Os Ensaios
Sobre a experiência
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
m aior por ser m ais duradoura, assim considero que a verdade não é m ais
sábia por ser m ais velha. Costum o dizer que é pura tolice que nos faz correr
atrás dos exem plos estrangeiros e dos ensinados na escola. A fertilidade
deles é a m esm a neste m om ento com o era no tem po de Hom ero e Platão.
Mas não será porque procuram os m ais a honra da citação do que a verdade
do discurso? Com o se fosse m ais im portante tom ar em prestadas nossas
provas na loj a de Vascosan ou de Plantin532 do que naquilo que vem os em nosso vilarej o. Ou então, decerto, porque não tem os o espírito de esm iuçar e
valorizar o que se passa diante de nós nem de j ulgá-lo argutam ente a ponto
de tom á-lo com o exem plo. Pois se dizem os que nos falta autoridade para dar
fé a nosso testem unho, dizem os algo fora de propósito. É por isso que, em
m inha opinião, as coisas m ais extraordinárias e m ais com uns e conhecidas
podem constituir, se soubéssem os vê-las sob o enfoque adequado, os
m aiores m ilagres da natureza e os m ais m aravilhosos exem plos, notadam ente
sobre o tem a das ações hum anas. Ora, sobre m eu tem a, deixando de lado os
exem plos que conheço pelos livros e o que diz Aristóteles sobre Andrônio de
Argos, que atravessava sem beber os áridos desertos da Líbia, um fidalgo que desem penhou dignam ente vários cargos disse em m inha presença que
tinha ido de Madri a Lisboa, em pleno verão, sem beber. Ele é m uito vigoroso
para sua idade e sua prática de vida nada tem de extraordinária, a não ser
que ele pode ficar dois ou três m eses, e m esm o um ano, pelo que m e disse,
sem beber. Sente sede m as deixa-a passar, e afirm a que é um desej o que se
atenua facilm ente por si m esm o, e bebe m ais por capricho que por
necessidade ou por prazer. E eis o exem plo de um outro. Não faz m uito tem po
encontrei um dos hom ens m ais sábios da França, um desses de destino nada
m edíocre, estudando no canto de um a sala que lhe tinham isolado com
tapeçarias, e ao seu redor havia um a algazarra de seus criados totalm ente à
vontade. 533 Disse-m e, e Sêneca quase poderia dizer o m esm o de si, que se aproveitava daquela algazarra, com o se, atordoado pelo barulho, se fechasse
e se encolhesse m ais em si, para a contem plação, e aquela tem pestade de
vozes repercutisse em seus pensam entos interiores. Quando era estudante
em Pádua, teve seu gabinete de estudo por tanto tem po exposto ao ruído dos
coches e do tum ulto da praça que se habituou não só a desprezar m as a usar
o barulho a serviço de seus estudos. Quando Alcibíades, espantado,
perguntou a Sócrates com o conseguia suportar o contínuo alarido da teim osia
de sua m ulher, ele respondeu: “Com o os que estão acostum ados ao barulho
corrente das rodas de tirar água”. Sou o extrem o oposto: tenho o espírito leve
e fácil de levantar voo. Quando ele está concentrado em si m esm o, o m enor
zum bido de m osca o assassina. Em sua j uventude Sêneca adotou com fervor,
a exem plo de Séxtio, não com er carne que tivesse sido m orta, e dela se
privou durante um ano com prazer, com o diz. E a isso renunciou som ente para
não ser suspeito de ter tom ado essa regra de certas religiões novas que a
dissem inavam . E adotou ao m esm o tem po os preceitos de Átalo de não m ais
deitar-se em colchões que afundam : e usou até a velhice os que não cedem
ao corpo. O que o costum e de seu tem po o leva a considerar com o
austeridade o nosso leva-nos a considerar com o indolência. Observai a
diferença entre o m odo de viver de m eus trabalhadores braçais e o m eu; os
citas e os índios não têm nada que sej a m ais distante de m inha força e de
m inhas m aneiras. Sei que tirei da m endicância crianças para m e servirem e
que pouco depois deixaram a m im , à m inha cozinha e à sua libré som ente para
retornarem à vida anterior. E, depois, encontrei um a delas colhendo caracóis,
no cam inho, para seu j antar, e que nem por m eus pedidos nem por am eaças
eu soube desviar do sabor e da doçura que ela encontrava na indigência. Os
m iseráveis têm suas m agnificências e seus prazeres, com o os ricos: e, dizem ,
seus dignitários políticos e suas ordens. São os efeitos do hábito. Ele pode
levar-nos não só a um a form a que lhe agrade (por isso, dizem os sábios,
devem os adotar a m elhor, que o hábito nos facilitará de im ediato) m as
tam bém m oldar-nos para a m udança e a variação: que é o m ais nobre e o
m ais útil de seus aprendizados. A m elhor de m inhas disposições corporais é
ser flexível e pouco teim oso. Tenho tendências m ais pessoais e correntes, e
m ais agradáveis que outras. Mas com bem pouco esforço delas m e desvio e
deslizo facilm ente para o estilo oposto. Um rapaz deve sacudir as regras para
despertar seu vigor e im pedi-lo de m ofar e relaxar. E não há m odo de vida tão
estúpido e tão fraco com o aquele guiado pelas regras e pela disciplina.
Ad primum lapidem vectari cum placet, hora
Sumitur ex libro, si prurit frictus ocelli
Angulus, inspecta genesi collyria quaerit. 534
Desej a ele ser transportado até o próxim o m arco? Procura a hora propícia
no seu alm anaque de astrologia. O canto do olho lhe coça por tê-lo
esfregado dem ais? Ele só pede um colírio depois de ter consultado seu
horóscopo.
Se acreditar em m im , ele se j ogará com frequência até nos excessos: do
contrário, a m enor licensiosidade irá arruiná-lo, e em sociedade há de se
tornar incôm odo e desagradável. A qualidade m ais oposta a um hom em bem -
educado é a delicadeza extrem a e a subm issão a certa m aneira específica. E
ela é específica se não for flexível e m aleável. Há vergonha em deixar de fazer
por incapacidade ou por não ousar o que vem os fazer os com panheiros. Que
pessoas assim fiquem na cozinha! Em qualquer outro lugar, esse
com portam ento é inconveniente: m as para um soldado, é vicioso e
insuportável. Pois o soldado, com o dizia Filopêm en, deve se acostum ar a
qualquer diversidade e desigualdade na vida. Em bora eu tenha sido educado,
tanto quanto foi possível, para a liberdade e a flexibilidade, é verdade que, por
indolência, ao envelhecer fixei-m e m ais em certas form as (passei da idade da
educação e agora não tenho m ais que olhar para outra coisa senão para m e
conservar), e o hábito j á im prim iu tão bem em m im , sem eu saber, sua m arca
para certas coisas, que cham o de excesso renunciar a elas. E sem m e fazer
violência, não consigo dorm ir de dia nem fazer um a colação entre as refeições, nem tom ar o desj ej um , nem ir m e deitar depois da ceia sem um
grande intervalo, algo com o três horas, nem fazer filhos a não ser antes de
dorm ir, nem fazê-los de pé, nem suportar m eu suor, nem beber água pura ou
vinho puro, nem ficar m uito tem po com a cabeça descoberta, nem cortar o
cabelo depois do alm oço. E seria igualm ente difícil passar sem m inhas luvas
com o sem m inha cam isa, e sem m e lavar ao sair da m esa535 e ao m e levantar, e sem dossel e cortina em m inha cam a, coisas bem necessárias. Eu alm oçaria
sem toalha, m as à m oda alem ã, sem guardanapo branco, é m uito
desconfortável. Suj o-os m ais que os alem ães e que os italianos, e sirvo-m e
pouco da colher e do garfo. Lam ento que não se tenha seguido um costum e
que vi com eçar com nossos reis: que nos trocassem de guardanapos, assim
com o de prato, de acordo com cada serviço. Sabem os que Mário, aquele
rude soldado, ao envelhecer tornou-se exigente com sua bebida: e só a
tom ava num a taça pessoal sua. Da m esm a m aneira, deixo-m e levar por certo
form ato de copos, e não bebo com gosto num copo com um , tam pouco servido
por m ãos com uns. Qualquer m etal m e desagrada em com paração com um a
m atéria clara e transparente, que m eus olhos tam bém saboreiam , segundo
sua capacidade. Devo várias dessas fraquezas ao hábito. Por outro lado, a
natureza tam bém trouxe as suas: com o j á não aguentar duas refeições
com pletas por dia sem sobrecarregar m eu estôm ago, nem a abstinência total
de um a das refeições sem m e encher de gases, secar m inha boca, perturbar
m eu apetite. Nem tolerar um longo sereno. Pois de uns anos para cá, nas
corveias da guerra, quando a noite inteira se passa assim , com o é corrente
acontecer, depois de cinco ou seis horas o estôm ago com eça a m e perturbar, com veem ente dor de cabeça: e não chego ao dia sem vom itar. Quando os
outros vão tom ar o café da m anhã, vou dorm ir: e depois disso, tão alegre
com o antes. Sem pre soube que o sereno só se espalhava ao cair da noite,
m as nesses anos recentes frequentei intim am ente e por m uito tem po um
senhor im buído da crença de que o sereno é m ais severo e perigoso quando o
sol baixa, um a ou duas horas antes de se pôr (sereno que ele evita
cuidadosam ente, em bora despreze o da noite), e ele acabou m e com unicando
não tanto seu discurso com o sua sensação. E o que dizer do fato de que a
própria dúvida e a inquirição atingem nossa im aginação e nos m odificam ? Os
que cedem de repente a essas tendências atraem para si um desastre
com pleto. E lam ento que vários fidalgos, pela estupidez de seus m édicos,
tenham se confinado, perfeitam ente j ovens e saudáveis, em seus quartos.
Ainda seria m elhor suportar um resfriado do que perder para sem pre, por falta
de hábito, o com ércio da vida em com um , num ato tão usual. 536 Deplorável ciência, que nos deprecia as horas m ais doces do dia. Estendam os nosso
dom ínio sobre as coisas com todos os m eios que tem os. Se nos obstinam os,
usualm ente endurecem os e corrigim os nossa com pleição, de tanto desprezá-
la e aniquilá-la, com o fez César com a epilepsia. Devem os entregar-nos aos
m elhores preceitos m as não nos suj eitarm os a eles: exceto àqueles, se houver
algum , em que a obrigação e a suj eição sej am úteis. E os reis e os filósofos
defecam , e as dam as tam bém . As vidas públicas são devotadas à etiqueta: a
m inha, obscura e privada, goza de qualquer atividade que lhe perm ita a
natureza. Soldado e gascão tam bém são qualidades um pouco suj eitas à
im prudência. Assim sendo, direi o seguinte sobre essa atividade: que é
preciso rem etê-la a certas horas, prescritas e noturnas, e forçar-se a isso
pelo hábito, e suj eitar-se, com o fiz. Mas não suj eitar-se, com o fiz ao
envelhecer, ao conforto particular de um local e de um assento para essa
função, nem torná-la incôm oda prolongando-a ou por ser fastidiosa. Todavia,
para nossas funções m ais suj as não é de certa form a desculpável requerer
m ais cuidado e lim peza? Natura homo mundum et elegans animal est. 537O
hom em é por natureza um anim al lim po e elegante.] De todos os atos naturais,
é esse em que m enos suporto ser interrom pido. Vi m uitos hom ens de guerra
incom odados pelo desarranj o de seu ventre: ao passo que o m eu e eu nunca
falham os no m om ento de nosso encontro, que é ao pular da cam a se algum a
ocupação urgente ou doença não nos perturbam . Então, com o eu estava
dizendo, não im agino que os doentes possam se sentir m ais seguros do que
se m antendo sossegados no m odo de vida em que se criaram e se educaram .
A m udança, sej a qual for, espanta e m achuca. Quem pode acreditar que as
castanhas façam m al a um hom em do Périgord ou de Lucca? E o leite e o
queij o às pessoas da m ontanha? Vão lhes prescrevendo um a form a de vida
não só nova m as oposta: m utação que ninguém saudável conseguiria tolerar.
Prescrevei água a um bretão de setenta anos: trancai num a estufa um
m arinheiro: proibi um lacaio basco de passear: eles são privados de
m ovim ento, e enfim de ar e de luz.
An vivere tanti est?538
Cogimur a suetis animum suspendere rebus,
Atque ut vivamus, vivere desinimus:
Hos superesse rear quibus Et spirabilis aer,
Et lux qua regimur, redditur ipsa gravis. 539
Viver vale tanto assim ? Obrigam -nos a m anter nosso espírito longe de
nossos hábitos, e para continuar a viver cessam os de viver. É supor ainda
vivos aqueles para quem o ar que respiram os e a luz que nos governa nos
tornam eles m esm os insuportáveis.
Se os m édicos não fazem outro bem , fazem ao m enos este: preparam bem
cedo os pacientes para a m orte, solapando-os pouco a pouco e cortando-lhes
o uso da vida. Tanto saudável com o doente, deixei-m e levar com gosto pelos
apetites que m e pressionavam . Concedo grande autoridade a m eus desej os e
propensões. Não gosto de curar o m al pelo m al. Detesto os rem édios que
im portunam m ais que a doença. Ser suj eito à cólica e estar suj eito a m e
abster do prazer de com er ostras são dois m ales em vez de um . O m al
belisca-nos de um lado, a norm a, de outro. Já que há um risco de nos
enganarm os, arrisquem o-nos de preferência na busca do prazer. O m undo faz
o contrário e pensa que tudo o que é útil é penoso. A facilidade lhe é suspeita.
Em diversas coisas m eu apetite, felizm ente, acom odou-se por si m esm o e
adaptou-se com a saúde de m eu estôm ago. Quando j ovem , o azedo e o
picante dos m olhos agradavam -m e: m eu estôm ago rej eitando-os depois, o
paladar o seguiu incontinente. O vinho é nocivo para os doentes: é a prim eira
coisa de que m inha boca enj oa, e com um enj oo invencível. Tudo o que provo
com desagrado m e faz m al; e nada m e faz m al que eu com a com fom e e
alegria. Nunca sofri um dano com um a ação que m e foi m uito prazerosa. E assim fiz ceder a m eu prazer, bem am plam ente, toda prescrição m édica. E,
j ovem ,
Quem circumcursans huc atque huc saepe Cupido
Fulgebat crocina splendidus in tunica, 540
Enquanto, correndo sem cessar, aqui e ali, ao m eu redor, o Am or lançava
seus raios, resplandecente em sua túnica am arela,
entreguei-m e tão licenciosa e irrefletidam ente quanto qualquer outro ao desej o
que m e esm agava:
Et militavi non sine gloria. 541
E com bati não sem glória.
Mais, todavia, em duração e em constância do que em investidas.
Sex me vix memini sustinuisse vices. 542
Seis vezes apenas, em m inha m em ória.
É certam ente um a infelicidade e um a m aravilha confessar com o eu era j ovem
quando m e vi pela prim eira vez sob a suj eição de Cupido. Foi realm ente por
acaso, pois foi m uito tem po antes da idade das escolhas e do conhecim ento.
Tão longe que não m e lem bro de m im na época. E pode-se unir m eu destino
ao de Quartila, 543 que não tinha lem brança de ter sido virgem .
Inde tragus celeresque pili, mirandaque matri
Barba meae. 544
Daí aquelas axilas de bode, aqueles pelos precoces e aquela barba que
espantava m inha m ãe.
Os m édicos em geral adaptam utilm ente suas regras à violência dos desej os incoercíveis que sobrevêm aos doentes. Não se pode im aginar que a natureza
não se envolva nesse grande desej o tão estranho e vicioso. E além disso, o
que custa contentar a im aginação? Em m inha opinião essa faculdade é
im portante em tudo: pelo m enos, m ais que qualquer outra. Os m ales m ais
graves e correntes são os que a fantasia nos im põe. Essa expressão
espanhola m e agrada em vários aspectos: Defienda me Dios de my.
[Defenda-m e Deus de m im m esm o.] Estando doente, queixo-m e de não ter
nenhum desej o que m e dê a satisfação de saciá-lo: dificilm ente a m edicina m e
desviaria dele. O m esm o m e acontece sadio: j á não vej o m uita coisa a
esperar e querer. É triste estar abatido e enfraquecido até no desej o. A arte
da m edicina não é tão segura a ponto de, o que quer que façam os, não
term os nenhum a autoridade para fazê-lo. Muda segundo os clim as e as luas:
segundo Farnel e segundo L’Escale. 545 Se vosso m édico não acha bom que durm ais, que bebais vinho ou com ais tal alim ento, não vos im porteis: hei de
encontrar-vos outro que não será da m esm a opinião. A diversidade dos
argum entos e opiniões m édicas abrange form as de todo tipo. Vi um pobre
doente m orrer de sede até desm aiar, para se curar, e depois ser
ridicularizado por outro m édico, que condenava esse conselho com o nocivo.
Seu sofrim ento serviu para algum a coisa? Morreu recentem ente, de cálculo,
um hom em dessa profissão que se servira da abstinência extrem a para
com bater seu m al: dizem seus com panheiros que, inversam ente, esse j ej um o
ressecou e cozinhou-lhe a areia nos rins. Percebi que falar m e perturba e m e
prej udica quando tenho ferim entos ou doenças, tanto quanto qualquer outro
excesso que eu com eta. A voz m e custa e m e cansa, pois a m inha é forte e
estrondosa. Tanto assim que, quando m e aconteceu falar ao ouvido dos
grandes hom ens sobre negócios graves, m uitas vezes os levei a pedir-m e que
m oderasse m inha voz. Essa história m erece um a digressão. Alguém , em certa
escola grega, falava alto igual a m im : o m estre de cerim ônias pediu-lhe que
falasse m ais baixo. “Que ele m e envie”, disse, “o tom em que quer que eu
fale.” O outro lhe replicou que adotasse o tom dos ouvidos daquele com quem
falava. Foi bem dito, contanto que ele tivesse com preendido assim : “Falai de
acordo com o que estais tratando com vosso ouvinte”. Pois se isso queria
dizer: “basta que ele vos ouça”, ou “regulai-vos por ele”, não acho que fosse
certo. O volum e e a entonação da voz têm certa expressão e é um significado
do que penso: cabe a m im controlá-los para ser com preendido. Há voz para
educar, voz para adular, ou para repreender. Quero que m inha voz não só
chegue a ele, m as eventualm ente o atinj a e o trespasse. Quando repreendo
m eu lacaio num tom acre e brutal, seria bom que ele viesse m e dizer: “Meu
senhor, falai m ais suavem ente, ouço-vos bem ”. Est quaedam vox ad auditum
accommodata, non magnitudine, sed proprietate. 546Existe um tipo de voz que bate particularm ente no ouvido, m enos por sua intensidade do que por suas
qualidades intrínsecas.] A palavra é m etade de quem fala, m etade de quem a
escuta. Este deve se preparar para recebê-la, segundo o m ovim ento que ela
faz. Assim com o, entre os que j ogam pela, quem recebe a bola recua e
prepara-se, de acordo com os m ovim entos de quem lhe m anda a bola e com
o m odo de lançam ento. A experiência tam bém m e ensinou isto: que nos
perdem os por causa da im paciência. Os m ales têm sua vida e seus lim ites, suas doenças e sua saúde. A constituição das doenças é feita segundo o
m odelo da constituição dos anim ais. Elas têm seu destino e seus dias
lim itados desde o nascim ento. Quem tenta abreviá-las im periosam ente, à
força, bem no m eio de seu curso, prolonga-as e m ultiplica-as, e as atorm enta
em vez de acalm á-las. Sou da opinião de Crantor, de que não devem os nos
opor às doenças de form a obstinada e irrefletida, nem a elas sucum bir por
fraqueza: m as devem os ceder-lhes naturalm ente, segundo a condição delas e
a nossa. Devem os dar passagem às doenças, e acho que perm anecem
m enos em m im , que as deixo agir. E por seu próprio declínio m e livrei
daquelas consideradas m ais teim osas e tenazes, sem aj uda e sem arte, e
contra as regras da m edicina. Deixem os um pouco a natureza agir: ela
entende de seu negócio m elhor que nós. “Mas fulano m orreu disso!”
“Morrereis tam bém : se não desse m al, de outro.” E quantos não deixaram de
m orrer disso, tendo três m édicos agarrrados em seu traseiro? O exem plo é
um espelho vago, universal, e abrange todos os sentidos. Se o m edicam ento
for prazeroso, aceitem o-lo; é sem pre um bem no m om ento. Não m e deterei no
nom e nem na cor, se ele for delicioso e apetitoso: o prazer é um a das
principais espécies de proveito. Deixei envelhecer e m orrer em m im , de m orte
natural, resfriados, defluxos gotosos, diarreias, palpitações cardíacas,
enxaquecas e outros acidentes que desapareceram quando eu j á estava
sem iacostum ado a alim entá-los. Conj uram o-los m elhor por cortesia do que por
bravata. Tem os de sofrer calados as leis de nossa condição. A despeito de
qualquer m edicina, estam os fadados a envelhecer, enfraquecer, cair doentes.
É a prim eira lição que os m exicanos ensinam a seus filhos, quando, ao saírem
do ventre das m ães, saúdam -nos assim : “Filho, vieste ao m undo para
suportar: suporta, sofre e cala-te”. É um a inj ustiça lam entar-se de que ocorreu
a alguém o que pode acontecer com cada um . Indignare si quid in te inique
proprie constitutum est. 547Queixa-te se só a ti infligiram um tratam ento inj usto.]
Vede um velho que pede a Deus que lhe m antenha sua saúde intacta e
vigorosa; isto é, que o recoloque na j uventude:
Stulte quid haec frustra votis puerilibus optas? 548
Tolo, para que essas esperanças vãs, nutridas de votos pueris?
Não é loucura? Sua condição não com porta. A gota, o cálculo, a indigestão,
são sintom as dos longos anos, com o das longas viagens o calor, as chuvas e
os ventos. Platão não crê que Esculápio tivesse se dado ao trabalho de
procurar, pelos regim es, prolongar a vida num corpo gasto e débil: inútil a seu
país, inútil à sua ocupação, e inútil para produzir filhos saudáveis e robustos; e
não pensa que esse cuidado sej a conveniente à j ustiça e à sabedoria divinas,
que deve governar todas as coisas para um obj etivo útil. “Meu bom hom em ,
acabou-se: não conseguiríam os recuperar-vos: no m áxim o vam os rem endar-
vos e escorar-vos um pouco, e prolongarem os de algum as horas vossa
m iséria.”
Non secus instantem cupiens fulcire ruinam,
Diversis contra nititur obicibus,
Donec certa dies omni compage soluta,
Ipsum cum rebus subruat auxilium.549
Assim com o aquele que desej a consolidar um a construção am eaçando ruir
luta contra o desabam ento na base de escoras, até o dia em que toda a
estrutura se desfaz e os próprios reforços desm oronam com o conj unto.
É preciso aprender a sofrer o que não se pode evitar. Nossa vida é com posta,
com o a harm onia do m undo, de coisas contrárias e tam bém de diversos tons,
doces e ásperos, agudos e graves, fracos e fortes. O m úsico que só gostasse
de uns, o que quereria cantar? Ele tem de saber utilizá-los em conj unto e
m isturá-los. E nós tam bém , os bens e os m ales que são consubstanciais à
nossa vida. Sem essa m escla nosso ser nada pode: e um lado não é m enos
necessário que o outro. Tentar escoucear essa necessidade natural é im itar a
loucura de Ctesifonte, que tentava desafiar sua m ula a trocarem pontapés.
Consulto pouco para os distúrbios que sinto. Pois essas pessoas aproveitam -
se de suas vantagens quando nos têm à sua m ercê. Martelam nossos ouvidos
com seus prognósticos, e, flagrando-m e um dia enfraquecido pela doença,
m altrataram -m e com seus dogm as e suas carantonhas doutorais, am eaçando-
m e ora de grandes dores ora de m orte im inente. Não fui derrubado nem
desaloj ado de m inha fortaleza m as fui sacudido e em purrado. Se por causa
disso m eu j uízo não m udou nem se perturbou, ao m enos ficou atrapalhado. É
sem pre um alvoroço e um com bate. Ora, trato m inha im aginação com a m aior
doçura possível, e se pudesse a livraria de qualquer sofrim ento e contestação.
É preciso socorrê-la e adulá-la, e tapeá-la se possível. Meu espírito presta-se
a esse serviço. Não lhe faltam boas razões para tudo. Se ele convencesse
assim com o prega, m e daria um a feliz aj uda. Quereis um exem plo? Ele diz que é para m eu bem que tenho cálculos. Que as construções de m inha idade têm
naturalm ente problem as com algum a goteira. É hora de com eçarem a se
estragar e se degradar. É um a necessidade com um a todos. E não teriam
feito para m im um novo m ilagre. Pago com isso o aluguel devido à velhice; e
não conseguiria ter algo m ais em conta. Que ter com panhia deveria m e
consolar, tendo caído na doença m ais corrente dos hom ens de m eu tem po.
Por todo lado vej o hom ens afligidos por doença da m esm a natureza. E a
com panhia deles é para m im honrosa, visto que esse m al ataca m ais
facilm ente os grandes: sua essência tem nobreza e dignidade. Que dos
hom ens atingidos há poucos que fiquem quites por m elhor preço: isso lhes custa o sofrim ento de um desagradável regim e e o aborrecim ento de tom ar
diariam ente drogas m edicinais, ao passo que devo m eu estado de saúde
puram ente à m inha boa fortuna. Pois as poucas infusões rotineiras de cardo
do cam po e de erva-turca que duas ou três vezes engoli, para agradar às
dam as que m e ofereciam a m etade das suas m ais graciosam ente do que a
gravidade de m eu m al, pareceram -m e igualm ente fáceis de tom ar e inúteis
nos efeitos. Esses hom ens têm de pagar m il prom essas a Esculápio e outros
tantos escudos a seus m édicos pela fácil e abundante expulsão de areia que
costum a m e ocorrer por bondade da natureza. No convívio nem m esm o a
decência de m eu com portam ento é perturbada, e prendo m inha urina dez
horas ou tanto tem po quanto um a pessoa saudável. “O m edo desse m al”, diz-
m e m eu espírito, “te apavorava outrora quando te era desconhecido. Os gritos
e o desespero dos que o exacerbam com sua im paciência geravam em ti o
horror. É um a doença que te ataca os m em bros pelos quais tu m ais erraste.
És hom em de consciência:
Quae venit indigne paena, dolenda venit. 550
Quando o castigo sobrevém im erecido, sobrevém na dor.
Olha este castigo: ele é bem suave em com paração com outros, com o um
favor paternal. Olha com o tardou: só incom oda e ocupa a fase de tua vida
que, quer queira, quer não, está doravante perdida e estéril, depois de ter
dado livre curso, com o por contrato, à licensiosidade e aos prazeres de tua
j uventude. O tem or e a piedade que o povo têm diante desse m al te servem
de m atéria de vaidade. Em bora tenhas purgado teu j ulgam ento e curado tua
razão, é esta um a qualidade de que teus am igos ainda reconhecem , porém ,
algum traço em teu com portam ento. Há prazer em ouvir dizer de si: que força
ele tem , que resistência ele tem . Veem -te transpirar, em palidecer, enrubescer,
trem er, vom itar até sangue, sofrer contrações e convulsões estranhas,
derram ar às vezes grandes lágrim as dos olhos, ficar com a urina espessa,
negra e pavorosa, ou vê-la bloqueada por algum a pedra eriçada de espinhos
que te espeta e te esfola cruelm ente o canal do pênis, m antendo porém com
os presentes um a atitude norm al, gracej ando vez por outra com tua gente:
desem penhando teu papel num a conversa séria, desculpando tua dor com
palavras e atenuando teu sofrim ento. Lem bras-te daquelas pessoas de
antigam ente que procuravam as doenças com tanto apetite para m anter suas
virtudes em ordem , exercitando-as? Im agina se a natureza está te carregando
e te im pelindo para essa gloriosa escola na qual não terias j am ais entrado por
tua vontade. Se m e dizes que se trata de um m al perigoso e m ortal, quais outros não o são? É um a im postura m édica excetuar alguns e dizer que não
levam diretam ente à m orte. Pois que im porta, se levam por acaso,
esgueirando-se e desviando-se facilm ente para o m esm o cam inho que nos
leva até lá? Mas não m orres porque estás doente, m orres porque estás vivo.
A m orte te m ata sem o auxílio da doença. E em alguns casos as doenças
retardaram a m orte: os doentes viveram m ais porque lhes parecia que
estavam m orrendo. Acresce que, assim com o as feridas, tam bém há doenças
m edicinais e salutares. A cólica costum a ser não m enos tenaz do que nós.
Veem -se hom ens em quem ela durou desde a infância até a extrem a velhice; e
se eles não a tivessem abandonado, lá estaria para acom panhá-los m ais
longe. Vós a m atais com m ais frequência do que ela vos m ata. E quando ela
te apresentasse a im agem da m orte próxim a, não seria um bom serviço
prestado a um hom em dessa idade levá-lo às cogitações de seu fim ? E, o que
é pior, não tens m ais por que curar-te. Assim , m ais dia m enos dia o destino
com um vai te convocar. Considera quão hábil e suavem ente ela te faz
desgostar da vida e te desprende do m undo: não te forçando por um a
suj eição tirânica, com o tantos outros m ales que vês nos velhos e que os
m antêm continuam ente entrevados e sem trégua nas fraquezas e dores: m as
por advertências e instruções interm itentes, entrem eando longas pausas de
repouso, com o para dar-te um m eio de m editares e repetires sua lição à
vontade. Para dar-te um a m aneira de j ulgar saudavelm ente e tom ar partido
com o hom em de coragem , ela te apresenta o estado integral de tua condição,
no bem e no m al; e, no m esm o dia, um a vida ora m uito alegre, ora insuportável. Se não abraças a m orte, pelo m enos tocas sua m ão um a vez por
m ês. Assim podes, adem ais, esperar que ela te agarrará um dia sem am eaça.
E que, tendo te conduzido tantas vezes ao porto, certa m anhã,
inopinadam ente, quando ainda confiares que estás nas condições habituais,
levarão a ti e a tua confiança para atravessardes o rio. 551 Não devem os nos queixar das doenças que dividem lealm ente o tem po com a saúde.” Sou grato
à fortuna por m e atacar com tanta frequência com o m esm o tipo de arm as.
Am olda-m e e treina-m e pelo uso, enrij ece-m e e habitua-m e: agora sei m ais ou
m enos com que devo estar quite. Na falta de m em ória natural, forj o a de papel
e, quando sobrevém um novo sintom a de m eu m al, escrevo-o: do que decorre
que, nessa hora, tendo passado por quase todo tipo de exem plos de tais
sintom as, se algum distúrbio m e am eaça não deixo de encontrar, ao folhear
estas pequenas notas descosidas com o as folhas das Sibilas, com que m e
consolar graças a um prognóstico favorável de m inha experiência passada. O
hábito tam bém m e serve para esperar algo m elhor no futuro. Pois tendo esse
processo de elim inação continuado por tanto tem po, é de crer que a natureza não m udará esse ritm o e não ocorrerá outra crise pior do que aquela que
sinto. Além disso, a condição dessa doença não é inapropriada a m eu
tem peram ento vivo e brusco. Quando m e assalta de m ansinho, am edronta-
m e, pois é por longo tem po. Mas habitualm ente tem surtos vigorosos e
enérgicos. Sacode-m e exageradam ente por um dia ou dois. Meus rins
aguentaram um tem po sem alteração; breve haverá outro, pois m udaram de
condição. Os m ales têm um a fase, assim com o os bens: talvez essa desgraça
estej a em seu fim . A idade enfraquece o calor de m eu estôm ago; sua digestão estando m enos perfeita, ele envia essa m atéria crua a m eus rins. Por que o
calor de m eus rins não poderá estar, depois de certo ciclo, igualm ente
enfraquecido, de m odo a não poderem m ais petrificar m inha fleum a e
obrigarem a natureza a encam inhar-se para outro cam inho de purgação?
Evidentem ente os anos m e fizeram esgotar certos resfriados; por que não
essas excreções que fornecem m atéria para as pedras? Mas há algo m ais
doce do que essa m udança súbita, quando de um a dor extrem a venho, pela
expulsão de m inha pedra, a recuperar com o num raio a bela luz da saúde, tão
livre e tão plena, com o acontece em nossas cólicas súbitas e m ais violentas?
Há algo nessa dor sofrida que possa contrabalançar o prazer de tão pronta
m elhora? Com o a saúde parece-m e m ais bela depois da doença, tão próxim a
e tão contígua que posso identificá-las um a em presença da outra, em seus
m ais belos traj es, quando se põem à porfia com o para se enfrentarem e se
opor! Assim com o os estoicos dizem que os vícios foram utilm ente
introduzidos para dar valor e apoio à virtude, podem os dizer, com m ais razão,
e fazendo um a conj ectura m enos ousada, que a natureza nos em prestou a dor
para honrar e servir ao prazer e à ausência de dor. Quando Sócrates, depois
que o soltaram de suas correntes, sentiu o deleite daquela coceira nas pernas
causada pelo peso, divertiu-se em pensar sobre a estreita aliança entre a dor
e o prazer: com o são associados por um a ligação necessária, de tal m odo
que se seguem alternadam ente e engendram -se m utuam ente. E exclam ava
que o bom Esopo deveria ter tirado dessa consideração substância adequada
a um a bela fábula. O pior que vej o nas outras doenças é que não são tão
graves em seus efeitos com o são em suas consequências. Levam os um ano
para convalescer, sem pre cheios de fraqueza e tem or. Há tanto risco e tantos
degraus no cam inho que nos reconduz à saúde que isso nunca term ina. Antes
que vos tenham livrado de um boné e depois de um barrete, antes que vos
tenham devolvido o acesso ao ar fresco, ao vinho e à vossa m ulher, e aos
m elões, é o diabo se não tiverdes recaído em algum a nova desgraça. Esta
aqui tem o privilégio de que vai em bora de vez, ali onde as outras deixam sem pre um rastro e um a alteração que torna o corpo suscetível a novas
doenças, que se dão as m ãos um as às outras. Os m ales que se contentam
com o direito de posse sobre nós, sem estendê-lo e sem introduzir suas
sequelas, são desculpáveis. Mas corteses e graciosos são aqueles cuj a
passagem nos traz algum resultado útil. Desde m inha cólica, ando livre de
outros transtornos: m ais, parece-m e, do que estava antes, e desde então não
tive nenhum a febre. Argum ento que os vôm itos extrem os e frequentes de que
sofro m e purgam : e, por outro lado, m eus fastios e os j ej uns incríveis que faço
digerem m eus hum ores ruins, e a natureza esvazia nessas pedras o que tem
de supérfluo e nocivo. Que não m e digam que é um rem édio que custa caro
dem ais. Pois o que se poderia dizer de tantas bebidas fedorentas, cautérios,
incisões, suadouros, drenos, dietas e tantas form as de curar que costum am
nos trazer a m orte por não conseguirm os aguentar sua violência e
inoportunidade? Assim sendo, quando sou atacado por m inha doença
considero-a um rem édio: quando estou ileso, considero isso um a libertação
com pleta e duradoura. Eis m ais um favor, específico, de m eu m al. É que m ais
ou m enos ele faz seu j ogo à parte e deixa-m e fazer o m eu; ou, se não o faço,
é por falta de coragem . Em sua m aior m anifestação aguentei-o, m ontado a
cavalo, dez horas. “Suportai apenas, não tendes que fazer outro regim e: j ogai,
j antai, correi, fazei isto e fazei tam bém aquilo, se for possível; vossos abusos
m ais servirão que prej udicarão.” Dizei o m esm o a um sifilítico, a um gotoso, a
um hernioso! As outras doenças têm restrições m ais gerais; atrapalham bem
m ais nossas ações; perturbam todo o nosso com portam ento e forçam -nos a levá-las em consideração durante todo o estado de nossa vida. Esta apenas
belisca a pele; deixa à vossa disposição a inteligência e a vontade e a língua,
e os pés e as m ãos. Mais vos desperta que vos adorm ece. A alm a é que é
atingida pelo calor de um a febre, e abatida por um a epilepsia, e despedaçada
por um a violenta enxaqueca, e enfim com balida por todas as doenças que
ferem o conj unto e os órgãos nobres. Aqui, ela não é atacada. Se as coisas
vão m al para m inha alm a, a culpa é dela. Ela m esm a se trai, abandona-se e
desarm a-se. Só os loucos se deixam persuadir de que esse corpo duro e
m aciço que se form a em nossos rins pode se dissolver por beberagens.
Então, depois que ele se m oveu, basta lhe dar passagem e assim ele
passará. Tam bém observo esta vantagem particular: que é um a doença sobre
a qual tem os pouco a adivinhar. Som os dispensados do transtorno em que os
outros m ales nos j ogam pela incerteza de suas causas e condições e
progressão. Confusão infinitam ente penosa. Não tem os o que fazer com
consultações e interpretações doutorais: os sentidos m ostram -nos o que é e
onde é. Com tais argum entos, tanto fortes com o fracos, com o os de Cícero
sobre o m al de sua velhice, esforço-m e em dorm ir e distrair m inha im aginação e ungir suas feridas. Se am anhã elas piorarem , am anhã providenciarem os
outras vias de escape. E isso é bem verdade. Pois eis que recentem ente os
m ais leves m ovim entos expeliram puro sangue de m eus rins. Que dizer disso?
Não deixo de m e m over com o antes e de galopar atrás de m eus cães com um
ardor j uvenil e insolente. E creio que não pago caro por um problem a tão
im portante, que só m e custa um a dor surda e um a alteração nessa parte. É
um a pedra grande que com prim e e consom e a substância de m eus rins, é
m inha vida que pouco a pouco vai se esvaziando, não sem certa doçura
natural, com o um a excreção de agora em diante supérflua e incôm oda. Agora
sinto algo que desm orona em m im : não espereis que eu vá m e divertir em
exam inar m eu pulso e m inha urina em busca de algum a previsão
desagradável. Já terei tem po bastante para sentir o m al sem prolongá-lo com
o m al do m edo. Quem tem e sofrer j á sofre porque tem e. Acresce que a
dúvida e a ignorância dos que se m etem a explicar as engrenagens da
natureza e suas progressões internas, e tantos falsos prognósticos da arte
deles, obrigam -nos a reconhecer que ela tem m eios infinitam ente
desconhecidos. Há grande incerteza, diversidade e obscuridade no que ela
nos prom ete ou do que nos am eaça. Salvo a velhice, que é um sinal
indubitável da aproxim ação da m orte, de todos os outros infortúnios vej o
poucos sinais do futuro em que devem os basear nossa adivinhação. Só m e
j ulgo por verdadeiras sensações, e não por raciocínio. O que isso adiantaria,
j á que nada posso fazer além de m e preparar para a espera e a resistência?
Quereis saber quanto ganho com isso? Olhai para os que fazem de outra
form a e dependem de tantos diversos conselhos e opiniões: quão frequente a
im aginação os pressiona sem que o corpo interfira! Muitas vezes tive prazer,
estando em segurança e livre dessas crises perigosas, em com unicá-las aos
m édicos com o se estivessem nascendo em m im naquele m om ento. Eu
suportava, m uito à vontade, o veredicto de suas conclusões horrorosas; e
ficava ainda m ais grato a Deus por sua graça e m ais bem instruído sobre a
inutilidade dessa arte. Não há nada que se deva tanto recom endar à j uventude com o ser ativo e enérgico. Nossa vida é apenas m ovim ento. Mexo-m e com
dificuldade e sou m oroso em tudo: para m e levantar, para m e deitar, em
m inhas refeições. Sete horas é m adrugada para m im : e ali onde decido não
alm oço antes das onze nem j anto antes das seis horas. Outrora atribuí a
causa das febres e das doenças que m e acom eteram ao peso e ao
entorpecim ento que o sono prolongado m e trouxe. E sem pre m e arrependi de
cair novam ente no sono de m anhã. Platão enxerga m al m aior no excesso de
sono que no excesso de bebida. Gosto de dorm ir num a cam a dura, e sozinho;
e m esm o sem m ulher, à m oda dos reis, e um tanto bem coberto. Nunca
aquecem m inha cam a, m as desde a velhice m e dão, quando preciso,
cobertores para esquentar os pés e o estôm ago. Criticava-se o grande Cipião
por ser dorm inhoco, a m eu ver apenas porque os hom ens se irritavam que só
nele não houvesse nenhum a coisa para se criticar. Se tenho algum cuidado
especial em m eus hábitos é m ais na hora de deitar-m e do que em qualquer
outra coisa; m as aceito e em geral m e acom odo com a necessidade, tanto
quanto qualquer outro. O sono ocupou grande parte de m inha vida, e ainda
ocupa, nesta idade, oito ou nove horas, de um a assentada. Se necessário
dispenso-m e dessa propensão à preguiça, e evidentem ente m e sinto m elhor.
Ressinto-m e um pouco do choque dessa m utação, m as isso se acaba em três
dias. E não vej o m uitos que vivam com m enos quando surge a necessidade, e
que trabalhem m ais constantem ente e sintam m enos que eu o peso das
corveias. Meu corpo é capaz de um a agitação firm e, m as não repentina e
violenta. Agora fuj o dos exercícios violentos e que m e levam à transpiração: m eus m em bros se cansam antes de se aquecerem . Mantenho-m e de pé,
durante um dia todo, e não m e aborreço de cam inhar. Mas na rua
pavim entada, desde m inha tenra idade, só gosto de ir a cavalo. A pé fico
enlam eado até o traseiro: e as pessoas baixas estão suj eitas, nessas ruas, a
serem em purradas e a levarem cotoveladas por falta de um a presença
im ponente. E sem pre gostei de m e repousar, sej a deitado, sej a sentado, com
as pernas tão ou m ais altas que a cadeira. Não há ocupação tão agradável
com o a m ilitar: ocupação nobre tanto em sua prática (pois a m ais forte,
generosa e fantástica de todas as virtudes é a valentia) com o nobre em sua
causa. Não há serviço m ais j usto nem m ais com pleto do que a proteção da
paz e da grandeza de seu país. Agradam -vos a com panhia de tantos hom ens
j ovens, nobres e ativos, a visão corrente de tantos espetáculos trágicos, a
liberdade dessa conversa sem artifícios, e um m odo de vida viril e sem
cerim ônia, a variedade de m il ações diversas, essa coraj osa harm onia da
m úsica m arcial que vos entretém e vos aquece tanto os ouvidos com o a alm a,
a honra desse exercício, sua própria dureza e sua dificuldade, que Platão
estim a tão pouco que, em sua República, faz dela participar as m ulheres e as
crianças. Escolheis vossos papéis e riscos particulares, de acordo com vosso
j ulgam ento sobre o esplendor e a im portância deles: soldado voluntário. E ao
verdes quando a própria vida aí é exposta, j ustificavelm ente,
pulchrumque mori succurrit in armis. 552
vem ao vosso espírito que é belo m orrer em com bate.
Ter m edo dos riscos com uns, que am eaçam tão grande m ultidão, não ousar o que tantos tipos de alm as ousam , e até m esm o todo um povo, é coisa para um coração frouxo e extrem am ente baixo. A cam aradagem tranquiliza até
m esm o os garotos. Se outros vos superam em conhecim ento, graça, força e
fortuna, podeis incrim inar causas terceiras; m as se lhes cedeis em firm eza de
alm a, só tendes a incrim inar a vós m esm os. A m orte é m ais abj eta, m ais
dem orada e m ais dolorosa num a cam a do que num com bate; as febres e os
catarros, tão dolorosos e m ortais com o tiros de arcabuzes. Quem fosse feito
para suportar valorosam ente os infortúnios da vida ordinária não precisaria
aum entar sua coragem para tornar-se soldado. Vivere, mi Lucilli, militare
est. 553Viver, m eu caro Lucílio, é portar arm as.] Não m e lem bro de j am ais ter m e visto com sarna. No entanto, a coceira é das m ais deliciosas gratificações
da natureza, e ao alcance da m ão. Mas ela tem com o vizinha, m uito
inconvenientem ente, o arrependim ento. Exerço-a m ais nas orelhas, em cuj o
interior sinto de vez em quando um as com ichões. Nasci com todos os m eus
sentidos intactos quase à perfeição. Meu estôm ago é saudavelm ente bom ,
com o é m inha cabeça: e no m ais das vezes resistem às m inhas febres. E m eu
fôlego tam bém . Passei da idade554 em que certos povos, não sem boa razão, fixavam um fim de vida tão j usto que não perm itiam que ele fosse
ultrapassado. Entretanto, ainda tenho períodos de rem issão: em bora variáveis
e curtos, tão nítidos que pouco ficam a dever à saúde e à ausência de dor de
m inha j uventude. Não falo do vigor e da alegria: não há razão para que m e
sigam além de seus lim ites:
Non hoc amplius est liminis, aut aquae
Coelestis, patiens latus. 555
A dureza de um a soleira, os tem porais do céu, m eu corpo não m ais os suporta.
Meu rosto e m eus olhos revelam -m e de im ediato. Todas as m inhas m udanças
com eçam por aí: e um pouco m ais agudas do que são de fato. Costum o
inspirar pena a m eus am igos antes m esm o que eu sinta a causa disso. Meu
espelho não m e espanta: pois m esm o na j uventude aconteceu-m e m ais de
um a vez exibir assim um a cor e um j eito estranhos e de m au prognóstico, sem
m aiores com plicações, em m atéria que os m édicos, não encontrando
internam ente causa que respondesse àquela alteração externa, atribuíam à
m inha m ente e a algum a paixão secreta que m e corroía por dentro.
Enganavam -se. Se o corpo m e obedecesse tanto quanto m inha alm a,
cam inharíam os um pouco m ais à vontade. Na época, ela não só estava isenta
de transtorno m as ainda cheia de satisfação e j úbilo, com o é m ais
com um ente: m etade por tem peram ento, m etade por vontade:
Nec vitiant artus aegrae contagia mentis.556
Não há contágio entre m eu espírito doente e m eu corpo.
Penso que essa disposição de m inha alm a m uitas vezes sustentou o corpo
contra suas quedas: volta e m eia ele está abatido; se ela não está j ovial, ao
m enos está tranquila e descansada. Durante quatro ou cinco m eses tive febre
quartã, que m e desfigurou com pletam ente: o espírito sem pre esteve não só
sossegado, m as contente. Se a dor está longe de m im , o enfraquecim ento e o
langor não m e entristecem . Vej o várias deficiências corporais que horrorizam
só ao serem citadas, e que eu tem eria m enos que m il paixões e agitações de
espírito que vej o na prática. Tom o o partido de não m ais correr, basta que m e arraste; nem m e queixo da decadência natural que m e afeta,
Quis tumidum guttur miratur in Alpibus? 557
Quem se espanta ao ver um bócio nos Alpes?
e não m e lam ento que m inha vida não sej a tão longa e forte com o a de um
carvalho. Não tenho por que m e queixar de m inha im aginação: tive poucos
pensam entos em m inha vida que haj am sequer interrom pido o curso de m eu
sono, salvo os que eram do desej o, que m e acordavam sem m e afligir. Sonho
com pouca frequência; e então é com coisas fantásticas e com quim eras,
produzidas com um ente por pensam entos agradáveis, m ais ridículos que
tristes. E tom o com o verdade que os sonhos são leais intérpretes de nossas
inclinações; m as há arte em com biná-los e entendê-los.
Res quae in vita usurpant homines, cogitant, curant, vident,
Quaeque agunt vigilantes, agitantque, ea sicut in somno accidunt,
Minus mirandum est.558
As coisas que os hom ens utilizam na vida corrente, e o que acordados eles