Pedra Bonita
Capítulo 13
DE madrugada saíram de rota batida para a Pedra Bonita. O Padre Amâncio celebrou a missa mais cedo, na hora do café. D. Eufrásia falou-lhe: ele não devia meter-se com o povo fanatizado. Era uma grande imprudência. Aquela gente não merecia o sacrifício que ele fazia. Eram uns bichos. Mas o padre sorriu à advertência da irmã. Aí Bento esteve reparando na velhice do padrinho, quando ele respondia à irmã; tinha marcado a viagem e iria. Vigário de Deus era para isto. E abraçou D. Eufrásia e saíram para a viagem. Ainda da porta a velha recomendou:
— Toma cuidado, Amâncio!
Os cavalos puxavam, o ar bom da madrugada ajudava. Bento vinha atrás, meio tonto. Não sabia, não podia imaginar o que pudesse acontecer. Na caatinga os cavalos abrandaram a marcha. Mas ali o mundo floria como um jardim. Os pirins cobertos de branco, as caraibeiras amarelas como ouro, e o vermelho das macambiras e o cheiro das imburanas. Teve saudade do Araticum. Teve saudade dos passeios com Domício pelo raso da caatinga, atrás dos garrotes de Bentão. O padre ia na frente, de cara triste, . de ar compungido, como se fosse enterrar um irmão. Bento não sabia bem como pensar as coisas. Teriam primeiro que passar no Araticum, para saber direito dos fatos. Se Domício não estivesse em casa, a mãe saberia informar de tudo. Foram andando. O sol tomava conta da caatinga. Já era dono de tudo. Só os imbuzeiros se arredondavam com os galhos caindo no chão. Por debaixo deles fazia até frio, ali não entrava sol. Iam rompendo distâncias. E com pouco mais Bento começou a sentir o Araticum. Uma rês chocalhava mais para dentro. Botou o cavalo para perto e viu o ferro de Bentão, o B grande, a marca de seu pai.
— É um garrote de pai, disse ele para o padre, com uma espécie de orgulho.
— Nós então já devemos estar perto do Araticum, respondeu o padrinho.
— Com mais meia légua a gente chega lá, informou Bento.
Aquela terra já era dos seus, dos Vieiras. Por ali Domício largava o seu aboio, chamando gado, como se chamasse gente. Tiveram que subir alguma coisa. A Serra do Araticum se deixava ver, com o verdor de suas encostas.
— O lugar é bonito, disse o padre.
E com pouco mais foram chegando à casa-grande. Pararam na porta e estava tudo fechado. Desceram dos cavalos. Bento amarrou os animais. Não havia ninguém. A casa velha fechada. Forçou então a porta de trás e foi entrando. A casa estava sem gente há mais de semana. Abriu a porta da frente e deu um tamborete para o Padre Amâncio se sentar. Foi ao quarto de Domício, e viu a viola no saco, dependurada num dos armadores da rede. Viu a roupa de couro do irmão, as botas que ele usara tantas vezes. Mas não havia sinal de gente. O fogão com cinza fria. — Não tem ninguém em casa, lhe falou o padrinho. De repente, porém, o rapaz compreendeu a situação. E não teve coragem de contar ao padre. O seu povo estava na Pedra. Saiu para olhar o terreiro, foi até lá embaixo no rio. Demorou-se nas oiticicas. Havia resto de fogo por lá. Sem dúvida cargueiros que tivessem dormido ali. Era o seu Araticum. Lembrou-se da volta dele com Domício, da surra, de quando havia fugido com medo da volante. Encontraram o Araticum daquele jeito, só, despenado, sem vida, como um homem assassinado. Agora nem o bode velho de Bentão estava ali para berrar, dizer que vivia. O padre esperava por ele . Tudo tinha feito pelo afilhado, dado tudo que podia. Seu padrinho queria ir à Pedra com ele . Não sabia se era medo ou bem outra coisa. Mas estava com medo. Se voltassem dali para o Açu, seria tudo para ele . Foi andando para a casa-grande:
— Prepara os cavalos, Antônio, vamos embora. O teu povo está na feira.
Saíram os dois para a Pedra Bonita. Dentro do Padre Amâncio devia haver um turbilhão de pensamentos. Bento via-o sereno. O padrinho com aquela cara do dia em que o juiz mandara o soldado prender ele , Bento. Foram andando. O deserto sertanejo era imenso. Não se via uma casa, não se encontrava um ente vivo. As seriemas é que de vez em quando cortavam o espaço com seu grito de pavor. Bento, a cada passo que o cavalo dava, sentia o perigo. Quisera para ele que se perdessem, fossem dar noutra terra. Noutra terra distante, que nunca mais chegassem na Pedra Bonita. Descobriram na frente deles gente que ia a cavalo e a pé. Passaram pelo grupo. Eram romeiros que se espantaram com o padre naquelas alturas. As mulheres e os meninos estiraram as mãos pedindo bênção.
— Para onde vai este povo? perguntou o padre a um velho que parecia ser o chefe do grupo.
— Nós vamos para a Pedra, Seu Vigário. Vamos levando esta menina doente para se curar com o santo.
Dentro de um dos caçuás, coberta com um lençol de taco, vinha uma menina amarela. Na pele e nos ossos, uma miséria humana.
— Ela não anda, Seu Vigário. As canelas se afinaram, ficaram como taboca. E a mãe ficou chorando para a gente descer pra dar a bichinha pra o santo curar.
O padre não disse nada. Despediu-se do velho e os cavalos, dele e de Bento, se adiantaram do pessoal cansado.
— É de cortar coração, disse ele para Bento. O povo acredita de verdade. Aqueles pobres vêm de mais de cinquenta léguas, por este sertão afora, atrás de salvação.
E calou-se. Os cascos dos animais estalavam nas pedras da caatinga. O padre, curvo, cansado da viagem. Bento tinha pena dele. Subiram um pouco, abandonando a caatinga. E, de supetão a Pedra apareceu. O padre parou o cavalo para olhar melhor. A luz do sol bulia nas malacachetas.
— É bonito mesmo, disse o padre.
Via-se de longe a copa dos catolèzeiros remexendo com o vento. E bulindo, como numa entrada de formigueiro, a massa humana espalhada.