Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 5 de 33

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Pedra Bonita

Um "intermezzo"

Com todo esse alargamento de perspectiva, o romance de José Lins nada perdeu daquele poder que o fluxo do estilo oral conferia aos anteriores. Diversificada e matizada em virtude da proliferação das personagens, a linguagem tem a mesma força direta, a mesma naturalidade, levando o leitor a ouvi-la. Ao mesmo tempo, acentua-se um método de composição profundamente original. O romance já não avança de maneira linear, e sim por meio de ondulações; o enredo desenrola-se sinuosamente, repassando várias vezes pelos mesmos pontos. As situações se repetem, como elementos invariáveis da rotina diária, imprimindo à narração um ritmo arrastado, uma dimensão durativa, enquanto os acontecimentos são antes frisados em poucas linhas do que contados. Dir-se-ia que os eventos, para se tornarem realidade, precisam ser remoídos, assimilados pelo protagonista, enquadrados em seu mundo íntimo. O lento deperecer de D. Isabel, as conversas dos operários na padaria, as visitas de Ricardo à casa de Florêncio, suas evocações saudosas da mãe, seus remorsos por enganar a esposa com Isaura, são alguns desses leitmotiv que tornam o romance semelhante a uma composição musical.

Assinalou-se a analogia que existe entre Carlos de Melo e Ricardo, e o próprio José Lins admitiu-a. A indecisão, o sentimento de frustração e de culpa, o medo da morte, são pontos que os aproximam. Mas note-se que a superioridade moral do moleque é evidente: ele é capaz de uma solidariedade ativa e constante, ao. passo que em Carlos a bondade não ultrapassa o estágio estéril da veleidade. Observe-se ainda que, apesar dos pontos de contato dos dois temperamentos, o escritor não incide no erro de emprestar ao moleque concepções próprias de uma pessoa de classe superior: a sua moral sexual como a sua consciência social são decorrências lógicas e fatais de uma adolescência passada na antiga senzala do engenho.

Sem dúvida, o método prejudica a impressão arquitetônica, favorecendo desproporções e assimetrias. Em Usina, então, sente-se nitidamente a fusão imperfeita de duas tramas. A primeira, que é o relato dos dois anos passados pelo moleque no desterro de Fernando de Noronha, poderia, com vantagem para ambos os romances, formar a parte final de O Mole que Ricardo. A segunda, a história da usina Bom Jesus, surgida no lugar do engenho Santa Rosa, constitui por si só um romance de amplas dimensões. A única ligação entre as duas partes é a volta de Ricardo para o cenário de sua infância, onde se cumpre o seu destino trágico; mas a sua figura perde todo o relevo, vem a diluir-se dentro do drama da Bom Jesus, cujo desmoronamento implica a decadência de uma região inteira.

Apesar dessa falha congênita, perceptível à primeira vista, Usina é um romance vigoroso, de ação mais dinâmica do que a dos livros anteriores. As molas desta ação, pelo menos em parte, são fatores econômicos, tais como as tendências absorventes e expansivas impostas pelas leis da produção à grande indústria e cujo efeito é completado pelo embate de dois tipos humanos, dois caracteres opostos, encarnados nos dois usineiros. Aí se acham, transformados em elementos de ficção, as mudanças ocasionadas fatalmente pela introdução da monocultura, o desaparecimento dos roçados, a passagem dos lavradores a operários, o fim de relações pessoais entre patrões e assalariados, a competição feroz de duas usinas. Todos esses processos ganham, no antigo engenho Santa Rosa, realce especial, pelo que sabemos do regime patriarcal que ali vigorava em vida do velho José Paulino. Paralela a essa história, de grande valor sociológico, corre outra, a da vida sentimental e sexual do Dr. Jucá, independente daquela e ao mesmo tempo convergente, pois também contribui para a derrota da usina Bom Jesus.

Desta vez soube o autor desprender-se das personagens: não se identifica com nenhuma delas, mas penetra-lhes o íntimo alternadamente. Sob esse aspecto merece atenção o capítulo XIII, em que surpreendemos monólogos íntimos do Dr. Jucá e do Dr. Luís, representantes de dois estilos de vida antagônicos, e que se justificam de si para si com persuasiva coerência. Grande personagem captada no âmago das suas razões vitais é D. Dondon, a esposa do Dr. Jucá, sofrendo com a sua submissão total ao marido e incapaz de rompê-la, por acatamento a um código de moral arcaico. Poder-se-iam destacar vários outros caracteres, menos trabalhados, mas, ainda assim, de grande coerência e plausibilidade, e, mais ainda, a multiplicidade dos episódios e dos cenários, não ultrapassada em nenhum outro livro do autor.

Torrencial e caudaloso, o romance precipita-se em ritmo cada vez mais vertiginoso para o final pressentido e várias vezes anunciado. Seus defeitos: o entrecortar-se de planos, o fervilhar tumultuoso de personagens, a abundância truculenta de episódios, são falhas de epopéia.

 

Um "intermezzo"

 

Na linha da evolução do ficcionista, Pure za significa, se não uma queda, pelo menos uma quebra. Parece um romance experimental, uma nova fórmula tentada conscientemente, de uma intencionalidade que contrasta com a exuberante espontaneidade dos volumes precedentes.

Outra vez a história é contada pelo protagonista, Seu Lola, um rapaz de vinte e quatro anos, rico, sem profissão nem obrigações. Tendo perdido cedo os pais e a irmã, vítimas de tuberculose, inteiramente só no mundo, habituara-se a uma auto-observação minuciosa e constante para surpreender em tempo os primeiros indícios da doença familiar. Daí um egocentrismo empenhado na conservação da saúde a qualquer preço. Para Seu Lola, seres e coisas não contam senão na medida em que os pode pôr a serviço deste objetivo único. As duas filhas do chefe de estação decaído, ávidas de afeição e de amor naquele fim de mundo, tornam-se suas amantes uma depois de outra: obtidas as provas da própria virilidade, Seu Lola abandona-as sem remorsos.

Indubitavelmente, além da superexcitação erótica, Lola se aparenta ao Carlos de Melo de Banguê na incapacidade de agir; com esta diferença : enquanto neste a falta de iniciativa provinha de uma abulia patológica, nele decorre da monstruosa falta de interesse pelos outros, da ausência de uma verdadeira curiosidade. Ao cismar no proveito que um romancista poderia tirar de caracteres opacos como o do chefe de estação bonacheirão e velhaco, Seu Lola aponta a maior falha congênita da própria narrativa. Faltam a esta as personagens polidimensionais. Ressente-se o livro, também, da falta de background sociológico, tão intenso nas demais obras. A ação decorre como no vácuo.