Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 1 de 33

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Pedra Bonita

Vida de José Lins do Rego

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de

 

pedra bonita

 

BREVE NOTÍCIA-VIDA

DE JOSÉ LINS DO REGO

por

WILSON LOUSADA

*

DE MENINO DE ENGENHO

A PEDRA BONITA

por

PAULO RÓNAI

*

PRIMEIRA PARTE — A VILA DO AÇU

 

*

SEGUNDA PARTE — PEDRA BONITA

BREVE NOTÍCIA

 

VIDA DE JOSÉ LINS DO REGO

 

NA HISTÓRIA da moderna literatura brasileira, a obra de José Lins do Rego representa uma época, uma corrente de pensamento dentro da atividade criadora na ficção. Confluíram em seus livros caminhos de diversas origens, raízes aflorantes no solo e outras de mais longa viagem subterrânea, as primeiras de contemporâneos em tentativas recentes e as segundas de nomes mais antigos na história do romance brasileiro.

Mas o menino José—José Lins do Rego Cavalcanti—nascido aos 3 de junho de 1901, no Engenho Corredor, município de Pilar, Estado da Paraíba, já trazia consigo outras raízes que iria acrescentar a essas heranças. Raízes do sangue e da terra, que vinham de João do Rego Cavalcanti e Amélia do Rego Cavalcanti, seus pais, passando de geração em geração por outros homens e mulheres sempre ligados ao mundo rural do Nordeste açucareiro, às senzalas e aos negros rebanhos humanos que a escravidão havia formado. E essas afinal foram as predominantes em sua obra, que reflete todo esse mundo do patriarcalismo rural, reconstituído pelo escritor sem receio de confessar que dele participara como seu direto beneficiário. Foi talvez por isso que Paulo Prado declarou certa vez a Blaise Cendrars, a respeito de José Lins do Rego: "Você se lembra, Blaise, de me haver falado um dia do tempo perdido? Acabei por acreditar que você tinha razão. Vou dar-lhe a conhecer um escritor que encontrou o tempo. É o nosso Proust. Um moço. Leia-o." Esse moço seria o criador do "Ciclo da Cana-de-Açúcar"—José Lins do Rego—e o ponto de vista de Paulo Prado não pode ser facilmente desmentido, num, romancista que em geral tem sido colocado sob o signo da memória e da imaginação, ou do regionalismo, tal como o faz por exemplo o crítico José Aderaldo Castello, no seu estudo introdutório sobre o criador de Fogo Morto. E sua infância livre de Me nino de Enge nho, título do seu primeiro livro, marca a etapa inicial, no adulto, dessa procura das raízes perdidas no tempo, dessa reconstituição de um mundo em contínua fuga. Foi breve, por sinal, a liberdade de infância, logo sofreada com as primeiras letras no Instituto Nossa Senhora do Carmo, em Itabaiana, e a seguir, em 1912, com os estudos ginasiais no Colégio Diocesano Pio X, na Capital do Estado, onde também começam a revelar-se seus pendores literários, seus gostos iniciais de leitor. É de 1916, por exemplo,-o primeiro contacto com O Ateneu, de Raul Pompéia, obra por sinal que deve ter tido em seu espírito profunda repercussão, dada a natureza do tema que aborda. Em 1918, aos 17 anos portanto, José Lins trava' conhecimento com Machado de Assis, através do Dom Casmurro, e publica seu primeiro artigo, tendo como tema Rui Barbosa. Nesse mesmo ano faz amizade com Olívio Montenegro, que lhe revela as obras de Rousseau e Stendhal. Dois anos depois, matriculando-se na Faculdade de Direito do Recife, José Lins amplia seus contactos com o meio literário pernambucano, tornando-se amigo de José Américo de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e outros. Gilberto Freyre, voltando em 1923 de uma longa temporada de estudos universitários nos Estados Unidos, marcou uma nova fase de influências no espírito de José Lins, através das idéias novas que o mestre de Casa-Grande & Senzala já então defendia sobre a formação social brasileira. Além disso, através desse convívio intelectual ampliou-se o campo de leituras do futuro romancista, que passou a interessar-se também pelo vasto mundo da literatura inglesa. Em 1923 José Lins começa a assinar os primeiros trabalhos reveladores de autêntica vocação de escritor, publicando-os no semanário de crítica política e literária Dom Casmurro, fundado por Osório Borba, e recebe afinal o diploma de bacharel em Direito. Aos 22 anos, portanto, estava José Lins do Rego diante de uma nova vida, alterada um ano depois pelo casamento com a filha do Senador Massa, Filomena Massa (Naná). Desse casamento adviriam três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Christina.

Bacharel, com leitura intensa e sonhos acalentados de uma literatura própria, José Lins vai agora experimentar a magistratura. Em 1925 é nomeado promotor público em Manhuaçu, Minas Gerais, onde entretanto não se demora. O jornalismo e a literatura já se haviam imposto em sua formação intelectual, e José Lins não se sentia adaptado aos deveres que o exercício profissional da justiça lhe impunha. Por essa época suas leituras favoritas eram Thomas Hardy e Mareei Proust, a que se acrescentariam naturalmente alguns nomes novos do modernismo já vitorioso, embora ainda meio confinado ao ambiente paulistano. Desistindo afinal de fazer carreira na magistratura, Lins do Rego transferiu-se em 1926 para a Capital de Alagoas, onde passa a exercer as funções de fiscal de bancos. Em Maceió, passa a fazer parte de um grupo, o grupo de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aloísio Branco, Carlos Paurílio e outros. E foi ainda em Maceió que Lins do Rego escreveu seu primeiro livro — Menino de Engenho — chave de uma obra que se revelou de importância fundamental na história do moderno romance brasileiro. Ele mesmo, certa vez, em artigo de jornal, contou alguma cousa a respeito desse livro de estréia:

"O livro foi oferecido a todos os editores nacionais, e de todos recebeu um não seco, quando não me deram o calado como resposta. Só mais tarde uma editora desconhecida, com dinheiro do meu bolso, publicaria a novela. Havia por este tempo a revolução de São Paulo e, apesar da convulsão, esgotou-se em três meses. Uma edição de 2.000 exemplares foi quase toda vendida no Rio." E a crítica de João Ribeiro, diz ainda Lins do Rego, foi por ele recebida como um presente do céu, a tal ponto que dormiu com o recorte no bolso do pijama. Tinha razão o emotivo José Lins, muito embora autor e crítico nem de longe suspeitassem de que ali começava a existir um grande romancista brasileiro. "Bem examinadas as cousas", dizia João Ribeiro a propósito de Me nino de Enge nho, "este livro pungente é de uma realidade profunda. Nada há que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo." Mas não ficou nisso a estréia feliz do novo romancista. Além das opiniões elogiosas da crítica, o livro mereceu também o prêmio de romance da Fundação Graça Aranha, o que consolidou sem dúvida a posição do estreante, que então se lança ao trabalho com maior entusiasmo e ímpeto criador, para oferecer no ano seguinte—1933—o segundo livro do "Ciclo da Cana-de-Açúcar"— Doidinho —que alguns críticos aproximaram do Ate ne u, de Raul Pompéia, e que em verdade contém alguma cousa de autobiográfico, tanto quanto o continha o romance de estréia. Daí por diante sua obra não conheceu interrupções maiores. A partir de Banguê , em 1934 (romance que ainda foi escrito em Maceió), seus livros trazem então uma nova e definitiva chancela editorial—Livraria José Olympio Editora—casa com a qual, a partir daí, o escritor se ligaria por laços de amizade profundos. No ano seguinte, 1935, já nomeado fiscal do imposto de consumo, José Lins do Rego transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a residir, publicando nesse mesmo ano Mole que Ricardo, penúltima parte do "Ciclo da Cana-de-Açúcar", que ficará definitivamente encerrado com o aparecimento de Usina, em 1936.

No Rio, integrando-se plenamente no ambiente carioca, José Lins passou de novo a fazer jornalismo, colaborando assiduamente em O Globo, Diários Associados e Jornal dos Esporte s. Desempenha cargos de direção no Clube de Regatas do Flamengo, na Confederação Brasileira de Desportos e no Conselho Nacional de Desportos. Revelou-se então, por essa época, a faceta esportiva de sua personalidade, sofrendo e vivendo as paixões desencadeadas pelo futebol, o esporte de sua predileção. Certa vez, por exemplo, escrevendo um auto-retrato, dizia ele : "Vou ao futebol e sofro como um pobre-diabo. Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver meu clube campeão de tudo." Pure za, primeiro romance isolado da obra cíclica, saiu em 1937, seguido nos anos imediatos de Pe dra Bonita e Riacho Doce , surgindo pela primeira vez, em Pe dra Bonita, o problema do fanatismo religioso no Nordeste. Em 1941, com Água-Mãe, primeiro dos seus livros cujo cenário não é o Nordeste, e sim Cabo Frio, no Estado do Rio, onde exercia então o cargo de fiscal do consumo, José Lins obtinha o Prêmio Felipe d'Oliveira. Mas já em 1943 voltava o romancista ao regionalismo nordestino, publicando o romance Fogo Morto, onde surge talvez uma de suas maiores criações—o Capitão Vitorino—que alguns críticos compararam a um Quixote sertanejo dos nossos dias. Visitando no ano seguinte a Argentina e o Uruguai, em missão oficial, pronunciou nesses países várias conferências sobre literatura brasileira, abrindo então uma pausa, até 1947, em sua produção de fíccionista. Não que sua atividade intelectual tenha conhecido o repouso completo, pois nesses anos de intervalo saem Gordos e Magros, Pe dro Amé rico, Confe rê ncias no Prata e Poe sia e Vida, crônicas e conferências que refletem sua permanente inquietação diante de qualquer estímulo exterior. E, quatro anos depois de Fogo Morto, sai então seu primeiro romance tendo o Rio de Janeiro como cenário—Eurídice —com que obteve aliás o Prêmio Fábio Prado de 1947. Já então consagrado como um dos nossos maiores romancistas, José Lins diz de si mesmo nessa época:

"Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, não durmo com muitos sonos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, e se faz calor, tenho saudades da chuva. Sou homem de paixões violentas. Temo os podêres de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue."

E assim continuou—felizmente para ele mesmo, para seus amigos e até para seus possíveis inimigos. Extrovertido, exuberante, incapaz de rancores, apaixonado, amando a vida por ela mesma, interessando-se por tudo, tornando-se enfim um verdadeiro cronista do Rio, sobretudo nas suas conhecidas "Conversas de Lotação", coluna que manteve durante vários anos no vespertino carioca O Globo. Três anos depois — 1950—eis o nosso romancista em sua primeira viagem à Europa, visitando a França a convite do governo desse país, viagem que seria repetida em 1951, conhecendo Portugal, a Suécia e Dinamarca, desta vez integrando uma delegação esportiva brasileira. Ainda nesse ano, José Lins do Rego vai ao Peru, ainda como esportista, e em 1952 dá início à publicação em folhetim de seu último romance—Cangaceiros — que aparece em volume de 1953. Esse romance é a sua despedida, o seu adeus a todo um mundo de ficção onde realidade e fantasia se cruzam e entrecruzam, mundo que resistirá pelo que encerra de arte literária, documento e verdade humana. Mas as viagens também lhe serviram de estímulo, como se vê do volume Bota de Se te Lé guas, de 1952, e Gre gos e Troianos, de 1957. Essas viagens, por sinal, repetiram-se com frequência nos últimos anos de sua vida, pois conheceu a Finlândia, em 1954, a Grécia, em 1955, retornando a esse país em 1956, quando fez então sua derradeira viagem pelo mundo conhecido. Em 1955, abrindo-lhe as portas, a Academia Brasileira de Letras elegeu José Lins do Rego para a cadeira nº 25, substituindo Ataulfo de Paiva, recebendo-o oficialmente a 15 de dezembro do ano seguinte, após o seu regresso da Europa, já então com a saúde seriamente abalada. Saudou-o o acadêmico Austregésilo de Athayde. Nove meses mais tarde, a 12 de setembro de 1957, no Rio de Janeiro, fez José Lins do Rego Cavalcanti sua última viagem—a viagem final, para o mundo desconhecido. Mal completara os 56 anos de idade. Mas a obra que deixou, sobretudo na área do romance, assegurou-lhe consagração insofismável, principalmente na linha dessa perspectiva levantada pelo crítico Otto Maria Carpeaux: "A obra de José Lins do Rego é mais, muito mais do que um documento sociológico; é qualquer coisa de vivo, porque o seu criador lhe deu o próprio sangue, encheu-a dos seus gracejos e tristezas, risos e lágrimas, conversas, doenças, barulhos, disparates, e da sua grande sabedoria literária. Deu-lhe o hálito da vida. Essa obra não morre tão cedo. É eternamente jovem, como o povo; é eternamente triste, como o povo. É o trovador trágico da província."

 

WILSON LOUSADA

 

Rio, outubro de 1960.