Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 11 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 5

 

ANTÔNIO BENTO sabia que havia qualquer coisa de grave contra o povo da Pedra Bonita. Havia uma história que ninguém contava, contra o seu povo. Nas conversas da tamarineira, por mais de uma vez, ouvira referências. Todos eram de acordo em responsabilizar a Pedra Bonita por uma desgraça qualquer. Todos estavam convencidos de uma influência nociva, infernal, agindo sobre o Açu. As mulheres cortavam a conversa quando se referiam à terra de Antônio Bento. Os homens não chegavam ao assunto com exatidão. Havia um segredo. Antônio Bento procurava se lembrar de sua casa no pé da Serra do Araticum. Viera de lá muito menino e as suas recordações se limitavam a muito pouco, ao curral pegado à casa, ao pai alto e de barba rala, e à mãe, que era a impressão duradoura da sua infância. Voltava ele , nas suas cismas, aos campos nativos. Mas poucas recordações se haviam gravado na sua memória. O curral pegado à casa, o curral maior do gado e o curral pequeno com telheiro para os bodes. Sabia que viera para a casa do padre, dado pelos seus, na grande seca de 1904. Disto se lembrava. Viera trazido pela mãe. E as visitas que os de sua casa faziam a Açu eram poucas. Via a mãe uma ou duas vezes por ano. Chegava ela na casa do padre com os queijos e os presentes pobres. O Padre Amâncio falava com ela, dava-lhe notícias do filho, e a mãe passava o dia alisando o menino, botando-o no colo, tirando o atraso de muitos meses de carinho. Fora crescendo, e a mãe era sempre a mesma coisa. Ela no começo lhe dizia: — "Tu vais ser padre como teu padrinho, Bentinho. Teu pai não quer, mas tu vais ser". Os anos se foram. E ele não pudera realizar o sonho da mãe. Para que ser padre? Era bonito para os outros. Mas ele via que vida levava o padrinho. A família de Antônio Bento lhe seria estranha se não fosse a mãe. Com ela se sentia ligado. Tinha dezessete anos. Crescera, ficara grande, em breve tomaria conta da igreja sozinho. Em breve estaria no lugar do velho Laurindo. E se o padrinho se fosse, morresse? Era o ponto fraco de todas as cogitações do rapaz. Voltaria para o meio de sua gente, se o outro padre não o tomasse para os seus serviços. Voltar para o meio donde viera não o seduzia. Ele era de fora dos seus. Lembrava-se do ar distante do pai, no dia que estivera na casa do padre falando para que ele voltasse para junto deles. Aquele homem nada tinha a ver com ele . Aquele olhar duro de bicho, aquelas barbas, aquele jeito de falar não queriam dizer nada para Antônio Bento.

Os homens e as mulheres do Açu, quando se referiam à Pedra Bonita, era de um modo que impressionava. Não queriam falar de lá. Antônio Bento, quando era mais moço, se lembrava de uma palestra que ouvira entre D. Eufrásia e uma visita. Ele estava na porta da rua, e as duas mulheres conversavam sem saber que ele estava por perto. A visita se espantava da coragem do Padre Amâncio em ter criado um menino da Pedra Bonita. O vigário estava criando uma cobra. D. Eufrásia achava que não. O menino não tinha gênio, era bem mandado. O padre queria-lhe muito bem, como se fosse de sua família. Por este ponto, não. Antônio Bento ali não dava cuidados. Se não fosse ter que deixar o irmão só, levaria o menino para Goiana, para lhe dar mais educação. A visita não acreditava. Um dia ou outro ela ia ver. Não se conhecia um só ente daquelas bandas que fosse como o resto da humanidade.

Bento sentiu a conversa, preocupou-se com a advertência da mulher, quis perguntar ao padrinho, encontrar um meio de descobrir aquele segredo, as razões de tanta prevenção contra os seus. Teve medo de uma história terrível e ficou calado. Foi se calando, conformando-se com o desprezo da gente do Açu. No começo as mães botavam os filhos para dentro de casa, quando os surpreendiam brincando com ele :— "Entra pra dentro, menino! Sai daí, menino!" Outras eram mais diretas:— "Não quero você brincando com o menino do padre".

Depois passou mais tempo. Foram se acostumando com ele . Viam-no ajudando missa, acendendo as velas do altar. E os cuidados das mães do Açu foram diminuindo. Por isso Antônio Bento tanto se orgulhava nos dias de missa e de bênção. Ele estava lá pegando em coisas, fazendo coisas que os meninos do Açu não fariam nunca. As mães não queriam que os filhos brincassem com ele . E no entanto quem sabia dos segredos da igreja, quem acendia a lâmpada que, de dia e de noite, velava o Santíssimo, quem pegava nos objetos sagrados? Era ele , Antônio Bento, que não prestava para se juntar com os meninos do Açu. Não era um bicho. O que ele tinha era o que todos os outros tinham. Por que faziam aquilo com ele ? Só o padre e a negra Maximina não o colocavam em lugar diferente dos outros. A própria D. Francisca do Monte, na escola, fora o seu suplício. A razão de tudo estava sempre com os outros meninos, para a professora. Ele recebia castigos injustos, havia sempre duas justiças para a professora. Muitas vezes tivera vontade de dizer ao padre. Era tão manso, recebia tudo aquilo como se fora merecido. E as mães do Açu tinham medo dele. Nunca tivera um amigo de sua idade, nunca tivera um companheiro, uma camaradagem como os outros tinham. Melhorara tudo com o tempo. Hoje em dia a coisa era outra. Se não fossem as restrições, as referências duras ao seu povo, não veria diferença entre ele e o povo do Açu. Para isso não respeitavam a sua presença. Falavam da Pedra Bonita como de um ninho de cobras. A desgraça do Açu vinha de lá.

Desde aquele dia do carão do juiz que ele principiara a ter raiva. Nunca tivera ódio a ninguém. Menino manso, pacífico, só mesmo na escola de D. Francisca sentira vontade de sublevar-se, de ir de encontro às ordens superiores. O seu padrinho dera-lhe uma educação sem castigo. Agora porém começava a se insurgir contra a corrente. O filho do juiz conhecera a sua força. Era o menino mais graúdo do Açu. E quando a raiva lhe esquentou o sangue, não teve medo do juiz, do castigo, de coisa nenhuma. Há doze anos que o Açu o tinha na conta dum pobre-diabo, uma cria do padre, um bicho que descera da Pedra Bonita para que fosse amansado pelo povo dali. Era este o estado de espírito de Antônio Bento. E num dia em que Joca Barbeiro começou a debochar da gente da Pedra Bonita, o criado do padre deu uma resposta agressiva. "Amarelo metido", gritou-lhe o homem enfurecido, "vai para a estrebaria de teu senhor". E Bento deu-lhe outra resposta e foi andando. Todos concordaram: aquele menino era uma cobra. O padre criando uma cobra no meio deles. A resposta que Antônio Bento dera a Joca Barbeiro irritara a assembléia. O amarelo estava precisando de um corretivo.

Em casa o Padre Amâncio soube e chamou Antônio Bento para falar. Não queria vê-lo metido com os homens, intrometido na conversa de gente grande.

Na tarde daquela repreensão o sino da matriz do Açu bateu as ave-marias com mais violência. Puxando o badalo, Antônio Bento refletia. Ao primeiro bater de sino os homens da tamarineira se descobriam, as mulheres do Açu cochichavam a sua reza do fim do dia. O sol se punha deixando pelas nuvens uns restos de luz. O silêncio era grande. A vila estava quieta. Por debaixo da tamarineira os homens continuavam na conversa. Na porta do seu estabelecimento estava o Coronel Clarimundo pensando nos negócios. E D. Fausta vinha para a janela, aproveitar a claridade de fora. As velhas estavam dentro da igreja tirando terço com D. Francisca do Monte. E o Padre Amâncio rezava. Para Antônio Bento era ele a única pessoa que existia de verdade no seu coração. A própria D. Eufrásia brigava demais, exigia muita coisa. Só ele , o Padre Amâncio, lhe aparecia como amigo. A última badalada ficava soando como um gemido. Do alto da torre Antônio Bento via as terras que se perdiam de vista, as serras do norte, sumindo-se na distância, quase que se confundindo com as nuvens. Por aquelas bandas ficava a Pedra Bonita, a terra dos diabos, o fim do mundo, o calcanhar-de-judas. Joca Barbeiro dissera debicando que gente da Pedra Bonita tinha cotoco, tinha parte com o diabo. Antônio Bento fora malcriado com o homem. O padre não queria que ele se metesse na conversa dos grandes. Aí ele desceu a escada da torre e viu a igreja escura, só a lâmpada do altar acesa. Nunca tivera coragem de falar ao seu padrinho do segredo de sua terra. Tinha medo, pavor de uma coisa que não sabia como era. Mas queria saber. Ninguém ali queria ser franco com ele . Gente ruim, que só cuidava de botar toda a desgraça do Açu para cima de sua gente. Se ele pudesse, daria um ensino em todos eles. Até o sacristão Laurindo, quando falava da Pedra, cortava as palavras. Então Antônio Bento viu que precisava mudar de vida, ser outro, ter mais coragem para encarar as coisas. Vivia só, sem companheiros. O dia inteiro passava nos serviços do padrinho. Quando não era na igreja, era na casa do padre. Não lhe sobrava tempo para pensar. O povo do Açu era aquele que ele via.

E passou assim a reparar mais nos defeitos de cada um. D. Fausta brigava com o pai, era uma onça acuada, um gênio de fera. O homem lhe contara que D. Francisca do Monte tivera relações com o caixeiro-viajante, fora rapariga igualzinha àquelas que moravam na Rua da Palha. E na escola fora tão cruel com ele , tão contra ele , pobre menino, para contentar os outros do Açu! O Major Evangelista, com toda aquela importância, aqueles bigodes compridos, não passava de um maluco, dando mais valor aos canários do que à família. O juiz enganava a mulher, era um debochado, um canalha. O Coronel Clarimundo roubava na certa no peso do algodão. Isso era o que eles mesmos diziam nas conversas da tamarineira. Não acreditava porém na ruindade de D. Auta. Os filhos eram mesmo do sacristão Laurindo. Tinha vontade que não fossem, mas via o Padre Amâncio metido na safadeza e recuava no seu pensamento. Ele, Antônio Bento, estava pecando. Confessar-se-ia aos pés do padrinho, diria tudo, poria às claras todas as violências de seus ódios. E quando voltava das confissões, os conselhos do Padre Amâncio amansavam-lhe o furor. Recuava, comungava pensando no perdão. "Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores". Perdoar tudo, esquecer agravos, ser inteiramente da paz que Deus oferecia aos homens do mundo. Vinha porém lá um dia e todos estes propósitos se quebravam. Voltava ao ódio, aos desejos de vingança atroz. Tinha dezessete anos e não conhecia mulher. Não sabia de coisa nenhuma. Vivia só, sem os outros meninos que tudo sabiam. Quando ele passava pela Rua da Palha com o Padre Amâncio, nas ocasiões em que saíam para fora da vila, observava a cara do padrinho, reparava no jeito triste que ele tinha, passando pela Rua da Palha. As raparigas saíam da janela, fugiam para dentro de casa, quando o vigário aparecia na ponta da rua. A estrada passava por lá. Tinha dezessete anos e nada sabia das coisas de homem com mulher. Mas tinha vontade de saber, de fazer como os outros. Lembrava-se do escândalo que o juiz dera por causa do filho com uma rapariga. O menino pegara moléstias-do-mundo e a mulher fora para a cadeia. Diziam que o cabo do destacamento metera-lhe o cipó-de-boi a pedido de D. Senhora. Não sabia de nada. Devia haver muita coisa de grande e de bom entre homem e mulher. Ouvia as graças de Joca Barbeiro, as histórias que ele contava. Sempre que começava uma dessas histórias, olhava para os cantos para ver se não tinha menino por perto. Os homens achavam uma graça diferente. Se juntavam, se chegavam mais para junto uns dos outros para ouvir melhor a safadeza. Antônio Bento não se perdera ainda. Os meninos de sua idade mangavam dele. E ele compreendia e sentia-se mais inferior ainda sem aquela importância. Mas trabalhava tanto, tanta coisa tinha para fazer que não lhe sobrava tempo para mais nada. O sacristão, cada dia que se passava, mais ia deixando para ele arranjar, limpar. Não se importava porque gostava do serviço. Fora das exigências e dos gritos de D. Eufrásia, tudo na casa do padrinho lhe agradava. A negra Maximina era boa, queria bem a ele . D. Eufrásia implicava com ela. Não sabia fazer nada, dizia a velha. Saindo do feijão e do arroz, Maximina não sabia mais nada. A negra se desesperava com a irmã do padre. Falava em deixar a casa. No fim ia ficando. O Padre Amâncio achava um jeito de fazer-lhe um agrado e a negra velha se derretia de alegria. Aquilo é que era um padre. Um santo daquele não se encontrava. Os antigos falavam de um Padre Ibiapina que era assim como ele . E toda a sua raiva contra D. Eufrásia se desmanchava. Toinho, era assim que ela chamava a Antônio Bento. Para ela era mesmo que ser seu filho. Vira-o chegar ali menino, chorando por tudo. Tinha cinco anos mas parecia ter dois. Com olhos pretos parados pela fome de 1904. Crescera junto dela. Fora mãe, criada, tudo para o menino do padre. Até pensava que ele não se criasse. Viera câmara de sangue e o pobrezinho quase que se desmanchara. Ficara um palito de magro. Tomara conta dele. Pobre Toinho! Não tinha ninguém para lhe querer bem. A história de Maximina era triste. Quando fora da seca de 77 deixaram-na no Açu com dois anos. Fora de um e de outro. Servira a vários donos. A escravidão existia, havia escravos no Açu. Ela porém não pertencia de direito a pessoa nenhuma. Era livre. Quando se fez moça, fez o que bem quis. Ia para onde quisesse. Trabalhava para quem queria, a negra Maximina não tinha senhor. Andou por fora do Açu, foi com a família de um juiz para o Recife. Demorou-se muito por lá. Depois voltou e estava com o padre desde que ele chegara ali. Toinho era o seu orgulho. Quando ele era pequeno, nas noites frias de chuva, botava-o na sua rede, dormia com ele . Agora era um rapaz, um homem. Às vezes Maximina ficava mais alegre, os olhos ficavam vermelhos e ela dava para falar, ela que de costume era quieta e desconfiada. Fazia o serviço cantando e depois saía à rua fazendo visitas. Entrava de casa em casa. Ria-se alto, dava gaitadas, não respeitando ninguém. Todo o mundo sabia o que era. Era coisa antiga em Maximina. Aquilo sucedia. Era raro, mas vinha. O Padre Amâncio sabia e não ligava importância. D. Eufrásia quis se aborrecer e teve de se conformar. Maximina bebia e ninguém sabia aonde. Era o seu segredo. A princípio o padre pretendeu corrigir e foi deixando. Aquilo acontecia raramente. Antônio Bento se lembrava do sono em que ela caía após as visitas, as risadas. Dormia. E no outro dia aparecia na cozinha como se nada tivesse havido, calada no serviço, a mesma Maximina dos outros dias. Tirando o Padre Amâncio, era ela para Antônio Bento a melhor pessoa que existia no Açu. Maximina sabia de histórias que lhe contava quando ele era menino. Sabia versos tristes, sabia de tanta coisa ali do Açu! Quando ela esteve uns tempos fora da casa do padre, sentira a ausência dela como se fosse uma viagem de mãe, a separação de um ente querido. Isto acontecera numa das viagens de D. Eufrásia. A negra se aborreceu e arrumou os trastes. Iria embora. Meses depois voltou. E o Padre Amâncio ficou satisfeito. D. Eufrásia já estava longe e a vida na casa do padre voltou a ser como era. Agora Antônio Bento estava com vontade de saber de Maximina o que havia contra o seu povo, o que aquela gente do Açu escondia, o que eles tinham contra a Pedra Bonita. Se não fosse a vergonha, perguntaria ao padrinho. Mas Maximina devia saber. Ela saberia tudo, o libertaria daquele peso, daquelas grades de prisão. E perguntou-lhe. Mas a negra não contou nada. Ouvia falar mas não sabia de nada. Sabia que fora uma desgraça. Que morreram inocentes, que a terra ficara ensopada de sangue. Ela não sabia. Menino não devia saber dessas coisas. Aquilo não era da conta de menino.