Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 9 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 3

 

ANTÔNIO BENTO não gostava de D. Eufrásia. Aquela voz dura, aquele jeito de mandar, aquele ar superior não lhe inspiravam simpatia de espécie nenhuma. Quando ela chegava na casa do padre, ele sabia que tudo ia piorar. Por isso quando o Padre Amâncio saía em viagem e o sacristão Laurindo não podia acompanhá-lo, para Bento era um céu aberto. Ir a uma fazenda para um casamento, para um batizado, para uma missa, era para ele um gozo de férias. Ficasse D. Eufrásia com as suas impertinências com a negra Maximina. Ele saía com o seu padrinho de estrada afora, rompendo a caatinga, subindo serra, com o coração batendo de alegria.

Naquela madrugada estavam de viagem marcada para a fazenda do Coronel Raimundo de Natuba. Viera um pedido para o Padre Amâncio celebrar uma missa na capela de lá.

Estavam prontos para a partida. Maximina preparara o café para ele , e o Padre Amâncio esperava-o pronto na porta. Deviam chegar em Natuba às dez horas da manhã. O frio da madrugada era bom. O Padre Amâncio na frente e ele atrás, rompendo o caminho apertado de mata. De longe em longe uma casa perdida, uma pobre casa isolada do mundo, no meio da caatinga espessa de imburanas verdes, de xiquexiques sangrando pelas suas flores. O caminhar do sertão era aquele, monótono, tudo igual, tudo uniforme na desolação. As pedras estalavam nos cascos dos cavalos, e Antônio Bento, com o padrinho, sozinhos naquele mundo enorme, dava para pensar, para ligar idéias, julgar as coisas, as mulheres, os homens. Tinha dezoito anos, era magro, franzino, de um povo infeliz. No Açu, quando falavam da Pedra Bonita, a conversa mudava de assunto. E a gente da Pedra Bonita preferia andar mais duas léguas até Dores a ir ao Açu fazer compras ou ouvir missa. Ele quase que não se lembrava de sua gente. A mãe às vezes vinha vê-lo, dormia na casa do padre, conversava muito com o seu padrinho. Mas ninguém de sua família aparecia por lá. Uma vez o seu pai chegou na casa do padre para levá-lo, dizendo que o menino estava dando trabalho. Fora a mulher que se lembrara de trazê-lo. Eles agora podiam tratar da criação. Mas o Padre Amâncio pediu, fazia-lhe falta, já gostava dele. Certa ocasião o padrinho falou-lhe de sua vida. Isto já fazia muito tempo. Dissera-lhe então que o gosto da mãe dele Bento era para que fosse-padre. Ele mesmo pensara muito, mas os recursos não permitiram. Falara ao reitor do Seminário. As vagas para os meninos pobres estavam encerradas. O seu destino era aquele. Se as coisas tivessem corrido ao contrário, estaria hoje de batina, perto de se ordenar. No fundo Antônio Bento não sentia muito o fracasso. A mãe sem dúvida que fizera os seus planos com ele de coroa aberta, abrindo os braços no altar, e teria sofrido com o seu insucesso. Ele, não. Via o que era a vida do Padre Amâncio. Velho antes do tempo. A vida de um pobre, as privações de um qualquer. Melhor ficar como estava.

O cavalo do Padre Amâncio puxava no baixo maneiro, e agora ia aparecendo gente que tirava o chapéu. Os meninos e as mulheres estiravam a mão pedindo a bênção ao vigário. E olhavam para Antônio Bento com olhos compridos. O croinha sentia o seu pedaço de orgulho. Era um homem. Fazia a figura de sacristão com aquela bolsa atravessada nas costas, levando com ele a caixa de hóstias, os santos óleos, o sal, o vinho, as coisas sagradas, as maiores coisas do mundo. O sol se espalhava pela caatinga com, furor. Podiam ser seis horas, e aquele queimar de sol parecia de meio-dia. Com pouco estariam na fazenda. De longe foram vendo a casa-grande, a capelinha e o verde da vegetação do pomar, dando vida à secura dos arredores. Naquele pé de serra não faltava água. Nas secas mais duras nunca secara o ôlho-d'água de Natuba. Podia o sertão arder, os leitos dos rios espelharem com pedras ao sol, mas ali no pé da serra de Natuba minava água. Um fio d'água que dava para matar a sede do gado, do povo dos arredores. Por esses tempos o Coronel Raimundo verificava a riqueza da sua fazenda. Perdia gado, porque em tempo de seca tudo de ruim podia acontecer. Mas não lhe cortava o coração o urro de uma rês morrendo de sede, de pescoço caído, de quarto bambo, arriando com o vento, como folha seca de mato.

Sempre que ia com o padrinho a Natuba, Antônio Bento se regalava com a riqueza da propriedade que via. Havia vapor de descaroçar algodão. A casa de morada não parecia com as das outras fazendas, pobres moradas de infelizes, pouca diferença fazendo das casas dos mais pobres do sertão. A residência de Natuba era toda atijolada, toda pintada por dentro, com cadeiras de palhinha na sala de visitas, com sofá grande, mesa de atoalhado na sala de jantar. Ele via o que eram as outras casas, a pobreza dos trastes. Ali pelo Açu nunca fora em fazenda nenhuma como aquela do Coronel Raimundo. Também a fama de Natuba se espalhava. Naquele dia o Coronel mandara chamar o Padre Amâncio para o batizado de um neto e aproveitava-o para dizer uma missa para a família e o povo da fazenda. A capelinha estava cheia. Um zunzum chegava até à sacristia humilde, onde o Padre Amâncio tirava da bolsa os paramentos para o ofício. E a missa começou com o carão do padre no povo, pedindo silêncio. O pessoal da família quase que junto do celebrante. E ele , Antônio Bento, sentindo-se um grande homem nas respostas que dava, nos gestos que fazia. As mulheres rezavam batendo com o beiço. Ele tocava a campainha com força e o sino da capela respondia com o som fino como uma voz de menino. Depois foi o batizado do neto do Coronel. E havia para mais de vinte meninos pagãos esperando que aparecesse por ali um padre. Foram até tarde nos trabalhos. A mesa posta estava esperando pelo padre. Antônio Bento sentou-se com o padrinho para um banquete. A toalha branca espelhava na alvura do linho. As terrinas fumaçavam com a galinha e arroz. Até vinho botaram no seu copo. Negras serviam a mesa, mas era a dona da casa que fazia os pratos do padre. Havia um bolo sem coco, especial para o vigário. E o Coronel conversava dando notícias de tudo, dos negócios, do preço do algodão, do inverno que tardava. O Padre Amâncio dava impressões e era escutado com respeito. Antônio Bento na mesa ali sentado como gente de primeira estava calado, de ouvido aberto a tudo. Por fim se levantaram e botaram cadeiras no alpendre. Havia uma rede armada no quarto da frente para o Padre Amâncio descansar. E o sol tinia lá por fora com toda a violência de dezembro. O céu era todo azul, mas não corria vento: tudo parado, como uma expectativa qualquer. Os convidados palestravam. O Coronel ouvia e contava histórias, enquanto o vigário pegava no sono, ressonando alto. Aí todos falaram dele. Todos eram de acordo que nunca aparecera por ali um padre como aquele, sem interesse, sem "bondade". Um sujeito que era de longe, um comprador de gado, falou na santidade do Padre Cícero, que fora aquilo mesmo que o Padre Amâncio, até que o bispo de Crato brigara com ele . Então o povo se levantara todo e hoje o Padre Cícero era um santo, fazendo até milagres. Mas o povo de Natuba queria era agradar o Padre Amâncio e os gabos foram grandes. Lá de dentro vinha o seu ressonar profunda. Pelos batentes da casa ficava a gente pobre escutando a conversa. E não demorou muito que chegasse um vaqueiro, de fala arrastada, para dar notícias ao Coronel. Não tardava uma trovoada. O céu estava dizendo com aquele paradeiro de vento. O comprador de gado era da mesma opinião. Aquela chuva não demorava. E de fato, quando foi à tardinha, o céu escureceu para o lado do norte e estrondou um trovão. No começo seco como se viesse de muito longe. O segundo veio se aproximando mais. E por fim estrondou violentamente. As mulheres correram para dentro do quarto, acendendo velas no santuário. E parecia que o céu vinha se quebrando na cumeeira da casa da fazenda. A chuva começou a pingar compassada, pingo grosso sobre pingo. E depois desencadeada como se as portas do céu se tivessem aberto num rompante. O povo que estava pelos batentes ouvindo a conversa ficou como doido, debaixo d'água, ensopando-se de chuva. Os meninos se espojavam na lama como porcos. Uma imensa alegria baixava sobre a terra. O Coronel não continha a cara feliz. Estava como besta, com a neta no braço, fazendo graça com a chuva, cantando baixinho:

 

Chove, chuvinha,

Para o boizinho comer,

Para o boizinho cagar.

 

— O senhor agora tão cedo não sairá daqui, dizia o Coronel para o Vigário. Os riachos com pouco mais não dão passagem.

O Padre Amâncio queria estar no Açu no outro dia, no mais tardar. E a noite veio antes de tempo. As portas da fazenda se fecharam e só se ouvia o roncar da chuva. Aquele era o dia grande do sertanejo. O dia em que Deus sorria para eles, o dia em que Deus era pai para eles. O comprador de gado conversou, contou histórias de todos os lugares. Falou de Antônio Silvino, que fora preso em Taquaritinga. No Recife fora visitar o cangaceiro na cadeia e tivera pena do homem. Nem parecia aquele que ele vira entrando no Mogeiro, na Paraíba, com quinze cangaceiros. Estava um velho, amarelo, de bochecha grande, como de doente de sezões. Uma vez ele estava no Mogeiro, na casa do Coronel Nô Borges, com um negócio apalavrado de uns garrotes. O Mogeiro era mais ou menos assim como o Açu e com dois homens somente mandando nas coisas, o Coronel Nô e o Coronel Florentino. Esses dois homens viviam embirrados. Pois bem, Antônio Silvino foi direto à casa do Coronel Florentino para arrasar tudo que este tinha. Chegou um sujeito dizendo ao Coronel Nô. Os cabras já tinham tomado tudo que era do outro. As portas do estabelecimento estavam arrombadas com os cangaceiros mexendo nas prateleiras. Pois bem, o Coronel Nô saiu sozinho, entrou de casa adentro do seu inimigo e esbarrou com o chefe Antônio Silvino de cara. E falou duro com o bandido. Dizendo para ele parar com aquela desordem. Ele não permitia que no Mogeiro se fizesse uma coisa daquelas. Silvino quis estrebuchar. O Coronel foi em cima e o cabra então mandou parar o saque. E falou para o Coronel Nô:— "Pois, Coronel, eu pensava que fosse do seu gosto. Eu queria até fazer um agrado a Vossa Senhoria. Me disseram que o velho Florentino não fazia boa amizade com o senhor e eu vim para dar um ensino no velho. Mas o senhor é quem manda".

Silvino nesse tempo era um homem robusto, com o bigode comprido, todo bem-parecido. Nesse dia trajava de paletó de casimira e calça de brim azulão. Nunca mais se esquecera da coragem do Coronel Nô Borges. Salvara o inimigo. Porque ele podia fazer como outros que vivem por esse sertão afora, mandando cangaceiros nos inimigos. Nem era bom falar, porque ele conhecia muita gente nesse caso.

O Padre Amâncio ria-se da cavilação do comprador de gado. E o Coronel Raimundo sabia de outros que nem mandavam fazer, iam em pessoa. E a conversa foi se adiantando, até que chegou a hora de cada qual sair para seu quarto. Antônio Bento ficara no mesmo quarto com o comprador de gado. E o homem falou a noite toda. Era uma coisa que ele tinha. Não podia dormir com as primeiras chuvas: estivesse onde estivesse, quando arrebentavam as primeiras trovoadas, ficava inquieto, com uma coisa roendo, e não dormia. Sabia ele de tanta coisa. Falava de tanta gente que Antônio Bento não sentia o sono chegar. Por fim começou a falar do povo do Açu. Ele conhecia pessoa por pessoa. Perguntou pela filha do Major Evangelista. Fora conhecido dela há bem uns doze anos. Chegara até a ter namoro, mas não quisera ir para diante. A moça tinha um gênio de onça. Que moça danada de esquisita. Não gostava do pai e só queria casar fugindo de casa, para fazer raiva ao velho. Ele até não desgostava do Major. Bom sujeito, com aquela mania de passarinho e de planta. Um homem sério. Quase que era seu sogro. Conhecera D. Fausta mesmo no Açu. Ele viera em companhia de seu patrão, que era um comprador de algodão, e reparara naquela moça de janela. Isto uns doze anos atrás. Engraçara-se dela. "O namoro fora para diante, mas ficara com medo da moça. Falava do pai, sem quê nem mais. Bem que ela era bonita naquele tempo. Mas homem não devia se casar com beleza.

O companheiro de Bento conhecia muito mais gente. D. Francisca do Monte. Não era para falar mal de ninguém, mas quando ele namorava com a D. Fausta, a Chiquinha do Monte tinha um chamego danado com um caixeiro-viajante do Recife, que dava na vista. O homem, quando vinha ao Açu, se hospedava na casa da mãe da moça, e o povo todo falava daquilo. Para ele era amigação. A mãe da Chiquinha do Monte era professora pública, e por causa dessa história foi até removida para o calcanhar-de-judas. Depois morreu e a moça voltou para o Açu de crista caída, toda da igreja. Nunca homem nenhum pôde se gabar de Chiquinha. Deu para barata-de-igreja. Depois o homem perguntou a Antônio Bento pela mulher do sacristão, a D. Auta, que fora uma beleza. Não se lembrava de ter visto mulher como ela. Logo que o Padre Amando chegou no Açu, moço e bonito, espalhavam a notícia do namoro dele com D. Auta. O padre era bonito e a moça não saía da sacristia. Depois o povo foi vendo que o padre não era dessas coisas. Se ele fosse como o Padre Ramalho do Ingá, a coisa era outra. O vigário, não. Era um santo. Pois mesmo assim D. Auta passou por burra de padre muito tempo. Ele estava no Camaru quando o médico de lá foi chamado a toda pressa para o Açu. A mulher do sacristão estava com o filho atravessado há dois dias. E não havia parteira que desse jeito. O doutor chegou em tempo de salvar. Mas a D. Auta ficou aleijada. O Açu era uma terra infeliz. Ele não se casaria com moça de lá por preço nenhum. Quando se lembrava que quase se tinha amarrado com a filha do Major, ficava até com medo. Aquele era o lugar mais caipora que conhecia. Havia no sertão de Pernambuco terras mais secas, mas a desgraça do Açu era outra. Até nem era bom falar. O diabo perdera as esporas por aquelas bandas. Era o sangue dos meninos da Pedra Bonita.

Aí Antônio Bento ficou atento. Que sangue era aquele? Que história era essa da Pedra Bonita, que desde menino ouvia falar, tão por alto, com as pessoas sempre fugindo, sempre com medo de chegar ao fim. O comprador de gado parou a conversa, mexeu-se na rede. Já era muito tarde. A chuva caía de rojão, afinando e engrossando, sem parar. Os cavalos batiam com os cascos no madeirame da estrebaria. Não dormiriam também com as primeiras chuvas. O homem voltou a falar, mas ouviu o ressonar de Antônio Bento. Acendeu outra vez o cachimbo, para entreter a insônia feroz.