Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 10 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 4

 

POR baixo da tamarineira se juntavam os homens do Açu para as conversas. Rodeava o tronco da árvore um banco de madeira tosca. E aí batiam boca. As novidades tomavam curso, se publicavam com todos os seus detalhes. Joca Barbeiro, que só trabalhava nos dias de feira, passava horas e horas por ali. Era a maior língua do Açu. De tudo sabia? Falava de tudo. Também era o maior leitor de jornal da vila, e diziam até que ele sabia escrever artigos. O Major Evangelista era de opinião de que se o Joca tivesse estudado, seria uma pena de primeira. O barbeiro gozava a fama e não perdia tempo. As conversas da tamarineira metiam medo. De vez em quando uma gargalhada estrondava. Uma pilhéria mais engraçada, uma anedota nova provocava aquele destempero. As mulheres censuravam os maridos. Não gostavam daquelas reuniões, onde se falava da vida alheia, onde se contavam histórias debochadas. Aquilo para elas era como se fosse um começo de perdição. Brigavam com os meninos. Que não fossem escutar as porcarias daqueles homens velhos sem respeito. Joca Barbeiro tinha fama de sujeito perdido. Aquelas histórias que ele contava só mesmo um homem da marca dele contava. Nem por isso as reuniões da tamarineira deixavam de ser frequentadas. Às vezes o Padre Amâncio passava por lá e parava para dar dois dedos de prosa. A conversa então mudava de rumo. Fazia-se um intervalo para se ouvir o vigário. Logo que chegara no Açu fora este muito comentado pela assembléia da tamarineira. O padre era moço e bonito. E as beatas do lugar sofreram com os comentários. A mulher do sacristão mais de uma vez criara barriga do padre novo. Mas a respeitabilidade, o zelo, a bondade do Padre Amâncio venceram a maledicência da terra. Não se falava mais dele, passara a ser respeitado, a ser uma exceção na terra. Falava-se muito do juiz, o Dr. Carmo. Não era um homem que se desse a respeito. Um homem formado, de chinelo, em mangas de camisa pela rua, com a barriga branca aparecendo. E mais ainda corria a notícia do namoro dele com a filha do fiscal da Recebedoria. Uma moça que não valia nada. Contava-se até que o pai deixara o município onde estivera servindo, por causa da safadeza da filha. Fizera ela da casa dó pobre um lugar de encontro, recebia homens. Uma infeliz. E o Dr. Carmo, pai de filhos, com uma mulher tão boa, tão fina, namorando agora com aquela sem-vergonha. O Major Evangelista achava aquilo uma desmoralização para a justiça. Não era ele , o Dr. Carmo, quem fazia semelhantes misérias. Era o juiz do município. Quem podia levar a sério um magistrado que dava escândalos daquele. Por isto que viera cair no Açu. Se prestasse, não o mandariam para aquele oco do mundo. Tudo que era gente ordinária soltavam no Açu para curtir pena. O juiz andava botando as manguinhas de fora,, desmoralizando a justiça, e o governo o mandava para o Açu para endireitar. Ali o bicho criava vergonha ou se desgraçava de uma vez. Tiveram, em tempos atrás, um tal de Dr. Silveira que bebia como um infeliz. Um juiz bêbado, tombando pela rua, gritando dentro de casa, dando na mulher. Eram só trastes assim que vinham para o Açu.

As conversas da tamarineira não respeitavam ninguém. Era um jornal de oposição, violento, impiedoso.

Antônio Bento, quando não tinha que fazer, gostava de sentar-se por perto para escutar. No começo mandaram-no ir embora. Mas aos poucos foi ele ficando, até que se esqueceram. E.passou a ser ouvinte constante dos bate-bocas. A história do juiz o espantou. Ele via D. Senhora tão orgulhosa, tão cheia de bondade, só saindo de casa para tratar com a irmã do padre, e agora estava sabendo que o Dr. Carmo não respeitava a mulher. Ficou com pena da mulher do juiz. D. Eufrásia mandava-o levar presentes à amiga, e sempre que esta lhe entregava o prato vazio, lá vinha uma moeda de cruzado para ele . Os meninos do juiz eram os mais bem vestidos do lugar. No começo brincava com um deles, o mais velho, que regulava a sua idade. Estava no colégio, no Recife, e nas férias soltava-se no Açu como um desesperado. Metia medo ao povo da terra, não ligava importância a ninguém, nem ao Coronel Clarimundo, nem ao Padre Amâncio. O juiz não se dava bem com o vigário por causa de uma do filho. Há tempos, numa festa de igreja, andava o menino bulindo com as matutas. O Padre Amâncio soube e chamou-o à sacristia, passando-lhe um carão dos bons. O pai soube e andou falando do padre. Filho dele não recebia carão de pessoa alguma. Desde aí Antônio Bento começou a olhar o outro como um inimigo. Certa vez fora provocado na beira do rio pelo filho do juiz. Estava lavando o cavalo do padre, quando o menino chegou para debicar dele. Não teve dúvida não. Na segunda descompostura pegou-se com ele e deu com o bicho no chão. Deu-lhe a valer. No outro dia ia passando pela porta do juiz quando ouviu um psiu. Era o Dr. Carmo, da janela, que fazia sinal para ele . Neste dia ouviu calado o diabo do juiz. Se ele se metesse outra vez a se encontrar com o filho, o botava na cadeia. Já tinha falado com o cabo do destacamento. Mandava meter o chicote. E gritou para Bento: Aquela gente não sabia com quem estava bulindo. E a cara gorda, com a papada bamba, fez medo a Antônio Bento. Quis responder, dizer alguma coisa. O homem não permitia. Não queria saber de coisa nenhuma. D. Senhora apareceu na sala para agravar mais. O filho não devia estar se metendo com gente ruim. O culpado era ele , o marido, que não botava cabresto no filho. O povo do Açu não prestava para nada.

Antônio Bento saiu do carão humilhado, vencido, arrasado. Na tarde daquele dia havia um enterro de gente pobre. O caixão da caridade saía da igreja e ele tocava sinal. Via lá de cima as quatro pessoas levando o defunto. Via até que se sumiram no fim da rua. O pessoal que estava na tamarineira se levantou e tirou o chapéu. E o defunto pesando. Pararam para descansar. Ele puxava o badalo. Cada toque era um lamento profundo, perdendo-se por longe. O juiz lhe dissera horrores. Se o Padre Amâncio soubesse, ficaria aflito. Nunca Antônio Bento passara dia pior que aquele. E logo naquela tarde do enterro. Não gostava de tocar sinal, dobre para defunto. Era triste demais. E no entanto, quando morria anjo, e ele repicava o sino batendo com o badalo e a pedra por fora, não sentia aquela tristeza. Enterro de anjo não fazia pena. Lá ia um caixãozinho azul pelo meio da rua com os meninos atrás. Repicava o sino com gosto, como se estivesse chamando gente para a missa. Enterro de gente grande era diferente. Na tarde daquele dia depois das palavras do juiz, Antônio Bento sofrera a primeira estocada, o primeiro golpe de um inimigo. Nunca ninguém lhe falara assim. Levara carão do Padre Amâncio quando menino. E as repreensões de D. Francisca do Monte e de D. Eufrásia eram repreensões de gente chegada a ele , de gente com interesse na sua vida. O juiz falou em cadeia, no cabo do destacamento, como se ele fosse um preso, um cabra perigoso. Não dormiu bem. E teve medo. Viu-se metido com os presos da cadeia, os assassinos, os ladrões de cavalo. Sentiu-se inferior, baixo, um traste. Nem a servidão de criado do padre lhe dera a certeza de sua inferioridade. Padre Amâncio era manso, era seu padrinho, seu pai verdadeiro. O que fazia para ele era natural, era de sua obrigação, todos os filhos ali do Açu trabalhavam para os pais, como ele . Só o filho do Coronel Clarimundo e os do juiz não trabalhavam. Mesmo o do Coronel Clarimundo, quando chegava nas férias, o velho botava-o no balcão. E o juiz lhe falara em cadeia. O filho do gordo falara em sua mãe e ele castigara o atrevido. Por isto, cadeia, com o cipó-de-boi do cabo do destacamento. O sono não chegou logo para envolver com a sua paz o pobre Antônio Bento. A conversa da tamarineira vingava-o. O juiz era um safado. Dizia o Major Evangelista, um homem bom. Joca Barbeiro contava dos ridículos que o gordo fazia, conversando até altas horas na porta da filha do fiscal. Juiz indecente. Gordo ordinário. Teve vontade de sair pela rua, de ir até a porta da casa dele, chamar a mulher e desabafar:— "Olhe, D. Senhora, o seu marido tem outra mulher, não gosta mais da que tem em casa, quer outra, quer outros filhos". O juiz vivia de namoro. Era um homem sem respeito. Veria então D. Senhora chorando, e ele muito satisfeito. Veria a cara gorda do juiz suando frio, lívido, com medo, tremendo como um enforcado na hora da morte. Ele só merecia aquilo. Depois Antônio Bento via que seu ato seria infame também. Teria que contar tudo aquilo no confessionário a seu padrinho. Estava sendo ruim, querendo vinganças perversas, querendo esmagar uma pobre infeliz. Contaria ao seu padrinho na primeira sexta-feira do mês. Comungaria. Deus que tomasse conta do juiz. Deus que lhe desse jeito. Os seus podêres eram infinitos.

As conversas da tamarineira iam além do juiz. Quando não estava lá o Major Evangelista, falavam de D. Fausta. Achavam-na uma mulher esquisita. Não havia criada que aguentasse um mês na casa do Major. D. Fausta brigava com todas, implicava, fazia malvadeza. Joca Barbeiro sabia de uma menina que os retirantes tinham deixado com D. Fausta, e a judiaria da mulher com a mocinha fora tão grande, que a pobre se danara por este mundo afora. Nunca mais se soube dela. D. Fausta era uma fera. Conversando com ela, não havia quem dissesse. Ninguém era mais mansa, de voz mais terna. O Major sofria horrores nas mãos da filha. Diziam que às vezes na mesa do jantar as lágrimas chegavam aos olhos do velho. Era que D. Fausta preparava molho tão apimentado, que cortava a língua. Outro falava de um fazendeiro que quisera se casar com a moça e que desmanchara o casamento porque o ciúme dela era tamanho, que metera medo ao homem. Ela tinha ciúme até dos animais, das vacas, das ovelhas. Aí a gargalhada estourava. As mulheres em casa dariam muxoxo. Os homens por certo estariam na porcaria lá por baixo da tamarineira. D. Fausta abria letras nos lençóis que bordava para as noivas distantes. Aquele linho cobriria corpos jovens no amor, corpos de noivos se cobririam com os lençóis que ela bordava. Cabeça de noiva pousaria nas fronhas que ela bordava. Os seus dedos ágeis enfeitavam, davam beleza às peças finas que ela arranjava para os outros. Os pássaros do pai enchiam a casa com aqueles cantos insuportáveis. Miseráveis os pássaros, miserável essa vida do Açu. Dependuradas no alpendre, as parasitas se balançavam com o vento. Se ela pudesse, mataria os pássaros, pisaria por cima daquelas flores. Ouvia as risadas da tamarineira. Tinha um G difícil para acabar. Precisava caprichar na letra. A encomenda que tinha de entregar estava atrasada. Os pássaros trinavam pela casa inteira. As parasitas se balançavam. Os inimigos de D. Fausta eram inclementes.