Pedra Bonita
Parte 1
A VILA DO AÇU
* * * * * * * *1
ANTÔNIO BENTO estava tocando a primeira chamada para a missa das seis horas. Do alto da torre ele via a vila dormindo, a névoa do mês de dezembro cobrindo a tamarineira do meio da rua. Tudo calado. As primeiras badaladas do sino quebravam o silêncio violentamente. O som ia longe, atravessava o povoado para se perder pelos campos distantes, ia a mais de légua, levado por aquele vento brando. Dia de N. S.a da Conceição, oito de dezembro. O Padre Amâncio celebrava duas missas, a das seis e a das onze horas. Sem dúvida já se acordara com o toque do sino.
Antônio Bento martelava o bronze pensando no povo. As velhas da casa-grande, as duas solteironas que venderam as terras para ir morar perto da igreja, já estariam de pé. A zeladora Francisca do Monte nem esperava pelo aviso. O seu sono leve, os seus cuidados de presidente das Irmãs do Coração de Jesus não iam esperar pela advertência do toque de Antônio Bento. Antes da segunda chamada lá vinha ela envolvida no xale escuro, andando devagar, contrita, como se já estivesse dentro da igreja.
A vila acordava aos poucos. As portas das casas de negócio se abriam e o sol pegava a tamarineira umedecida para esquentar-lhe as folhas orvalhadas.
O sino batia a segunda chamada. E vinham chegando as duas irmãs velhas, sempre juntas, chegadas uma à outra como se se amparassem. A mulher do sacristão Laurindo vinha logo depois. Antônio Bento gostava de puxar o badalo e gozar o som se sumindo, andando, correndo com o recado de Deus aos seus fiéis. Era a melhor coisa que ele fazia na casa do Padre Amâncio. Era tocar o sino assim de madrugada. Em tempos de chuva, com tudo escuro ainda, sentia que as badaladas iam mais longe. Às vezes bem sentia que qualquer pedaço dele saía com o som furando as distâncias. Da torre, já com a claridade da madrugada, nos dias de verão, era diferente. Via as casas para que tocava, sabia quais os clientes que atendiam às solicitações de Deus. Seu padrinho estava em casa, lavando a boca, preparando-se para o ofício. Estava ali com ele há mais de dez anos. Viera de Pedra Bonita trazido por sua mãe. Fora dado ao padre na grande seca de 1904. Não era mais dos seus. A mãe trouxera-o, quase morto, para que o padrinho lhe desse jeito, ao seu gosto. Estava porém satisfeito. A vida não corria má. Só a escola com a zeladora Francisca do Monte fora difícil de levar. Aprendera a ler, andara até pela escola do velho João José, mas felizmente o tinham deixado de mão. Sabia ajudar missa, sabia ler os jornais, sabia escrever uma carta. E era o bastante para um criado de padre. O criado do juiz era aquele Lula, quase maluco, abobado, esquecendo-se dos recados e das ordens que mandavam por ele . O Padre Amâncio era bom. No começo fora rigoroso, pedindo à zeladora para puxar por ele nas lições, dando-lhe cascudos. Fora crescendo, e agora servir ao padrinho não lhe custava sacrifício. Tinha mesmo orgulho da sua profissão. Via meninos da sua idade sem fazer nada. Os filhos do juiz, os filhos dos ricos da terra, soltos, brincando pelos becos, enquanto ele arrumava as coisas sagradas, sabia dos segredos da igreja, sabia onde estava estendido num caixão, de braços cruzados, o corpo ensanguentado de Nosso Senhor. Só ele e o sacristão Laurindo podiam mexer nos gavetões da sacristia, tirar a poeira que cobria os santos descobertos, arrumar as velas nos altares.
Com a terceira chamada as casas já estavam todas abertas e vinham chegando matutos para a feira. O Padre Amâncio já estaria esperando na sacristia, vestindo-se para a missa. As últimas badaladas já não soavam com a vibração das primeiras. Havia sol pelas várzeas e pelos altos, e gente desperta, ruído de gente pelo mundo. Fôra-se o silêncio da madrugada, fôra-se a quietude dos homens parados pelo sono.
Antônio Bento desceu os degraus da torre, passou pelo coro deserto e foi vestir a sua opa encarnada de acólito. A igreja estava com as mesmas pessoas de sempre: as duas irmãs, a zeladora Francisca do Monte, a mulher do sacristão, que puxava por uma perna, a pobre D. Auta. Dentro da igreja o silêncio era violado de quando em vez pelo pigarro da zeladora, que sofria da garganta.
Ali na vila do Açu a vida era miúda como a gente. Nunca crescera, nunca tivera fausto, ninguém suspirava naquele canto do mundo pelos dias passados. Não era uma cidade morta que tivesse crescido, criado nome, cheia de glórias de outros tempos. Fora sempre aquilo que era, nunca dera mais do que dava. Por várias vezes deixara de ser freguesia, mas voltava a ser. Aparecia um padre sem ambição que se prontificava a vir passar dias apertados, o bispo nomeava-o, e a igreja grande do Açu, a única coisa grande dali, abria as suas portas às beatas e aos poucos devotos, limpava-se das corujas e dos morcegos para que o culto se realizasse com decência. O Padre Amâncio há vinte anos que pastoreava aquele rebanho escasso. Não era uma freguesia de muito trabalho, embora a sua história fosse das mais desgraçadas de todo o sertão. Há quase um século que correra sangue pelos seus campos, sangue de gente, sangue derramado para embeber a terra em nome de Deus. Aquilo pesava na existência da vila como um crime nefando, pesava no destino de gerações e gerações. Há vinte anos que o Padre Amâncio chegara no Açu cheio de esperanças, vinha moço, cheio de zelo, de uma imensa vontade de ser útil ao povo, de arrastar para Deus as almas de seus paroquianos. Aos cinquenta anos parecia um velho. Magro, de cabelos brancos, a face cavada. Dava-se à primeira vista setenta anos sem exagero. Criara fama pela sua bondade, pelo seu desinteresse, a sua capacidade de se adaptar aos pobres, que eram quase todos da terra. Rico, ali, só mesmo o Coronel Clarimundo, que tinha compra de algodão e loja e venda. No mais, pouca diferença havia de um para outro. A vila do Açu não opunha os homens uns contra os outros pela riqueza. As terras das proximidades, o patrimônio da igreja, as fazendas do município, não davam para enriquecer ninguém. Por mais de uma vez os entendidos em administração falaram em suprimir o termo, em reduzir o Açu a simples distrito da comarca mais próxima. Mas, por uma coisa ou por outra, ia a vila ficando com o seu juiz municipal, a sua coletoria de rendas e a agência do correio com estafêta duas vezes por semana para a cidade de perto. O mais fácil parece que era deixar o Açu no seu canto infeliz e pobre como um miserável com as suas chagas ao sol. Havia lugares com dez anos de vida que passavam a vila e estavam mais importantes do que o Açu. Não era que uma estrada de ferro fizesse o milagre da transformação, inflamasse o povo do povoado. Não. Tudo que havia no Açu havia por lá, o mesmo rio, as mesmas terras, os mesmos homens. E ia para diante, o comércio crescia, as construções aumentavam. E no Açu era aquilo que se via. A rua grande com o sobrado do Coronel Clarimundo, a tamarineira frondosa, onde por debaixo faziam a feira, e a desolação de casas caindo. Há anos que um pedreiro não fazia obra nova por ali. Só a igreja de longe em longe merecia uma mão de cal. O Padre Amando cuidava dela como da última riqueza da terra. Era uma igreja das maiores do sertão, com duas torres, construída não se sabia com que recursos, com paredes largas de fortaleza e altares em pedra talhada. Diziam que era mais bonita que a catedral do Camaru. Todo o Açu vivia da importância da sua matriz. Mas não se sabia por que o povo de outros lugares não dava importância, não se arrastava de longe para vir até ali pagar uma promessa, ouvir uma missa. A capela do povoado de Sobrado atraía gente de trinta léguas. Vinham devotos com dois dias de viagem trazendo as suas velas, os seus ex-votos para os santos de lá. Ninguém queria saber dos santos do Açu. E no entanto havia imagens de tamanho natural. Os doze apóstolos, uma N. S. a das Dores como poucas existiam no Estado. O nada que recebia dos paroquianos Padre Amâncio empregava na sua igreja. Mas precisara certa vez ir até ao bispo pedir alguma coisa para os seus santos, que perdiam a carnação, que desbotavam. Deram-lhe o auxílio, mas lhe falaram numa possível trasladação de algumas das imagens para outros templos que pudessem com as despesas, O Padre Amâncio sentiu a advertência como se se propusesse a arrancar de sua casa um filho para entregar à misericórdia de estranhos. Então deu para sair pelo Estado de sacola na mão, pedindo pela sua matriz. Os padres das outras freguesias a princípio se aborreceram com a intromissão do vigário do Açu. Que ficasse ele no seu canto. Mas o Padre Amâncio trocava, dava-se de graça para as missas cantadas, para os sermões, contanto que o deixassem em paz, de sacola na mão, pedindo a um e a outro para que pudesse manter a sua igreja com a dignidade precisa. As suas batinas surradas, as suas botinas em petição de miséria não queriam dizer nada. Para ele valia que o manto de N. S. a da Conceição fosse mesmo um manto digno da mãe de Deus.
Só a igreja ali no Açu não sofria com o destino da terra. Resistia. E com as suas duas torres brancas, com os seus dois sinos de som magnífico, aparecia para as casas humildes, mesmo para o sobrado do Coronel Clarimundo, como uma soberana, uma rainha para quem o tempo e as desventuras não se contavam.
Agora mesmo, enquanto o Padre Amâncio rezava para meia dúzia de devotas a sua missa das seis horas, a vila acordava. Na tamarineira cantavam os pássaros, e por baixo de suas galhadas matutos arrumavam os seus troços para a feira. O sobrado do Coronel Clarimundo estava flamejando ao sol, com as suas janelas envidraçadas. Assim de manhã o sobrado, a casa mais importante do lugar, recebia o sol com festa. As suas venezianas brilhavam. Janelas de vidros de todas as cores rodeavam o casarão velho. Dois leões de pedra ficavam em cima do portão de entrada como dois monstros que tivessem devorado tôda a grandeza da terra. As portas do negócio do Coronel se abriam, ele mesmo, em mangas de camisa, de sua janela principal, olhava de cima o velho Açu, que era seu. Só mesmo a igreja era maior do que a sua casa. Vinha chegando aos seus ouvidos o toque da campainha na elevação do Senhor. Ele via de onde estava a luz das velas que iluminavam o altar-mor. Com pouco o major coletor aparecia na sua janela, já de colarinho duro, dependurando as gaiolas de seus passarinhos. O Coronel Clarimundo não se dava com o Major Evangelista. O orgulho do Major, o seu jeito de falar superior a todos irritaram o negociante até o ponto de se separarem para sempre. Reparando bem, aquela inimizade viera por uma tolice. O Coronel se lembrava. Fora mesmo por uma tolice, por causa da festa da padroeira. Uma questão tola. Ele queria uma coisa e o Major outra. E por fim trocas de palavras e a separação de vinte anos. O Major só fazia votar nos candidatos do governo, e ali defronte viam-se há anos, sem se darem um bom-dia. Quando morrera a mulher do coletor, não fora ao enterro. Tivera vontade, ainda chegara a vestir o seu terno preto a pedido da mulher. Mas resistira. Não sabia como o major o receberia, com que cara, e se não seria capaz de lhe fazer uma desfeita. Teve pena do Evangelista. Dias e dias levou ele de portas fechadas, sem vender selo, trancado num quarto. Lá um dia, porém, começou a aparecer, com as gaiolas, com o colarinho duro. E estava ali fazendo o que fazia todos os dias.
O Major amava os pássaros cantadores. O Coronel Clarimundo podia se encher nos negócios, na compra do algodão. Nada para ele estava valendo. O que valia para ele era o seu canário estalador, o galo-de-campina, o concriz que cantava de tudo. Esmagava assim a riqueza do Coronel Clarimundo com a arte de seus prisioneiros, tratados como príncipes. A filha do Major, solteirona, D. Fausta, tinha ódio aos pássaros do pai. Aqueles desgraçados lhe haviam roubado, desde a meninice, o pai. A mãe se queixava todos os dias daquela idiotice de João Evangelista para com as gaiolas. A família não existia para ele. D. Fausta odiava os canários, tudo que era passarinho, aquela cantoria de todos os dias devia doer-lhe nos ouvidos. E quando algum amanhecia morto, esticado na gaiola, era um júbilo para ela. O Major fechava a cara, passava dias falando do pássaro morto, no almoço, no jantar, até que de repente se esquecia e vinha outra paixão mais forte por outro pássaro que começava a cantar. D. Fausta não se casara. Não que fosse feia e não tivesse dotes de dona de casa. Bordava, vendia os seus trabalhos para a gente de Camaru. Criara fama pelas suas habilidades. A beleza dos trabalhos de agulha da filha do Major saíra dos limites do Açu. Mas nunca lhe apareceu um casamento provável. Botava a culpa para cima do Major e dos pássaros. E odiava o pai e seus amigos.
D. Fausta se dava com a mulher do Coronel Clarimundo sem que o Major soubesse. Era uma amizade como namoro proibido, às escondidas. Fora ela mesma que se oferecera para bordar o enxoval da filha do Coronel e não quisera um vintém. Fazia aquilo tomando uma vingança.
O Major estava de janela, e chegava gente com cargas para a feira. O Padre Amâncio dissera a primeira missa e as beatas vinham de volta para as suas casas, todas ungidas. A beata Francisca do Monte parava para conversar na porta de uma casa e as outras vinham vindo, com a rua grande do Açu movimentada, cheia de gente. Mais tarde voltariam para a missa das onze. O Padre Amâncio pregaria sobre a conceição de N. a Senhora, a igreja se encheria de mais pessoas e a missa para elas seria outra, mais bonita, mais para os seus olhos e para os seu ouvidos. Às onze horas cantava no coro D. Margarida, que tocava serafina. A igreja do Açu se enchia de sons, de campainhas, de vozes e o murmúrio das rezas das mulheres que respondiam ao Padre Amâncio povoava a casa de Deus de esperanças, de promessas, de pedidos de desejos, de tudo que não havia na pobre vida do Açu. Antônio Bento voltava para a casa do padre. Tinha muito que fazer até as onze horas. Teria que ir à cacimba do rio buscar a carga d'água para o banho do Padre Amâncio. Ia com o jumento nanico e voltava com as ancoretas cheias, que chegavam a selar o pobre com o peso. Deitava água no quinto do banheiro. O Padre Amâncio se deitava na sua rede, lia o breviário, esperando a hora da outra missa. Antônio Bento voltava para a igreja e o sino começava a tocar a nova chamada. O pátio da igreja já estava repleto de gente e o barulho chegava à torre. O sino tocava. O som cheio do bronze não se ia nunca como de madrugada, mas alcançava longe, atravessava o bate-boca dos feireiros, passava pela tamarineira, entrava e saía pela última casa do Açu e ia chegar no meio do campo, na casa de algum pobre que se lembraria que era dia de santo, que havia um padre no altar e que Deus estava chamando gente para dar alguma coisa, já que a terra, o sol e as chuvas não davam coisa alguma.
Mesmo na missa das onze a igreja ficava vazia. Só as mulheres acudiam ao chamado. Os homens do Açu não se importavam com devoção. O Major com seus pássaros, o Coronel Clarimundo com a compra de algodão e o resto com as compras de feira. Só as mulheres eram regulares, vigilantes no cumprimento dos deveres religiosos. Só elas correspondiam aos deveres do Padre Amâncio. D. Fausta, de mantilha, D. Auta, arrastando a perna, todas as mulheres do Açu deixavam as suas casas tristes e sujas e iam ouvir a prática do vigário comentando o evangelho. E pediam pelos seus filhos, pelos seus maridos. O padre elevava o Senhor, a campainha tinia, o sino acompanhava, a voz de D. Margarida se confundia com a serafina. E depois Deus ficaria trancado no sacrário com chave de ouro, bem de longe, bem escondido de todos os sofrimentos, de todas as desgraças, bem distante do pobre povo do Açu.