Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 33 de 33 · parte 3/3

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Os Ensaios

Sobre a experiência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

pensam , acertam , veem , fazem , exam inam , tam bém aparecem em sonho:

nada de espantoso nisso.

Platão diz m ais: que é função da sabedoria tirar dos sonhos instruções

divinatórias para o futuro. Nada tenho a dizer sobre isso, exceto as

m aravilhosas experiências que contam Sócrates, Xenofonte, Aristóteles,

personagens de irrepreensível autoridade. As histórias dizem que os atlantes nunca sonham : que tam bém não com em nada que tenha sido m orto, o que

acrescento porque talvez sej a a razão para que não sonhem . Pois Pitágoras

ordenava certa preparação da com ida para ter sonhos apropriados. Os m eus são suaves: e não m e trazem nenhum a agitação do corpo nem expressão de

voz. Vi vários em m inha época serem fantasticam ente agitados pelos sonhos.

Téon, o filósofo, passeava sonhando, e o criado de Péricles, em cim a das

próprias telhas e da cum eeira da casa. À m esa, praticam ente não escolho, e

pego a prim eira coisa e a m ais próxim a: e não gosto de passar de um gosto a

outro. Desagrada-m e a m ultidão de pratos e de serviços, tanto quanto

qualquer m ultidão. Contento-m e facilm ente com poucos pratos e detesto a

opinião de Favorino de que num banquete é preciso que vos retirem a iguaria

que estais apreciando e que a substituam sem pre por um a nova. E que é um a

m ísera ceia se os presentes não forem em panturrados de traseiros de aves

diversas, e que só o papa-figo m erece que o com am os inteiro. Em fam ília,

com o pratos salgados: m as prefiro o pão sem sal. E o padeiro de m inha casa

não serve outro em m inha m esa, ao contrário do uso da terra. Em m inha

infância tiveram de corrigir principalm ente m inha recusa das coisas que em

geral preferim os nessa idade: açúcar, geleias, doces de forno. Meu preceptor

com bateu essa aversão aos pratos delicados com o se fosse um a espécie de

delicadeza. No entanto, nada m ais é do que um gosto difícil, em qualquer

coisa em que se m anifeste. Quem tira de um a criança certa afeição especial e

obstinada por pão de centeio, toucinho ou alho, tira-lhe a gulodice. Há os que

se fazem de pesarosos e sofredores e sentem saudades do boi e do presunto

quando com em perdizes. Têm sorte: isso é a delicadeza dos delicados; é o

gosto de um a fortuna indolente, que acha insípidas as coisas correntes e

costum eiras, Per quae luxuria divitiarum taedio ludit. 559Graças às quais o luxo quer escapar do tédio das riquezas.] A essência desse vício é privar-se de

apreciar os bons pratos porque outros os apreciam , e ter um cuidado

exagerado com a própria alim entação;

Si modica coenare times olus omne patella. 560

Se hesitas cear só legum es num prato m odesto.

Há realm ente um a diferença, no sentido de que m ais vale suj eitar seu desej o

às coisas m ais fáceis de se obter, m as é sem pre um vício suj eitar-se a isso.

Antigam ente eu cham ava de delicado um parente m eu que desaprendera em

nossas galés a servir-se de nossas cam as e a despir-se para se deitar. Se eu

tivesse filhos hom ens, lhes desej aria com gosto a m inha sorte. O bom pai que

Deus m e deu (que de m im só tem o reconhecim ento por sua bondade, m as

certam ente m uito vigoroso) enviou-m e desde o berço para ser criado num

vilarej o pobre de sua senhoria, e ali m e m anteve enquanto eu estava sendo

am am entado e m esm o m ais tarde, habituando-m e assim ao m ais m odesto e

ordinário m odo de viver: Magna pars libertatis est bene moratus venter. 561Um ventre sóbrio garante um a boa parte de liberdade.] Jam ais deveis assum ir, e

m enos ainda vossas m ulheres, o encargo de educá-los: deixai os garotos

form arem -se pela fortuna, segundo leis populares e naturais, deixai aos

costum es criá-los na frugalidade e na austeridade; que tenham de descer de

um a vida rude em vez de subir a ela. A conduta de m eu pai ainda visava a

outra finalidade: ligar-m e ao povo e àquele gênero de hom ens que precisam

de nossa aj uda, e considerava que eu devia olhar m ais para quem m e estende

os braços do que para quem m e vira as costas. E foi tam bém essa a razão

pela qual m e entregou na pia batism al a pessoas de fortuna m ais m odesta, para m e obrigar e ligar-m e a elas. Seu obj etivo não foi m alsucedido: dedico-

m e com gosto aos hum ildes; sej a porque há m ais glória nisso, sej a por

com paixão inata, que em m im é infinitam ente poderosa. O partido que

condeno em nossas guerras, eu condenarei m ais duram ente quando for

florescente e próspero. E de certa form a hei de m e conciliar com ele quando o

vir m iserável e esm agado. Com o aprecio com gosto o belo com portam ento de

Queilônis, filha e m ulher de reis de Esparta! Enquanto Cleôm broto, seu

m arido, durante as desordens de sua cidade levou vantagem sobre Leônidas,

seu pai, ela agiu com o boa filha; e j untou-se ao pai em seu exílio, em sua

m iséria, opondo-se ao partido vitorioso. A sorte veio a m udar? Ei-la m udando

de vontade j unto com a fortuna, alinhando-se coraj osam ente com o m arido, ao

qual seguiu por onde sua ruína o levou. Não tendo, parece-m e, outra escolha

senão escolher o partido onde era m ais necessária e m ostrava-se m ais

com passiva. Deixo-m e naturalm ente atrair pelo exem plo de Flam ínio, que se

ocupava m ais dos que precisavam dele que daqueles que podiam lhe ser

úteis; prefiro-o ao exem plo de Pirro, que se rebaixava diante dos grandes e

glorificava-se diante dos pequenos. As longas refeições entediam -m e e m e

fazem m al, pois, talvez por ter m e acostum ado em criança, na falta de m elhor

com portam ento, fico com endo enquanto estou ali. Na m inha casa, porém ,

em bora elas sej am curtas, gosto de sentar-m e à m esa um pouco depois dos

outros, com o fazia Augusto. Mas não o im ito saindo da m esa tam bém antes

dos outros. Ao contrário, gosto de descansar m uito tem po depois e ouvir os

outros conversarem . Contanto que eu não m e m eta nisso, pois m e canso e m e faz m al falar de estôm ago cheio, ao passo que acho m uito salutar e agradável

o exercício de argum entar e discutir antes da refeição. Os antigos gregos e

rom anos tinham m elhor com portam ento que nós, dedicando à alim entação,

que é um a ação prim ordial da vida, várias horas do dia e a m elhor parte da

noite, se outra ocupação extraordinária não os desviasse disso, com endo e

bebendo m enos apressadam ente que nós, que fazem os todas as nossas

ações correndo; e estendendo o tem po e o proveito desse prazer natural, e

entrem eando-o de várias conversas sociais úteis e agradáveis. Os que devem

cuidar de m im poderiam , por m uito pouco, esconder-m e o que pensam m e ser

nocivo, pois nunca desej o nem solicito as coisas que não vej o. Mas das que se

apresentam a m im , perdem seu tem po ao m e pedir que delas m e abstenha.

De tal m odo que quando quero j ej uar preciso ficar afastado dos que j antam , e

que m e apresentem j usto o que é necessário para um a colação m oderada,

pois se m e sento à m esa esqueço m inha resolução. Quando m ando que

m udem o preparo de algum prato, m eu pessoal sabe que isso quer dizer que

m eu apetite está fraco e que não tocarei nele. Gosto de com er pouco cozidas

as carnes que se prestam a isso. E gosto delas m uito m aceradas, e em várias

até o cheiro se alterar. Só a sua dureza é que geralm ente m e desagrada

(quanto a qualquer outra qualidade sou tão indiferente e tolerante com o todas

as pessoas que conheci), m as, ao contrário do gosto com um , m esm o entre os

peixes m e ocorre achá-los uns frescos dem ais e outros firm es dem ais. Não é

culpa de m eus dentes, que sem pre tive bons e m esm o excelentes, e que a

idade só agora com eça a am eaçar. Aprendi desde a infância a esfregá-los com m eu guardanapo, tanto de m anhã com o antes de sentar-m e e depois de

sair da m esa. Deus concede um a graça àqueles a quem subtrai a vida pouco

a pouco. É o único benefício da velhice. A derradeira m orte será m enos

com pleta e m enos nociva, não m atará m ais que a m etade ou um quarto de

hom em . Eis um dente que acaba de m e cair, sem dor, sem esforço: era o

térm ino natural de sua duração. E essa parte de m eu ser e várias outras j á

estão m ortas, outras, sem im ortas, das m ais ativas e que ocupavam o prim eiro

lugar no vigor de m inha j uventude. É assim que m e dissolvo e escapo a m im

m esm o. Não será um a estupidez para m inha inteligência sentir o salto dessa

queda com o se fosse com pleta, quando ela j á está avançada? Não desej o

isso. Na verdade, recebo um consolo prim ordial dos pensam entos sobre m inha

m orte: que ela sej a j usta e natural, e que doravante eu não possa exigir nem

esperar do destino nenhum favor ilegítim o. Os hom ens im aginam que outrora a

duração da vida, assim com o a estatura, era m aior. Mas enganam -se, e

Sólon, que é desses velhos tem pos, fixa a duração extrem a da vida em

setenta anos. Eu, que tanto adorei e tão com pletam ente essa ἄριστον

μετρον562perfeita m edida] de tem pos passados, e que tanto considerei com o a m ais perfeita a m edida m édia, pretenderei ter um a velhice desm edida e

anorm al? Tudo o que vai contra a corrente da natureza pode ser

desagradável: m as o que vem de acordo com ela deve ser sem pre agradável.

Omnia, quae secundum naturam fiunt, sunt habenda in bonis. 563 Tudo o que se faz em conform idade com a natureza deve ser posto na categoria de bens.]

Por isso, adm ite Platão, a m orte que os ferim entos ou as doenças trazem é

violenta, m as aquela que nos surpreende quando a velhice nos conduz a ela é de todas a m ais leve e de certo m odo deliciosa. Vitam adolescentibus, vis

aufert, senibus maturitas. 564 A vida dos hom ens j ovens é a violência que a leva, a dos velhos é a ação do tem po.] A m orte introm ete-se e confunde-se

com tudo em nossa vida: o declínio adianta sua chegada e ingere-se até no

curso de nosso envelhecim ento. Tenho retratos m eus aos 25 anos e aos 35

anos: com paro-os com o de hoj e. Em quantos aspectos não sou m ais eu!

Com o m inha im agem presente está m ais longe daquelas que da im agem de

m inha m orte. É abusar dem ais da natureza im portuná-la tanto que, cansada

de nos seguir, ela sej a obrigada a deixar-nos e abandonar nossa condução,

nossos olhos, nossos dentes, nossas pernas e o resto à m ercê de um a aj uda

externa e m endigada, e nos resignarm os entre as m ãos da arte m édica. Não

sou excessivam ente guloso de saladas nem de frutas, exceto de m elões. Meu

pai detestava qualquer tipo de m olhos: gosto de todos eles. Com er dem ais m e

incom oda: m as ainda não estou m uito certo de que, por sua qualidade, algum

prato m e faça m al, com o tam bém não observo a lua cheia ou m inguante, nem

distingo o outono da prim avera. Há em nós m ovim entos inconstantes e

desconhecidos. Pois a raiz-forte, por exem plo, prim eiro a achei agradável,

depois enj oativa, agora, novam ente agradável. Em várias coisas sinto m eu

estôm ago e m eu apetite irem assim se diversificando. Troquei o vinho branco

pelo clarete, e depois do clarete para o branco. Gosto m uito de peixe e faço

dos dias m agros m eus dias gordos: e dos dias de j ej um , m eus dias de festas.

Creio no que alguns dizem de que ele é de digestão m ais fácil que a carne.

Com o tenho escrúpulo em com er carne no dia de peixe, assim tem m eu gosto

de m isturar o peixe com a carne. Essa diferença parece-m e grande dem ais.

Desde a j uventude, às vezes pulava um a refeição, a fim de aguçar m eu apetite

para o dia seguinte (pois assim com o Epicuro j ej uava e fazia refeições m agras

para acostum ar sua volúpia a dispensar a abundância, eu, ao contrário, j ej uo

para preparar m inha volúpia a tirar m ais proveito e servir-se m ais alegrem ente

da abundância) ou para m anter m eu vigor a serviço de um a ação do corpo ou

do espírito: pois tanto um quanto outro ficam cruelm ente preguiçosos em m im

com a repleção (e, sobretudo, odeio essa tola associação de um a deusa tão

saudável e tão alegre com esse pequeno deus indigesto e arrotador, todo

inchado com o vapor de seu vinho), 565 ou para curar m eu estôm ago doente, ou

por estar sem com panhia apropriada. Pois digo com o esse m esm o Epicuro

que não se deve tanto olhar o que se com e m as com quem se com e. E louvo

Quílon pela recusa de prom eter ir ao banquete de Periandro antes de ser

inform ado sobre quem eram os outros convidados. Para m im não há preparo

tão suave nem m olho tão apetitoso com o o que se tira da com panhia. Creio

que é m ais saudável com er m ais folgadam ente e m enos: e com er com m aior

frequência. Mas quero valorizar o apetite e a fom e: não teria nenhum prazer

em arrastar três ou quatro m agras refeições por dia ordenadas por prescrição

m édica. Quem m e garantiria que o apetite aberto que tenho esta m anhã ainda

o encontraria no j antar? Agarrem os, sobretudo os velhos, agarrem os o

prim eiro m om ento favorável que nos vier. Deixem os as esperanças e os

prognósticos para os fazedores de alm anaques. O fruto m ais perfeito de

m inha saúde é a volúpia: abracem os a prim eira conhecida que se apresente.

Evito a constância nessas regras do j ej um . Quem desej a que um regim e lhe sirva, foge de prolongá-lo; com ele endurecem os, nossas forças adorm ecem :

seis m eses depois, tereis acostum ado tão bem vosso estôm ago que vosso

proveito será apenas ter perdido a liberdade de usá-lo de outro j eito sem

dano. Cubro m inhas pernas e coxas não m ais no inverno que no verão, com

um a m eia de seda bem sim ples. Para rem ediar m eus resfriados aceitei

m anter a cabeça m ais aquecida, e para a m inha cólica, o ventre. Mas em

poucos dias m eus m ales se habituaram a isso e desprezaram m inhas

precauções costum eiras. Eu tinha passado de um a touca para um boné, e de

um gorro para um chapéu forrado. O acolchoado de m eu gibão j á não m e

serve senão com o adorno: de nada adianta se eu não acrescentar um a pele

de lebre ou de abutre, com um boné na cabeça. Seguindo nessa toada, isso

pode ir longe. Não farei nada disso. E com gosto desistiria, se m e atrevesse,

do com eço que fiz. “Estais sentindo um novo desconforto? Essa providência j á

não vos serve: a ela vos acostum astes, buscai outra.” Assim arruínam -se os

que se deixam atrapalhar por regim es severos a que se suj eitam

supersticiosam ente: precisam de outros, e depois de ainda m ais, e de outros

m ais adiante: isso nunca term ina. Para nossas ocupações e para o prazer, é

m uito m ais côm odo, com o faziam os antigos, saltar o alm oço e recom eçar a

com er bem na hora do recolhim ento e do repouso, sem quebrar o dia: assim

eu fazia antigam ente. Desde então, acho por experiência que, para a saúde,

m ais vale alm oçar, pois a digestão se faz m elhor quando estam os acordados.

Não sou m uito dado a ter sede, nem saudável nem doente, quando costum o

então ter a boca seca, m as sem sede. E norm alm ente só bebo pelo desej o que m e vem ao com er, e quando a refeição está bem avançada. Para um

hom em de condição com um , bebo bastante bem : no verão, e num a refeição

apetitosa, não apenas ultrapasso os lim ites de Augusto, que só bebia

precisam ente três copos, m as, para não infringir a regra de Dem ócrito, que

proibia parar-se em quatro por ser um núm ero azarado, esvazio se necessário

até cinco: três m eios sesteiros566 aproxim adam ente. Pois os copos pequenos são os m eus favoritos. E agrada-m e esvaziá-los, o que outros evitam com o

coisa indelicada. Em geral batizo m eu vinho com m etade, às vezes um terço,

de água. E quando estou em casa, por um antigo hábito que um m édico

prescrevia a m eu pai e a si m esm o, m isturam o que m e convém j á na copa,

duas ou três horas antes de servirem . Dizem que Cranau, rei dos atenienses,

foi o inventor desse costum e de batizar o vinho: vi discutirem a favor e contra

sua utilidade. Considero m ais decente e m ais saudável que as crianças só o

tom em depois de dezesseis ou dezoito anos. O m odo de vida m ais usual e

corrente é o m ais belo: qualquer particularidade deve ser evitada, parece-m e:

e detestaria tanto um alem ão que pôs água no vinho com o um francês que o

bebesse puro. A lei dessas coisas é o uso com um . Tem o o ar parado e fuj o

da fum aça com o da m orte (a prim eira reform a que fiz em m inha casa foi nas

cham inés e nas retretes, defeito com um nas velhas construções, e

insuportável), e entre as dificuldades da guerra incluo essa poeira espessa em

que nos m antêm enterrados, no calor, durante um dia inteiro. Tenho a

respiração livre e fácil, e no m ais das vezes m eus resfriados se passam sem

dano para o pulm ão e sem tosse. Os rigores do verão m e são m ais inim igos

que os do inverno: pois além do incôm odo do calor, m enos rem ediável que o

do frio, e além do golpe que os raios de sol dão na cabeça, m eus olhos

ferem -se com qualquer luz m uito brilhante: agora não conseguiria alm oçar

sentado diante de um fogo ardente e lum inoso. Na época em que estava m ais

acostum ado a ler, para am ortecer a brancura do papel eu colocava sobre m eu

livro um a placa de vidro e sentia-m e m uito aliviado. Ignoro até hoj e o uso de

lentes, e enxergo tão longe com o sem pre enxerguei e com o qualquer outro. É

verdade que no declínio do dia com eço a sentir turvação e dificuldade para ler:

o exercício sem pre atorm entou m eus olhos, m as sobretudo o noturno. Eis um

passo atrás, em bora apenas sensível. Recuarei m ais um , do segundo para o

terceiro, do terceiro para o quarto, tão calm am ente que deverei estar

totalm ente cego antes de sentir a decadência e a velhice de m inha vista, de tal

form a as Parcas desfazem habilm ente nossa vida. Ainda estou em dúvida se

ando prestes a ficar duro de ouvido: e vereis que quando o tiver perdido pela

m etade ainda estarei culpando a voz dos que falam com igo. Deve-se de fato

com prim ir a alm a para fazê-la sentir com o a vida se esvai. Meu andar é ligeiro

e firm e, e não sei qual dos dois, se o espírito ou o corpo, consigo m ais

dificilm ente parar no m esm o lugar. O pregador que consegue prender m inha

atenção durante todo um serm ão deve ser um de m eus am igos. Nos lugares

de cerim onial, em que cada um está tão rígido em sua postura, em que vi as

senhoras m anterem até m esm o seus olhos tão fixos, j am ais consegui que

algum a parte de m im não fique divagando: em bora estej a sentado, estou

pouco assentado. Com o a cam areira do filósofo Crísipo dizia de seu am o, que

ele só estava bêbado nas pernas, pois tinha o costum e de m exê-las em qualquer situação em que estivesse: e ela dizia que enquanto o vinho

perturbava seus am igos, ele não sentia a m enor alteração. Tam bém se pôde

dizer, desde m inha infância, que eu tinha loucura nos pés, ou m ercúrio, de tal

form a os m ovim ento num a inconstância natural, em qualquer lugar onde os

coloque. É indecente, além de ser prej udicial à saúde, e m esm o ao prazer,

com er gulosam ente com o faço. Costum o m order a língua, às vezes m eus

dedos, por causa da pressa. Encontrando um a criança que com ia assim ,

Diógenes deu um tabefe em seu preceptor. Em Rom a havia hom ens que

ensinavam a m astigar, com o a andar, com graça. Perco a ocasião de falar,

que é um doce tem pero das m esas desde que sej am tópicos igualm ente

agradáveis e curtos. Há ciúm e e invej a entre nossos prazeres, eles se chocam

e atrapalham -se m utuam ente. Alcibíades, hom em bem entendido na boa

m esa, expulsava da m esa até m esm o a m úsica para que não perturbasse a

doçura das conversas, j ustificando isso pela razão que Platão lhe atribui de

que é um hábito dos hom ens do povo cham ar instrum entistas e cantores para

os banquetes, na falta de bons discursos e conversas agradáveis com que as

pessoas inteligentes sabem festej ar entre si. Varrão pede ao banquete isto: a

reunião de pessoas com bela presença e conversa agradável, que não sej am

m udas nem tagarelas; lim peza e delicadeza nas iguarias, e tem po sereno. Um

bom tratam ento à m esa é um a festa que exige m uita arte e voluptuosidade.

Nem os grandes chefes de guerra nem os grandes filósofos desprezaram seu

uso e sua ciência. Minha im aginação entregou três delas à guarda de m inha

m em ória: ocorreram em diversas épocas de m inha idade m ais florescente e a fortuna tornou-as de um a doçura soberana para m im . Meu estado atual priva-

m e delas. Pois cada um por si lhes fornece seu encanto principal e sabor,

segundo a boa disposição do corpo e da alm a em que então se encontra. Eu,

que tenho os pés na terra, detesto essa sapiência desum ana que quer nos

tornar desdenhosos e inim igos da cultura do corpo. Considero igual inj ustiça

aceitar a contragosto os prazeres naturais quanto tom á-los dem asiado a

peito: Xerxes era um insensato, pois envolto em todos os prazeres hum anos ia

propor um prêm io a quem lhe encontrasse outros. Mas não m enos insensato é

aquele que poda os que a natureza lhe encontrou. Não devem os persegui-los

nem fugir deles: devem os aceitá-los. Aceito-os com um pouco m ais de deleite

e gratidão que outros e deixo-m e com m ais gosto m e levar por m inha

tendência natural. Não há por que exagerar-lhes a inanidade: ela se faz

bastante sentir e m anifesta-se o suficiente graças a nosso espírito doentio e

desm ancha-prazeres, que nos desgosta deles com o de si m esm o. Ele trata de

si e de tudo o que absorve ora com o um bem , ora com o um m al, segundo seu

ser insaciável, vadio e versátil:

Sincerum est nisi vas, quodcunque infundis, acescit. 567

Se o vaso não estiver lim po, tudo o que aí se verter azedará.

Eu, que m e gabo de abraçar tão cuidadosa e individualm ente os encantos da

vida, quando os olho assim com atenção praticam ente só encontro vento.

Mas, ora, som os vento em tudo! E o vento, m ais sábio que nós, ainda se

apraz em sussurrar, em se agitar. E contenta-se com suas próprias funções,

sem desej ar a estabilidade e a solidez, qualidades que não são suas. Dizem alguns que os puros prazeres da im aginação, assim com o os desprazeres,

são os m aiores: com o expressava a balança de Critolau. 568 Não é de espantar. Ela os com põe a seu gosto e corta-os em plena m atéria. Disso vej o

todos os dias exem plos insignes e talvez desej áveis. Mas eu, de constituição

m ista e rústica, não posso apenas saborear de m odo tão com pleto esse

obj eto do espírito, tão sim ples, a ponto de não m e deixar levar pesadam ente

pelos prazeres que m e apresenta a lei hum ana e com um : intelectualm ente

sensuais, sensualm ente intelectuais. Os filósofos cirenaicos pretendem que,

com o as dores, tam bém os prazeres corporais são os m ais poderosos, por

serem duplos e m ais j ustos. Há hom ens de um a estupidez feroz, com o diz

Aristóteles, que se fazem de enfastiados diante deles. Conheço outros que o

fazem por am bição. Por que não renunciam tam bém a respirar? Por que não

vivem apenas do que é seu e não rej eitam a luz, j á que ela é gratuita e não

lhes custa invenção nem esforço? Que se alim entem de Marte, ou Palas, ou

Mercúrio, para ver o que acontece, em vez de Vênus, de Ceres e de Baco.

Procurarão a quadratura do círculo quando estão em poleirados sobre suas

m ulheres? Detesto que nos m andem ter o espírito nas nuvens, enquanto

tem os o corpo à m esa. Não quero que nela o espírito se pregue, nem que

chafurde, m as quero que se aplique, que se sente à m esa, não que se deite.

Aristipo defendia só o corpo, com o se não tivéssem os alm a: Zenão só

abraçava a alm a, com o se não tivéssem os corpo. Am bos errados. Pitágoras,

dizem , seguiu um a filosofia toda de contem plação: Sócrates, toda de m oral e

de ação: Platão encontrou o m eio-term o entre as duas. Mas dizem isso para

nos iludir. E a verdadeira j usta m edida encontra-se em Sócrates; e Platão é

m ais socrático do que pitagórico, o que lhe cai m elhor. Quando danço, danço, quando durm o, durm o. Mesm o quando passeio solitário por um belo pom ar, se

durante parte do tem po m eus pensam entos estão entretidos com

acontecim entos externos, durante outra parte os trago de volta ao passeio, ao

pom ar, à doçura dessa solidão, e a m im . A natureza observou isso

m aternalm ente: que as ações que nos im pôs com o nossas necessidades nos

fossem tam bém prazerosas. E a isso nos convida não só pela razão com o

tam bém pelo desej o: é inj ustiça infringir suas regras. Quando, no m eio de seus

grandes esforços, vej o tanto César com o Alexandre desfrutar tão plenam ente

dos prazeres hum anos e corporais, não digo que isso é relaxar a alm a, digo

que é enrij ecê-la, subm etendo aos hábitos da vida corrente, pelo vigor e pela

coragem , aquelas graves ocupações e os laboriosos pensam entos. Sábios, se

acreditassem que aquela era sua vocação norm al, e esta, a extraordinária.

Som os grandes loucos. “Ele passou a vida na ociosidade”, dizem os. “Hoj e não

fiz nada.” “Com o? Não vivestes? É esta não só a fundam ental, m as a m ais

ilustre de vossas ocupações.” “Se tivessem m e confiado grandes m anobras,

eu teria m ostrado o que sabia fazer.” “Soubestes exam inar e m anobrar vossa

vida? Realizastes a m aior tarefa de todas.” A natureza não precisa ter um

grande destino para se m ostrar e agir. Mostra-se igualm ente em todos os

níveis, e tanto atrás da cortina com o sem ela. “Soubestes com por vossa

m oral? Fizestes bem m ais que aquele que com pôs livros. Soubestes

conquistar o repouso? Fizestes m ais que aquele que conquistou im périos e

cidades.” A gloriosa obra-prim a do hom em é viver com o convém . Todas as outras coisas: reinar, entesourar, construir, não passam de apendículos e

adm inículos, no m áxim o. Tenho prazer em ver um general de exército ao pé

de um a brecha que ele quer atacar brevem ente, m as entregando-se por

inteiro ao seu alm oço e à conversa livre com os am igos. E em ver Bruto, tendo

o céu e a terra conspirado contra ele e contra a liberdade rom ana, furtar de

suas rondas algum as horas noturnas para ler e anotar seu Políbio em total

segurança. É próprio das pequenas alm as soterradas sob o peso dos

negócios não saber se desprender totalm ente deles, não saber largá-los e

retom á-los.

o fortes pejoraque passi,

Mecum saepe viri, nunc vino pellite curas,

Cras ingens iterabimus aequor. 569

ó bravos heróis, que com frequência suportastes a m eu lado o pior, afogai

por ora no vinho vossas preocupações; am anhã partirem os para o m ar

im enso.

Que sej a de brincadeira ou a sério, a expressão “vinho teologal e sorbônico”

tornou-se proverbial nos banquetes deles, 570 m as acho que está certo que j antem tanto m ais côm oda e agradavelm ente na m edida em que gastaram de

m odo útil e sério a m anhã no exercício de seu m agistério. A consciência de ter

bem em pregado as outras horas é um j usto e saboroso condim ento das

m esas. Assim viveram os sábios. E esse inim itável em penho voltado para a

virtude, que nos espanta tanto em um quanto em outro Catão, esse caráter

severo beirando a inconveniência subm eteu-se assim suavem ente e curvou-se

às leis da condição hum ana, às de Vênus e de Baco, seguindo os preceitos de sua escola, que pedem ao sábio perfeito que sej a tão experiente e entendido

na prática dos prazeres com o em qualquer outro dever da vida. Cui cor sapiat,

ei et sapiat palatus. 571Quem tem o espírito aguçado deve ter o palato aguçado.] Para um a alm a forte e generosa é, parece-m e, m aravilhosam ente

honroso estar relaxada e afável, e o que m elhor lhe convém . Epam inondas não

considerava que m isturar-se à dança dos rapazes de sua cidade, cantar e

tocar e preocupar-se com isso atentam ente fosse coisa que invalidasse a

honra de suas gloriosas vitórias e a perfeita correção de costum es que tinha.

E entre tantas adm iráveis ações de Cipião, o Velho, personagem digno de se

crer que tivesse um a genitura divina, não há nada que lhe dê m ais graça do

que vê-lo displicente e pueril divertindo-se em apanhar e escolher conchas e

brincar de “pepino vai na frente” 572 ao longo da praia com Lélio. E se o tem po estivesse ruim , distraindo-se e deleitando-se em representar por escrito, em

com édias, as ações m ais com uns e baixas dos hom ens. E, com a cabeça

repleta dessa sua extraordinária expedição africana contra Aníbal, visitando as

escolas na Sicília e seguindo as aulas dos filósofos, até que seus inim igos de

Rom a afiassem os dentes da invej a cega. Não se viu coisa m ais notável em

Sócrates do que o fato de que, bem velho, encontrasse tem po para aprender

a dançar e tocar instrum entos, e o considerasse bem em pregado. Foi visto em

êxtase, de pé, um dia e um a noite inteiros, em presença de todo o exército

grego, surpreendido e capturado por algum pensam ento profundo. Foi o

prim eiro entre tantos hom ens valentes do exército a correr em socorro de

Alcibíades, prostrado pelos inim igos; cobriu-o com seu corpo e livrou-o da

m ultidão à viva força e com arm as. E na batalha de Delos, levantou e salvou Xenofonte, derrubado de seu cavalo. E de todo o povo de Atenas, revoltado

da m esm a form a que ele com tão indigno espetáculo, foi o prim eiro a

apresentar-se para libertar Terâm enes, que os trinta tiranos m andavam os

esbirros conduzir à m orte; e, conquanto apenas dois hom ens no total o

tivessem seguido, só desistiu dessa ousada iniciativa diante da adm oestação

do próprio Terâm enes. Foi visto, procurado por um a beldade por quem estava

apaixonado, m anter quando necessário um a severa abstinência. Foi visto

continuam ente m archando na guerra e pisando no gelo de pés descalços,

usando a m esm a roupa no inverno e no verão, superando todos os

com panheiros em resistência ao cansaço, não com endo no banquete de outra

form a que não a habitual. Foi visto durante 27 anos, com o m esm o sem blante,

suportar a fom e, a pobreza, a indocilidade dos filhos, as garras da m ulher. E

no fim , a calúnia, a tirania, a prisão, as correntes e o veneno. Mas esse

hom em , que por dever de cortesia aceitou, com o convidado, beber de um só

gole, 573 era tam bém aquele do exército que teve m elhor desem penho. E não se recusava a brincar de pedrinhas com as crianças nem a correr com elas

num cavalo de m adeira, o que fazia de boa vontade, pois todas as ações, diz

a filosofia, caem igualm ente bem no sábio e igualm ente o honram . Nunca

devem os nos cansar de apresentar a im agem desse personagem para todos

os m odelos e form as de perfeição, e tem os razões para isso. Há

pouquíssim os exem plos de vida plenos e puros. E prej udicam os nossa

educação ao nos proporm os todos os dias exem plos fracos e falhos: bons

apenas por um só lado, que m ais nos puxam para trás, corrom pendo m ais que

corrigindo. O povo engana-se: usando m ais o artifício do que a natureza,

anda-se bem m ais facilm ente pelas m argens, onde a extrem idade serve de

lim ite, de parada e de guia, do que pela pista do m eio, larga e aberta; m as

tam bém é m enos nobre e m enos recom endável. A grandeza de alm a consiste

não tanto em puxar para o alto e puxar para a frente, m as em saber

acom odar-se e circunscrever-se. Ela considera grande tudo o que é suficiente.

E m ostra sua elevação ao preferir as coisas m édias às em inentes. Não há

nada tão belo e legítim o quanto agir com o um hom em deve agir, nem ciência

tão árdua com o saber viver esta vida. E de nossas doenças a m ais selvagem

é desprezar nosso ser. Quem quiser afastar sua alm a para livrá-la do

contágio, que o faça coraj osam ente, se puder, quando o corpo se portar m al.

Se não, ao contrário, que ela o assista e o favoreça, e não se recuse a

participar de seus prazeres naturais, e neles se delicie com o que de um j eito

conj ugal, trazendo, se for m ais sábia, a m oderação, ao tem er que, por

exagero, esses prazeres se confundam com o desprazer. A intem perança é a

peste do prazer, e a tem perança não é seu flagelo: é seu tem pero. Eudoxo,

que fazia do prazer o soberano bem , e seus com panheiros, que lhe atribuíram

um valor tão alto, o saborearam em sua m ais graciosa doçura por m eio da

tem perança que neles foi notável e exem plar. Ordeno à m inha alm a que

contem ple a dor e o prazer com olhos igualm ente contidos: eodem enim vitio

est effusio animi in laetitia, quo in dolere contractio, 574a dilatação da alm a na alegria não é m enos um defeito do que sua contração na dor,] e com a

m esm a firm eza, m as um alegrem ente, a outra severam ente. E dependendo de

com o puder contribuir, tão preocupada em extinguir um com o em estender a outra. Ver saudavelm ente os bens acarreta ver saudavelm ente os m ales. E a

dor tem algo de inevitável em seu suave início, e o prazer, algo de evitável em

seu fim excessivo. Platão os associa: e quer que o papel da coragem sej a

igualm ente com bater a dor e as im oderadas e enfeitiçantes blandícias do

prazer. São duas fontes de água nas quais é um afortunado quem se

abeberar, sej a cidade, sej a hom em , sej a anim al, e onde for, quando for,

quanto for. A prim eira, devem os tom á-la com o rem édio e por necessidade,

m ais parcim oniosam ente. A outra, por sede, m as não até a em briaguez. A

dor, o prazer, o am or, o ódio são as prim eiras coisas que sente um a criança:

se, depois que lhes chega a razão, as crianças a ela se conform am , isto é a

virtude. Tenho um dicionário todo m eu: passo o tem po quando ele está ruim ou

desagradável; quando está bom , não quero passá-lo, quero degustá-lo, deter-

m e nele. É preciso correr do m au e perm anecer no bom . Essas expressões

banais de passatempo e de passar o tempo representam o uso dessas

pessoas prudentes, que não pensam ter nada m elhor a fazer com sua vida do

que deixá-la esvair-se e escapar: deixá-la passar, esquivá-la e, enquanto

puderem , ignorá-la e fugir dela, com o coisa de qualidade enfadonha e

desprezível. Mas conheço-a com o outra coisa e acho-a tão apreciável com o

agradável, e até m esm o em seu derradeiro decurso, onde estou agora. E a

natureza colocou-a em nossas m ãos, dotada de tais e tão favoráveis

circunstâncias que só tem os de nos queixar de nós m esm os se ela nos pesa e

nos escapa, inútil. Stulti vita ingrata est, trepida est, tota in futurum fertur. 575A

vida do estulto é repleta de dissabores e transtornos: volta-se totalm ente para o futuro.] No entanto, disponho-m e a perdê-la sem pesar. Mas com o perdível

por sua própria condição e não com o m olesta e insuportável. Além disso,

considerar que não é desagradável m orrer só cabe propriam ente aos que

acham agradável viver. Desfrutar a vida é toda um a arte: desfruto-a o dobro

dos outros, pois a m edida da fruição depende do m aior ou m enor apego que

lhe tem os. Principalm ente a esta hora, quando percebo que o tem po da m inha

é tão curto, quero aum entar seu peso. Quero deter a rapidez de sua fuga pela

rapidez com que a agarro, e pelo vigor do uso com pensar a pressa com que

se esvai. À m edida que a posse da vida é m ais curta, devo torná-la m ais

profunda e m ais plena. Os outros sentem a doçura de um contentam ento e da

prosperidade; sinto assim com o eles: m as não só passando e deslizando

sobre ela. Tenho de estudá-la, saboreá-la e rum iná-la, para render graças

condignas àquele que a outorga. As pessoas desfrutam dos outros prazeres

com o o fazem com o do sono, sem conhecê-los. Com o obj etivo de que o

sono não m e escapasse assim estupidam ente, outrora achei bom que o

interrom pessem a fim de que eu o entrevisse. Medito com igo m esm o sobre

um prazer que sinto; não o afloro, sondo-o, e agora que m inha razão se tornou

tristonha e perdeu o gosto por ele, curvo-a para aceitá-lo. Se m e encontro

num estado tranquilo e há algum prazer que m e estim ula, não deixo que os

sentidos o roubem : associo-lhe m inha alm a. Não para nele se envolver, m as

para com prazer-se; não para nele se perder, m as para encontrar-se. E faço-

a, de seu lado, m irar-se nesse feliz estado e avaliar e considerar essa

felicidade, e am pliá-la. Ela calcula o quanto deve a Deus por estar em paz com a própria consciência e suas outras paixões intestinas; por ter o corpo em

sua disposição natural, desfrutando de m odo ordenado e apropriado as

funções suaves e lisonj eiras com as quais apraz-Lhe com pensar com Sua

graça as dores que Sua j ustiça, por sua vez, nos inflige; o quanto lhe vale

estar aloj ada nesse lugar em que, para onde virar os olhos, o céu está calm o

ao seu redor: nenhum desej o, nenhum tem or ou dúvida que lhe perturbe o ar,

nenhum a dificuldade passada, presente, futura, por cim a da qual sua

im aginação não possa passar sem sofrer. Essa consideração que faço ganha

grande esplendor na com paração com condições diferentes da m inha. Assim ,

passo em revista, entre m il aspectos, aqueles que o destino ou que seus

próprios erros arrastam e sacodem . E tam bém estes que, m ais perto de m im ,

aceitam sua boa fortuna tão m ole e indiferentem ente. São pessoas que de

fato passam seu tem po; ultrapassam o presente e o que possuem , em

proveito da esperança, das som bras e im agens vãs que a fantasia põe à sua

frente,

Morte obita quales fama est volitare figuras,

Aut quae sopitos deludunt somnia sensus, 576

Com o esses fantasm as que voej am , dizem , depois da m orte, ou esses

sonhos que enganam nossos sentidos adorm ecidos,

as quais apressam e prolongam sua fuga à m edida que as seguim os. O fruto

e o obj etivo de sua perseguição é perseguir, assim com o Alexandre dizia que

a finalidade de seu trabalho era trabalhar.

Nil actum credens cum quid superesset agendum. 577

Considerando nada ter feito se lhe restasse a fazer.

Quanto a m im , portanto, am o a vida e cultivo-a tal com o aprouve a Deus nos

outorgá-la. Não estou desej ando que lhe faltasse a necessidade de beber e

com er. E m e pareceria com eter um erro não m enos desculpável se desej asse que ela a tivesse em dobro. Sapiens divitiarum naturalium quaesitor

acerrimus. 578O sábio indaga com a m ais viva paixão sobre as riquezas da natureza.] Nem que nos sustentássem os m etendo na boca só um pouco

daquela droga com que Epim ênides se privava de apetite e se m antinha. Nem

que produzíssem os estupidam ente filhos pelos dedos ou pelos calcanhares,

m as, salvo o devido respeito, que os produzíssem os tam bém pelos dedos e

pelos calcanhares, voluptuosam ente. Nem que o corpo fosse sem desej o e

sem excitação. Seriam queixas ingratas e iníquas. Aceito de bom grado e

reconhecido o que a natureza fez por m im , e alegro-m e e sinto-m e satisfeito

com isso. Som os inj ustos com esse grande e todo-poderoso Doador ao

recusarm os Seu dom , anulá-lo e desfigurá-lo: tudo é bom , Ele fez tudo bom .

Omnia quae secundum naturam sunt; aestimatione digna sunt. 579Tudo o que é conform e à natureza é digno de consideração.] Abraço com m ais gosto os

princípios da filosofia que são os m ais sólidos: isto é, os m ais hum anos e

nossos. Minhas opiniões correspondem ao m eu com portam ento, hum ildes e

m odestas. A m eu ver, a filosofia finge-se de criança quando levanta a crista

para nos pregar que é um a aliança selvagem casar o divino com o terrestre, o

sensato com o insensato, o severo com o indulgente, o honesto com o

desonesto. Que o prazer é qualidade bestial, indigna de ser provada pelo

sábio. E que o único prazer que ele tira da fruição de um a bela j ovem esposa é o prazer de sua consciência por estar praticando um a ação segundo as

regras. Com o calçar suas botas para um a cavalgada útil. Possam os

sequazes dessa filosofia ter, no desvirginam ento de suas m ulheres, tão pouca

firm eza, e nervos e suco quanto têm seus argum entos! Não é o que diz

Sócrates, preceptor deles e nosso. Ele aprecia, com o deve ser, o prazer

corporal, m as prefere o do espírito, por ter m ais força, constância, facilidade,

variedade, dignidade. Este não anda sozinho, segundo ele (que não é tão

fantasioso assim ), m as é apenas o prim eiro. Para ele, a tem perança é

m oderadora, não adversária dos prazeres. A natureza é um guia gentil, m as

não m ais gentil do que sábio e j usto. Intrandum est in rerum naturam, et

penitus quid ea postulet, pervidendum. 580É preciso progredir do conhecim ento da natureza e proceder a um exam e m uito aprofundado do que ela exige.]

Procuro por toda parte sua pista: nós a confundim os com rastros artificiais. E

esse “soberano bem ” da Academ ia e dos peripatéticos, que é viver segundo a

natureza, torna-se por isso difícil de delim itar e dem onstrar, e tam bém o dos

estoicos, próxim o dele, e que consiste em estar de acordo com a natureza.

Não será um erro considerar certas ações m enos dignas porque são

necessárias? Não m e tirarão da cabeça que é m uito conveniente o casam ento

do prazer com a necessidade, com a qual, diz um antigo, os deuses vivem

conspirando. Por que desm em bram os um a construção tecida com um a

correspondência tão fraterna e estreita, levando-a ao divórcio? Ao contrário,

reatem o-la por serviços m útuos: que o espírito desperte e vivifique o peso do

corpo, que o corpo detenha a leveza do espírito e a fixe. Qui velut summum

bonum, laudat animae naturam, et tanquam malum, naturam carnis accusat, profecto et animam carnaliter appetit, et carnem carnaliter fugit, quoniam id

vanitate sentit humana, non veritate divina. 581Aquele que exalta a alm a com o um soberano bem e condena a carne com o um m al, com certeza a um só

tem po acaricia a alm a carnalm ente e foge da carne carnalm ente, pois tal

opinião nasce da vaidade hum ana, não da verdade divina.] Não há elem ento

indigno de nosso cuidado nesse presente que Deus nos deu: dele devem os

prestar contas até cada fio de cabelo. E não é um a m issão m eram ente form al

do hom em conduzir a si m esm o de acordo com a condição do hom em : ela é

expressa, inata e prim ordial, e o Criador confiou-a a nós séria e severam ente.

Só um a autoridade pode convencer as inteligências com uns: e pesa m ais se

em língua estrangeira. Portanto, neste trecho, voltem os à carga: Stultitiae

proprium quis non dixerit, ignave et contumaciter facere quae facienda sunt:

et alio corpus impellere, alió animum: distrahique inter diversissimos

motus? 582 Quem não reconheceria que é próprio da estupidez fazer com m oleza e reticência o que deve ser feito, em purrar o corpo de um lado, o

espírito de outro, e deixar-se puxar entre m ovim entos contraditórios?] Ora,

então, só para ver, fazei que vos contem um dia as reflexões e as ideias que

um hom em põe na cabeça, e pelas quais desvia seu pensam ento de um a boa

refeição e lam enta-se do tem po que passa a se alim entar: descobrireis que

não há nada tão insípido em todos os pratos de vossa m esa quanto essa bela

conversa de sua alm a (quase sem pre seria m elhor dorm irm os profundam ente

do que ficar acordados para ouvi-la) e descobrireis que seu discurso e suas

intenções não valem vosso ensopado. E se fossem os arroubos do próprio

Arquim edes, o que seria? Não incluo aqui e não m eto nessa cam bada de hom ens que som os e nessa vaidade de desej os e cogitações que nos desviam

do essencial as alm as veneráveis, que se elevam pelo ardor da devoção e da

religião a um a m editação constante e conscienciosa sobre as coisas divinas, e

que provam de antem ão, pelo esforço de um a esperança viva e veem ente, o

alim ento eterno, obj etivo final e últim a etapa dos desej os cristãos, único prazer

constante e incorruptível, e desprezam a atenção a nossos bens necessitosos,

flutuantes e am bíguos, e abandonam facilm ente ao corpo o cuidado e o uso

do alim ento tem poral e dos sentidos. Esse é um esforço das alm as

privilegiadas. Entre nós, há coisas que sem pre vi em singular concórdia: os

pensam entos supercelestes e os com portam entos subterrâneos. Esopo, esse

grande hom em , viu seu am o urinando ao passear. “Com o assim ”, disse ele,

“terem os de defecar ao correr?” Organizem os nosso tem po: ainda nos resta

m uito dele, ocioso e m al em pregado. Nosso espírito não tem talvez outras

horas suficientes para fazer seus deveres sem se dissociar do corpo durante

esse pouco tem po de que este precisa para suas necessidades? Os filósofos

querem escapar a si m esm os e escapar ao hom em . Isso é loucura: em vez de

se transform arem em anj os, transform am -se em anim ais, em vez de se

elevarem , rebaixam -se. Esses hum ores transcendentes apavoram -m e, com o

os lugares altos dem ais e inacessíveis. E nada m e é tão desagradável digerir

na vida de Sócrates quanto seus êxtases e suas dem onices. Nada m e é tão

hum ano em Platão quanto a razão pela qual dizem que é cham ado de “divino”.

E de nossas ciências, parecem -m e m ais terrestres e baixas aquelas que

estão colocadas m ais alto. E não acho nada tão hum ilde e tão m ortal na vida de Alexandre com o suas fantasias em torno de sua im ortalidade. E Filotas,

num a resposta que lhe deu por carta, alfinetou-o divertidam ente quando

congratulou Alexandre por ter sido colocado entre os deuses pelo oráculo de

Júpiter Am on: “Quanto a ti, estou m uito feliz; m as há m otivo para lam entar

pelos hom ens, que terão de conviver e obedecer a um hom em que ultrapassa

e não se contenta com a m edida de um hom em ”. Diis te minorem quod geris,

imperas. 583É porque te subm etes aos deuses que reinas.] A nobre inscrição com que os atenienses honraram a chegada de Pom peu à sua cidade

corresponde a m eu m odo de pensar:

Tanto mais és Deus

Quanto te reconheces como homem. 584

É um a perfeição absoluta, e com o divina, saber gozar lealm ente de seu ser.

Procuram os outros atributos por não com preenderm os a prática dos nossos,

e saím os de nós m esm os por não saberm os o que nele se passa. No entanto,

pouco adianta subir em pernas de pau, pois m esm o sobre pernas de pau

ainda tem os de andar com nossas pernas. E no trono m ais elevado do m undo

ainda estam os, porém , sentados sobre nosso traseiro. As m ais belas vidas

são, a m eu ver, as que se conform am ao m odelo com um e hum ano, bem

ordenadas, m as sem m ilagre, sem extravagância. Ora, a velhice tem certa

necessidade de ser tratada m ais ternam ente. Recom endem o-la àquele deus

protetor da saúde e da sabedoria: sim , m as alegre e sociável:

Frui paratis et valido mihi

Latoe dones, et precor integra

Cum mente, nec turpem senectam

Você terminou Os Ensaios

Michel de Montaigne

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