Pedra Bonita
Parte 2
PEDRA BONITA
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No pé da Serra do Araticum ficava a propriedade do velho Bento Vieira. Aquelas terras vinham dos antigos da família. A casa pobre de taipa, o curral de pedra, o cercado de pau-a-pique diziam bem a idade de tudo. O lugar era triste. Nada dos horizontes extensos, de uma vista que enchesse de gozo o espectador. Um buraco, como diziam. Mas era que ali embaixo passava o córrego, nasciam águas que só deixaram de correr nas secas violentas. Procuraram o pé da serra por estas facilidades. Podiam ter construído a casa-grande no alto, lá em cima donde se avistava a caatinga se sumindo, se estendendo nos seus relevos, subindo e baixando como um mar. Quiseram fincar mesmo no pé da serra a casa-grande. O gado não precisaria de longas caminhadas para o bebedouro e o povo encontraria ao alcance da mão a água de beber, que era tudo por aquelas bandas. O povo do Araticum nunca quisera muita coisa do destino. Dessem-lhe de beber, que o mais se arranjava sem muitos cuidados. As terras do velho Bento Vieira recebiam gados de todo o mundo. Não eram extensas, não dispunham de um mundo como outras fazendas vizinhas. Mas tinham do melhor, do que havia de mais fresco pelo sertão. Outros levavam muito gado para as feiras, cultivavam, enchiam a casa de cereais. Mas nas secas não aguentavam o repuxo como o Araticum. Era pequena, mas dava bastante para os seus donos. Ouvia-se sempre dizer: "O Araticum é um ovo sem clara, só de gema".
O velho Bentão, como chamavam ao proprietário, não fazia figura nas partilhas de gado. Tinha pouco, não procurava estender as criações. Cobria as terras de roçado. Tinha medo das secas, se reduzia para melhor resistir. Vivia ele com a mulher e os filhos numa vida insignificante, como há um século vinham vivendo os seus antepassados. A casa-grande, que fora de seus avós, era aquela mesma. Não aumentara um quarto, não lhe fizeram uma puxada. O tacho de cobre de refinar o azeite de carrapato quase que não tinha mais fundo. As gamelas de fazer farinha eram as mesmas. Apenas o fuso da prensa se partira, de tão gasto. As vasilhas eram aquelas em que há cem anos vinham espremendo a massa nas farinhadas. O curral de pedra resistira ao tempo. Do tamanho que era continuava a ser, e as estacas de aroeira do cercado podiam esperar por mais cem anos, de tão sólidas.
No Araticum as coisas seriam como as pessoas. O Capitão devia ser igual a seu pai, como este fora igual ao outro. Corresse o tempo na sua corrida, no seu galope. Ali o jabuti andava no seu passo, despreocupado, manso, sabendo ao certo em que pedras pisava, que caminho transpunha. Só a seca de 1904 arrancara o Capitão de sua rotina. Outras, secas ferozes, outras desgraças tinham obrigado os Vieiras a caminhadas por terras que não eram as suas. Quem quisesse encontrar uma casa, uma terra amada pelos seus donos, não fosse ao Araticum. Povo e terra viviam ali há um século numa intimidade profunda. Mas sem se quererem, inimigos íntimos. O povo maltratando, a terra dando, sofrendo. Um pé de roseira, uma árvore nunca plantaram ali para se amar, se estimar. A casa do velho Bentão perdera a brancura de sua mocidade, era escura e suja, com um reboco de barro vermelho aparecendo. A calçada, torta, fora de nível, como se tivesse sido feita de brincadeira. Havia ainda pelas cornijas uns restos de tinta encarnada que a chuva e o sol não haviam conseguido extinguir. O telheiro era que no meio do negro apresentava aqui e acolá o vermelho de telha nova. Por dentro era a mesma pobreza, parecendo miséria. Os bancos e os tamboretes da sala de jantar, com a mesa grande de pinho, um sofá de palhinha furada, umas cadeiras de amarelo na sala de visitas e quartos vazios com as redes desarmadas, pendidas no canto dos armadores. Muitos quartos e a cozinha com o fogão de lenha e o pilão para o lado, o negrume das paredes e do telheiro donde pendiam picumãs e cascas de laranja secas. Em cima da mesa de jantar, dependurado do telheiro, estava o jirau carregado de queijo, de farinha de milho. As lamparinas de azeite de carrapato com pavios de fora, espalhadas pelos quatro cantos da, casa. E pelas biqueiras, a terra comida pela erosão. E a casinha dos bodes e dos carneiros fedendo, a estrebaria dos cavalos pegada à casa e um pé de juá, por onde as galinhas subiam para dormir. Era assim a casa-grande do Araticum. Devia ser assim cem anos atrás. Não seria o velho Bentão que a viesse modificar, dar-lhe formas novas. Quem o visse pela primeira vez, diria o homem que ele era. Alto e magro, de barba rala, deixada ao tempo, de olhar duro de gavião, e calado, furiosamente calado, como se o uso da palavra o constrangesse. Os vizinhos não gostavam de tratar com o velho. Desde moço que parecia um velho, um doente. Nem nas trovoadas de janeiro a sua mulher e os filhos viam o chefe da família mudar de humor. O mesmo de sempre, nas secas, nas trovoadas, na miséria, na meia fartura. Um homem duro demais.
Em 1904 desceu com os seus, abandonou o Araticum, quando tudo havia se acabado. As nascentes há dois meses que nem minavam e a última cabeça de gado esticara a canela. A mulher e os filhos pequenos chorando às escondidas. Amanhecera um dia com o sol doendo na vista. Preparara os dois jumentos mais fortes e saíra com o seu bando, de cara fechada, insensível às dores, ao sofrimento de sua gente. Os parentes não gostavam do velho Bentão. Todo o mundo fugia do Araticum. Ninguém passava ali para descansar de um dia de viagem, dar uma conversa, esperar que o sol baixasse, para ganhar o caminho. Cara de pau, diziam do velho, unha de fome. E toda a família do Araticum sofria a mesma fama. Só a mulher, de quando em vez, se botava para o Açu em visita ao filho que o Padre Amâncio criava. O chefe só saía de casa para vigiar o gado. Não ia a eleição, não fazia parte de júri. Naquele ôco do mundo, escondido dos homens, Bento Vieira não tinha partido, não recebia ordens de ninguém, não devia favores. Comia e vestia de seu trabalho tacanho. Também todo o seu esforço só dava para isto. Desde que morrera o pai e que era dono do Araticum vivia daquele jeito. Não se sabia se era feliz ou infeliz, nem a mulher pudera espreitar no marido um desabafo, uma palavra de satisfação ou de dor. Parira, dera filhos à morte. Sofrera a seca de 1904 com Bento com a mesma cara, com as mesmas palavras duras, os mesmos gestos. Ela mesma reconhecia, media e avaliava o homem que Deus lhe dera para companheiro de seus dias. Mulher de sertanejo não tinha direito de escolher, de amar quem quisesse.
Sinhá Josefina era do mesmo sangue de seu marido. Vinha dos mesmos troncos. Desde rapaz que a fama de Bento Vieira se espalhara pelos arredores. Não fora de vaquejadas, de brincadeiras, sempre aquele homem de poucas conversas. Um dia o pai de Sinhá Josefina lhe dissera:— "Menina, o filho do compadre Aparício pediu a tua mão em casamento". E fizeram o casório. Veio viver com ele , sabendo já quem ele era. E vivia bem. Outra teria se arreliado, como fez a mulher do Capitão do Jenipapo. Ela aguentou firme. Se queixar, não podia se queixar do marido. Em muita coisa podia passar por bom. Mau não era, não andava dando nos filhos, judiando com os meninos. Isto não. O que incomodava nele era aquela secura de agreste, de pedregulho. Todo homem tinha as suas horas de agrado, de ternura para com os seus. Até aquele parente Julião Vieira, que fora ao júri mais de uma vez por crime de morte, agradava a mulher. Certa vez, quando ela ainda era solteira, passando pela casa do parente, o encontrara com um menino pequeno nos braços fazendo agrado. Bentão nunca dera este sinal de coração. O filho podia morrer de chorar na rede, que ele não se levantava para ver o que tinha. Mesmo quando ela estava parida de novo. Do seu canto ele não saía. Podia o pobrezinho ficar roxo do choro, que o pai não se dava a esse trabalho. E crescia sem ele achar graça nas besteiras dos filhos, rir-se, ficar cheio com os meninos dizendo as primeiras coisas. No começo ela sofrera com estas coisas. Depois fora se acostumando, o marido era de pedra. Passava até por doido. Uma sua irmã lhe dissera logo no começo de sua vida com Bentão:— "Fina, teu marido uma noite te estrangula. Parece que ele tem raiva do mundo".
Aos poucos porém ela foi vendo que aquilo não era ruindade dele. Nascera assim, viveria assim até à morte. Envelhecendo depressa. No segundo filho os peitos caíram. A cor se fora, a pele pegara mancha, sumira-se toda a sua beleza. Sim, sim, fora bonita. Nas festas, nas danças, todos os rapazes se botavam para ela. Não amara nenhum. Com dezesseis anos recebera ultimação do pai para se casar com o primo. Era um rapaz esquisito, sem muitas palavras. Mas gabavam a vida pacata que ele levava.
Bento Vieira fora filho único. O pai enviuvara no começo de sua vida de casado e aquele filho se criara sem mulher, entregue a uma preta velha que estava com a família desde a escravidão. Já era muito velha para saber gostar de um menino. E Bento foi assim sem mãe, sem carinho de ninguém. O pai se não era de seu feitio, pelo menos vivia sempre por fora. Diziam que ele dava por aquelas quebradas em cima do primeiro que se atre que agia para as bandas do Cariri. Ali pela Pedra Bonita o Capitão Aparício deixara fama de valentia. As terras em suas mãos viveram sempre no abandono. A casa nunca tivera um caibro novo botado pelas suas mãos. O gado era vasqueiro, umas reses minguadas. O Araticum era mesmo que não ter dono, mas ninguém lhe pusesse as mãos para derrubar uma aroeira, plantar um palminho de terra, porque o clavinote de Aparício estrondava por aquelas quebradas em cima do primeiro que se atrevesse. Fora ao júri a primeira vez por causa do Araticum. Um vizinho que tinha um vaqueiro novo e atrevido metera o pobre para os lados de Aparício. E foi o que se viu: o homem com uma descarga na cara, que deixou um rombo. Aparício abandonava a fazenda, se perdia. Dias e dias longe do filho, mas não havia quem tivesse coragem de tocar no Araticum. Respeitava-se, com ele ausente ou não, o Araticum seria sempre o mesmo. E Bento Vieira cresceu assim, como seu pai, naquele vaivém. A negra morrera com ele menino. Foi a mesma coisa. Quando Aparício teve que sair, não procurou companhia para o filho. Com doze anos de idade, viveu só, cuidou de si, como se não existisse ninguém no mundo. Aos quinze anos chegou-lhe um dia a notícia em casa. Tinham matado na feira de Dores o grande Aparício Vieira. Três cabras foram em cima dele de pistola e punhal. Dois ficaram estendidos com ele e o outro de bucho rasgado para morrer dias depois. A briga ficara falada nas redondezas. Até versos tiraram com ela. E Bento Vieira ficou com tudo que fora de seu pai. As terras e o gadinho, e sobretudo com a tradição de sua coragem, de seu valor, pesando em suas costas. Ficou solteiro muito tempo, isolado do mundo, tratando de suas reses, só no Araticum com uma mulher para lhe fazer a comida. Todo o mundo falava daquela solidão. Homem tinha que ter a sua família, a sua mulher, os seus filhos. Assim como vivia ele , era melhor que fosse para o cangaço. Mas Bento se dava bem. Vivera assim desde menino, não lhe fazia falta o contato com os seus semelhantes. Espalharam histórias a respeito dele. Falavam de ligações com o demônio. Por fim Bentão, como já era conhecido de todos, pediu moça em casamento. Quem seria a pobre que tivera esta coragem? Era Josefina, coitada, uma menina tão alegre, tão dada. E o casamento se fez. Bentão estava de roupa branca, de barba feita. O rosto comprido, os cabelos claros, os olhos azuis não lhe ficavam mal. Rapaz bonito, podia se dizer sem exagero. O pai de Josefina deu a sua festa, matou o seu peru e o harmônico tocou, as violas gemeram e as moças dançaram. Bentão e a noiva não se mexeram do seu lugar. Josefina bem desejava estar com as outras na brincadeira, mas a cara do marido não era para essas coisas. À meia-noite saíram os dois. Bentão e a mulher na garupa do seu alazão, sem acompanhamento. A mãe de Josefina chorou com as irmãs. O seu coração dizia que a filha ia sofrer. Mas o velho mandou que ela se calasse. E as violas continuaram a gemer, mesmo com os noivos distantes.
Sinhá Josefina pensava nessas coisas: tivera filhos, envelhecera, descera na seca de 1904, reduzidos a nada, voltaram para o Araticum, deram um filho ao Padre Amâncio. E a vida era a mesma para ela, como desde o princípio do seu casamento. Mudar uma natureza como a do seu marido só mesmo um milagre. No fundo ela estava conformada com a sorte. Os filhos vieram para o seu consolo. Encheram-lhe a vida de alegria, deram-lhe tudo que não lhe veio de outras bandas. Eram, quatro e estavam grandes, todos homens feitos. Bentinho nascera quando ela nem esperava mais novidade. Já estava até esquecida daquelas coisas, quando Deus lhe mandou Bentinho. Gostou mais dele que dos outros. Já estavam grandalhões, quando lhe chegaram os primeiros sinais da gravidez. Ficou radiante. Aquele seria afilhado de Nossa Senhora, seria a flor da casa. As dores do parto foram terríveis. Era o último fruto da árvore. E com que esforço ela entregou ao mundo o seu filho mais moço! Foram três dias de suores e de dores, de medo da morte. A parteira Venância já abanava a cabeça. Passara horas inteiras no tamborete furado, fazendo esforço. Por fim, nem podia mais levantar a cabeça quando sentiu que estava se aliviando. Chamou a velha com um sinal, fez toda a força que podia ainda, e Bentinho chorou nas mãos da velha Venância. E ela se sentiu mãe como nunca. Foi de uma cavilação extrema com ele . Dera-lhe leite até quando os peitos murchos secaram, como as nascentes do pé da serra, nas grandes secas. Até a última gota Bentinho bebêra. Amava este filho com uma espécie de desespero. Lembrava-se bem da seca de 1904. Iam com os outros já rapazes para o acampamento do governo. Bentinho tivera bexiga doida. Parecia um palito de magro. Teve medo que ele morresse. Foi quando chegaram no Açu. Fora ao Padre Amâncio e dera o filho para ele criar. Ela queria era que o filho ficasse ali por perto, para quando fosse da volta pegá-lo vivo, bem tratado, gordo. Bentão não quisera. Ficou danado, mas a seca de 1904 amolecia até os corações de pedra. Desceram, esperaram lá embaixo que Deus se lembrasse do povo infeliz. E nas primeiras chuvas Bentão preparou-se para voltar. Já aí tinham perdido o filho mais velho Deodato, que se fora embora com os retirantes para longe. Uma tarde chegara o filho mais velho com aquela história. O povo estava indo todo para a cidade e de lá se botava para o Amazonas, uma terra onde havia riqueza para todo o mundo. E água corrente de inverno a verão. Onde o mato nunca ficava seco. Fôra-se embora. Bentão não disse nem sim nem não. Ela chorou. Deodato era bom, tão diferente de Aparício, o segundo filho, que era brigão, estouvado. Deodato deixou-os para sempre naquela tarde. Nunca mais dera notícias, nunca mais seu filho mandara dizer coisa nenhuma. Quando soube que havia lá para as bandas da Pedra Bonita um homem que tinha voltado do Amazonas, muito cheio de riqueza, procurou-o para perguntar pelo filho, se não tinha visto Deodato por lá:— "Qual, Sinhá Fina, ninguém pode ver não. A terra é grande demais, morre muita gente". Para ela Deodato era defunto. Fora para sofrer. Tinha o filho mais moço. O Padre Amâncio falara em mandar o menino para ser padre. Seria o primeiro padre da família Vieira, o homem mais importante de toda a Pedra Bonita. Só um padre podia tirar as desgraças de cima deles. Sonhava ela com essa ventura. Aos poucos porém foi perdendo essa esperança. O Padre Amâncio muito pobre não pudera mandar Bentinho para os estudos. Mesmo assim ela se orgulhava do filho que tinha. Ele sabia mais do que todos os da Pedra Bonita. Vira-o no Açu ajudando missa, vestido nos trajes de croinha, sacudindo a campainha, suspendendo os paramentos do padre. Bentinho valia mais do que todos eles. Adorava-o nas suas noites de solidão, com o marido espichado na rede e os outros dois filhos por longe. Um deles, Domício, era dado às tocatas de viola. Todos diferentes do pai. Nenhum puxara aquela secura, aquele coração de pedra. Neste ponto Sinhá Josefina se sentia bem. Os meninos nunca lhe deram desgostos. Eles mesmos lhe diziam:— "Mãe, tu precisas de sair de casa, tomar um arejozinho por fora". Queriam levá-la à casa dos parentes. Ela porém recusava. Vivera assim com o marido sem ver gente e assim viveria até o fim. As viagens ao Açu é que lhe enchiam a vida. Davam verdor aos seus dias. Sonhava com elas dias, noites seguidas. E numa madrugada saía sozinha a pé, puxando léguas, de chinela na mão, de caatinga afora, com uma ansiedade de quem procurava uma grande coisa. Ia para o filho. Três vezes por ano, três grandes datas para ela. E fazia gosto, Bentinho era outro, de outra gente, de cara, de corpo, de um mundo que não parecia de Araticum da Pedra Bonita. Se ele tivesse ido para padre (e ela pensando nas suas viagens ao Açu, imaginando no meio da caatinga, ouvindo de quando em quando o grito lancinante das seriemas na carreira), se ele voltasse padre, em que quarto da casa do Araticum dormiria? Como um padre poderia dormir num quarto daquele, gotejando, de chão frio? Não, a casa se transformaria para receber o filho que tinha cantado a primeira missa e que era o homem maior de toda a Pedra Bonita. A madrugada na caatinga era fria. Ela parava para comer um imbu, chupar um imbu, e ouvia, naquela imensa solidão, os pássaros cantando. O rompante do espanta-boiada, com um grito de gente. Nunca tivera medo de andar sozinha. Os filhos falavam. Que iria ela fazer assim no Açu sem uma companhia? Mas ela queria era ir sozinha, não levar ninguém da Pedra Bonita para lá. Não queria que o filho tivesse vergonha dos irmãos, do pai. Sentia que aquilo era um mal, que aquilo era errado. Mas não queria que ele visse os seus, tivesse vergonha dos seus. E voltava sempre do Açu animada de uma grande esperança. Bentinho seria um homem à parte, no meio de sua família. Comparava-o com os outros irmãos. Via Deodato como morto, mas tinha os outros dois. Aparício forte, alegre, cheio de vontade, falando de brigas, com armas no quarto, experimentando pontaria nos pés de paus. Via Domício tocador de viola, sempre de festa em vista, do tamanho do pai, respeitado nas vaquejadas. Eles dois nunca lhe deram aperreio. Deus a livrasse de ver um filho com a tropa atrás dele, com processo, precisando de proteção de gente de fora. Mas a grande esperança da sua vida estava no Açu, aprendendo com o Padre Amâncio. O marido fora buscá-lo uma vez. Voltara e não lhe dissera uma palavra. Nunca Bentão lhe falara mais no moço ausente. De Deodato uma vez ou outra se lembrava para se queixar. Só ele era quem sabia tratar das abelhas. Todas as ocasiões em que tirava mel dos cortiços, lá vinha o velho com Deodato. Ele era quem sabia tratar daquilo. Os cortiços estavam desaparecendo, com as abelhas fugindo para outras partes. Deodato sabia, de segredos, tinha a mão boa para as bichinhas.
De Antônio Bento o velho não tinha de que falar. Saíra ele menino com cinco anos e parecia uma criança de três, de tão definhada. A princípio tocara na mulher a respeito disso. Um filho dele estava vivendo às custas de um estranho. Montou o cavalo e procurou o Padre Amâncio. O padre lhe dissera tanta coisa, que voltara sem o menino e se esquecera para sempre do filho. O Araticum viveria sem ele muito bem. Eram dois os perdidos: Deodato e Bentinho. Este era mais dos outros, da gente de baixo, do povo inimigo.
Havia por aquelas bandas um ódio extremado. Estava dentro da terra, dos corações, dos matos, nas pedras. Vinham gerações sobre gerações, mas ia ficando o ódio, o povo do Açu não valia nada para eles. Faziam feira em Dores, andavam mais duas léguas para ouvir missa de festa e comprar e vender. Por isto mais de longe ainda o velho Bentão via o seu filho mais moço. Quando desceram em 1904, a fome não lhe dera coragem de contrariar a mulher. Também pensara que o menino se acabasse, morresse. Voltando para o Araticum, quis trazê-lo para junto de si. A mulher metera na cabeça deixá-lo com o padre. E que ele ficasse por lá mesmo. Os dois filhos estavam dando conta de tudo como podiam dar.
Aparício tinha muito do avô; o outro, da gente da mãe. O sogro de Bentão tivera cantadores na família e não era demais que viesse um neto com aquele gosto estragado. O que para ele valia um homem abrindo a boca no mundo para cantar, vivendo de viola na mão como um leso? Bentão no começo brigou com o filho. Não queria aquela quizília dentro de casa. Depois foi deixando. Era curioso como o duro Capitão se deixava levar pela vontade dos meninos. Aparício e Domício andavam por onde queriam, fazendo o que bem quisessem. E o pai não brigava. Era o mesmo, sem uma palavra. A mulher que olhasse para eles. Quem os parira fora ela. Dessem eles conta do serviço e tudo estava muito bom. Aparício cavasse a terra, limpasse o mato do roçado. Domício conduzisse o gado, curasse as bicheiras, cortasse as ramas para a ração, e o mais que corresse ao deus-dará. Muitas vezes a mulher brigava, censurava. Pedia para ele agir contra os filhos: "Bento, tu precisas ver a vida desses meninos. Domício não sai da viola. Aparício dormiu a noite fora de casa". E o velho com a cara que estava, ficava. Fizessem o serviço, dessem uma ajuda no Araticum e tudo podia ir conforme os ventos.
O córrego passava no fundo da casa. Mais para baixo se desviava de umas pedreiras e se espalhava procurando caminho. Os pés de oiticica faziam um bosque de encher a vista, com as suas copas arredondadas. O riacho descia, beijando a raiz das árvores. Nas grandes secas, tudo secava, a areia branca do leito espelhava ao sol. As oiticicas resistiam aos anos mais cruéis, dispunham de forças como os juazeiros, os catolés, os cardeiros, as aroeiras da serra. Muitas vezes os cargueiros de aguardente vinham pedir ao Capitão ordem para descansarem por ali. Armavam rede por debaixo das oiticicas, faziam fogo, a carne ardia no espeto e às vezes ficavam até de madrugada. Fora com eles que Domício aprendera os toques e os versos que sabia. As oiticicas do Araticum ficaram um pouso certo dos cargueiros, dos viajantes de longos caminhos. Nada pediam à casa-grande. Só queriam mesmo as sombras das árvores e a água doce do riacho, que era por aquelas bandas um presente de Deus. Quando a ventania era forte, vergava os galhos espalhados das oiticicas. O rumor de suas folhas sacudidas chegava até longe. O velho Bentão se zangava com os aguardenteiros. Aquilo era uma gente sem terra e sem família, uns estradeiros. Mas nunca negara um pouso. Havia porém um dos chefes deles que era conhecido do Capitão. Este vinha, com a cartucheira atravessada, contar coisas que sabia ao pessoal da casa-grande. Comia na mesa com o velho. Ele tinha sido conhecido do antigo Aparício. Quase menino, numa luta, levara uma bala numa emboscada com o pai do Capitão. Era baixo, de barbas brancas, de alpercatas com brochas douradas. Era só esta a única visita que Bento Vieira recebia no Araticum. Nem os parentes vinham ali. Só o velho, que em menino conhecera o velho Aparício. O Capitão conversava com ele .
No Araticum a vida era sempre assim. A seca de 1904 secara as águas do pé da serra, secara a terra inteira, e eles desceram para as terras dos outros. Um filho se fora para longe e o outro ficara no Açu, dado ao Padre Amâncio. A velha Josefina tinha esperanças. Para Bentão a terra não seria para dela se tirar riquezas, cultivar, crescer, ficar mais rico que os outros. O pai lhe deixara o Araticum como estava, como estava ele o deixaria para os filhos.
Muitas vezes, esticado na rede do copiar, o velho ouvia o aboio de Domício, o latido do cachorro ou a pancada da foice nas cabreiras e nos xiquexiques. Ouvia a terra e a gente falando para os seus ouvidos, de coisas que só ele entendia. A mulher lá para dentro mexia nas tigelas e pisava milho. Aquilo era o Araticum. As abelhas saíam para o campo atrás de material para as mestras. Soprava um vento que chega sacudia as franjas da rede. Aquilo era o Araticum, a sua terra, a terra que Aparício recebera dos velhos, dos antigos Vieiras da Pedra Bonita. Outro que se cansasse na engorda do gado, que dormisse pensando com a fartura dos cereais. Queria só o que desse para comer e vestir. E o mais que a seca comesse, que a chuva levasse. Se não fosse aquele filho na casa do padre e o outro perdido por longe, e outro que sabia tratar das abelhas, ali no Araticum, tudo estaria bem para ele . Descera com fome na seca de 1904 e fora atrás do pedido da mulher. Um filho dele, dos Vieiras, servindo de criado no Açu. Melhor que tivesse morrido na câmara de sangue, que os bichos o tivessem comido na estrada. O velho Bentão balançava-se na rede que a mulher fizera, sentindo-se dono, senhor do Araticum, que tinha água corrente naquele sertão infeliz.