Pedra Bonita
Capítulo 11
PASSOU um sujeito pelo Araticum e deu a notícia a Domício: tinha aparecido um santo na Pedra Bonita. Era um homem barbado, de cajado na mão, com um cavalo branco eu fazia milagre. Já havia muita gente descendo para a Pedra. O velho Zé Pedro dizia ao povo que aquele era mesmo um enviado do Filho que há cem anos dera o sangue pelo povo.
Domício ficou alarmado. Quis selar o cavalo e ver o que se passava. Teve receio. Capaz de alguém o descobrir no meio dos romeiros e haver uma desgraça. Porque os Vieiras eram tidos como gente danada para eles. No outro dia, porém, passou povo pelo Araticum com destino à Pedra. Era uma família que morava a mais de doze léguas de distância. Já havia chegado por lá a notícia. O santo que aparecera na Pedra vinha com podêres maiores do que o Padre Cícero do Juazeiro. Vinha com força de desenterrar defunto e fazê-lo viver outra vez. O cavalo dele deitava remédio para todas as doenças. Era só se pegar no excremento do bicho, passá-lo nas feridas e bebê-lo como chá. E tudo se acabava. O povo de onde estava vindo se preparava para descer.
E nos outros dias continuava passando gente. Por debaixo das oiticicas paravam para deixar o sol esfriar. Era gente que trazia cegos, aleijados, feridentos para os milagres da Pedra. Domício foi ficando com vontade de ir com eles para ver. Misturou-se assim com os romeiros e botou-se para a Pedra Bonita.
De longe foi vendo o povão no baixio. A Pedra luzia ao sol como um espelho. Em derredor dela se juntava gente de toda espécie. Ouvia-se o barulho de longe, um falatório de uma feira gigante. Haviam armado latadas, como nas santas missões. Domício foi se chegando alarmado com o que via. O que estava ali reunido era um povo que devia ter vindo de muito longe. Uma gente desconhecida, esfarrapada. Falou logo com um grupo que se aboletara por debaixo de um imbuzeiro. Eram de Piancó. Lá tinha chegado a notícia: o santo dava riqueza, saúde. No dia do milagre grande, não haveria mais ricos nem mais pobres. Tudo ficaria igual: os Dantas de Teixeira, os Leites do Piancó, os Carneiros de Pombal. Tudo ficaria igual a eles, o milagre se daria sem ninguém perceber. Era só questão de esperar. Havia uma paralítica deitada no chão. Só podia bulir com os olhos. As pernas finas, os braços como gravetos. O pano que cobria a pobre mal dava para tapar as partes.
À tardinha o santo viria falar ao povo. Domício esperou. Estava com medo. Podia ser mentira, mas podia ser verdade. Quantas vezes não ficara pensando no sangue que corria em suas veias. E quando foi de tarde o povo foi correndo para o pé da Pedra. Então Domício viu o homem subindo para um lajedo que ficava perto da Pedra Grande. Era um homem baixo, entrançado, de barbas compridas e pretas. Estava vestido de azulão, como se fosse uma batina de padre, até aos pés. Subiu ele para o lajedo e ficou quieto olhando para um lugar distante. Parecia que não havia um povão aos seus pés. Depois levantou as duas mãos para o céu e falou. Era uma reza que nunca Domício ouvira igual. O homem chamava os espíritos e falava ao mesmo tempo de coisas da terra. Ele daria riqueza ao povo. Ele daria uma vida que era melhor do que a vida dos mais ricos da terra. Tinha vindo para a Pedra a mandado de Deus. Estava em sua casa bem descansado, quando ouviu a voz de um anjo lhe dizendo: "Sebastião, anda, anda e vai para a Pedra Bonita. Lá estarei contigo e com todos os santos". Aqui estava para conduzir o povo para Deus, para o céu.
O povo embaixo urrava. Mulheres choravam, doentes gemiam. Aí o homem se ajoelhou e foi dizendo o padre-nosso com a voz fanhosa, uma voz do outro mundo. Domício se arrepiou. Aquilo estava entrando direitinho no seu corpo. Queimava-o. Viu assombrado o homem se erguer e marchar por entre os devotos que se prostraram com a sua passagem e andar até a latada onde estava o cavalo branco. Lá parou. Falou baixo com o animal. Disse ao ouvido da besta qualquer coisa que ninguém ouviu. Alisou-lhe a cabeça, passou-lhe a mão pelo rabo, deu um bocado de capim verde para ele comer. E depois foi voltando para o lugar de onde viera. Andando como se não visse ninguém, o olhar absorto, o andar seguro, firme, e as barbas grandes até a cintura e os cabelos caindo nos ombros. E assim foi andando para a Pedra Pequena e fez um sinal para o povo, um sinal de silêncio. E se fez um silêncio imenso no meio do povo. O santo ia fazer o milagre daquela tarde. Domício tinha a impressão que nem o vento soprava nos catolèzeiros nem os pássaros e nem os bichos se mexiam no mato.
— Maria, gritou o homem, Maria dos Anjos, Deus te quer, Deus te chama.
Um silêncio imenso cobria tudo.
— Maria dos Anjos, vem, vem, mulher, que o diabo te escolheu para tentar. Vem, mulher, vem, mulher.
E quando se viu, foi um grito, um grito de um desespero maior de todos. Domício olhou para o lado donde partira aquele brado. E ia uma mulher cambaleando como uma bêbeda, tonta. O povo deixava-a passar.
— Ela era uma aleijada, disse uma mulher junto de Domício, e está andando.
— Deus do céu, disse outra, é um milagre.
O povo urrava, urrava como gado sem água para beber. Deus quisera, Deus quisera que a mulher andasse parado santo. O homem estava em pé com os braços levantados. O vento soprava-lhe nas barbas, agitava-lhe os cabelos. Embaixo, aos pés dele, gritavam os devotos. Domício ficou parado num canto. A noite vinha chegando. E o santo desceu para sua latada de palha. Iam com ele umas vinte mulheres desgrenhadas, cercando-o como uma guarda de honra.
Domício veio voltando para casa aturdido com o que vira. Vira um milagre, vira o poder de Deus descendo na terra, entrando no corpo de uma mulher aleijada, dando forças a pernas que estavam mortas. Vira um milagre. E Bentinho lhe falava em superstição, em ignorância. Qual nada! Vira um milagre. E o seu cavalo vinha à rédea solta de caatinga afora. Estava sozinho no meio do mato, ele , Domício, que tinha sangue de Judas nas veias. Era duma família que Deus castigaria na certa. De uma família que estava chegando às últimas. E o milagre do santo crescia-lhe na cabeça. E a imagem do homem fazendo o milagre criava proporções enormes para Domício. Os olhos eram vivos. Olhando para um canto só, a barba preta, os braços erguidos para o céu. Era um santo. Ele, Domício, acreditava. Por que então não voltaria e não ficava como os outros por perto dele, ajudando, feito criado, fazendo penitência? Mais para diante encontrou gente a cavalo, mulheres, meninos, velhos, que vinham para Pedra. A voz do santo chamava o povo, e Domício foi andando com a rédea solta. Um bacurau cortou asas na sua frente. E quando foi dando a volta na estrada, na direção do Araticum, ouviu um chamado:
— Domício!
Chamavam pelo seu nome e era uma voz conhecida. Parou para reconhecer e viu Aparício com o grupo.
— Donde tu vem esta hora, Domício?
O irmão contou tudo. Vira um milagre do santo. Era um santo de verdade, Aparício não pôs dúvida.
— É mesmo. A Pedra só dá disto.
E pediu notícias da mãe. Soubera que ele tinha deixado o Araticum e fora até falar com Bentinho para vir ficar com os velhos. Agora não precisava mais, porque ele tomaria conta de tudo. Domício ainda estava meio tonto com o que vira, tanto que nem dera importância ao aparecimento de Aparício. Aos poucos foi reparando, tomando conhecimento das coisas. O irmão tinha anel de brilhante no dedo, corrente de ouro. O clarão da lua era mesmo que dia. Os cabras se espichavam no chão, no descanso, e Aparício e Domício entraram na conversa:
— Aparício, tu quer saber de uma coisa? A gente está pagando mesmo. Eu até já tinha esquecido, mas a sina da gente é pagar até à última gota de sangue. Tu não te lembra disto porque estás no cangaço. Cangaceiro só tem mesmo que se lembrar é de briga. Eu é que fico em casa e vou sabendo das coisas. O santo é santo mesmo de verdade.
Aparício ouvia atento o irmão. Sempre brincara com Domício, sempre mangara daquele gosto dele pela viola, pelo cantar. Fora para o cangaço. E quando queria se lembrar de um ente querido, não era do pai, não era da mãe que se lembrava. Era de Domício.
— Nada, Domício, tu aprendeste isto e não desaprendeste, A gente não tem que ver com os outros. Tu anda é escutando demais as coisas que o povo diz. No cangaço a gente se esquece de tudo. Ontem mesmo eu dei um cerco na fazenda do Capitão Simeão do Jenipapo. O velho ainda deu uns tiros. Tu pensa que eu tive pena? Cangaceiro do bom não pode ter pena. A mulher do velho chorava como bezerro desmamado. Mas dei no bicho o ensino que prometi ao Coronel Quinca do Bebedouro. O velho deve ter ficado no sal. O Coronel Quinca pediu à gente.
Domício não disse nada. Estava defronte do irmão, que enchia o sertão de terror. E no entanto era o mesmo Aparício, não fazia diferença.
— Tu não devia fazer essas coisas, Aparício. Aonde já se viu se pegar um homem para fazer uma coisa destas a mandado?
— Tu não sabe o que é a vida de cangaço, Domício. Cangaceiro faz estas coisas para aguentar o repuxo. O Coronel manda a gente fazer essas coisas e a gente faz. Mas quando chega o dia de esconder o grupo, ele esconde.
Domício perguntou-lhe se ele sabia também da história da estrada de ferro. Vinha trem passar no Araticum.
— Tu vai atrás disto, Domício? Não faz uma semana que nós peguemos uns homens na caatinga, mesmo no pé da serra. E fizemos o diabo com eles. Eles disseram quase chorando que era da engenharia. Os cabras quiseram acabar com eles. Deixei os pobres depois de fazer medo de todo jeito. Jararaca deu até um tiro em cima de um. E o negro Aluísio marcou lugar no pescoço para furar. Quebremos os troços dos homens. E tomamos tudo que eles tinham para comer. Era comida que não acabava mais. Tinha até vinho do bom.
Domício ouviu tudo. Aparício era o mesmo. Ele precisava ir embora. Despediu-se do irmão e foi com a Pedra Bonita, o santo Sebastião e Aparício bulindo-lhe na cabeça. Em casa não pôde dormir aquela noite. Havia gente nas oiticicas. Saiu para ver quem era. Uns aguardenteiros que há tempos não passavam por lá, estavam no descanso, tocavam viola.
— Menino, isto por aqui está ficando ruim, foi lhe dizendo o chefe dos homens. Temos deixado de passar por aqui com medo dos cangaceiros. Os cabras pegaram um comboio na caatinga, na passagem para a Paraíba, e mataram até os cavalos. Tomaram dinheiro dos matutos, fizeram um estrago dos diabos.
A noite estava boa mesmo para uma tocada de viola. E o aguardenteiro começou a tocar. Domício reconheceu imediatamente, na cantoria do homem, a história que ele fizera. A coisa tinha se espalhado pelo sertão. Cantara nas feiras e aquele aguardenteiro já sabia de cor.
— Onde você aprendeu estas loa, Seu Joaquim?
— Menino, quem cantou isto pra mim foi um negro do Crato.
Domício ouviu a cantoria com orgulho. Coisa que ele cantara tinha virado canto do povo. Cantava-se no Crato, cantava-se nas feiras. Era a mãe de Aparício nos versos. Aparício, o grande da cantoria. Ficou assim embriagado com a glória. Mas em casa, na rede, voltou o milagre da Pedra Bonita a mexer com ele . Vira o milagre e uma mulher entrevada correndo para perto do santo, boinha, andando como os outros. E o povo urrando, sentindo os podêres de Deus no homem de barba grande. Este levantava as mãos para o céu e o céu lhe acudia ao chamado. Os ouvidos de Deus estavam abertos para os pedidos do santo. Fora assim com o outro que mataram na caatinga, o outro que o Vieira traíra como Judas a Nosso Senhor.
Amanheceu com uma coisa na cabeça. Bentão já estava no curral tirando leite das vacas. Domício viu a mãe na cozinha fervendo água para o café. Teve vontade de falar com ela sobre o milagre que vira. E foi ela mesma quem falou com ele :
— Domício, apareceu um santo na Pedra. Já estava tardando. Parece que eu estava adivinhando, quando deixei Bentinho longe daqui. A sina da gente é essa mesma. Ele veio para desgraçar tudo. A mãe de minha mãe contava a desgraça da Pedra, o sofrimento dos antigos com o santo que apareceu. Morreu tudo no clavinote, na faca dos soldados. Sertanejo é assim mesmo: vem santo, vem cangaceiro, vem a volante. Menino, bom é ser como teu pai, que não sabe de nada do mundo. Muitas vezes eu invejo o gênio de Bentão. Deitado na rede, e o mundo que rode à vontade.
Aí Domício contou à mãe tudo a que assistira na tarde do dia anterior. Contou do povão que gritava, que gemia, que chorava, das mulheres com cara de doidas acompanhando o santo. Ele vira o milagre. A aleijada andando com as pernas dela para perto do santo.
— Tu viste mesmo, menino?
— Vi, mãe. Vi tudo como daqui pra ali. A mulher andando para junto da pedra onde ele estava.
A velha ficou pensando um instante, olhando para o chão e com uma profunda tristeza disse para Domício:
— Não há jeito não. A gente tem mesmo é que sofrer. É força de cima.
O rosário pendia do pescoço magro, de pregas. E foi para dentro de casa. Domício tinha que levar as vacas para um pasto melhor. A mãe só pensava em Bentinho. Todo o amor dela era para o caçula, que se criara por fora de casa. Todo o desejo da velha era que este filho não fosse igual aos Vieiras do Araticum. Viera o santo esperado para destruir o resto da família. Bentinho distante não sofreria a perseguição dele. Teve raiva da mãe. Ela renegava os seus, estava contra os da sua terra. Mas foi de pouco tempo aquela raiva. A pobre sofria tanto, que ele não teve coragem de ofendê-la com o seu ódio. A mãe quisera salvar Bentinho da sorte da família. Dera-o a um padre, pusera-o junto de Deus para ver se conseguiria dar jeito a Bentinho.
As vacas iam na frente de Domício chocalhando pela estrada. E ele atrás encourado. Teria depois que dar uma corrida até o raso onde estavam os garrotes engordando, o resto do gado de Bentão. Na manhã clara, borboletas cortavam o espaço em bandos. Tudo estava bonito: o céu, a caatinga coberta de luz com as suas flores cheirando, os imbuzeiros carregados. A terra cheirava nas primeiras horas, e o canto das seriemas enchia o silêncio, como um grito de socorro. Domício não ouvia nada, não via nada. Era o milagre, era o santo, era Aparício, era Bentinho que estavam com ele . Parou para olhar as vacas, que se distanciavam sem ramo, e, como se tivesse entrado uma coisa nele, começou a aboiar. Era um gemido profundo, danado, que ia para ouvidos que estivessem longe. As vacas pararam virando a cabeça para o lado de Domício, na expectativa, sentindo a voz do chefe, do guia. E Domício continuou no aboio. De casa a mãe escutaria aquilo como se o coração do filho estivesse se partindo. Os pássaros e os bichos da caatinga parariam para ouvir. Um canto sentido de vaqueiro tinha força sobre tudo.
Naquela manhã o aboio de Domício fora o mais triste de sua vida. Devia até ter estremecido as cobras do Araticum.