Pedra Bonita
Capítulo 17
TINHA sido uma coisa horrível. O Tenente Maurício com trinta homens trucidados pelos fanáticos da Pedra. A notícia chegou no Açu por um desconhecido que passava para Dores. Ele tinha sabido da desgraça por um tangerino. Os fanáticos botaram uma emboscada na tropa. Não ficara um soldado para contar a história. Na feira de Sobrado ouviu gente contando o fato como se passara. Fora um irmão de Aparício que estava comandando o povo da Pedra. A emboscada fora obra dele. Era o beato Domício. Mais sanguinário ainda que o irmão. O povo ia atrás dele como atrás de um chefe. O santo lhe dera podêres para isto.
Aí foi que Bento se sentiu sitiado pelo ódio do Açu. Irmão de cangaceiro e de beato, os dois irmãos dele desgraçavam o sertão. E vivia na igreja. O Padre Amâncio perdera o juízo. Como podia permitir semelhante coisa? O Açu guardava em casa um monstro, um membro da família sinistra. Falava-se de Bento por toda parte. Joca Barbeiro e o escrivão Paiva agiram contra ele . O cabo do destacamento se negou, porém, a fazer o que eles queriam. Queriam que prendesse Bento, que o mandasse para o Recife.
A morte do Tenente Maurício trouxe mais pânico ainda à vila. Fugia-se do município. Os roçados de algodão, de cereais, despovoados. Quem tinha alguma coisa descia, abandonava a região. Havia clamor. Bento, quando soube do estrago na força, não acreditou que Domício estivesse com as responsabilidades. Aquilo era mais falaço, somente porque ele era irmão de Aparício. A fama de um fazia com que o outro assumisse a culpa. Não podia crer que aquela natureza que ele conhecera desse para o crime, se arrastasse para a luta com tanta crueldade. Domício cantava com tanta doçura, era tão doce na voz, tão bom, aboiava para o gado com uma tristeza tão grande. Era mentira. Só podia ser mentira. O Padre Amâncio se acabava, se reduzia. Nem forças tinha para celebrar todos os dias. O mal que o consumia devia ser medonho. Não comia. Estava magro, com a côr da barro, como se a morte já estivesse no seu corpo, aguardando somente a hora.
A notícia da morte do tenente atormentou o padre. Chamou Bento e pediu para o rapaz contar o sucedido.
— O governo agora, disse ele a Bento, vai tomar providências enérgicas. Vai ser uma calamidade.
D. Eufrásia não permitia que o irmão se preocupasse com estas coisas e chamou Bento para censurá-lo. Ele não devia ter ido contar ao Amâncio aquelas coisas. Era aquela história da Pedra que matava o irmão. O sofrimento maior dele vinha dali. Aquele povo infeliz matava o irmão de desgosto.
Depois desta reprimenda Bento saiu de casa. Só a negra Maxi-mina não se fizera de sua inimiga. Todo o mundo contra ele . Só mesmo desaparecendo de uma vez. Sua mãe o desgraçara para sempre, se lembrando em deixá-lo no Açu, fora do Araticum. Agora estaria com os seus, pagando juntos as culpas que tivessem. Ali era odiado, repelido como cachorro doente. Tudo era contra ele . A doença do padre vinha da Pedra Bonita. Todas as desgraças vinham de lá. Ele era o culpado de tudo. Devia fugir para a Pedra e ficar com o seu povo. Ao mesmo tempo não acreditava. Via no santo um louco, um pobre doido, arrastando uma raça de deserdados. Tinha a certeza que todos estavam embriagados. O sertão perdera o juízo como cem anos atrás. De outras vezes acreditava em tudo. Aí se sentia mais feliz, ligado com alguma coisa, com Domício, com sua mãe, com a população inteira que cantava benditos a Deus. Tinham virado feras. As caras que eles mostravam no dia em que estivera na Pedra com o seu padrinho, eram de monstros enfurecidos. Mataram o Tenente Maurício. Aparício se vira livre daquela perseguição. O pai e a mãe tinham sofrido o diabo a mandado do tenente. Parecia que o estava vendo, de lenço no pescoço, dando a conversa na porta do escrivão Paiva. Fora o dono do Açu, do sertão. Não respeitava coronel, prefeito, juiz. E agora estava na caatinga, no bico dos urubus. Sentiu-se feliz, com um minuto de felicidade, pensando na morte do grande inimigo. Fora Domício que fizera o serviço. Não acreditava. O irmão era a brandura em pessoa, um coração de criança. Estava sentado no oitão da igreja pensando naquelas coisas, quando viu um sujeito vindo de rua afora, com uma rede atravessada nas costas. Bento reparou bem e reconheceu Dioclécio. Viu-o parar na porta do Coronel Clarimundo e foi falar com ele . Dioclécio já estava cercado de gente. Parecia um penitente, com os cabelos mais crescidos ainda e a barba comprida. Sujo, com as roupas rasgadas, dava a impressão de que viera corrido de uma calamidade.
— Estou chegando da Pedra, foi dizendo ele . Vi coisas que nem posso contar. O povo de lá está com o juízo virado. Tem gente no rifle, tem gente que briga até de pedra. Deram um cerco no Tenente Maurício, mesmo na descida da Serra do Araticum. O tenente tinha descido com a tropa pra beber água na vertente. Quando viu, foi bala de todo lado. Nem apareceu uma alma caridosa pra enterrar os corpos. Deram de comida aos urubus.
Dioclécio pediu uma quarta de genebra, cuspiu de lado e pediu pousada para uma noite. Mais tarde Bento foi procurar o cantador no mercado. A viola estava no saco sujo e o homem falou para ele :
— Eu nem te conhecia mais, menino. Tu mudaste muito. Estive até na cadeia com o teu irmão Domício. Foi em Dores. Bicho bom na viola. Aquele, se ficasse na vida, dava mestre. Estive com ele na Pedra. Irmão de Aparício não pode ser "cantador. Irmão de cangaceiro é ofício duro. Eu, se fosse tu, ganhava o mundo. Domício, teu irmão, na Pedra virou chefe do povo. O santo faz o milagre e ele é quem manda no pessoal. Eu ainda estava lá quando sucedeu com teu pai uma danada. O velho tem um bode de estimação. Tinha até trazido o animal com ele . E vivia com o bicho entretendo a vida. Pois não é que uns romeiros quiseram matar o bode pra comer! O velho se fez na faca que foi um alvoroço. Furou gente. Ficou doido, de nem conhecer a mulher. Na Pedra vi gente que tu nem avalia. Tem ladrão, cangaceiro, tudo que é nação de gente ruim. Fui pra lá pra ver a coisa como era. Em Dores me haviam dito que o homem fazia milagres. Estive lá uma semana e não vi nenhum. Me disseram que era porque o santo estava de fastio, com nojo do mundo. Só vi o homem duas vezes. E pra falar com franqueza, não vi nada de mais. O teu irmão Domício esqueceu tudo pela coisa. Estão dizendo por aí que foi ele quem fez o serviço no Tenente Maurício. Disseram que Aparício tem ido ao santo e que o homem deu a ele uma oração que vale mais que colete de aço. O povo da Pedra está que tu nem calcula. Olha, eu nunca cantei numa feira que não viesse gente pra perto escutar. Lá na Pedra ninguém quer saber de cantorias. E só no bendito, na reza. Tem lá um cangaceiro que foi do grupo de Aparício. Um chamado de Cobra Verde. Um rapaz assim com o teu corpo. Deixou o cangaço e está com o santo. E não tira o rosário da mão.
Depois Dioclécio pegou da viola para cantar umas coisas, mas Bento não o ouvia. Era outro Bento. Tinha irmão no cangaço, irmão beato na Pedra. Era um homem infeliz, o menino a quem Dioclécio contara as suas histórias, aquela da mulher dos cabelos compridos.
Bento deixou o cantador. Era noite. Uma ou outra casa do Açu tinha luz acesa. A noite escura. A loja do Coronel Clarimundo estava aberta, e na porta do Major Cleto havia gente na conversa. Teve medo de passar por lá, de ser visto. O olhar dos outros lhe fazia mal. Todos o odiavam. Os fanáticos tinham pegado o Tenente Maurício, mesmo na terra em que ele estivera castigando os seus. Os urubus que comiam os bois mortos de Bentão tinham comido o Tenente Maurício e a força. Ele Bento devia era estar com o povo da Pedra. Mas Dioclécio não tinha visto um milagre sequer. O santo embebedara o povo com as promessas, com a felicidade de todos, com a igualdade do mundo. Podia ser como da outra vez. E o sangue dos sertanejos derramado na caatinga. E tudo ficaria na mesma desgraça. Não podia acreditar. Aí Bento sofria mais. E no seu quarto pensava então no fim de tudo. Teria que morrer. Teria que se acabar. Domício era do santo, só do santo. Ele nem tinha mais a mãe, que o punha acima de tudo. O Padre Amâncio se acabava. Maximina iria com D. Eufrásia, e o mundo vazio para ele . Não dispunha de força para pensar no mundo, que não fosse a Pedra Bonita e o Açu. O mundo era aquilo, cercado de ódio, de vingança, de sangue, de cangaço, de sofrimento. D. Fausta procurara o seu corpo, quisera-o, se pusera em cima dele. A cara dela com aquele jeito na boca nunca mais se fora da sua memória. Devia ter voltado para a mulher. O Major não morreria. As mulheres da Rua da Palha se foram. Deram risadas, mangaram dele. Domício fora a maior coisa de sua vida. Nas noites de medo, acordava-o, batia nos punhos de sua rede: "Bentinho, tu não estás ouvindo?" Era o canto da cabocla nua que o irmão ouvia, vindo dos confins para tentá-lo. Dioclécio voltara e perdera tudo para ele . O grande homem era igual aos outros. Para ele Antônio Bento não havia jeito. E o outro mundo? O que havia no outro mundo? Não acreditava e acreditava ao mesmo tempo. E Bento não dormia. Vinha com aquela ânsia há dias, sofrendo as influências mais desconcertadas. Ia para Aparício, voltava para Domício, ficava com o Padre Amâncio. Não havia lugar que lhe desse pouso. O Deus do santo visível, agindo, curando, arrebatando Domício e sua mãe. E o Deus do sacrário quieto, escondido no vinho e no pão do catecismo. Ele queria era uma força que dominasse a força de sua agonia, que enchesse o seu coração com a sua presença. Até Dioclécio não existia mais. Fôra-se na manhã do outro dia e não lhe deixara nenhuma saudade. Bento era só e odiado, cercado de ódios. Joca Barbeiro, o escrivão Paiva, o Major Cleto, todos queriam segurá-lo, mandar para o Recife o irmão de Aparício, do beato Domício, para que todos lá vissem um monstro da Pedra. Todo aquele Açu para ele merecia a sorte do Tenente Maurício. Se o povo da Pedra descesse, rolasse sobre todos, esmagasse tudo, a igreja, a casa de D. Fausta, o sobrado, a tamarineira, fizesse tudo em poeira! Tudo destruído, acabado. Só assim ele poderia liquidar aquela ânsia que não o largava. Só a morte, só morrendo, acabando com ele , destruindo-se. O Padre Amâncio quase que não saía mais da rede. Bento ia vê-lo, e de vivo ainda no seu padrinho só havia os olhos azuis. Um dia quis falar com o afilhado. E chamou-o para perto.
— Você, Antônio, vai com Eufrásia para Goiana.
Não tardaria para o seu padrinho o abraço frio da morte. E ele iria para Goiana com D. Eufrásia. Isto não. Não dissera nada para não desgostar o pobre velho. Mas o povo do Açu iria ver. Aqueles miseráveis teriam que ver o seu corpo duro, de língua de fora, enforcado, bem morto, para que todos soubessem que ele tinha se matado. Deixaria Domício. E era o que mais vinha na cabeça de Bento: as passagens da sua vida no Araticum. Lembrava-se da viagem às furnas da cabocla, com a serra verde, com as cigarras cantando. Vinham-lhe na memória as cantorias nas noites de lua. A viola gemendo e Domício cantando, sofrendo. Vinham-lhe as batidas do gado na caatinga coberta de flores, com os imbuzeiros carregados, as imburanas de cheiro cheirando da raiz à folha. Todo o Araticum era Domício. As noites de agonia, as noites da tentação da cabocla, o irmão nos seus braços como menino. Tudo isto fora a sua vida. Tudo isto se acabara para sempre. Domício era beato. Depois seria santo. Ele era assim irmão de cangaceiro e de beato, vazio de tudo que era alegria para um homem. Seria o último Vieira, cumprindo a sentença, pagando pelos outros. Com o padrinho morto, iria para Goiana com D. Eufrásia. Nunca que fosse, melhor a terra fria. Se morresse no Açu, o meteriam no caixão da caridade. Com este pensamento o corpo de Bento se retraiu todo, de nojo. Metido no caixão da caridade. Sentiu-se um imundo, sujo de todos os mortos que o caixão conduzira, com as chagas do negro que morrera caindo aos pedaços, com o fedor de todos os mortos miseráveis do Açu. O caixão da caridade dava-lhe desse modo uma impressão horripilante da morte. O Açu enterrando o irmão de Aparício e de Domício naquele caixão nojento que estava escondido no fundo da sacristia. Ele tocaria fogo, tocaria fogo no traste infeliz.
* * * * * * * * 18
AGORA era a expectativa do assalto da Pedra ao Açu. Os fanáticos destruíam as fazendas dos arredores. Passavam pela vila retirantes, famílias correndo da fúria deles. A voz do santo troava como um grito de guerra. Ele queria as donzelas para fecundá-las, meninos para serviço do sangue. Era o que diziam os fugitivos. E a fama de Domício crescendo. O irmão de Aparício dominava os romeiros. E o Açu esperando a cada hora o ataque. O Coronel Clarimundo já se mudara para o Camaru. O Major Cleto mandara a família para Dores. E o Padre Amâncio se consumindo. Bento quase que não saía mais de casa. Fazia os serviços da igreja, e no mais era no seu quarto.
A vila inteira se preparava. Havia homens armados por conta da câmara, gente no rifle. Joca Barbeiro só não prendia Bento para não desgostar o vigário, que estava à morte. E nada de chegarem as providências do governo. A morte do Tenente Maurício com a sua força não dera o resultado esperado. Aguardava-se um batalhão para destruir e liquidar os fanáticos. A igreja do Açu, com as suas duas torres enormes, não tinha força, não dava coragem ao povo. O padre morria. Deus esquecera a vila infeliz. Era um povo desgraçado, perdido para sempre. Lá um dia, porém, chegou a notícia: vinha a tropa para o Açu. Vinha até soldado de linha. E numa manhã de junho chegou a expedição militar. Umas duzentas praças às ordens do Major Nunes, muito conhecido no sertão. O famoso Major Zeca Nunes de Vila Bela. O Açu ficou coalhado de praças. Teriam que demorar na vila nos preparativos. O Major aceitava voluntários que quisessem subir com o seu pessoal. E foi um alvoroço na terra. Soldados dormindo por toda parte, enchendo o mercado, estirados pelas calçadas, com os cobertores vermelhos fazendo de cama. Chegara gente de perto, armada. Alguns fazendeiros se apresentavam com os seus cabras, prontos para a luta. A pacata vila do Açu era uma praça de guerra. Os cabras no rifle, punhal atravessado, dando de pernas. Havia fogo aceso por todos os cantos. Soldados cozinhando feijão, assando carne. Parecia uma feira de sábado, com o falatório, com as conversas. O Padre Amâncio chamou Bento para saber tudo. Queria falar com o Major Nunes. E mandaram chamar o oficial. O vigário falava como se cochichasse. O major entrou de lenço no pescoço, de alpercatas, de túnica aberta. O Padre Amâncio, estendido na rede, pediu para que ele se chegasse mais perto:
— Major, eu queria lhe pedir uma coisa. Faça o possível para evitar mortandade.
— Seu Vigário, foi dizendo ele , os homens estão armados, matando gente. O senhor viu a sorte que teve o Tenente Maurício. O govêrno me mandou para acabar com a coisa. O senhor me desculpe, mas romeiro assim junto só tem jeito na bala de rifle. É gente muito ruim, Seu Vigário.
O padre ficou calado algum tempo e depois só fez dizer:
— O senhor vá com Deus, Major.
Do seu quarto o Padre Amâncio ouvia o zunzum da soldadesca:
— Quantas praças são, Antônio?
Bento o informou de tudo. Viera gente das fazendas. Só o Coronel do Araçá mandara vinte cabras. O Açu estava cheio. O padre via a morte chegando numa hora horrível daquela, reduzido a nada, sem poder se mover, tomar uma providência que desse resultado. Era o fim de tudo.
Bento olhou para a rua cheia de soldados. Era de tardinha. Foi tocar as ave-marias e de cima da torre a impressão ainda era maior. Tocou a primeira badalada e viu os soldados se levantando, outros tirando os chapéus. Iguais aos cangaceiros. De madrugada sairiam para o cerco da Pedra Bonita. Deu a segunda badalada com mais força. Se aquele som rompesse as distâncias, furasse a caatinga e chegasse lá onde estavam os seus para prevenir ... Chegou ao fim. Desceu a torre e não havia ninguém na igreja. As beatas não tinham vindo naquela tarde. Ele viu a luz do sacrário, a lâmpada que ele enchia de azeite para iluminar o Deus que protegia os homens. O caixão estava lá no fundo da sacristia esperando por ele . Sentiu-se sujo, imundo, desgraçado. Ali dentro da igreja chegava o falatório das praças, dos homens que de madrugada marchariam para a Pedra. Aí a corneta tocou. Toque de chamada para reunir. O Major na frente da tropa dava ordens. De madrugada seguiriam. Estivessem todos prontos. Ninguém poderia beber. Ninguém podia sair da vila. Bento chegou em casa e D. Eufrásia estava preocupada. O irmão pedira para que ela mandasse chamar o padre de Dores, para ouvi-lo em confissão. D. Eufrásia queria que Bento preparasse o cavalo para de madrugada procurar o vigário de Dores.
Bento foi para o quarto. Não podia pensar nele, com tanta coisa que chegava de fora. De madrugada a tropa marcharia para o massacre do povo da Pedra. Seria o fim de tudo. O povo do Açu se vingaria. Até que afinal acabariam com a Pedra. Naquela noite não dormiu. Esteve inquieto. Cheio de apreensões. Seu padrinho pedira confessor. Via a morte a dois passos. E a tropa pronta para se jogar em cima dos fanáticos. O povo do Açu com a grande oportunidade. Há um século tinham feito a mesma coisa. No meio da caatinga pipocou o tiroteio do clavinote. Sangraram a punhal os restos dos romeiros que fugiam. Um antigo dos Vieiras ia na frente da tropa, ensinando o caminho, mostrando o esconderijo dos que tinham escapado. Fora um seu parente. Lá fora a rua estava cheia de soldados, de gente armada, de cabras mandados pelos fazendeiros de perto. Era um exército para esmagar, reduzir tudo a nada. Domício no meio dos fanáticos, sua mãe, seu pai. O padre morria. E os seus seriam esmagados. Para que então viver mais? E a noite de lua enchendo o Açu de paz. Os soldados não estariam dormindo. Iriam para a guerra. O Tenente Maurício e a sua tropa tinham ficado estendidos. Os soldados deviam estar preocupados. Ele teria que sair de madrugada e não podia dormir. Melhor seria aproveitar a lua e ganhar para Dores. E foi o que fez. Andaria o resto da noite e pela manhã cedo poderia estar no Açu com o padre que confortasse o padrinho nos últimos instantes. Bento foi preparar o cavalo. A casa no silêncio.
E foi andando de estrada afora. Há meia hora que puxava pelo caminho, que tanto conhecia. Mas de repente começou a refletir. Começou a sentir o que vinha sentindo no quarto. Ficaria só, abandonado de todos. Morto o padrinho, morto Domício, acabados os seus, o mundo seria vazio. Maximina em breve nem poderia mais com a cachaça. E ele ia chamar o padre de Dores para confessar o homem melhor, mais santo, mais sério que conhecera. Não podia ter nada de pecado para contar. Era puro de tudo. Mais em cima da caatinga Bento estremeceu com uma idéia. Se, em vez de ir a Dores, corresse à Pedra para prevenir o povo da ida da tropa? Mas assim ia faltar ao último pedido de seu padrinho, que queria um padre a quem contar os seus pecados e receber o perdão de Deus. Qual seria então o maior pecado do Padre Amâncio? Passava-lhe na cabeça a vida do padre. Vinte anos de Açu, pobre, comendo como pobre, vestindo do jeito que vestia, dando tudo que era seu. Melhor no mundo não podia existir. O Padre Amâncio não podia ter desejos ordinários. As mulheres para ele não tinham tentação, não perseguiam os seus sonhos, como fazia com ele aquela mulher de Dioclécio. Podia ser, porém, que o padrinho tivesse pecados que nunca deixara perceber. Quem poderia saber quais eram os seus pensamentos, os seus sonhos, os seus desejos? Não. Não. Não podia ser. O padre era mesmo um santo. Confessar-se então para quê? D. Eufrásia lhe dissera alarmada: "Bento, de madrugada vai a Dores chamar o padre de lá. Amâncio quer se confessar". O que podia contar de pecados um homem como ele ao vigário de Dores, um padre dado a mulheres, como todo o mundo sabia, que era rico, que tinha criação de gado? Não podia ser. Nisto foi lhe voltando a idéia anterior: correr à Pedra e avisar o pessoal da marcha da tropa. Domício podia emboscá-los, preparar uma cilada para o povo do Açu, que ia furioso para a destruição. O Tenente Maurício tinha sido comido pelos urubus do Araticum. Os bichos voavam de longe, planavam no céu, no alto do céu, depois foram baixando, baixando até que pousaram nos cadáveres e devoraram o corpo do tenente, do que lhe tinha espancado a mãe, do que tinha destruído o Araticum. O castigo de Deus não demorava. Agora vinha a tropa. Misturada com o povo do Açu para acabar com todos de uma vez. O Major Nunes espalhava os piquetes pelas caatingas, botaria gente contornando, tomaria os lajedos de perto, e quando chegasse a hora do fogo, o rifle cantava em cima do povo desprevenido. Correria gente para todo canto, os meninos chorando, as mulheres espavoridas. E a bala cantando. A Pedra ficava no baixio e a tropa atirando em cima. Morreria gente. O cerco fora dado por todos os cantos. E Bento via o sangue do seu povo cobrindo a terra. Via Domício ferido sem poder dar ordens. A mãe, Bentão, acabados. E o tiroteio sem cessar. O povo do Açu liquidando o povo da Pedra Bonita. Tinha que deixar aquilo reduzido a poeira. Os pobres estavam desprevenidos na reza, esperando o milagre grande, a hora decisiva em que todos tivessem o seu quinhão de felicidade. E de repente a matança, o tiroteio. Chorava menino, gemiam os doentes deitados no chão sem poder correr. Os aleijados, os feridentos, as meninas de pernas murchas. E a bala de rifle pipocando. Tudo aquilo doía em Bento como uma realidade imediata.
A lua clareava o caminho. A caatinga se estendia à vista de Bento como se não tivesse fim. Estava verde, pujante, naquele mês de junho. Ele teria que chegar a Dores com o raiar do dia. O padrinho morria e desejava o consolo de uma confissão, de um ajuste de contas. O Padre Amâncio queria fazer as suas contas, dizer o que devia a Deus, o que ficara restando, o que deixara de fazer. Aquilo não podia ser. Ele era um santo. Foi quando Bento chegou na encruzilhada que dava para Dores e para a Pedra Bonita. E o tiroteio voltou à sua cabeça, nítido como se ele estivesse olhando de perto. O arraial destruído, destroçado.
D. Eufrásia lhe dissera: "Bento, vai a Dores e traz o vigário de lá. Amâncio pediu confissão". E os dois caminhos na frente de Bento. Era Dores para satisfazer a última vontade de seu padrinho e era a Pedra cheia de gente, de meninos, de velhos, de mulheres, de aleijados, de toda a miséria do sertão. Num segundo na cabeça dele rodou toda a sua vida. Ouvia tudo, o padre que queria morrer de alma limpa, de corpo lavado de culpas. E o tiroteio pipocando, gemidos, dores, e o sangue do povo correndo. Aí ele esporeou o cavalo, como se o pobre fosse o culpado de todas as suas indecisões, de suas desgraças. E o animal tomou o freio no dente e desembestou na direção de Pedra Bonita. Esporeou mais, com raiva. O animal arrancou numa carreira louca pela caatinga. Mais adiante parou. O cavalo resfolegava. Bento receou que ele se afrontasse e foi tirando a cilha. A noite ia escurecendo com o desaparecimento da lua. Naquela solidão imensa via que não era nada, que nada teria mais que fazer. Mas foi lhe voltando na cabeça o tiroteio infernal. E Domício? Domício morto, o seu irmão querido, o que chorava nas noites de agonia nos seus braços. Matariam Domício, se vingariam de Aparício, nele, na mãe, no pai. Era o que o Açu queria. Joca Barbeiro e o escrivão Paiva só desejavam acabar com a Pedra, extinguir a raça da Pedra. Encilhou outra vez o cavalo. E viu o padre morto sem o outro padre para ajudá-lo a morrer. Quis assim voltar, ganhando a estrada de Dores. Seu padrinho era um santo, melhor que todos. Teria era que seguir para a Pedra Bonita. Lá estavam os restos dos Vieiras, pagando a culpa do outro. O sangue de Judas escorreria até a última gota de seus filhos. O mundo, para Bento, ficava lá atrás. A igreja do Açu, lá para trás. E estava quase na hora de tocar a primeira chamada para a missa. Naquela madrugada eles não ouviriam o sino chamando. Naquela madrugada o Major Nunes daria gritos de comando. A corneta estalaria com a tropa saindo, as cartucheiras cheias de balas, os bornais entupidos, os rifles azeitados para aniquilar a Pedra Bonita. Eles viriam pela estrada com sede de sangue. O Major a cavalo, no passo vagaroso, a tropa estalando as alpercatas na caatinga. Viriam andando, andando para cair sobre a Pedra Bonita. Gemiam os doentes, os meninos, os aleijados. E a bala cantando. Fora o pai do velho Aparício que trouxera um batalhão cem anos atrás. O santo, o Filho de Deus, morrera com uma coroa de mato verde na cabeça. Os urubus ficaram dias e dias comendo os defuntos. Agora vinha outra vez a tropa com o povo do Açu, com Joca Barbeiro, com o escrivão Paiva, com os cabras das fazendas vizinhas. Era um mundo furioso que vinha para Pedra Bonita. Um mundo de assassinos, de perversos. Ele estava ouvindo os passos das alpercatas estalando na caatinga, a marcha dos matadores. Vinham vindo para acabar com tudo.
Bento montou outra vez. Domício teria que saber de tudo. O santo teria que salvar o seu povo. Esporeou o cavalo. A madrugada avermelhava o céu. Os pássaros da caatinga começavam a cantar.
E Bento partiu a galope para Pedra Bonita.
****** F I M ******
Você terminou Pedra Bonita
José Lins do Rego
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