Pedra Bonita
Capítulo 10
DESDE a noite em que o encontraram caído no oitão da igreja, o Major Evangelista não se levantou mais. Todos achavam que a bebida dera conta dele em pouco tempo. Não podia aguentar aquela sede de manhã à noite. Fora o primeiro caso ali do Açu. Caso de um homem que se entregara com aquela violência ao vício. Beber, beber até chegar perto da morte, como o Major Evangelista fizera. Dera ele para inchar, ficar de olhos empapuçados, ora lúcido, ora desconhecendo até os mais íntimos. Estava vencido, dentro da rede, minguado, sem ação de espécie nenhuma. O Padre Amâncio ia todas as tardes visitá-lo. E quando o encontrava em melhores condições, conversava um pouco, dava notícias, animando o velho. Aquilo passaria. Vira um homem em pior estado do que ele , o José Amaro. Amarelo, só com os ossos, e escapara. O Major não dizia nada. Uma ou outra palavra. Para ele já não existia o mundo. Era esta a impressão que dava, não perguntava por coisa nenhuma. Nem indagava pelos seus serviços, encolhido ouvia as visitas. Às vezes parecia que via somente. Doutras fechava os olhos enquanto falavam no seu quarto. As conversas se animavam. Chegava o momento que perdiam de vista o doente e era como se estivessem debaixo da tamarineira. Falavam de fatos estranhos, contavam histórias. A criada trazia café e D. Fausta não aparecia a ninguém. Todos eram uns miseráveis. Vinham ver o pai, os restos do pai. Pois bem, ficassem com ele .
E o Major morria. Não era tão velho. Nem chegara ainda aos setenta, mas há muito tempo que vinha dando impressão de velhice avançada. Uma tarde o Padre Amâncio foi chamado. O Major queria falar com ele e o vigário foi logo, encontrando o velho como se tivesse melhorado. Estavam a sós.
— Padre, foi lhe dizendo o doente, nunca fui de igreja, mas não quero morrer sem confissão.
O Padre Amâncio chegou-se para junto dele. O velho tentou levantar a cabeça:
— Não, pode ficar a seu gosto, Major.
E ficaram os dois uma porção de tempo, trancados.
Depois ouviram o padre dizendo para ele , já com as portas abertas:
— Nada, Major, o senhor vai melhorar.
D. Fausta chegou na porta do quarto no fim. Parecia uma figura de estampa, magra, estranha.
— Como está passando a senhora, D. Fausta? disse o Padre Amâncio.
Ela não respondeu. Era de tarde e o sino batia a primeira badalada das ave-marias. A mulher voltou-se para o padre aflita:
— Padre, eu sou uma desgraçada.
E caiu no meio da sala, aos gritos. Veio gente de fora para ajudar. A casa agora vivia cheia de estranhos. Desde a doença do Major que D. Fausta não mandava mais no que era seu. Agora estava ali gritando com a casa cheia. D. Auta achava que aquilo era coisa do demônio, influência do diabo. Mas o Padre Amâncio chamou-lhe a atenção na vista de todos:
— A senhora não deve dizer semelhante coisa. Trata-se de uma doença como outra qualquer.
Na tarde do outro dia, saiu o Santíssimo para visitar o Major. O sino começou a tocar e o Padre Amâncio e o sacristão Laurindo levavam o Deus do sacrário ao Major. Foi uma tarde triste. Havia gente na sala. Ouvia-se a voz do padre devagar, e o pobre Major nas últimas. À noite morreu. D. Fausta, no seu quarto, não botava uma lágrima. Foi censurada: Era um coração de pedra. E os homens do Açu, na conversa, todos elogiavam o Major. Fora um homem de bem, um amigo de primeira ordem. O escrivão Paiva e Joca Barbeiro estavam lá. Todo o mundo sabia que eles andavam atrás do emprego do Major. Mas a morte libertava todo o mundo de ruindade e dava direito a todos de estarem ali com o defunto, na intimidade. O Major estava na rede, de braços cruzados. O marceneiro Leôncio batia as tábuas do caixão. De madrugada o Açu ouvia o martelo nos pregos. As mulheres se agoniavam. Era uma coisa triste se ouvir aquilo, aquele bater de martelo. No outro dia de manhã o Açu inteiro foi levar o velho ao cemitério. D. Fausta deu ataque na hora da saída do caixão. Antônio Bento, do alto da torre, tocava o sino, com desespero. Nunca em sua vida se sentira tão mal, tão culpado, tão vil. Ele podia ter feito qualquer coisa pelo Major, e no entanto dera motivo à morte dele. Viu o caixão nas mãos dos homens de preto e bateu no sino. Começou a dobrar as badaladas com o coração partido. Se tivesse força, correria para Dioclécio. Ele somente era quem teria força para lhe tirar aquela impressão, aquela mágoa sem limites. O sol de dezembro caía de cheio na verdura da tamarineira. Ouviu como se fosse nos seus ouvidos os gritos desesperados de D. Fausta. As venezianas de vidro do Coronel Clarimundo espelhavam. Saíam raios de lá como de espelho. O Coronel tinha mandado fechar as portas do estabelecimento em homenagem ao adversário. E a gritaria de D. Fausta. Até que o caixão se sumiu no fim da rua, o sino tocou sinal. Depois Bento voltou para casa e encontrou a negra Maximina nos seus dias de bebedeira. Ela não podia ver defunto. Fora olhar para a cara do Major e tivera vontade de vomitar. Nunca vira defunto mais feio. Defunto bonito fora ali no Açu um caixeiro-viajante que morrera de repente. Que cara moça e bonita. Que riso na boca, parecia até que o homem estava dormindo, num sonho, num sonho com alguma namorada.
— O que é que tu tem, menino, para estar tão abichornado? É capaz de estar por aí dando de perna.
E deu uma gargalhada das suas. Maximina não tinha limites nesses dias de bebedeira. Com os olhos vermelhos e falando, rindo-se, aperreando os outros.
— A vaca da filha não botou uma lágrima. Ficou foi inchando como uma porca no cio. Bicha ruim. Eu só queria saber o que aquela desgraçada espera do mundo. Não queria ser homem para ter uma coisa daquela como mulher.
Antônio Bento não queria conversar com Maximina. E ela foi se irritando com ele . Era assim mesmo. Quando era pequeno, vivia se esquentando no couro dela. Crescia, e estava ficando besta.
— Tu pensa que é melhor do que eu, Toinho. Tu é criado como eu, menino! Tu é branco, mas tu é criado.
O rapaz deixou a cozinha e foi para o seu quarto. De lá ouvia Maximina falando só, cantando, dizendo horrores de todo o mundo.
— Toinho, vem cá, menino! Este menino está pensando que é gente.
Bento não respondia. Se respondesse, Maximina ia mais longe. A morte do Major pesava nele. D. Fausta lhe mostrara o corpo, correra para cima dele, daria tudo que ele quisesse. E via nitidamente a cara da moça, o tremor da boca. Pegara-o para devorá-lo, comê-lo. O que ele podia fazer para se livrar daquilo? Fora ao padrinho pedir perdão a Deus dos seus pecados. E a coisa pegara, entrando para dentro de seu corpo. Ouviu então o Padre Amâncio chamando por ele. Correu para o padrinho, ansioso por uma sombra.
— Antônio, vai preparar os cavalos. Temos que ir agora de noite ao Sobrado. Vou celebrar amanhã lá.
Ficou satisfeito. Pelo menos a viagem lhe daria tréguas naqueles pensamentos. E à tardinha, saíram de rua grande afora. O padre na frente e ele atrás. E a noite pegou-os na caatinga. A lua clareava a estrada como se fosse de dia. Os cavalos avançavam no baixo, no meio do silêncio.
— Antônio, chamou-o o padrinho.
Avançou com o cavalo e ficou lado a lado com o padre.
— Tu não fôste mais à casa do Major?
Ficou com vergonha. Mas respondeu com firmeza:
— Não senhor, não fui mais.
— Fizeste muito bem.
E calou-se. O cavalo do padre avançou e Antônio Bento ficou pensando. Seria que o padrinho desconfiava dele e não acreditava nas confissões que ele fazia? Depois foram avistando uma luz muito de longe. Era a fazenda Jurema, onde deviam dormir. Lá estavam esperando o padre. Sabiam da missa do Sobrado e na certa o vigário descansaria para de madrugada alcançar o Sobrado. A mesa de jantar estava pronta para a ceia. E todos da casa satisfeitos com a visita. O Padre Amâncio ali era um grande. Aquela amizade vinha de uns quinze anos atrás. O filho do fazendeiro fizera uma besteira e fora com o auxílio do padre que o rapaz se salvara. Desde esse tempo que na Jurema o Padre Amâncio ficara como o protetor da casa. Desmancharam-se em agrados. Todos estavam amedrontados com os cangaceiros que andavam agindo nas proximidades. O fazendeiro tinha até homens no rifle, obrigado a uma despesa daquela natureza, com cabras armados. Pensara até em mandar as meninas para a cidade. Ali ninguém podia dormir tranquilo.
— O governo não cuida do sertão, Padre Amâncio. A gente destas bandas não merece cuidado nenhum. É um povo abandonado.
Estavam assim nessa conversa, quando ouviram um rumor de alpercatas, de vozes, no pátio da fazenda. Bateram na porta. E um pavor correu pela família. As moças fugiram para a camarinha, e a velha branca, de medo. O Coronel Deodato olhou para o padre. Abriram a porta. Era o Tenente Maurício com uma volante, pedindo pousada para uma noite. As moças saíram do quarto e reinou alegria na casa, outra vez. Aquilo porém durou pouco, porque o Tenente não viera com boas maneiras. Tinha sabido que na Jurema se acoitara um bando de cangaceiros. O Coronel e o padre deram informações diferentes.
— Ninguém pode acreditar em sertanejo não, disse o Tenente. Ando por esse mundo afora com a minha tropa, e se fosse atrás de conversa de sertanejo, caía em emboscada todos os dias. Eu soube que o senhor acoita cangaceiros.
O Coronel protestou. O Tenente cresceu a voz. Ele vinha com trinta homens dispostos a tudo. As moças espavoridas começaram a chorar.
— Chorando por quê? gritou o Tenente. Dão de comer a cangaceiros de dente arreganhado, e mal avistam a gente do governo dão para chorar.
O Padre Amâncio interveio. O Tenente precisava saber que estava dentro de uma casa de família, de gente respeitável.
— Esta é a conversa de todos daqui. Para acoitar cabra safado ninguém faz cara feia.
— O senhor está enganado, disse o Coronel.
— Enganado não.
Nisto apareceu um sargento com um empregado da fazenda preso:
— Este cabra estava armado ali por perto da porteira. Me parece que é do grupo.
— Do grupo coisa nenhuma, disse o Coronel. Este rapaz é um vigia. Pago a ele e a outros para de noite ficarem por aí.
O Tenente levantou-se e foi falar com o rapaz.
— Sargento! Bote ele em confissão. Esse bichinho tem que confessar muita coisa.
E com pouco mais ouvia-se a gritaria. O homem no cipó-de-boi, para contar o que sabia dos cangaceiros. O Padre Amâncio protestou.
— Amanhã na missa o senhor peça a Deus por ele , Seu Padre, disse o Tenente. Aqui neste sertão eu não respeito ninguém. E não se tira um. Até o padre do Açu anda metido com os coiteiros.
— O senhor está enganado. Eu nunca procurei cangaceiros para coisa nenhuma.
— Ah, é o senhor? Me desculpe. Eu tenho até uma conversa com o senhor.
— Estou às suas ordens, respondeu o padre.
— Não precisa de valentia não, Seu Vigário. O senhor é um velho e eu não faço desfeita a padre. Tenho ordem, carta branca para neste sertão não levar ninguém em conta. O governo quer acabar com os bandidos. Aqui mando eu. Não tem prefeito, não tem juiz, não tem padre. Me disseram que o senhor tem um cabra na sua casa. Um tal de Bento da Pedra Bonita. Eu soube disso no Recife. Foi o Dr. Carmo quem me procurou para falar. Conheci o Dr. Carmo na casa do Major Nunes. E quando ele soube que eu vinha comandar a volante, me deu umas informações. Uma delas foi sobre o senhor.
O Padre Amâncio rebateu a miséria.
— O senhor não está vendo, Seu Tenente, que eu não tenho cara de proteger cangaceiro? O senhor vá lá ao Açu, entre de casa em casa para saber quem é esse criminoso e eu o entrego à prisão, se encontrar uma só pessoa que lhe fale nisso. Isso é uma infâmia.
— Padre, eu estou acreditando no que o senhor está dizendo.
Ouvia-se o grito do homem na surra e o Tenente nem parecia que tinha mandado fazer aquilo. O padre insistiu:
— Seu Tenente, mande suspender isto. Eu conheço essa família há muito tempo. Aqui nunca deram guarida a cangaceiro.
— Padre, o senhor está na sua igreja, e eu é que sei onde se acoita bandido. Se a gente vai atrás da conversa desse povo, morre na bala. Tenho que sair hoje daqui sabendo onde está o grupo do Deodato.
Chegou depois o sargento. O homem não dizia nada. Nem podia mais falar.
— Pegue uma empregada da casa!
Nisto o Coronel protestou. Era uma miséria.
— Miséria coisa nenhuma! Miséria é vocês acoitarem bandidos. Passe-lhe a peia, Minervino! Nós só saímos daqui com o fato esclarecido. Esse pessoal daqui vai ver o que é uma autoridade.
O Coronel tremia os beiços de raiva.
— O senhor chama a isso autoridade? Estão fazendo pior que os cangaceiros.
Aí o Tenente foi a ele .
— Velho filho de uma mãe! Me abra a boca que eu lhe enfio uma bala. Amarre esse cachorro, sargento!
As moças saíram do quarto. A dona da casa caiu nos pés do Tenente.
— Não faça nada com o meu marido!
O choro crescia.
— Parem com tanto choro! Eu é que fui ofendido. Um tenente esculhambado por um barba de bode.
O padre protestou.
— Isto é um absurdo, Tenente!
Ouvia-se a gritaria da mulher no pátio da fazenda. A lua iluminava o terreiro, o curral, os bois deitados, os soldados espichados pela calçada. Na primeira lapada a mulher confessou tudo. Os cabras tinham estado na fazenda há oito dias, tinham dormido duas noites e estavam na Guarita.
— Não disse ao senhor, Seu Vigário? O senhor pode entender do seu padre-nosso. De cangaceiro entendo eu. Soltem o velho. Sargento, prepare o pessoal de comida.
Esvaziaram a despensa, cortaram manta de carne-de-sol. Distribuíram farinha com as praças. As moças ainda choravam alto.
— Padre, mande parar com essa latomia! Aqui não há ninguém sofrendo! O homem acoita cangaceiro. Eu tenho ordem de mandar tudo o que é coiteiro para a cadeia. Pegando coiteiro, já sabe!
A madrugada vinha dando sinais, avermelhando o céu. Os galos cantavam. A Jurema havia recebido a força do governo. Antônio Bento foi selar os cavalos. Tinha que sair bem cedo, para chegar ao Sobrado em tempo para a missa. A família se despediu do Padre Amâncio como se houvesse um morto na casa. O Coronel disse:
— É isso que o senhor vê, Seu Vigário. Cangaceiro por um lado, a força por outro.
A tropa já estava no ponto de partida e o Tenente falando:
— Agora já sabem! Já conhecem o meu riscado! Coiteiro comigo não brinca de esconder. Olhe, Seu Padre, pode ir dizendo por aí: o Tenente Maurício está com carta branca, fazendo o que quer.
E de chapéu de couro na cabeça, com um rifle na mão direita e o punhal atravessado, parecia um cangaceiro que estivera com o grupo no Açu. Não fazia diferença.
Na porteira o Padre Amâncio e Bento encontraram o homem estendido, melado de sangue. Apearam-se. O pobre estava quebrado de pau. Respirava com um fio de sangue saindo pela boca. Então o Padre Amâncio e Antônio Bento voltaram para deixar o homem na fazenda. Os soldados já tinham abandonado o acampamento. O Coronel deitou o pobre na rede e veio passar jucá por cima dos talhos de cipó-de-boi. Deram a tintura para o homem beber. A mulher que falara, na peia, estava chorando. Tinha mentido para se ver livre. E a família debaixo do pavor:
— Fala baixo, menina, fala baixo!
A manhã estava clara. Pela caatinga afora iam o padre e Antônio Bento. O povo do Sobrado esperava pela missa. Bento foi pensando. O Tenente falara dele como de um criminoso da Pedra Bonita, de um assassino que o Padre Amâncio tinha como um guarda-costas. O Tenente dissera aquilo com certeza. Se amanhã entrasse no Açu, não respeitava ninguém. Não havia fala de padre, de prefeito, de juiz, que servisse. Ele era um criminoso. E o seu lugar era na cadeia, no meio daqueles pobres amarelos que conhecera. Teria que dormir, viver ali dentro, cheirar aquela podridão, ouvir aquelas histórias. Um tísico tossindo nos seus ouvidos. E os cavalos furavam a caatinga. O sol se espalhava pelos imbuzeiros arredondados. Cheiravam a terra e os matos. As primeiras chuvas tinham deixado a caatinga num mar de verdura. De vez em quando o vermelho das flores dos xiquexiques tomava conta dum pedaço. E tudo parecia vermelho daquele lado. O Padre Amâncio marchava com vontade de chegar. A missa seria às 10 horas. Bento atrás acompanhava o cavalo do padrinho. No Açu estivera ele com os cangaceiros. Fora até respeitado. E agora o Tenente com aquela cara de deboche com o seu padrinho. O que diria Dioclécio de tudo aquilo? Já teria ele se encontrado com uma força assim, no meio do mato? Luís Padre o fizera cantar uma noite inteira, ficara com fala de tísico, deixaram-no na caatinga, sem força para dar um passo. O que teria feito em Dioclécio um tenente como aquele que passara na Jurema?
Começavam a aparecer casas. A caatinga ia ficando atrás. E gente aparecendo. Homens e mulheres, andando para a missa. Estendiam a mão para o padre, pedindo a bênção. O Padre Amâncio respondia com o sinal-da-cruz. Naquele dia teriam padre na igreja do Sobrado, missa, sino tocando e à noite na porta da igreja jogariam bozó, e se houvesse cantador, cercariam o homem para ouvir as histórias que ele soubesse. Pediriam as bravatas dos pares de França e as façanhas de Antônio Silvino. E se aparecessem cangaceiros, correriam, se esconderiam com as mulheres e as filhas, porque eles vinham com fome de tudo. Se aparecesse uma volante era a mesma coisa.
Antônio Bento voltara do Sobrado pensativo. Um fato maior que a morte do Major tomava conta dele. O Tenente Maurício mandava dar, desrespeitava um coronel de barbas compridas como o da Jurema, tratava o padrinho com desdém, como se fosse um qualquer, e falara dele Bento como de um criminoso. Tinha vontade de fugir, de andar pelo mundo como o seu amigo Dioclécio. Vida boa era aquela, de terra em terra. E foram-se os dias assim, sem que ele encontrasse uma saída para seus pensamentos. Ali no Açu tudo era contra ele . Até no Recife falavam dele, da Pedra Bonita. Se não fosse o seu padrinho, ganharia o mundo. Dioclécio começara assim, fora aprendendo, aprendendo e terminara um mestre. Podia até ser melhor do que Dioclécio. Sabia ler, decoraria versos, inventaria histórias.
E lá um dia o Padre Amâncio chamou Antônio Bento para o seu quarto. Estava na estrebaria quando ouviu o padrinho chamando por ele .
— Antônio, lhe disse o padre, tenho que ir ao Recife. O bispo de Pesqueira quer que eu o acompanhe na visita pastoral deste ano. Tenho que passar por lá uns três meses. Maximina vai para Goiana, eu vou deixar os cavalos na cocheira do Coronel Clarimundo e você deve ir passar esse tempo com o seu povo da Pedra Bonita. É a sua gente. Você precisa estar com eles. Houve um tempo em que eu pensei em lhe arrastar de lá. Sua mãe me pediu. Vinha sempre aqui me pedir. Não queria que você voltasse. Tinha medo de sua volta. Estive pensando. Isso era um erro, um grande erro. Lá está na sua gente. Falam de lá. Todo o mundo quer responsabilizar o povo da Pedra por uma porção de crueldades. Mas isto não tem importância. Vá passar esses três meses entre os seus. Procure viver bem com eles, ajudá-los. Você leva daqui experiência. Você é mais instruído. Eu queria fazer de você um padre. Faltaram-me os recursos. Eles de lá não gostam do resto do mundo. Nos odeiam, nos culpam pelos erros dos outros. Na verdade foram malvados com eles. Naquele tempo não apareceu um homem de juízo que tivesse força de levar os pobres pelo bom caminho. Foram a ferro e fogo, destruindo, matando. E o ódio ficou. No começo de minha carreira, quando cheguei aqui, ainda quis ir até lá. Fiz o possível. Levei até o Frei Martinho para uma missão. Não me deram ouvidos. Aqui no Açu só mesmo sua mãe aparece de quando em vez. Ela queria que você fosse para longe, para aprender, para ser diferente de todos. Na seca de 1904 deixou você comigo. O povo do Açu, das fazendas, por ignorância, atribui a miséria do município à desgraçada Pedra Bonita. Se odeiam. Procurei modificar esta raiva, que vem de avô a neto. Foi inútil. Você mesmo deve ter sentido isto. Eles lhe olham como um estranho, um infeliz, como se você não fosse da mesma carne dos daqui. Quando eu lhe adotei, me censuraram. Até minha irmã se opôs. Ninguém criava uma cobra. E no entanto eu sei que você é bom, digno de todo o meu afeto. Só lastimo não ter podido mandar você para o seminário. Uma paróquia como esta do Açu não dá nada, não rende coisa nenhuma. Pedi ao reitor de Olinda, escrevi-lhe, insisti, mas nada se pôde fazer. Deus não quis que você fosse padre. Um padre de Pedra Bonita podia ter mais força do que eu para acabar com tudo isso que há. Deus um dia dará o sinal de sua graça. Iluminará o coração dessa gente. Vou passar uns três meses por aí fora. Fica com o teu povo. Experimenta a bondade dele.
O Padre Amâncio se calou. Na cozinha Maximina batia ovos. E Antônio Bento ficou um pedaço de tempo no quarto do padrinho. Eram só a rede, aqueles cabides, aquela mesa de pinho, um guarda-roupa de amarelo, o luxo do seu quarto. Tudo aquilo era a riqueza do Padre Amâncio, o conforto de vinte anos de vigário. Ali. estava ele estendido na rede, velho, com vinte anos dados ao Açu, àquela gente que não prestava para nada. Pobre de seu padrinho! Não fizera nada, não podia se gabar de uma grande obra. A matriz fora obra dos outros, o Açu o mesmo que encontrara, as imagens da igreja as mesmas. Ninguém sabia de todo o seu esforço, de toda a sua luta, para não deixar que o tempo e a pobreza reduzissem a matriz a ninho de corujas e de morcegos. E estava ali, agora mesmo, confessando a ele , uma sua cria, que nada pudera fazer pelas almas de seu rebanho. O ódio que encontrara estava vivo, batendo. Duas espécies de gente com a mesma raiva. O Açu vendo na Pedra Bonita a sua desgraça e a Pedra Bonita desejando todo o mal ao povo do Açu. Maximina cantava a mesma moda de sempre, aquela Margarida vai à fonte, que ele vinha ouvindo desde menino. E o Padre Amâncio, de olhos fechados, ressonava. Antônio Bento se levantou devagar para não acordá-lo. Era quase hora de tocar as ave-marias. Foi andando para a igreja com o coração pesado de tristeza. Subiu as escadas da torre. Os morcegos chiavam no telhado e a luz do Santíssimo vacilava com lentidão. O silêncio imenso da igreja pela primeira vez lhe fez medo. Lá no fundo da sacristia estava o caixão que servia para enterrar os defuntos pobres. Deu a primeira badalada do sino com força, como se quisesse chamar um companheiro, um amigo que viesse para junto dele. O som se perdeu por longe. Na tamarineira os homens se descobriam. Deu a segunda badalada mais devagar, mais senhor de si. Então D. Fausta começou a gritar.