Pedra Bonita
O Surgir de uma Vocação
DE MENINO DE ENGENHO
A PEDRA BONITA
O SURGIR DE UMA VOCAÇÃO
José Lins do Rego lançou Pe dra Bonita em 1938, aos trinta e cinco anos. Tendo publicado, de 1932 em diante, um romance por ano, era este o seu sétimo livro. Estabelecido no Rio de Janeiro havia três anos, conquistara o ambiente literário e podia considerar-se um vitorioso; a crítica reconhecera a originalidade e o valor da sua obra; estava na plenitude de sua força criadora, de posse de um estilo todo seu, e conseguira dar uma nova fórmula ao romance.
Os primeiros cinco livros formavam o "Ciclo da Cana-de-Açúcar", que o romancista dera por concluído com Usina (não prevendo ainda Fogo Morto, com que o arremataria anos depois); o sexto, Pure za, embora, de certo ponto de vista, representasse uma tentativa de renovação, ainda refletia os mesmos tipos e a mesma paisagem do Nordeste. Pe dra Bonita enquadra-se também nessa unidade ambiental e temática. Nela o escritor acrescenta ao seu universo particular a dimensão que ainda faltava.
A própria regularidade com que José Lins do Rego produzira os seus volumes era um sintoma da sua força pletórica, da impaciência de um talento pujante que, encontrada de repente a forma da sua expressão, vai lançando de si os guardados de seus anos fecundos. "Se não escreveu antes o seu primeiro romance, foi unicamente à falta de tempo; o tempo dava apenas para ele viver puramente. Um dia, porém, aos trinta anos, sentindo que a vida que vivia já tinha menos interesse e menos gosto de vida que a outra, a que ele viveu na infância e na adolescência—não teve dúvida, voltou-se naturalmente para o passado, renovando-o não em forma de sonho, mas na forma de uma realidade mais sensível e mais
real." {1} Era uma erupção torrencial que saía de um jato, quase que uma força estranha encarnando-se no escritor e servindo-se dele como veículo. O aspecto material de seus manuscritos confirma essa impressão. Tive em mão o original de Usina, um de seus romances mais volumosos e mais complexos. Dir-se-ia uma mensagem grafada em transe. Centenas de páginas atulhadas de uma letra miúda, sem parágrafos nem interrupções, quase sem emendas, visivelmente escritas de um fôlego. Conta-se que, ao ditar ao dactilógrafo esse magma, às vezes José Lins estacava, ele próprio incapaz de decifrar palavras e frases daquilo que escrevera como que sob o ditado de outro, e acabava substituindo-as.
Cabe registrar aqui o depoimento de um amigo que conheceu José Lins do Rego em Maceió na fase anterior à dos. romances, quando fazia artigos para o Jornal de Alagoas. Certa vez ele lhe anunciou que ia escrever "uma espécie de memória", e interrompeu por vinte e cinco dias a sua atividade de jornalista para entregar-se de corpo e alma ao livro. "E o que fez com Me nino de Enge nho—esse afastamento temporário do jornal—repetiu com Doidinho e os demais livros. Ele era um que não podia misturar as duas coisas—jornal e ficção: quando
engravidava de um livro era só do que cuidava." {2} O processo é característico de quem, de súbito, topa com a própria vocação.
A atração da letra de fôrma sobre José Lins do Rego datava de seus tempos de estudante, mas todos, inclusive ele mesmo, viam nele um futuro crítico. O seu destino literário, porém, não era aquele. Se nem sempre é fácil apontar o que leva um artista genial, ainda que à sua revelia, a encontrar o caminho do seu talento, no caso de José Lins do Rego o impulso é óbvio: foi o encontro com Gilberto Freyre.
A importância desse encontro é apontada pelo próprio José Lins num depoimento repassado de comovida gratidão, em termos como raramente um escritor usou em relação a outro: "Conheci Gilberto Freyre em 1923. Foi numa tarde de Recife, do nosso querido Recife, que nos encontramos, e de lá para cá a minha vida foi outra, foram outras as minhas preocupações, outros os meus planos, as minhas leituras, os meus entusiasmos. Pode parecer um romance, mas é tudo da realidade." E mais adiante: "Começou uma vida a agir sobre outra com tamanha intensidade, com tal força de compreensão, que eu me vi, sem saber, dissolvido, sem personalidade, tudo pensando por ele , tudo resolvendo, tudo
construindo como ele fazia." {3}
Essa ligação decisiva já durava três anos, quando, em 1926, se realizou no Recife, por iniciativa do próprio Gilberto, o Primeiro Congresso de Regionalismo. Foi então que o futuro autor de Casa-Grande & Se nzala leu o Manife sto Re gionalista, onde convocava intelectuais e artistas do Nordeste a tentarem exprimir conscientemente, sem separatismo nem bairrismo, os valores e tradições peculiares à sua terra. Todos teriam a sua parcela nesse trabalho: arquitetos, urbanistas, decoradores, folcloristas, higienistas, nutricionistas. E os escritores não eram esquecidos. Entre os motivos que se lhes apontavam, figurava a convivência com o mundo animal.
"... é raro o menino desta parte do Brasil que, mesmo sem ter sido rico, não chegou a ser dono de um carneirinho manso que fosse seu primeiro cavalo. Que fosse para ele não só o que é para os meninos de hoje o velocípede ou a bicicleta, porém mais alguma coisa: quase pessoa, quase gente, quase malungo. Uma quase pessoa digna de aparecer em romances, em poemas, em contos, em teatro, em que se dramatizasse a vida da região, em que se evocassem as aventuras da infância regional... Pedro Paranhos, senhor de Japaranduba, este ainda se recorda do carneirinho gordo que recebeu de presente quando fez sete anos. Em sua companhia fui ver um dia os galos de briga do Coronel Frederico Lundgren; e ouvi os dois coronéis conversarem sobre galos e cavalos, carneiros e aves, regionais, como se conversassem sobre
gente. Onde o O. Henry que encontre aí a matéria ideal —que há—para contos?" {4}
O bacharel e jornalista ali presente, José Lins do Rego, gravaria na memória, talvez inconscientemente, o convite e o contexto. E quando, alguns anos depois, sob o impulso de uma força inexplicável, se pusesse a escrever o livro de que ainda não sabia se seria de memórias ou de ficção, nele apareceria um desses carneiros de montaria: "Via chegar ao engenho os meninos do Zé Medeiros, do Pilar, cada um no seu carneiro arreado, esquipando pela estrada. E uma grande inveja enchia o meu coração... e de tanto pedir eu entrara na posse do objeto