Pedra Bonita
Capítulo 3
DOMÍCIO ficou pensando uns dias se levava ou não Bento ao velho Zé Pedro. A mãe pedira para ele encobrir do filho mais moço a história da Pedra Bonita. Afinal de contas ele teria que saber. E Bento não era um menino para viver de segredos dessa natureza. Mesmo assim Domício sentia-se sem coragem. E se não fosse Bento, não teriam saído naquele dia com destino à Pedra Bonita. A manhã estava linda. Saíram de casa com o clarear das barras e já estavam em plena caatinga, os piríns branqueavam tudo com o seu florido, imbuzeiros desabrochando, com as primeiras pancadas d'água. Bento ia ansioso, e Domício calado pensando no que estava fazendo. Desobedecera à velha. Sabia que a mãe queria que o filho mais moço fosse diferente de todos de casa. Podia ter se enciumado com esses desejos de sua mãe, mas nunca ligara. Pobre dela, que vivera uma vida de cachorro com Bentão. Um marido que não sabia o que era mulher, com aquela cara fechada desde que acordava até que dormia. Achava natural que ela se enchesse daquela ambição no tocante a Bentinho. Deixara-o com o padre, fora dos seus, procurando para o menino uma vida acima do Araticum, de todos os da Pedra Bonita. Em Dores, quando ele ia às feiras e dizia que era da Pedra, os matutos tinham sempre uma coisa para dizer. Todos tinham a gente da Pedra Bonita na conta de impiedosa, cruel, doida. Por isso a velha não queria que Bentinho soubesse a história dos antigos. Em pequeno, ele se lembrara, aparecera no Araticum uma velha que era da família. Dessas que não faziam pouso em parte nenhuma, uma tal de Naninha. E ela contava a eles o que fora o caso da Pedra Bonita. Parecia uma história de Trancoso o que Naninha lhe contara. Mas quando a mãe ouvira a velha falando, não deixara que continuasse:— "Pára com isso, Tia Naninha. Deixa os meninos. Isso não é história para menino". E assim eles pouco sabiam da história da Pedra. Ficava ali a uma légua e meia de distância. E pouco ele sabia do que se passava por lá. Várias vezes tivera vontade de procurar o velho Zé Pedro e tinha uma espécie de medo. Desde menino que aquilo vinha sendo escondido pela mãe. Ficara com medo de saber. Vontade não lhe faltava. A história como a velha Naninha contava, tinha coisas medonhas. Um homem, que era mesmo que Deus, um tal de Ferreira, manobrando com sangue de gente e de bicho. Fazendo e prometendo um novo mundo para o povo. Iam se aproximando.
Tinham descido a caatinga e agora subiam por uma encosta da serra. Depois desceram outra vez. E um grande vale apareceu à vista de Bento, um grande vale coberto de catolèzeiros, como uma floresta, gemendo ao vento. Fazia barulho a pancada do vento nas folhas das palmeiras. Imbuzeiros enormes. E mato, muito mato. Para um canto estavam as duas pedras gigantes. O sol caía em cima de uma delas e espelhava como se estivesse se derramando num espelho. Saía faísca como num incêndio. As malacachetas coruscavam ao sol.
— É aqui que fica, disse Domício para Bento.
Bento parou o cavalo para olhar com mais vagar. O vale se estendia até longe. As pedras, no fundo, quase na encosta da serra, como duas guardas, e a vegetação abundante, uma verdadeira floresta se estendendo a perder de vista. As duas pedras se distinguiam no meio de tudo. Subiam e se entregavam ao sol, num brilho de festa.
— É ali, Bentinho, o lugar da história. Ali vem gente de léguas e léguas rezar, sem saber o quê. Lá em casa não se fala nisso. E quando passa retirante de longe e pede pouso e o velho sabe que é para a Pedra Bonita, não deixa ficar por baixo das oiticicas. O velho tem medo da Pedra Bonita. Mas o povo daqui não tem não. O velho Zé Pedro mora mais em cima. Vamos falar com ele .
Antônio Bento estava como se tivesse caído num reino encantado. Era ali a Pedra Bonita. O sangue dos inocentes correra por aquelas terras e diziam no Açu que a terra secara, que os campos tinham secado para sempre. Não era verdade. Os catolèzeiros gemiam ao vento, os imbuzeiros cresceram, estavam ali imensos, e as duas pedras, bem no pé da serra, como dois gigantes invencíveis. Foram subindo. Domício falando dizendo tudo que lhe vinha à cabeça, e Bento escutando, de ouvidos abertos para tudo. A estrada que dava para a casa de Zé Pedro estava batida de pé de gente e de casco de cavalo. Mais para diante encontraram uma família que sem dúvida vinha de lá. Um homem a cavalo, com um menino na frente, e uma mulher a pé, de saias arregaçadas.
— Isso é gente que vem do velho, disse Domício. Ele ensina tudo ao povo. Faz até negócio de terra. Estou até pensando no que a gente vai dizer a ele . O bom é a gente não falar no Araticum. Vamos conversar como se a gente fosse de Dores. Tu mesmo não tem cara de gente dessas ribeiras.
Foram andando. A casa de Zé Pedro ficava no meio da mataria. Era uma casa de palha e de barro escuro. Defronte, um pé de pau-ferro dava sombra. De lado um curral de pau-a-pique, com uma latada para a criação. Bento e Domício não viam ninguém.
— Ô de casa! gritou Domício.
Lá de dentro saiu um velho, meio acaboclado, de cara lisa.
— Sejam com Deus. (E chegou-se para a porta). Amarrem os cavalos, meninos.
O velho parecia ter a vista curta, pois se chegava bem perto para falar com Domício.
— Nós somos de Dores. Disseram à gente que o senhor sabe de coisas para aconselhar.
— O que eu sei, todo o mundo sabe. O povo é que inventa essa história. Mas no final das contas vocês vieram de Dores pra falar comigo?
Domício teve medo da mentira. Quis confirmar, mas não teve coragem. O velho sabia de tudo. O melhor era falar a verdade.
— Não, Seu Zé Pedro. Nós somos mesmo destes arredores. Este meu irmão é que chegou do Açu e me pediu para saber a história da Pedra. Lá em casa ninguém sabe direito.
O velho Zé Pedro olhou para eles, chegou-se bem para perto, sondou, examinou:
— Mas tu não sabia de nada da Pedra Bonita? Teu pai não contou, tua mãe não contou? Tu donde é, menino?
Domício informou. O velho sorriu e disse claro:
— Teu pai e tua mãe não contaram, não podiam contar. O sangue dos Vieiras desgraçou a Pedra.
E fechou a cara. Levantou-se:
— O sangue dos Vieiras. Mas não tem nada. Tu nada tem que vê com a história da Pedra. Deus andou castigando por lá. Na Judéia também fizeram o mesmo. O sangue dele correu na Judéia como correu na Pedra. E como há de correr pelo mundo. O sangue de Cristo não pára de correr, meninos! O mundo foi feito com sangue, meninos. Foi com sangue que Deus preparou Adão. O sangue tem força pra tudo, para entrar pela terra e varar as profundas. Tu quer saber a história da Pedra. Eu te conto.
Aí o velho saiu um pouco, tomou ar. Era curvo. Tinha o corpo envergado pela idade, a boca murcha, pés no chão e olhar absorto.
— Eu conto a história da Pedra, como S. Pedro contou a história do Criador.
Bento ficou com medo. Fazia medo a voz rouca e arrastada do velho. Agora ele parecia atuado:
— Tou ouvindo o sino tocando. Tu não escuta porque os ouvidos do povo vive entupido. O mal do mundo é este, meninos. O povo tem os ouvidos entupidos e os olhos fechados. Tu quer saber a história da Pedra. Ah! eu conto. Eu conto tudo. Eu conto tudo, gemido por gemido, dor por dor. Lá vem Batista com as pedras na mão. Ele vem do Piancó. Ele diz pra todos:— "Ainda não sou eu. Só tenho as três pedras. Uma é o Padre, a outra é o Filho, a outra é o Espírito. Eu venho pra dizer que o Filho não tarda. Ele se chama Ferreira, vem no corpo de Antônio Ferreira, vencer os demônios, abrir a porta dos homens que não querem abrir para os pobres, botar os pobres no lugar dos ricos e os ricos no lugar dos pobres". Batista vem vindo do Piancó. Chegou na Pedra falou para os homens:— "Fica quieta, gente. Ele vem, ele chega. Ele traz tudo que o Senhor diz que existe. A lagoa do sal vira em ouro". E vieram os malvados e levaram Batista para os confins. Mataram ele e tiraram o couro como se faz com os bodes. Mas as três pedras ficaram enterradas na Pedra Bonita. No pé de Pedra ficou as pedrinhas. Era o Pai, era o Filho, era o Espírito. Lá um dia os catolèzeiros começaram a gemer, os pés de mato a gemer, a terra a bulir, a Pedra grande a suar. Descia da Pedra grande um suor frio de gente, era o Filho que vinha chegando na carne e no corpo de Antônio Ferreira. Era o Filho que vinha sofrendo pelos homens. Aí, menino, a Pedra ficou como nas missões do Frei Fabiano. Vinha gente de cem léguas, povo de todo mundo, pretos e brancos, ricos e pobres. O Capitão Venâncio dos Olhos-d'Água vendeu tudo para viver por lá. Vendeu a fazenda, vendeu o gado, deixou a mulher e veio para junto da Pedra. Lá embaixo estavam as pedrinhas que eram o Pai e o Espírito. Antônio Ferreira começou a fazer os milagres do Filho. Vinha cego de nascença, e ele curava. Vinha feridento de feder, e ele curava. Vinha entrevado, e ele curava. Mas o Filho queria o sangue dos inocentes para o milagre grande. O sangue dos que não estivessem sujos de pecados. O sangue dos meninos e das donzelas para o grande milagre. Lá longe estava a lagoa de sal. Quando a seca chegava, a água se sumia e ficava aquele brancume por cima da terra. Era das lágrimas dos homens, dos homens que sofriam, das mulheres que não podiam parir, dos meninos que não podiam falar. Daquela lagoa tinha que sair a felicidade do mundo. Daquela saía o ouro que dava para fazer a riqueza do mundo. Os pretos ficavam brancos, os doentes com saúde, as mulheres maninhas pariam meninos gêmeos, os assassinos veriam os ofendidos satisfeitos, os ladrões entregavam os roubos, os cangaceiros as suas armas. Tudo viveria na felicidade, se a lagoa se desencantasse. O Filho dizia isto nas orações, gritava pra o povo de cima da Pedra grande. Todas as donzelas teriam que parir das entranhas do Filho. Todas teriam que dar a virgindade para que a força do Filho entrasse de madre adentro e secassem as ruindades, a porcaria do mundo. As virgens viravam santas pela força do Filho.— "Ah! menino", me contou meu pai, que era menino nesse tempo, "o povo dançava, chorava, gemia com a fala do Filho. Os pais vinham dar as filhas pra o ato. As mães preparavam as meninas, defumavam o corpo delas, lavavam com água de cheiro o corpo por onde entraria o Filho de Deus. E as donzelas vinham vindo do santuário com a felicidade pegando fogo na madre. Era um pedaço de Deus que ficava lá dentro. Havia para mais de cinco mil pessoas debaixo dos imbuzeiros e dos catolèzeiros. E chegando gente. E chegando gente, e se curando gente. E o filho se preparando para o grande dia. Lá uma madrugada ele gritou para o povo: "Acorda, gente, hoje é o dia da nova criação do mundo. Deus meu Pai precisa do sangue dos inocentes para a obra da criação. Do sangue dos inocentes tinham que sair o mundo novo, a terra feliz. Deus mandou Abraão fazer como Isaac, e ele não teve coragem de fazer. Deus mandou que eu descesse para salvar os homens, acabar os pecados".
Aí Zé Pedro parou um pouco. Tomou a respiração e continuou na narrativa:
— Meu pai me contou:— A cabeleira do Filho o vento sacudia e o céu parecia feito de sangue com a madrugada. O povo tremia. As mulheres agarradas com os filhos sem querer dar e os pais soluçando. E o Filho de Deus no corpo de Antônio Ferreira gritando: "Eu quero é o sangue dos inocentes. O sangue dos meninos que chupam os peitos das mães. O sangue que é leite ainda e que é como o sangue do Menino Deus". E as mães choravam. O Filho de Deus foi mais para cima da Pedra grande e gritou com mais força: "Eu quero é o sangue dos inocentes. Deus meu Pai me mandou para desenterrar os tesouros da terra e salvar o seu mundo". Aí as mulheres correram com os filhos para junto dele. E o Filho de Deus foi cortando cabeça por cabeça e banhando a Pedra. Mas as mulheres choraram com pena dos filhos. Era uma latomia de fim de mundo e o milagre não se deu. As mulheres choraram com pena dos filhos. A carne é podre, menino. De tarde os urubus cobriam a Pedra Bonita. Era uma nuvem que cobria o sol. O Filho de Deus chorava embaixo. Saía sangue dos olhos dele. Deus tinha abandonado o seu filho. Ele chorava tão alto, que veio gente olhar. E saíram gritando. Saía sangue dos olhos dele. E as mulheres que choraram pelos filhos, tinham aborrecido a Deus. Que morressem todas elas. Que se matassem as mães venenosas, as mães infelizes. Correram atrás das mulheres pela caatinga. Degolaram muitas para ver se as lágrimas do Filho de Deus ficavam brancas sem o sangue que era o sangue do mundo. Aí, meninos, apareceu um desgraçado. A grande desgraça que acabou com a visita do Filho de Deus na terra. Fugiu do meio do povo um traidor, um Judas correu para as bandas do Açu, fugiu para o meio das feras e foi contar. E sucedeu a maior judiação de todas. O Filho de Deus chamou o povo e disse: "Vamos morrer. Vem gente de longe atrás de nós". E botou a coroa na cabeça, a coroa de mato verde, e saiu cantando com o povo de mato afora. Meu pai foi também. Era já tarde no meio da caatinga, quando se ouviu uma cavalhada andando. Parecia o tropel do demônio. Era a tropa. E se deu a desgraça. O Filho de Deus varado de bala, com o corpo sangrando, com cem punhais no coração. E a mortandade dos outros. Para mais de quinhentos estendidos na caatinga. O resto fugiu e os urubus tiveram carniça pra muitos dias. O corpo do Filho de Deus foi levado pelos devotos. Disseram que ele cheirava como um pé de roseira. E tudo se acabou como no dia de juízo.
O velho parou de falar. Olhou para os dois rapazes e continuou de voz trêmula:
— Menino, tu me disseste que era filho de Bentão do Araticum. Pois fica sabendo. O homem que correu pra ensinar o caminho à tropa foi um de tua gente, um Vieira. Tu não tem culpa de nada. Mas Deus não esquece. Tu viste como morreu teu avô Aparício. Aqui ele veio me falar pra fazer reza. Aqui ele chorou pedindo perdão como menino. Ele que era chefe de cangaceiro, como tu deve saber. Teu pai Bentão é outro infeliz. Tu não tem culpa não, menino. Eu estou contando por contar. Bentão não fala com ninguém. Tem terra com água corrente e não vai pra diante. Casou-se com mulher bonita, e a mulher ficou feia. Cria, e a criação não cresce. Aplanta e não enriquece. Tu sabe o que é? É o sangue do parente. É o sangue de Judas nas veias. Sangue de Judas, menino, sangue de Judas. Teu irmão Aparício já teve comigo. Falou de fechar o corpo. Rezei pra ele , sabendo que não tinha força. O sangue de Judas, menino.
Antônio Bento olhou para o velho apavorado. Domício queria se levantar e não tinha coragem. Mas ainda falou para o velho Zé Pedro:
— E não tem jeito pra a gente não?
— Tem, menino. Quando nascer uma donzela, quando uma virgem sair das carnes dos Vieiras e ela entregar o corpo ao padre da Pedra. Porque ela precisa parir um homem, que seja filho do sangue que correu, que embebeu a caatinga.
Os dois irmãos ficaram olhando para o velho com pavor.
— Menino, tu não tem culpa de nada. O Filho de Deus um dia aparece e enche o mundo de felicidade. A lagoa se desencanta. E o mundo inteiro cantará os benditos do Filho de Deus. E Deus vem para a terra. As pedras ficam moles, os riachos dão para correr dia e noite. E o sertão verde. Verde pra todos os tempos.
A história da Pedra Bonita tinha atemorizado a Domício e a Bento. Saíram eles da casa do velho à boquinha da noite. Quando avistaram a Pedra Bonita, era a lua que se derramava por cima dos dois penedos. Tudo ali parecia envolvido nas palavras do velho Zé Pedro. A ventania soprava nos catolèzeiros. Vozes de mortos gemendo. As mães chorando e o sangue dos inocentes lavando a pedra.
— Domício, tu acredita? perguntou Bento.
O outro se calou. A história do velho devia estar trabalhando dentro dele. Os cavalos ganhavam para o alto. Lá embaixo ia ficando a Pedra Bonita, a terra que chupara sangue, os lajedos que se banharam em sangue de meninos, de donzelas, de mães infelizes.
— Tu acredita, Domício? perguntou outra vez o irmão.
— Acredito, Bentinho. A gente vive na desgraça por causa dos outros. Eu não sabia da história. Lá em casa ninguém sabia disso. Bem que Aparício me disse uma vez: "Domício, isso aqui não vai para diante. Melhor vale o cangaço. O pai do velho foi cangaceiro. O velho Aparício foi do cangaço". Pois é o que eu te digo, Bentinho. A família da gente vai se acabar.
A lua tomava conta da caatinga inteira, ia até por debaixo dos umbuzeiros, se enfincava pela mataria rasteira.
— Domício, tu não queres sair desta terra?
— Vontade não me falta. Tenho pena de mãe. Tenho pena de tudo. Estou feito nas coisas do Araticum. Bem quisera me ver livre desse pegadio e me danar pelo mundo, andar pelas feiras como cantador. Mas cadê coragem? O diabo do velho contou tudo aquilo que tu ouviste. Raça de Judas é a da gente.
Em casa Bento e Domício ainda conversaram sobre a história da Pedra. Não podiam dormir.
— Sabe do que mais, Bentinho? O melhor é a gente sair para fora.
E Domício pegou da viola. E saíram os irmãos para fora do quarto pela janela. Os de casa dormiam a sono solto. Eles nem tinham reparado que havia aguardenteiros debaixo das oiticicas, de redes armadas. Foram se chegando para lá. Os homens conversavam com a lua batendo na cara. Não podiam com aquele clarear. Domício e Bento chegaram-se, e eles entraram logo na conversa. Era a tropa de um dos conhecidos de Domício.
— Menino, eu já tinha ido perguntar por você na casa. E me disseram que você tinha ido com um irmão para as bandas da Pedra. Capaz de ser coisa de reza heim?
Domício sorriu. O homem reparou na viola e disse para ele :
— Vamos ter cantata?
E se levantou da rede e foi para um canto. Voltou com a viola.
— Eu estou até enferrujado. Há mais de quinze dias que não dou uma tocata.
E começou a pinicar as cordas do instrumento.
— Canta primeiro, menino.
— Não senhor. O senhor é quem sabe.
— Deixa de lorota. Sai com a toada.
Domício obedeceu. E cantou. Para Bento era novo aquilo tudo. Nunca pensara que o irmão soubesse daquelas coisas. Domício cantava a história de um homem que se perdera da família na seca grande. O pobre procurava a mulher, procurava os filhos. A voz de Domício soluçava nas lamentações do pobre sertanejo. O verso saía triste, pungente. Quando parou, o homem falou para ele :
— Isto é de lavra?
Domício sorriu.
— Pois eu vou ser franco. Há muito tempo que cantador não me agrada assim. Anda por aí um tal de Dioclécio do Araçá. Vi ele cantando na feira de Dores. Cantou de deixar gente chorando, com pena das desgraças de um sertanejo nas unhas dos cangaceiros de Luís Padre. Mas isto que você cantou é melhor, menino.
Bento perguntou logo pelo cantador Dioclécio. Falou dele, era seu conhecido. E o homem informou:
— Só vi ele esta vez na feira. O bicho estava de cabelo comprido como penitente. Me disseram que era coisa de mulher. O cantador não dava conta de si e vivia naqueles trajes sujos, fazendo de conta que era retirante.
Aí o cargueiro começou a pinicar na viola. E saiu-se com a sua toada. Começou em voz baixa, como se estivesse se acostumando com as dificuldades. Depois a voz cresceu e encheu a noite de plangências. Soprava um vento nos galhos das oiticicas, e no curral o gado acordado como se fosse de dia. A viola devia atravessar os matos do Araticum, subir as serras, descer para a caatinga. O homem cantava forte. Os seus gemidos pareciam aboios de vaqueiro disposto. Os outros cargueiros tinham se levantado para ouvir. A história era triste como as outras. Uma moça queria se casar com um rapaz pobre, e o pai rico não queria. Filha dele tinha que casar com homem remediado. Então a moça fora falar com o pai. Aí vinham as lamentações, os soluços, os pedidos, a angústia da amorosa. Depois, já sem esperanças, ela mandou uma negra para o namorado. E começa a despedida. Começa a falar às coisas de casa aos bichos, às paredes, à rede onde dormia, aos passarinhos que ouviam, à negra que a criara. A fala da moça cortava os corações. O namorado esperava por ela na beira do rio. Ela se penteava, sentada defronte ao espelho, olhando para a sua cara, como se fosse para tudo que era da casa do pai. Por fim abandona a casa. E era a corrida pela caatinga. O namorado esporando o cavalo. O velho pai mandara gente atrás. Mais de vinte cabras no encalço da filha. Já iam longe. Mas o cavalo do namorado cansou. E pegaram os dois. Começa aí o suplício. Chorava tudo, todos de casa com pena dos pobres. Choravam as negras da cozinha, choravam os passarinhos da gaiola, chorava o gado no curral. E o velho duro: queria a morte dos dois, queria ver o sangue dos dois correndo para se contentar. E mataram os namorados, numa tarde de seca. A moça se despedia do rapaz e o namorado da moça. Tudo isto nos versos mais tocantes que Bento já tinha ouvido em dias de sua vida. Quando o homem parou de cantar, havia lágrimas nos olhos dos companheiros.
— Zé do Monte está hoje na veia do pranto, falou um companheiro idoso.
— Com uma lua desta a gente só tem vontade de botar pra chorar.
Já era muito tarde. Bento e Domício voltavam para o quarto. O dia e a noite tinham sido de tristezas. Só de tristezas.