Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 32 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 16

 

 

O FRACASSO do Padre Amâncio teve grande repercussão no Açu. A sua chegada, naquela noite, quase desfalecido, o mês de cama que passou deram que falar. Inventaram detalhes da conversa com o santo. Narrava-se como verdadeira a expulsão do vigário da Pedra Bonita. Fora jogado às pedradas do reduto, por pouco não o mataram. Tinha sido salvo por um irmão de Bento, que era também chefe dos fanáticos.

A vila sentiu os efeitos da vizinhança do santo. As feiras diminuíram de frequência e os fazendeiros das proximidades se queixavam de furto de gado. Matava-se boi todo dia na Pedra. Os fanáticos invadiam às soltas, levando as reses que bem queriam. Aparício visitara o reduto com todo o grupo, fora abençoado pelo santo. E as histórias que chegavam no Açu eram cada vez mais alarmantes. Falavam de raptos de moças para saciar a fome do beato. As forças volantes não se aproximavam de lá. O Tenente Maurício, passando pelo Açu de rota batida, para o centro, conversou demoradamente com o escrivão Paiva. Não atacaria os fanáticos. O governo o tinha mandado pra perseguir cangaceiro, e a sua força era pequena para uma diligência daquelas. Queria era pegar Aparício, vivo ou morto. Cortar-lhe a cabeça. O Açu desanimava de uma reação do governo. O Coronel Clarimundo falava em vender o que tinha e mudar-se para o Camaru. Não tardaria o dia, dizia ele , que a vila amanhecesse cercada de fanáticos, matando a todos. E o pavor foi crescendo. Os três praças do destacamento estavam dormindo fora da cadeia, com receio. As mulheres da Rua da Palha se mudando para Dores. A venda nova do Salu fechara as portas. Dormia-se debaixo de alarme, com as mulheres falando baixo e os homens de ouvidos atentos aos rugidos das feras. Bento ficou odiado. Por onde ele passava, resmungavam, viravam-lhe o rosto. E Padre Amâncio definhando cada vez mais. D. Eufrásia mandara chamar o médico de Camaru, que não quis vir. Tinha-se medo de uma aproximação com a terra maldita. Joca Barbeiro com a recebedoria parada. Não havia fiscal que tivesse coragem de sair em cobrança. Os jornais da capital falavam, davam notícias do santo. E o que era irritante para o povo do Açu era que, quando falavam do beato, se referiam ao município inteiro. Vinham logo com referências desagradáveis ao Açu. Joca Barbeiro e o escrivão falavam numa destruição pelas armas. Chegaram até a convidar os fazendeiros para uma desforra. Os homens recuaram. Aparício protegia o santo. Agora eram fanáticos e cangaceiros, juntos, na destruição. Mas o ódio do Açu pela Pedra crescia, avolumava-se. Padre Amâncio aos domingos pregava aos seus reduzidos fiéis. A palavra saía-lhe fraca, sem energia. Quase que não se ouvia a sua predica. Nem parecia aquele dos tempos da luta com o juiz. O sacristão Laurindo caíra de cama com doença de morte. Falava-se de uma moléstia dos intestinos roendo tudo. D. Francisca do Monte tossindo. E D. Eufrásia vendo o irmão se acabar, perdendo a vida. Quisera-o levar para o Recife, e ele resistiu. Até escrevera ao bispo para que ele mandasse chamar o irmão, e não tivera resposta. Devia haver um mal muito grande acabando com a vida de Amâncio. A negra Maximina apertava nas suas bebedeiras, dava para chorar, para pedir a morte, para falar do santo da Pedra.

E a nota de sensação no Açu fora a chegada de D. Fausta. Viera acabada, com mais vinte anos. Estava outra vez em sua casa, como se nada houvesse com ela. Espalharam que o sargento abandonara a mulher no Recife e que até em ruas de raparigas ela estivera. As mulheres se preocuparam com D. Fausta uns dias. Aquilo servira para que se esquecessem um pouco das histórias da Pedra Bonita. D. Fausta foi ficando, e o pavor do santo cresceu outra vez.

Bento era agora senhor da igreja. Faltava-lhe, porém, ânimo, disposição para o trabalho. Via o padrinho no estado em que estava, sem gosto pelas coisas, ferido de morte. Lembrava-se da volta da Pedra, naquele dia infeliz. Via-o como ele caíra nos seus braços na solidão da caatinga, com o sol se pondo. Nunca passara por momentos daqueles. Seu padrinho morria. Felizmente que foi aos poucos voltando a si. E a viagem fora vagarosa, com ele junto do Padre Amâncio, parando de quando em vez. Lembrava-se bem das palavras dele: "Antônio, não há o que fazer mais. Terminam liquidando os pobres". Teve vontade de chorar. Teve ódio ao povo da Pedra, a sua mãe, a Domício, Os miseráveis pagavam a dedicação de seu padrinho, querendo matá-lo. Gente miserável. A noite começava a cair. E eles vieram andando, no vagar dos animais. E Bento pensando em tudo que vira, como uma advertência cruel: "Bento, o nosso sangue é de Judas, dizia Domício, a gente tem que sofrer, que pagar pelos outros". E era mesmo. Era o destino dos Vieiras. O pai pegado com um bode como um doido, a mãe se entregara com Domício às forças do santo. Domício presenciara um milagre, falara-lhe da coisa que ele sentia no corpo e na alma, quando o santo apareceu com o milagre. Domício ouvia aqueles cantos que ele não ouvia, tremia de noite como uma criança, quando a lua branquejava a caatinga: "Bentinho, tu está ouvindo, tu está escutando?" E era mentira dos ouvidos de Domício. Agora era o milagre da moça. Dioclécio também contara de um que ele presenciara no Juazeiro do Padre Cícero. Era o milagre. O santo sabia fazer milagres e o pobre do Padre Amâncio ia ali com ele , meio morto, fraco, sem espírito para enfrentar o santo da Pedra. Devia existir qualquer coisa. Devia haver um mistério em tudo isto. Depois compreendeu que o seu pensamento, duvidando dessa maneira do seu padrinho, era tão miserável quanto foram os fanáticos. Estava traindo o padrinho. Estava fazendo dele o que ele não era. O santo tinha força para levantar os aleijados. E foi assim, com a cabeça cheia daquelas coisas, que Bento chegou no Açu com o Padre Amâncio. A chegada do padre fez alvoroço. D. Eufrásia chorando e o padre com a fala sumida, dizendo para todos que não fora nada, que só tivera um desmaio por falta de comida. No outro dia Bento teve que contar a um por um tudo que se passara. E não acreditaram nele. Estava escondendo as coisas. O padre, porém, confirmava tudo que Bento dissera. E teve até que mandar um desmentido para um jornal do Recife que contara a sua expulsão da Pedra com episódios falsos. Diziam que a notícia fora obra do escrivão Paiva.

Fazia mais de mês que Bento tinha voltado com o padrinho da Pedra e o zunzum continuava. Agora era tido como um espião dos fanáticos. Era um irmão de cangaceiro e de beato. Só mesmo o Padre Amâncio o tinha dentro de casa. As próprias beatas se queixavam: como era que se entregava a igreja do Açu a um fanático, a um rapaz daquele? Mas nenhuma tivera coragem de procurar o padre e criticar. Bento passou para elas a ser tido como um inimigo da fé, de Deus. Os contatos dele com os objetos da igreja eram dia um sacrílego, de um profanador. A própria D. Eufrásia não era a mesma para ele . Sempre fora exigente, autoritária. Mas agora a coisa era outra. Só Maximina e o Padre Amâncio não estavam no Açu prevenidos contra ele .

E Bento deu para pensar nos seus. A figura de Domício tomou conta dele. Nunca vira pessoa melhor, mais próxima da sua pessoa. E se entregara de corpo e alma ao santo. Era no meio daquela população um dos fervorosos do culto. Seu irmão acreditava na expiação de um, pecado. Os Vieiras tinham traído há cem anos um santo da Pedra. Contava-se a história. Fora o antepassado do povo do Araticum que saíra da Pedra para conduzir os inimigos de Deus ao refúgio dos adoradores. O Judas fizera isto intrigado por causa de uma moça que o santo tomara para si. Viera ao Açu e ensinara o caminho, conduzira a tropa para a matança dos romeiros. A caatinga ficou coalhada de cadáveres e os urubus ficaram como em tempo de seca, de papo cheio. Domício via a culpa toda em cima deles, que vinham do homem. Todos do Araticum sofriam a desgraça do antigo. A família se acabava. As terras e as águas não botavam ninguém para a frente. Eram marcados pela desgraça.

Um dia Bento amanheceu com aqueles pensamentos mais vivos na cabeça e foi dormir ainda pensando na coisa. Padre Amâncio se arrastava para ir celebrar a missa todos os dias. Já era para ele um sacrifício. Chegava à igreja como se tivesse andado léguas, arfando, suando. E Bento via na celebração como o seu padrinho se reduzia a nada, verde, com a côr da morte. As beatas rezavam alto e a missa terminava com o seu padrinho quase sem forças para voltar à sacristia. Numa manhã daquelas Bento teve a certeza da morte do padrinho. Era uma coisa para poucos dias. Seria culpa dele? Seria o azar dos Vieiras que se passara para Padre Amâncio? Ajudou o padrinho a tirar os paramentos e saiu com ele para casa, matutando naquilo. O azar dos Vieiras viera com o filho mais moço da família liquidar o Padre Amâncio. Todos no Açu tinham raiva dele. Todos atribuíam à Pedra o atraso da terra. Lembrou-se do Major, que morrera. Tivera a sua parte na morte dele. Se tivesse atendido a D. Fausta, a morte do Major não se daria. Não tinha uma pessoa onde se encostar. Dioclécio era uma coisa de longe. Uma saudade que não o animava mais. Domício se entregara ao santo e o Padre Amâncio morria, morria devagar. Cada missa que ele dizia era um passo para a morte. E o rapaz começou a se inquietar, a sentir-se mais inferior do que nunca. Todos aqueles sujeitos que conversavam na tamarineira, quando ele chegava procuravam logo falar da Pedra Bonita. Pelo gosto de todos ele devia estar nos ferros, apanhando de cipó-de-boi. D. Eufrásia em casa tinha nojo, desprezo pelos seus. Tirando o padre, só Maximina não mudara.

E a negra até desconfiava da tristeza do rapaz. Procurou uma ocasião para falar com ele . Bento sentia-se cercado de ódios. O ódio da rua, o ódio de dentro de casa, das beatas na igreja, do povo da tamarineira, dos homens, das mulheres do Açu. Amanhecia com aquela idéia fixa bulindo, mexendo. Por que não morrer? Não acabar de vez a sina de penar dos Vieiras? Domício já dera a sua vida pelo santo. A mãe também. O pai era um doido, e Aparício no cangaço. Para ele só restava mesmo a morte. Não era nada. O Padre Amâncio morreria, a negra Maximina se entregaria à cachaça. E ele o que ficava fazendo, sem um amigo, sem um encosto, sem uma crença como a de Domício? Um antigo da família dos Vieiras viera correndo para levar a tropa que liquidou tudo e acabou com o povo da Pedra. O sangue dos meninos ensopou o barro duro, a areia quente. Um Vieira, um homem que fora o pai do velho Aparício, deixara os seus e fora com o governo matar o povo que acreditava no desencanto da lagoa milagrosa. O santo queria o sangue das donzelas e dos meninos para lavar a pedra, para com isto fazer o mundo virar. Rios de leite correriam para os famintos. O sertão seria verde de inverno a verão. Os cangaceiros ficariam mansos, a terra um paraíso de fartura e de beleza. E o desgraçado, por causa de uma moça, correu para levar com ele a morte dos seus.

Bento achava uma loucura acreditar naquilo. Mas, sem saber como, o sentimento de uma culpa imensa não se separava mais de suas cogitações. Ajudava missa, fazia tudo pensando naquilo. Viera trazer para o Padre Amâncio o azar de sua família. Via a agonia de D. Eufrásia com o irmão se sucumbindo, e no íntimo era ele que se sentia responsável por tudo. Queria reagir. Achava absurdo pensar numa coisa daquelas. Uma tarde de confissão procurou o padrinho para se confessar. Esperou que as beatas se fossem. Não tinha culpa para confessar, não tinha nada para dizer. Era um casto, e no entanto pesava em cima dele uma culpa imensa. Não teve coragem de confessar o seu desejo monstruoso, a sua vontade de morrer, de acabar com ele próprio, com a raça dos Vieiras. O padre quase que não lhe dera penitência nenhuma. Somente umas ave-marias pelas almas do purgatório. E ia crescendo em Bento aquela ânsia de destruição. A coisa chegava sem que ele esperasse. Estava distraído no serviço, quando lhe aparecia o desejo infernal. Mudava de lugar, saía para andar como nos dias em que D. Fausta o tentara. Ia longe. A idéia continuava firme, deitada no seu entendimento. Olhava para os galhos das árvores, e via o seu corpo espichado, de língua de fora, pendido, podre, com os urubus no céu de olho aberto para ele . E tinha medo. Corria para casa e lá dentro era que a idéia desgraçada mais se ligava ao seu corpo. Rezar não adiantava. Nada valia. Nem sabia mesmo se acreditava em Deus. Acreditava que uma culpa estava no seu sangue, na sua carne, nos seus ossos. Era tolice pensar naquilo. Pensava Domício, porque tinha ouvidos que ouviam cantos que não existiam. Pensavam os fanáticos, porque eram mesmo que bichos. Era besteira pensar naquilo. Subia à torre para tocar as ave-marias, bater sinal pelos mortos. Lá de cima a tristeza pegava Bento com mais força. Tempos houve em que puxava o badalo com gosto, olhando o mundo para onde mandava os sons do bronze que ele vibrava. Fôra-se todo prazer. Nunca tivera mesmo um grande prazer. Naquela tarde em que D. Fausta se pegara com ele , um frio correra pelo seu corpo. O corpo da mulher machucando o seu lhe dera uma coisa esquisita. Nunca tivera uma grande alegria. Dioclécio trouxera para ele um mundo, uma mulher de cabelos grandes, que esquentava o frio das noites. Dioclécio sabia de coisas grandes, de uma felicidade de andar pelas terras dos outros cantando. Invejara o cantador. Depois viera Domício. Viera Domício com as suas tristezas, tocando viola, aboiando para o gado, como se fosse para gente viva. Agora de cima da torre, via Bento um enterro. Lá ia o defunto com o seu toque de sino, lá ia o pobre no caixão da caridade. Era um que dormiria para sempre, que cairia debaixo do chão para sempre. Com aquela impressão desgraçada, desceu da torre meio tonto. As beatas rezavam em voz alta. E o pobre do Padre Amâncio nem podia mais deixar o seu quarto para as orações da tarde na sua igreja. Era a morte. A morte que Bento sentia perto dele, abrindo os braços para ele , convidando-o, chamando-o para o seu repouso, a sua tranquilidade. O mais moço dos Vieiras ia ao encontro da morte. Não fugia dela como Aparício que tinha medo, que correra até ao Açu pedindo ao irmão para ir tomar conta da mãe, para que ele pudesse viver muito. Aparício queria viver e estava no cangaço matando. Ele Bento queria morrer. E este pensamento lúgubre o absorvia. Tinha que ser, tinha que ser. Com aquela agonia no coração, era que não podia continuar. Tudo se acabaria com ele . Não nasceria mais um Judas de seu corpo. O seu sangue se extinguiria para sempre. Ali lhe vinha uma de suas alucinações mais dolorosas. Ele via o seu sangue embebendo a terra, as suas veias vazias da desgraça e o seu corpo livre, limpo, para Deus. Só a morte lhe daria a paz, a trégua.

Começaram a dizer no Açu que o criado do padre estava virando doido. Só podia ser de doido aquele ar, aqueles modos, aquele andar por longe da vila sem ter o que fazer.

Bento se via cercado de inimigos. Para cada lado que se virava era um olhar, uma boca contra ele . E lá longe os seus, sua mãe, seu pai e Domício perto de um santo, vendo e gozando os milagres, vendo Deus na terra, com a sua força dando esperança ao mundo. O povo do Araticum não devia mais sofrer coisa nenhuma. Estava livre, perdoado de suas culpas. Tinham encontrado o santo que perdoava tudo.