. Se prestarem atenção, vão descobrir que serão
não apenas m uito estim adas m as tam bém m ais am adas: um cavalheiro não
desiste de sua corte por ser recusado, desde que sej a um a recusa m otivada
pela castidade e não por escolha de outro. Por m ais que j urem os e
am eacem os e nos queixem os: m entim os, pois as am am os ainda m ais por
isso. Não há m elhor isca do que a sensatez, quando não for brusca nem
carrancuda. É estupidez e covardia obstinar-se diante do ódio e do desprezo.
Mas quando é contra um a resolução virtuosa e constante, m esclada a um a
vontade agradecida, isso é exercício de um a alm a nobre e generosa. Elas
podem , até certo ponto, m ostrar agradecim ento a nossos serviços e fazer-nos
sentir honestam ente que não nos desprezam . Pois essa lei que lhes ordena
abom inar-nos porque as adoram os e odiar-nos porque as am am os é decerto
cruel, quando nada pela dificuldade de cum pri-la. Por que não ouvirão nossos
oferecim entos e nossas dem andas, na m edida em que se m antiverem nos
lim ites do dever de reserva? Por que pressupor que dentro delas ressoa algum significado m ais livre? Um a rainha de nossa época dizia habilm ente que
recusar essas abordagens é prova de fraqueza e reconhecim ento da própria
facilidade, e que um a dam a não tentada não podia gabar-se de sua castidade.
Os lim ites da honra não são traçados tão estreitos: há com o afrouxá-los, ela
pode perm itir-se certas iniciativas sem se renegar. No extrem o de sua
fronteira há certo espaço livre, indiferente e neutro. Quem conseguir perseguir
e acuar essa honra à força até seu próprio canto dentro de sua fortaleza será
um hom em estúpido se não se satisfizer com sua sorte. Calcula-se o preço da
vitória pela dificuldade. Quereis saber que im pressão causaram no coração
dela vossa corte e vosso m érito? Podeis m edi-lo por seu com portam ento.
Um a m ulher pode conceder m uito quando concede pouco. A gratidão por um a
bondade depende inteiram ente da vontade de quem a concedeu: as outras
circunstâncias que se referem a essa bondade são m udas, m ortas e fortuitas.
A ela custa m ais dar esse pouco do que à sua am iga dar tudo. Se em algum a
coisa a raridade serve para a avaliação, deve ser nisto: não olheis quão pouco
é, m as quantos poucos o obtêm . O valor da m oeda m uda de acordo com o
cunho e a m arca de origem . Apesar daquilo que, por despeito e indiscrição,
alguns hom ens são levados a dizer no auge de seu descontentam ento, a
virtude e a verdade sem pre recuperam a vantagem . Vi m ulheres, cuj a
reputação fora por m uito tem po inj ustam ente m anchada, recuperarem a
aprovação geral dos hom ens som ente por sua constância, sem esforço e sem
artifício: cada um se arrependendo e se retratando do que acreditara a seu
respeito. Depois de terem sido m oças um pouco suspeitas, eis que ocupam o prim eiro lugar entre as senhoras honradas. Alguém dizia a Platão: “Todo
m undo fala m al de vós”. “Deixai-os falar”, respondeu, “viverei de m odo a fazê-
los m udar de linguagem .” Além do tem or a Deus e do prêm io por um a glória
tão rara, que deve incitá-las a se preservarem , a corrupção deste século as
força a isso. E se eu estivesse em seu lugar, não haveria nada que não
fizesse antes de depositar m inha reputação em m ãos tão perigosas. No m eu
tem po, o prazer de contar seus am ores (prazer que pouco fica a dever em
doçura ao próprio prazer real) só era perm itido àqueles que tinham um am igo
fiel e único: atualm ente as conversas correntes das reuniões e das m esas são
as gabolices dos favores recebidos e das liberalidades secretas das dam as.
Verdadeiram ente, é abj eção dem ais e baixeza de coração perm itir assim
cruelm ente que essas doçuras m eigas e dengosas sej am perseguidas,
apertadas e m achucadas por pessoas ingratas, indiscretas e tão volúveis.
Nossa exasperação im oderada e ilegítim a contra esse vício nasce da m ais vã
e tem pestuosa doença que aflige as alm as hum anas, e que é o ciúm e.
Quis vetat apposito lumen de lumine sumi? 396
O que im pede acender um a tocha na tocha vizinha?
Dent licet assidue, nil tamen inde perit. 397
Por m ais que elas deem sem cessar, a fonte porém não seca.
Ele e a invej a, sua irm ã, parecem -m e os m ais ineptos do grupo. Da invej a não
posso falar m uito: essa paixão, que tão forte e tão poderosa se pinta, não
tem , pela graça que m e concede, nenhum a influência sobre m im . Quanto ao
outro, conheço-o, ao m enos de vista. Os anim ais o sentem . Tendo o pastor Crátis se apaixonado por um a cabra, o bode foi por ciúm e bater a cabeça na dele e a esm agou enquanto ele dorm ia. Tem os aum entado os
transbordam entos dessa febre, a exem plo de certas nações bárbaras. As
m ais disciplinadas têm sido por ela afetadas, o que é norm al, m as não foram
arrebatadas.
Ense maritali nemo confossus adulter,
Purpureo stygias sanguine tinxit aquas. 398
Trespassado pela espada de um m arido, nenhum adúltero averm elhou com
seu sangue as águas do Estige.
Lúculo, César, Pom peu, Antônio, Catão e outros grandes hom ens foram
cornudos e o souberam , sem provocar tum ulto. Naquela época só houve um
tolo com o Lépido, que m orreu de angústia por isso.
Ah tum te miserum malique fati,
Quem attractis pedibus patente porta,
Percurrent mugilesque raphanique. 399
Ah, desgraçado! Que triste sorte, quando agarrado pelos pés, a porta
escancarada, penetrarão em ti tainhas e rábanos.
E quando o deus de nosso poeta400 flagrou com sua m ulher um de seus am igos, contentou-se em envergonhá-los:
atque aliquis de Diis non tristibus optat,
Sic fieri turpis. 401
e um dos deuses, e não dos m ais austeros, desej a sem elhante desonra.
E no entanto não deixa de se inflam ar com as doces carícias que ela lhe
oferece enquanto se queixa de que, só por causa daquilo, com eçava a desconfiar de seu afeto:
Quid causas petis ex alto? fiducia cessit
Quo tibi Diva mei? 402
Que vais procurar lá? Que foi feito, deusa, de tua confiança em m im ?
Ela até lhe faz um pedido para um bastardo seu,
Arma rogo genitrix nato, 403
Peço arm as para m eu filho, eu, sua m ãe,
que é liberalm ente acatado. E Vulcano fala de Eneias com orgulho:
Arma acri facienda viro. 404
Tenho de forj ar arm as para um herói valente.
Com um a hum anidade verdadeiram ente m ais que hum ana. E adm ito que
devem os deixar para os deuses esse excesso de bondade:
nec divis homines componier aequum est.405
com parar os hom ens com os deuses não é m uito j usto.
Quanto à confusão dos filhos, além de os m ais sérios legisladores a
ordenarem e a desej arem em suas repúblicas, ela não afeta as m ulheres, em
quem o ciúm e, não sei com o, está ainda m ais enraizado.
Saepe etiam Juno maxima caelicolum
Conjugis in culpa flagravit quottidiana. 406
Com frequência, m esm o Juno, soberana dos céus, inflam ou-se com as
faltas cotidianas de seu esposo.
Quando o ciúm e apodera-se dessas pobres alm as, fracas e sem resistência,
causa dó ver com o as atenaza e tiraniza cruelm ente. Insinua-se a pretexto de afeto: m as depois que as possui, as m esm as causas que serviram de
fundam ento ao bem -querer servem de fundam ento ao ódio m ortal: das
doenças do espírito, é aquela a que m ais coisas servem de alim ento e m enos
coisas de rem édio. A virtude, a saúde, o m érito, a reputação do m arido, são
os lança-fogos de sua hostilidade e de sua raiva.
Nullae sunt inimicitiae nisi amoris acerbae. 407
Nenhum ódio é im placável senão no am or.
Aliás, essa febre enfeia e estraga tudo o que elas têm de belo e de bom . E de
um a m ulher cium enta, por m ais casta e caseira que sej a, não há ato que não
cheire a azedum e e im pertinência. Um a agitação furiosa j oga-as num extrem o
totalm ente oposto à sua causa. Foi notável o caso de um certo Otávio, em
Rom a: tendo dorm ido com Pôncia Postúm ia, aum entou seu am or pela fruição
e pediu insistentem ente para se casar; m as com o não conseguiu convencê-la,
esse am or extrem o o precipitou no ato da m ais cruel e m ortal inim izade:
m atou-a. Da m esm a form a, os sintom as correntes dessa outra doença
am orosa são ódios intestinos, tram oias, conj urações:
notumque, furens quid foemina possit, 408
e sabe-se do que é capaz um a m ulher em furor,
e um a raiva ainda m ais corrosiva por ser obrigada a desculpar-se sob o
pretexto do bem -querer. Ora, o dever de castidade tem grande am plitude.
Porventura é a vontade o que querem os que elas refreiem ? É esse um
elem ento m uito flexível e ativo. Tem m uita presteza para que se consiga
contê-la. Com o, se os sonhos às vezes as arrastam tão longe que elas não podem contradizê-los? Não está no poder nelas, nem talvez na própria
castidade, j á que esta é algo fem inino, defender-se das concupiscências e do
desej o. Se só a vontade delas nos interessa, então com o ficam os? Im aginai a
profusão de tarefas de quem tivesse o privilégio de ser transportado por asas
em plum adas, m as sem olhos para ver e sem língua para falar, no m om ento
certo, para j unto de cada um a que o aceitasse. As m ulheres citas furavam os
olhos de todos os seus escravos e prisioneiros de guerra para deles se
servirem m ais livrem ente e às escondidas. Oh, que im ensa vantagem é o
m om ento oportuno! Se m e perguntassem qual é a prim eira coisa no am or, eu
responderia que é saber agarrar a ocasião; a segunda, a m esm a coisa; e
tam bém a terceira. É o fator que pode tudo perm itir. Am iúde tive falta de
sorte, m as às vezes tam bém de audácia. Deus preserve do m al quem puder
escarnecer de m im por causa disso! Neste século precisa-se de m ais ousadia,
da qual nossos j ovens se desculpam a pretexto de ardor. Mas se elas a
olhassem de perto, achariam que m ais se trata de desrespeito. Por escrúpulo,
eu tem ia ofender: e de bom grado respeito o que am o. Além disso, em
m atéria de am or, quem o priva de reverência apaga-lhe o brilho. Gosto de agir
nisso com certo j eito de criança, tem eroso, serviçal. Se não o tenho
totalm ente no am or, tenho em outros assuntos certos ares da tola vergonha
de que fala Plutarco: e o percurso de m inha vida foi por ela atingido e
m arcado de diversas m aneiras. É um a qualidade bem pouco em harm onia
com m eu tem peram ento geral. Que som os nós, porém , senão sedição e
discrepância? Tenho os olhos sensíveis tanto para suportar um a recusa com o para recusar. E pesa-m e tanto pesar a outros que, nas ocasiões em que o
dever m e força a sondar a vontade de alguém em coisa duvidosa e que lhe
custe, o faço de leve e a contragosto. Mas, se isso m e diz respeito em
particular (conquanto Hom ero diga que, na verdade, a vergonha é um a tola
virtude para um indigente), encarrego em geral um terceiro de enrubescer em
m eu lugar e com a m esm a dificuldade m e desvencilho dos que m e solicitam : a
ponto de acontecer-m e às vezes ter vontade de negar m as não ter força para
isso. Portanto, é loucura tentar frear nas m ulheres um desej o que lhes é tão
candente e tão natural. E quando as ouço se gabarem de ter sua vontade tão
virginal e tão fria, zom bo delas: estão recuando longe dem ais. Se for um a
velha desdentada e decrépita, ou um a j ovem seca e tísica, em bora isso não
sej a totalm ente plausível elas têm , pelo m enos, a aparência condizente. Mas
as que ainda se m ovem e respiram , estas pioram seu caso, porque as
desculpas inconsideradas m ais servem de acusação. Com o aconteceu com
um fidalgo m eu vizinho, que se desconfiava ser im potente:
Languidior tenera cui pendens sicula beta,
Nunquam se mediam sustulit ad tunicam, 409
Cuj o bacam arte, pendendo m ais flácido que um a acelga m ole, nunca se
levantou no m eio de sua túnica,
e que três ou quatro dias depois de seu casam ento foi se j ustificar, m uito
atrevido, j urando que tinha m ontado na m ulher vinte vezes na noite anterior, o
que serviu depois para acusá-lo de absoluta ignorância e para anular seu
casam ento. Além disso, o que essas m ulheres alegam de nada vale, pois não há continência nem virtude se não há esforço em sentido contrário. Devem
dizer: “Essa tentação existe, m as não estou disposta a m e entregar”. Os
próprios santos falam assim . Refiro-m e às que se orgulham seriam ente da
própria frieza e insensibilidade, e que querem que se acredite nelas pela
seriedade de seu rosto. Pois quando é um sem blante afetado, em que os
olhos desm entem as palavras, e quando é com o j argão de suas frases que
dizem tudo a contrapelo, acho isso bom . Sou o servo obediente da
ingenuidade e da franqueza, m as aí não há rem édio: a m enos que a candura
sej a totalm ente inocente ou infantil, ela não com bina com as dam as e é pouco
adequada a esse com ércio, pois resvala incontinente para a im pudência. Seus
disfarces e trej eitos só enganam os tolos: a m entira aí ocupa lugar de honra, é
um desvio que nos conduz à verdade por um a porta falsa. Se não podem os
conter-lhes a im aginação, o que querem os das m ulheres? Ações? Mas m uitas
das ações delas que corrom pem a castidade escapam ao conhecim ento dos
outros.
Illud saepe facit, quod sine teste facit. 410
Am iúde ela faz o que faz sem testem unha.
E os atos que m enos tem em os são talvez os que m ais devam ser tem idos: os
pecados m udos são os piores.
Offendor moecha simpliciore minus. 411
Um a puta m ais franca m e choca m enos.
Há ações que, sem im pudicícia, podem fazê-las perder a pudicícia: e além do
m ais, sem o conhecim ento das próprias m ulheres. Obstetrix virginis cujusdam integritatem manu velut explorans, sive malevolentia, sive inscitia, sive casu,
dum inspicit, perdidit.412 Algum as vezes, um a parteira verificando com a m ão a virgindade de um a m oça deflorou-a durante o exam e, por m aldade,
incom petência ou acidente.] Um a perdeu a virgindade por tê-la procurado:
outra, brincando, rom peu-a. Não saberíam os circunscrever-lhes exatam ente
as ações que lhes proibim os. Tem os de form ular nossa lei em term os gerais e
vagos. A própria ideia que fazem os sobre a castidade delas é ridícula: pois
entre os exem plos extrem os que tenho estão Fátua, m ulher de Fauno, que
depois das bodas nunca m ais se deixou ver por nenhum varão; e a m ulher de
Hiéron, que não sentia o fedor do m arido, considerando que fosse um a
característica com um a todos os hom ens. Seria preciso que elas se
tornassem insensíveis e invisíveis para nos satisfazer. Ora, adm itam os que o
nó do j ulgam ento sobre esse dever reside principalm ente na vontade. Houve
m aridos que sofreram esse infortúnio, não só sem reprim enda nem ofensa às
esposas, m as com singular estim a e reconhecim ento pela virtude delas. Um a,
que preferia a própria honra à sua vida, diante do desej o desenfreado de um
inim igo m ortal prostituiu-se para salvar a vida do m arido, e fez por ele o que
de m aneira nenhum a faria por si. Aqui não é o lugar para nos estenderm os
nesses exem plos, que são m uito elevados e m uito ricos para ser
apresentados neste capítulo: guardem o-los para lugar m ais nobre. Mas com o
exem plos de brilho m ais corrente, não há todos os dias m ulheres entre nós
que, só para ser úteis aos m aridos, se em prestam a outros, e por ordem
expressa e interm ediação deles m esm os? E na Antiguidade, Fáulio de Argos
ofereceu a sua ao rei Filipe por am bição; assim com o, por civilidade, o fez aquele Galba, que oferecera um a ceia a Mecenas: vendo que sua m ulher e ele
com eçavam a trocar olhares e sinais, deixou-se escorregar sobre sua
alm ofada, sim ulando um hom em prostrado pelo sono, para dar um a m ãozinha
aos am ores deles. O que confessou de m uito bom grado, pois a certa altura,
quando um criado teve a ousadia de passar a m ão nos vasos que estavam
sobre a m esa, ele lhe gritou abertam ente: “Com o assim , patife? Não vês que
só estou dorm indo para Mecenas?”. Certa m ulher pode ter costum es levianos
m as um a vontade m ais rigorosa do que outra, que se com porta de um j eito
m ais regrado. Assim com o vem os as que se queixam de se terem votado à
castidade antes da idade da razão, outras tam bém vi que se queixam , de
verdade, de se terem votado à libertinagem antes da idade da razão. O vício
dos pais é talvez a causa disso: ou a força da necessidade, que é um a dura
conselheira. Nas Índias Orientais, sendo a castidade um a singular
recom endação, o uso adm itia, porém , que um a m ulher casada pudesse
entregar-se a quem lhe oferecesse um elefante: e isso, com certa glória por
ter sido avaliada a tão alto preço. Fédon, o filósofo, hom em de nobre fam ília,
depois da conquista de seu país de Élida, exerceu o ofício de prostituir a
beleza de sua j uventude, enquanto ela durou, a quem a quisesse, em troca de
dinheiro para viver. E Sólon, dizem , foi o prim eiro na Grécia que, em suas leis,
deu liberdade às m ulheres, à custa da própria pudicícia, para prover às
necessidades de suas vidas: costum e que Heródoto diz ter sido adm itido
antes dele, em vários Estados. E afinal, que fruto esperar dessa penosa
inquietude do ciúm e? Pois, por m ais j ustificada que sej a essa paixão, ainda seria preciso ver se ela nos arrasta de m odo útil. Há alguém que pense ser
esperto a ponto de trancar as m ulheres a chave?
Pone seram, cohibe, sed quis custodiet ipsos
Custodes? cauta est, et ab illis incipit uxor. 413
Põe um a tranca, aprisiona-a, m as quem vigiará teus guardas? Tua m ulher
é esperta, com eça por eles.
Que ocasião não lhes é suficiente, num século tão engenhoso? A curiosidade
é um vício por toda parte, m as aqui ela é perniciosa. É loucura querer
conhecer um m al para o qual não existe rem édio que não o piore e agrave,
cuj a vergonha aum enta e torna-se pública pelo ciúm e, e cuj a vingança fere
m ais nossos filhos do que nos cura. Vós definhais e m orreis em busca de um a
com provação tão escondida. Quão lastim áveis ficaram os que em m inha
época a conseguiram ? Se o inform ante não apresenta ao m esm o tem po o
rem édio e sua aj uda, a advertência é inj uriosa e ele m ais m erece um a
punhalada do que um sim ples desm entido. Zom ba-se igualm ente daquele que
é incapaz de resolver o caso e daquele que o ignora. A m arca da traição é
indelével: em quem um a vez é posta, perm anece para sem pre. O castigo a
expressa m ais que o próprio erro. Bela coisa é ver arrancar da som bra e da
dúvida nossos infortúnios particulares para trom beteá-los em palcos trágicos!
E infortúnios que só ferem porque se fala deles! Pois diz-se “boa m ulher” e
“bom casam ento” não dos que o são, m as daqueles dos quais não falam os. É
preciso ser engenhoso para esquivar esse conhecim ento inútil e desagradável.
E os rom anos tinham o costum e, ao voltarem de viagem , de enviar alguém na frente para que com unicasse às m ulheres sua chegada ao lar e não as
surpreendessem . E por isso certa nação introduziu o costum e de que o
sacerdote abra a passagem da noiva no dia das bodas: a fim de tirar do noivo
a dúvida e a curiosidade de constatar, nessa prim eira tentativa, se ela lhe
chegou virgem ou j á ferida por um am or alheio. “Sim , m as as pessoas falam .”
Conheço cem hom ens honestos traídos, m as honradam ente e de form a pouco
indecente. Lastim am os que um cavalheiro passe por isso m as não o
desestim am os. Fazei que vossa virtude abafe vossa desgraça: que as
pessoas de bem am aldiçoem quem a causou: que quem vos ofende
estrem eça só de pensar nisso. E afinal, de quem é que não se fala nesse
sentido, desde o m enor até o m aior?
tot qui legionibus imperitavit,
Et melior quam tu multis fuit, improbe, rebus. 414
aquele que com andou tantas legiões e era superior a ti, patife, em m uitos
aspectos.
Vês quantos hom ens honestos são envolvidos, em tua presença, nessa
torpeza? Pensa que, em outros lugares, tam bém não serás poupado. “Mas
até as m ulheres vão caçoar.” E de que caçoam com m ais gosto, atualm ente,
que de um casam ento tranquilo e bem -com posto? Cada um de vós j á fez
alguém cornudo: ora, a natureza é toda feita de alternâncias, com pensações e
vicissitudes. A frequência desse infortúnio deve, doravante, ter lhe m oderado o
gosto am argo: ei-lo em breve tornando-se um costum e. Miserável paixão, que
ainda tem o fato de ser incom unicável.
Fors etiam nostris invidit questibus aures. 415
A própria sorte recusa ouvidos a nossas queixas.
Pois a que am igo ousarias confiar tuas queixas? O qual, se delas não rir, não
as aproveite com o cam inho e indicação para pegar ele m esm o parte do
butim ? As pessoas sábias m antêm secretas as agruras e doçuras do
casam ento. E para um hom em falante com o eu, entre as outras desvantagens
que existem no casam ento, um a das principais é que o costum e torna
indecente e prej udicial que se com unique a alguém tudo o que se sabe e que se sente sobre isso. Seria tem po perdido dar o m esm o conselho às m ulheres
para desviá-las do ciúm e: a natureza delas é tão im pregnada de suspeita,
frivolidade e curiosidade que não se deve esperar curá-las por vias norm ais.
Costum am em endar-se desse inconveniente por um a form a de saúde bem
m ais tem ível que a própria doença. Pois assim com o há feitiços que não
sabem elim inar o m al senão j ogando-o em outro, assim tam bém elas j ogam
com m uito gosto essa febre em seus m aridos quando a perdem . Todavia,
para falar a verdade não sei se é possível suportar algo pior do que o ciúm e
delas: é a m ais perigosa de suas características, assim com o é a cabeça em
relação aos m em bros. Pítaco dizia que cada um tinha seu defeito: que o dele
era a cabeça ruim de sua m ulher: fora isso, ele se estim aria feliz em todos os
pontos. É um inconveniente um tanto pesado, pelo qual um a personagem tão
j usta, tão sábia, tão valente, sentia estragada toda a sua vida: então, que
devem os fazer, nós, pobres hom enzinhos? O Senado de Marselha teve razão
ao deferir o requerim ento daquele que lhe pedia perm issão para se m atar a
fim de livrar-se das fúrias da m ulher: pois é um m al que j am ais se suprim e a não ser suprim indo o indivíduo, e que não tem outra solução válida além da
fuga ou do sofrim ento: am bas, em bora, m uito difíceis. Parece-m e que foi um
entendido quem disse que um bom casam ento era feito entre um a m ulher
cega e um m arido surdo. Cuidem os tam bém para que essa grande e violenta
severidade das obrigações que im pom os a elas não produza dois efeitos
contrários ao nosso obj etivo: a saber, que isso aguce os pretendentes e torne
as m ulheres m ais fáceis de se entregarem . Pois quanto ao prim eiro ponto,
elevando o preço do reduto elevam os o preço e o desej o da conquista. Não
seria a própria Vênus quem teria assim habilm ente elevado o preço de sua
m ercadoria por interm édio das leis, sabendo com o é tolo esse prazer
am oroso se não fosse valorizado pela fantasia e pela raridade? Afinal, “tudo é
carne de porco, que o m olho diversifica”, com o dizia o hospedeiro de Flam ínio.
Cupido é um deus traiçoeiro: faz seu j ogo lutando contra a lealdade e a j ustiça:
sua glória é que seu poder se choque com qualquer outro poder, e que todas
as outras regras cedam às suas.
Materiam culpae prosequiturque suae. 416
Ele procura sem cessar m atéria para seu pecado.
E quanto ao segundo ponto: seríam os m enos cornudos se tivéssem os m enos
m edo de sê-lo, de acordo com o tem peram ento das m ulheres, j á que a
proibição as incita e im pele?
Ubi velis nolunt, ubi nolis volunt ultro:417
Queres? Elas não querem . Não queres? Elas querem m ais:
Concessa pudet ire via. 418
Elas têm vergonha de seguir a estrada perm itida.
Que m elhor interpretação encontraríam os para a história de Messalina? No
início ela enganou o m arido às escondidas, com o se faz: m as dedicando-se às
suas travessuras com dem asiada facilidade, por causa da estupidez dele,
desprezou de súbito esse m odo de agir: ei-la fazendo am or às claras,
reconhecendo seus am antes, sustentando-os e favorecendo-os à vista de
todos. Queria que ele o sentisse. Com o esse anim al não conseguisse
despertar para tudo isso, o que tornava seus prazeres inexpressivos e
insípidos devido a essa facilidade tão indolente com que ele parecia autorizá-
los e legitim á-los, que fez ela? Mulher de um im perador saudável e vivo, num
dia em que o m arido estava fora da cidade, ela, em Rom a, teatro do m undo,
num a festa e cerim ônia pública, em pleno m eio-dia, casa-se com Sílio, de
quem desde m uito tem po desfrutava. Não parece que se encam inhava para
tornar-se casta, por desleixo do m arido? Ou que procurava outro m arido que
lhe aguçasse o apetite por seu ciúm e e que, abraçando-a com força, a
estim ulasse? Mas a prim eira dificuldade que encontrou foi tam bém a últim a.
Aquele bruto acordou sobressaltado. Os piores negócios costum am ser com
esses desastrados dorm inhocos. Vi por experiência que essa tolerância
extrem a, quando chega a estourar, produz as vinganças m ais ferozes: pois
pegando fogo de repente, a cólera e o furor se concentram em um só e
explodem todas as suas m unições na prim eira investida;
irarumque omnes effundit habenas. 419
ele solta com pletam ente as rédeas à sua cólera.
Ele a m andou m atar, e a grande núm ero dos seus cúm plices: até um tal que
não tivera escolha porque ela o convidara para seu leito a chicotadas. O que
Virgílio diz de Vênus e de Vulcano, Lucrécio dissera m ais apropriadam ente de
um prazer secreto entre ela e Marte.
belli fera moenera Mavors
Armipotens regit, in gremium qui saepe tuum se
Rejicit, aeterno devinctus vulnere amoris:
Pascit amore avidos inhians in te Dea visus,
Eque tuo pendet resupini spiritus ore:
Hunc tu Diva tuo recubantem corpore sancto
Circunfusa super, suaveis ex ore loquelas
Funde. 420
Marte poderoso nas arm as, que rege os cruéis trabalhos da guerra,
costum a vir se refugiar sobre teu seio, vencido pela eterna ferida do am or:
ele sacia de am or seus olhos ávidos fixados em ti, deusa, e deitado de
bruços, sua respiração fica suspensa de teus lábios; e tu, divina, deitada
sobre ele, enlaça-o com teu corpo sagrado, exala de tua boca doces
gem idos.
Quando rum ino esses rejicit, pascit, inhians, molli, fovet, medullas, labefacta, pendet, percurrit, e essa nobre circunfusa, m ãe do gracioso infusus, sinto desprezo por esses pequenos j ogos de palavras e alusões verbais que
surgiram m ais tarde. Aquela boa gente não precisava de tiradas agudas e
sutis: sua linguagem é densa e plena de um vigor natural e constante: tudo aí
é epigram a: não só a cauda, m as tam bém a cabeça, o peito e os pés. Não há nada de forçado, nada que se arraste: tudo progride no m esm o teor.
Contextus totus virilis est, non sunt circa flosculos occupati. 421 Seu discurso é totalm ente m ásculo, eles não se divertiram com floreios.] Não é um a
eloquência branda, sem nada que choque: é nervosa e sólida, que não apenas
agrada com o enche e extasia: e m ais extasia os espíritos m ais fortes. Quando
vej o essas belas form as de expressão, tão vivas, tão profundas, não digo que
isso é dizer bem , digo que é pensar bem . É o vigor da im aginação, que eleva
e am plia as palavras. Pectus est quod disertum facit. 422É o coração que torna eloquente.] Nossos contem porâneos cham am de “j ulgam ento” o que é
linguagem , e de “belas palavras” as riquezas do espírito. Aquela pintura é feita
não tanto por destreza da m ão com o por terem o obj eto m ais vivam ente
m arcado na alm a. Galo fala com sim plicidade porque concebe com
sim plicidade: Horácio não se contenta com um a expressão superficial, pois ela
o trairia: vê m ais claro e m ais fundo dentro das coisas: seu espírito arrom ba e
esquadrinha todo o arm azém das palavras e das figuras para se exprim ir, e
exige que sej am além das correntes, assim com o sua concepção está além da
corrente. Plutarco diz que aprendeu a língua latina pelas coisas. Aqui é o
m esm o: o sentido esclarece e apresenta as palavras: que não são m ais de
vento, m as de carne e osso. Significam , m ais do que dizem . Mesm o os
im becis423 tam bém sentem algum a im agem disso. Pois na Itália eu dizia o que queria em prosas com uns, m as nas conversas sérias não m e atreveria a
confiar num idiom a que eu não era capaz de m anej ar nem dom inar fora de seu uso corrente. Quero poder colocar algo de m eu. O m anej o e em prego da
língua pelos belos espíritos lhe dão valor. Não tanto a inovando com o a
enchendo de serventias m ais vigorosas e m ais variadas, esticando-a e vergando-a. Eles não lhe fornecem palavras, m as enriquecem as próprias,
reforçando e aprofundando seu significado e seu uso: ensinam -lhe m ovim entos
inabituais, m as prudente e engenhosam ente. E quão pouco isso é dado a
todos, vê-se por tantos escritores franceses de nosso século. São um tanto
ousados e desdenhosos para não seguirem o cam inho com um : m as a falta de
invenção e de discernim ento os perde. Nada se vê entre eles além de um a
infeliz afetação de estranheza, disfarces frios e absurdos, que em vez de
elevar rebaixam a m atéria. Contanto que se deleitem com a novidade, pouco
se lhes dá a eficácia: para em pregar um a palavra nova, largam a palavra
corrente, quase sem pre m ais forte e m ais nervosa. Em nossa língua encontro
bastante pano, m as um pouco de falta de feitio. Pois não há nada que não se
possa fazer com o j argão de nossas caçadas e de nossas guerras, que é um
fértil terreno para em préstim os. E, assim com o as plantas, as form as de falar
m elhoram e fortificam -se ao serem transplantadas. Acho nossa língua
abundante o suficiente, m as não flexível e vigorosa o suficiente: em geral,
sucum be a um conceito poderoso. Se ficam os tensos, costum am os sentir que
ela esm orece sob nós e cede: e que na sua falta o latim se apresenta em seu
socorro, e o grego em socorro de outras. Tem os m ais dificuldade em
perceber a força de algum as dessas palavras que acabo de escolher porque
o uso e a frequência, de certa form a, aviltaram e vulgarizaram sua graça. Da
m esm a form a, em nossa linguagem com um se encontram frases excelentes e
m etáforas cuj a beleza m urchou de velhice e cuj a cor desbotou por um
m anuseio m uito corrente. Mas isso nada retira do gosto dos que têm bom faro: nem tira a glória desses autores antigos, que, com o é plausível, foram os
prim eiros a dar brilho a essas palavras. As ciências tratam das coisas m uito
sutilm ente, e de um m odo m uito artificial, diferente do com um e natural. Meu
paj em faz am or e com preende o que faz. Leia-se para ele Leão Hebreu e
Ficino: estão falando dele, do que pensa, de suas ações, m as disso ele nada
entende. Não reconheço em Aristóteles a m aioria de m inhas ações correntes.
Foram cobertas e revestidas por outra roupagem , para uso da escola. Deus
perm ita que tenham feito bem : se eu fosse da profissão, naturalizaria a arte
tanto quanto eles artificializam a natureza. E deixem os de lado Bem bo e
Equícola. Quando escrevo, dispenso a com panhia e a lem brança dos livros:
de m edo de que interrom pam m eu pensam ento. E tam bém porque, na
verdade, os bons autores m e abatem dem ais e quebram m eu ânim o. Recorro
de bom grado ao truque daquele pintor que, tendo m iseravelm ente
representado uns galos, proibia seus aprendizes de deixarem entrar em seu
ateliê qualquer galo natural. E para m e dar um pouco de brilho eu m ais
precisaria da invenção do m úsico Antinônides, 424 que, quando devia tocar, dava ordem para que, antes ou depois dele, seu auditório fosse alim entado
por alguns outros cantores ruins. Porém m ais dificilm ente consigo m e desfazer
de Plutarco: é tão universal e tão com pleto que em todas as ocasiões e em
qualquer assunto extravagante que tenham os escolhido ele se ingere em
nosso trabalho e estende-nos a m ão liberal e inesgotável de riquezas e
em belezam entos. Irrita-m e, por isso m esm o, que aqueles que o estão
pilhando podem tam bém m e estar pilhando. Não consigo frequentá-lo, por
pouco que sej a, sem arrancar-lhe um a coxa ou um a asa. Para esse m eu
obj etivo, tam bém m e vem m uito a propósito escrever em m inha casa, em
m inha terra selvagem onde ninguém m e aj ude nem m e corrij a: onde eu não
frequente nenhum hom em que entenda ao m enos o latim de seu padre-nosso,
e m enos ainda o francês. Eu a teria feito m elhor em outro lugar, m as a obra
teria sido m enos m inha: e ser m inha im agem exata é sua finalidade principal e
sua perfeição. Eu corrigiria um erro acidental, e estou repleto deles, pois
escrevo ao correr da pena, desatento, m as seria traição retirar as
im perfeições que em m im são ordinárias e constantes. Quando m e dizem ou
eu m esm o m e digo: “És dem asiado opaco nas im agens; eis um a palavra que
cheira a Gasconha; eis um a frase perigosa (não rej eito nenhum a das que se
usam pelas ruas francesas: querer com bater o uso pela gram ática é um a
pilhéria); eis um discurso ignorante; eis um discurso paradoxal; eis outro
disparatado dem ais; gracej as m uitas vezes, considerarão que falas a sério o
que falas para rir”, respondo: “Sim , m as corrij o os erros de inadvertência, não
os habituais. Não é assim que falo em qualquer lugar? Não m e represento ao
natural? Basta isso. Fiz o que quis: todo m undo m e reconhece em m eu livro, e
m eu livro em m im ”. Ora, tenho propensão a m acaquear e im itar: quando m e
m etia a fazer versos (e nunca os fiz exceto em latim ), eles evidentem ente
traíam o poeta que eu acabara de ler por últim o: e de m eus prim eiros Ensaios
alguns cheiram um pouco a algo alheio. Em Paris falo um a linguagem um tanto
diferente da que falo em Montaigne. Quem quer que sej a que eu observe com
atenção m e im prim e facilm ente algo de seu. Aquilo que observo, usurpo: um a
atitude tola, um a careta desagradável, um a form a ridícula de falar. Os defeitos, m ais: pois m e instigam , agarram -se a m im , e só se vão se eu m e
sacudir. Mais vezes viram -m e praguej ar por im itação do que por
tem peram ento. Im itação m ortífera, com o a dos m acacos horríveis por seu
tam anho e sua força, que o rei Alexandre encontrou em certa região das
Índias. Teria sido difícil vencê-los de outro j eito. Mas eles forneceram os m eios para isso pela tendência que tinham a arrem edar tudo o que viam fazer.
Pois assim os caçadores aprenderam a calçar, à vista deles, sapatos com
m uitos nós e laços; a se enfarpelarem com atavios de cabeça com nós
corredios e a fingir que untavam os olhos com cola. Então, im prudentem ente,
a tendência m acaqueadora liquidou com aqueles pobres anim ais. Eles
m esm os se enviscavam , se em aranhavam e se garroteavam . A outra
faculdade, de arrem edar engenhosam ente os gestos e palavras de outro, que
costum a causar prazer e adm iração, não existe em m im m ais do que em um
cepo. Quando j uro de m eu j eito, é apenas “por Deus”, que é o m ais correto de
todos os j uram entos. Conta-se que Sócrates j urava pelo cachorro; Zenão,
com essa m esm a interj eição que serve atualm ente aos italianos: “Cappari”; 425
Pitágoras, pela água e pelo ar. Sou tão inclinado a receber, sem pensar,
essas im pressões superficiais que se tive na boca três dias seguidos “Sire” ou
“Alteza”, oito dias depois eles m e escapam , em vez de “Excelência” ou
“Senhoria”. E o que terei dito brincando ou debochando, am anhã direi a sério.
Por isso, ao escrever acato m ais a contragosto os assuntos batidos, por
receio de tratá-los com o outro j á tratou. Todo assunto é para m im igualm ente
fértil. Tom o-os até de um a m osca. E queira Deus que este que tenho aqui em
m ãos não haj a sido escolhido por ordem de um a vontade tão volúvel. Com eço
por aquele que m e agradar, pois as m atérias estão todas encadeadas um as
nas outras. Mas m eu espírito m e descontenta por produzir em geral seus m ais
profundos, m ais loucos devaneios, e que m ais m e agradam , de im proviso e
quando m enos os procuro: assim , eles se desvanecem de repente, não tendo
eu no m om ento onde anotá-los quando estou a cavalo, à m esa, na cam a.
Porém , m ais a cavalo, quando se passam m inhas conversas m ais longas.
Quando falo intensam ente, tenho o discurso um pouco m elindroso e cioso de
atenção e silêncio. Quem m e interrom pe m e em udece. Em viagem , a própria
dificuldade dos cam inhos corta as conversas. Além disso, no m ais das vezes
viaj o sem com panhia adequada a essas conversas continuadas, o que m e
perm ite ter todo o tem po para m e entreter com igo m esm o. Acontece-m e
então com o em m eus sonhos: ao sonhar, confio-os à m inha m em ória (pois
costum o sonhar que estou sonhando), m as no dia seguinte recordo m uito bem
o colorido deles, se era alegre ou triste ou estranho; m as quanto ao resto,
saber com o eram , m ais m e esfalfo em encontrar e m ais os afundo no
esquecim ento. Tam bém das cogitações fortuitas que m e vêm à fantasia só
resta em m inha m em ória um a vaga im agem : apenas quanto basta para m e
rem oer e agastar-m e ao procurá-los, em vão. Ora, pois, deixando de lado os
livros e falando m ais m aterial e sim plesm ente: acho, afinal, que o am or não é
outra coisa além da sede desse gozo num obj eto desej ado: nem Vênus é
outra coisa além do prazer de descarregar os próprios vasos, assim com o o
prazer que nos dá a natureza de descarregar outras partes, e que se torna
vicioso por im oderação ou falta de discrição. Para Sócrates, o am or é apetite de procriação por interm édio da beleza. E considerando m uitas vezes a
ridícula titilação desse prazer, os m ovim entos absurdos, estouvados e
irrefletidos com que ele agita Zenão e Crátipo, essa fúria desm edida, esse
rosto inflam ado de furor e crueldade no m ais doce ato do am or, e depois essa
atitude grave, severa e extática num ato tão louco; e que tenham aloj ado
j untas, m isturadas, nossas delícias e nossas im undícies, e que a suprem a
volúpia tenha algo de agonia e gem idos, com o a dor, creio que é verdade o
que diz Platão, que o hom em foi feito pelos deuses para ser seu j oguete,
quaenam ista jocandi
Saevitia! 426
cruel m aneira de se divertir!
E que é por escárnio que a natureza nos deixou isso de que o m ais com um de
nossos atos é o m ais perturbador; para, assim , igualar-nos e assim ilar os
loucos e os sensatos, nós e os anim ais. Quando im agino nessa postura o
hom em m ais contem plativo e sábio, considero-o um farsante quando ele se
faz de sábio e contem plativo: são as pernas do pavão que abatem seu
orgulho;
ridentem dicere verum,
Quid vetat? 427
dizer a verdade, rindo, o que vos im pede?
Disse alguém : aqueles que, em m eio às distrações, recusam as opiniões
sérias, fazem com o quem tem e adorar a estátua de um santo se ela estiver