Pedra Bonita
"Pedra Bonita"
É verdade que algumas indicações esparsas fixam o cenário na própria região do "Ciclo da Cana-de-Açúcar"—mas as personagens e os costumes observados nada acrescentam ao mundo já descrito, antes nos desorientam pelo estreitamento da perspectiva.
Não sei se a outros leitores terá ocorrido, como a mim, procurar em obras de outras literaturas um protótipo para este romance, coisa que não me viera à idéia em relação a nenhum outro livro de José Lins; se assim fosse, seria uma prova da sua autenticidade menor. Há alusões a Thomas Hardy (como já havia em Banguê ), o que pode corresponder a uma concepção igualmente pessimista da vida; mas, quanto aos dados do problema romanesco, eles recordam O Imoralista, de Gide, obra-prima de impiedosa aridez.
"Pedra Bonita"
Nos seis romances examinados até agora dois fenômenos sociais característicos do Nordeste, o cangaço e o fanatismo, já foram objeto de vários flagrantes. Para José Lins o cangaço não era "história de Trancoso", e sim realidade vivida. Criança, no engenho do avô, assistira a duas visitas do "capitão" Antônio Silvino, que lhe deixaram marcas fundas na memória. Lembrá-las-ia em Me us Ve rde s Anos, depois de ter contado uma delas em termos quase idênticos em Me nino de Enge nho; além disso, o nome do bandido e a lembrança de suas façanhas recorrem, volta e meia, em todos os volumes do ciclo.
Tampouco lhe era desconhecido o espetáculo do fanatismo religioso. Uma das primeiras cenas chocantes que se firmaram na sua retentiva
de criança foi a passagem pela estrada de um homem carregando uma cruz e chicoteado por outro. Em sua ficção {16} descreveu o milagre do Alto da Areia, em que a sede de prodígios de um grupo de moradores, espicaçada pelo desaparecimento dos santos do velho negro Feliciano, se exacerba a ponto de provocar perturbações da ordem pública e uma intervenção enérgica das autoridades.
Desta vez ia dar o principal da sua atenção àquelas duas forças elementares e temíveis, tentando iluminar o mecanismo da sua eclosão. Os dois assuntos impunham-se-lhe tanto mais quanto eram dos temas dominantes da poesia popular, e ele estar cada vez mais empenhado em identificar a própria arte com a do povo.
"A um amigo que me perguntava por que não continuava o meu romance Pe dra Bonita"—escreve num artigo saído durante a gestação do livro—"eu lhe respondi: 'É que eu não tenho lido mais o poeta João Martins de Ataíde.' E o que tinha este poeta com o meu romance? Tinha tudo o meu romance com o poeta. Eu queria escrever a história dos Vieira, família dos cangaceiros do Nordeste, e toda a história do cangaço
está no rapsodo Ataíde. A poesia deste bardo se fez de espécie de {17} chanson de ge ste do cangaceirismo."
Não pude verificar se o romancista teve conhecimento do caso da Pedra Bonita por um dos incontáveis folhetos de histórias em versos do cantador nordestino. O fato, histórico, poderia ter-lhe chegado por outros caminhos, já que, além de assinalado numa página de Euclides da
Cunha, {18} inspirara também O Reino Encantado, romance de Araripe Júnior.
Lembremos sucintamente o fato, uma das explosões mais espantosas de fanatismo religioso observadas no Brasil, e que se deu, por
coincidência, em 1838, exatamente um século antes da publicação do romance de José Lins do Rego.{19}
Na comarca de Vila Bela, referindo-se a estranhas profecias e usando linguagem mística, o mameluco João Antônio da Silva formou uma seita numerosa, cujos aderentes foram concentrar-se junto a duas pedras gigantescas de forma descomunal, para, sob a chefia do "rei" João Ferreira, investido pelo próprio João Antônio, fundarem um reino encantado. Os súditos deste seriam admitidos ao próximo reino de Deus, contanto que se sacrificassem. Os que oferecessem a vida em holocausto, iam renascer brancos se fossem pretos, saudáveis se fossem doentes, ricos se fossem pobres. Vários fanáticos, da família Vieira, fizeram-se carrascos para acelerar o advento do Reino. O morticínio realizou-se num ambiente de exaltação demente: maridos vinham oferecer aos algozes as suas mulheres, mães traziam os seus filhinhos. Não foi poupado sequer o "rei", a quem abateram por sugestão do próprio cunhado, que foi tomar-lhe o lugar. Cinquenta e cinco pessoas estavam chacinadas no momento da chegada da tropa, mobilizada às pressas pelo comissário de Serra Talhada; outras vinte e cinco caíram no combate, que fez também vítimas entre os soldados. O iniciador do motim, João Antônio, foi caçado e morto noutro lugar.
Trinta e seis anos depois, quando da expedição organizada ao lugar da matança, ainda viviam nas proximidades algumas testemunhas do fato, salvas pela polícia à sanha dos fanáticos.
Sem dúvida o episódio encerrava elementos de horror, de fantástico, de grotesco, de suspense, em grande abundância. Mas José Lins do Rego não quis fazer romance histórico, como, aliás, adverte numa nota preliminar. Ocorrera-lhe a idéia, artisticamente fecunda, de fazer do episódio da Pedra um assunto subjacente, de pegá-lo no ato de se transformar em mito, pesadelo agourento a pairar sobre toda uma região, invocada para explicar-lhe o marasmo e a miséria.
Daí a escolha, para cenário, da vila do Açu, próxima à Pedra, solo mais que indicado para nele germinarem sementes de histeria coletiva. Os de Açu responsabilizam o povo da Pedra pela maldição que os oprime, enquanto os da Pedra escolhem para bode expiatório a família Vieira, cujo antepassado teria denunciado às autoridades as ocorrências atrozes do Reino Encantado. (O documento que citamos atribuía aos Vieiras outro crime, este real, de promotores do morticínio; mas esta segunda versão, ligada a possível sobrevivência da superstição do Reino, está mais conforme à psicologia das massas.) O velho Bento Vieira, descendente desse Judas, vive ao pé da serra do Araticum, num lugar ermo, entre a vila e a Pedra, evitado por todos, levando com a mulher e os filhos existência puramente vegetativa.
Maldição chama redenção. O Padre Amâncio, que anos antes escolhera a paróquia do Açu no fervor da sua vocação apostólica, entreviu o meio de remir a maldição da Pedra, quando, ao fugirem da seca de 1904, os Vieiras lhe confiaram o seu filho mais moço, Antônio Bento. Criado por ele , o menino deveria ser o primeiro sacerdote da Pedra.
Apesar de ter disposição para isto, Antônio Bento não poderá chegar ao sacerdócio: falta ao Padre Amâncio influência para mandá-lo ao seminário. Crescerá junto ao padrinho, desempenhando as funções de coroinha e sineiro. É ele a personagem principal da história, e através dele é que percebemos e vivemos um surto de fanatismo e de cangaço que ameaça reproduzir a catástrofe da Pedra Bonita.
Em volta de Antônio Bento, o romancista movimenta uma multidão pitoresca de personagens, individualizadas e motivadas, com sua fala e seus tiques, suas paixões e suas manias. No Açu, são D. Eufrásia, irmã do padre, e a negra Maximina, sua criada; o sacristão Laurindo e sua mulher, D. Auta; as beatas do lugar; Joca barbeiro, chefe do grupo de maldizentes reunidos sob a tamarineira da praça; o Major Cleto, da polícia; o Coronel Clarimundo e seu inimigo, o Major Evangelista, devotado aos seus pássaros e detestado pela própria filha, a histérica D. Fausta; o vendeiro Saiu, o truculento juiz Dr. Carmo, sua mulher e seu filho desordeiro, e quantos mais. No Araticum, o grupo fechado do velho Bento Vieira, desumano em sua impassibilidade, sua mulher sofredora Sinhá Josefina, seus dois filhos tão diferentes, Aparício e Domício, um brigão, outro sonhador. A caminho da Pedra, o velho caboclo Zé Pedro, decifrador de mistérios. Entre esses pontos cardeais, os transeuntes que interrompem com suas incursões a modorrenta rotina do lugar: os cangaceiros, a volante, o santo sertanejo com seu séquito de fanáticos, o cantador ambulante Dioclécio. Mas, entre todos, avulta o Padre Amâncio, comovedor em sua despretensiosa simplicidade, sua destemida fraqueza, no malogro de sua tentativa de enfrentar os malefícios do santo. A sua figura era um convite ao exagero: moldada por outro ficcionista menos preso à realidade, tomaria facilmente dimensões hagiográficas. Assim como está, em suas proporções modestas, determinadas pela origem, a formação, o ambiente, com a sua auréola terrestre e acessível, é uma das criaturas mais autênticas já saídas das mãos de um romancista brasileiro.
João Pacheco, autor de uma das análises mais lúcidas da obra de José Lins do Rego, julga que o escritor fica um pouco fora do tema, "porque a personagem central, Bentinho, por intermédio de quem mais amiúde apreende os fenômenos, não se deixa arrastar pela beatice. Se não a repele formalmente, permanece em dúvida, mais inclinado à repulsa que à adesão. Perante a beatice nunca vai além de uma visão
externa".{20}
Quer-nos parecer, porém, que é mais justo compreender o romance em termos individuais, e não coletivos; não como a crônica de um segundo motim da Pedra, e sim como o relato da educação sentimental de Antônio Bento, em quem o autor soube encarnar-se. As outras tramas do livro—entremeadas com muita perícia—, tais como a frustração do apostolado do Padre Amâncio, a animosidade entre D. Fausta e o pai, a luta de dois grupos na política municipal, a decadência definitiva dos Vieiras, absorvidos pelo fanatismo e pelo cangaço, a perseguição dos bandidos pelas volantes, existem na medida em que interferem com o destino de Antônio Bento. E de que, ainda assim, ganhem relevo extraordinário, é prova o acerto do romancista na escolha do seu herói.
Rapaz puro e bom, de uma ingenuidade que lembra a do moleque Ricardo, Antônio Bento possui a mais uma veia mística que se faz presente quando, no alto da torre, se põe a tocar o sino olhando a vila do Açu estendida a seus pés. A esses momentos de exaltação, porém, sucedem horas de desânimo, mal põe os pés em terra. Aí, sente-se rodeado de um muro de hostilidade incompreensível. Indiretas e remoques levam-no a procurar o segredo dessa inimizade, que lhe é revelado por um velho taumaturgo desequilibrado, a par do sangrento episódio da Pedra Bonita. Em permanente oscilação entre duas forças sobrenaturais—uma das quais lhe instila um sentimento de eleição mística, outra um sentimento de culpa—, Antônio Bento é confrontado sucessivamente com o poder, o sexo, a poesia, a família, o fanatismo, o cangaço. Sem qualquer esteio para se arrimar, termina como um desarvorado joguete dos acontecimentos, até que, numa encruzilhada decisiva, opte pelo caminho inseguro da aventura.
O que faz a grandeza do romance é provavelmente o desenrolar paralelo dos acontecimentos no plano íntimo e no plano físico, dentro de uma atmosfera real e outra mística, que se alternam. A vidinha mesquinha do Açu, com seus falatórios, intrigas e brigas, a monótona existência da fazenda do velho Bento Vieira, as incursões dos cangaceiros, as truculências de seus perseguidores, as reações que estas e aquelas provocam no povo sob forma de misticismo histérico, são relatadas com um realismo integral, expostas mas não explicadas.
João Pacheco reconhece que o autor soube não tratar o tema com os valores da civilização do litoral. Sem adotar por conta própria a dicotomia entre Bem e Mal no julgamento do cangaço, tàcitamente aceita a maneira de ver do próprio povo, para o qual fanatismo religioso, banditismo e perseguição oficial aos bandidos são três flagelos que se completam: "Sertanejo é assim mesmo: vem santo, vem o cangaceiro, vem a volante." É um círculo vicioso do qual não há saída, a não ser pelo progresso da civilização: mas os engenheiros vindos para assentar os trilhos da estrada de ferro são afugentados pelos cangaceiros. O ambiente de ignorância e de superstição permanece o mesmo, à espera do primeiro esquizofrênico que se arvore em messias. Pedra Bonita não é um episódio isolado, mas um sintoma recorrente.
Possivelmente a conclusão acabrunhadora que se pode tirar do romance não correspondia às convicções conscientes de José Lins do Rego sociólogo, publicista e pensador; mas estava dentro da sua visão instintiva das coisas, de um pessimismo explicável (e explicado pelo próprio escritor) por motivos temperamentais, traumas da infância, complexos de várias espécies. Fosse como fosse, ela ia receber confirmação inesperada e monstruosa. Cem anos após o episódio de Pedra Bonita, no próprio ano da publicação do romance, um continente inteiro, precisamente aquele onde a civilização atingira o auge, estava sendo transformado num imenso reino encantado, onde os incríveis acontecimentos da Pedra iam sendo reproduzidos milhares de vezes, com os mais variados requintes.
Romance psicológico, romance regional, romance social, Pe dra Bonita é, ainda, de todos os livros do autor, aquele que mais se aproxima da poesia popular. É sobretudo a ele que se refere ao definir, numa entrevista, os próprios modelos: "O jornalista procurou falar de minhas influências estrangeiras, dos mestres que haviam nutrido a minha formação cultural—eu lhe falei dos cegos cantadores da feira de Paraíba e Pernambuco... Dizia-lhe então, quando imagino os meus romances, tomo sempre como roteiro e modo de orientação o dizer as coisas como
elas me surgem na memória, com o jeito e as maneiras simples. dos cegos poetas." {21} Tal como nas histórias versejadas dos cantores populares, neste livro não se nota diferença de tom entre os trechos de narração, as falas das personagens e os seus monólogos íntimos. Para conseguir essa uniformidade o narrador se apaga, faz-nos esquecer a sua existência independente. A história parece contar-se a si mesma, ou sair da boca de um comparsa que não se diferença das demais personagens, em linguagem homogênea, com todo o colorido da fala popular, cheia de locuções saborosas e expressivas como estas: "O namoro fora para diante, mas ficara com medo da moça. Falava do pai sem quê nem mais." "O juiz andava botando as manguinhas de fora." "A judiaria da mulher com a mocinha fora tão grande que a pobre se danava por este mundo afora." "Aparecera no Açu um homem que não queria coisa nenhuma." "Menino, não queira ver cangaceiro com raiva! Dê por visto um demônio armado com rifle e punhal." "Aparício era o avô cagado e cuspido." "Havia mesmo caveira de burro por ali." "Falei para ele se casar: Procura uma mulher que te sirva, Domício. E ele nem como coisa." "Nunca vi mulher mais cheia de noves-fora."
A força do estilo está, também, na sintaxe popular, reproduzida com fidelidade, como nestes casos: "A tamarineira frondosa onde por debaixo faziam a feira." "Um rico, um poderoso, e uma mulher daquela!" "Soprava um vento que chega sacudia as franjas da rede." "Era uma reza que nunca Domício ouvira igual." "Com o padrinho morto, iria para Goiana com D. Eufrásia. Nunca que fosse, melhor a terra fria."
"Bentinho, nos devemos é voltar pra falar com o velho Zé Pedro." Mas, em tudo isso, nenhum exagero. Uma linguagem, em suma, que dá impressão perfeita de oralidade, direta e natural, sem que o autor recorra ao processo incômodo da rigorosa reprodução fonética.
Pertence à épica popular o processo de repetição. Determinadas situações suscitam a volta dos mesmos motivos numa regularidade melódica. Em seus monólogos, quer íntimos, quer assistidos de um ouvinte, as personagens voltam a recontar sempre a mesma história, a sua, como que impedidas de escapar da sua prisão íntima, confirmando de cada vez a sua trágica incomunicabilidade. Tudo isso mantém a narração
num ritmo de vaivém, de parada e repartida, de progresso retardado. Do ponto de vista do romance, Sérgio Milliet {22} via nessas repetições uma falha; mas está fora de dúvida que são elas que, em grande parte, produzem o halo de poesia primitiva que dá às obras do nosso autor o
seu encanto mágico tão inconfundível. E, como assinalou outro grande crítico de São Paulo, {23} está nelas o segredo da" musicalidade estrutural dessas obras.
Diga-se, para terminar, que a história de Antônio Bento não acaba em Pe dra Bonita. Ele reaparecerá em Cangace iros, o último romance de José Lins do Rego, onde também revivem seu irmão Domício e a figura inesquecível do cantador Dioclécio, que em cada encontro com o afilhado do Padre Amâncio reacende neste a chama da aventura e da liberdade.
Mas o que nos propusemos foi acompanhar o espantoso criador de um mundo fictício de insuperável vitalidade apenas até o final de Pe dra Bonita, sem dúvida uma etapa das mais importantes de seu caminho ascendente.
PAULO RÓNAI
A NARRATIVA DESTE ROMANCE QUASE
NADA TEM DE VER COM A GEOGRAFIA
E O FATO HISTÓRICO DESENROLADO
EM PERNAMBUCO NOS PRINCÍPIOS DO
SÉCULO XIX.
(Nota do Autor à la edição)