Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 24 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 8

 

NA verdade o Açu era outro. O Padre Amâncio começou a se inquietar. A Rua da Palha crescia. Ficava arrogante. Os soldados, na maioria, faziam de lá o seu passeio preferido. Vinham mulheres de outras terras, raparigas de centros maiores fazer o Açu. O Padre Amâncio teria que tomar providências. Sentia-se a sua preocupação. Agora não era o juiz, um Dr. Carmo. Eram soldados, desenfreados, cabras da pior espécie, que se davam ao deboche às vistas de todo o mundo. O caso de D. Fausta era um sintoma alarmante. Se não fosse o sargento, ficaria ela no seu canto, sem ter dado aquele espetáculo de depravação. Amigada, nas ventas de todo o mundo, sem nenhum respeito pelos outros. O Padre Amâncio, logo que chegou ao Açu, foi a ela. Falou da situação dela. Por que não procurava uma casa mais arredada? E viu como D. Fausta o recebera. O seu ar de debique. Fosse ele procurar o sargento e pedisse. Ela estava em sua casa, muito bem. E foi até grosseira com o velho vigário, que tantas vezes a ouvira em confissão. O padre tinha outras coisas de que devia cuidar. Ela estava em sua casa, morava com um homem de quem gostava, e o mais que se danasse. Queria agora ver era as beatas passarem pela porta dela mangando. D. Auta, D. Francisca debochando dela, inventando mentiras. O Padre Amâncio revidou. O que ele queria era que seus paroquianos andassem na decência, que ali no Açu não se repetissem casos como o dela, de uma mulher de idade que não se dava a respeito. Ele sabia cumprir o seu dever e por isso estava falando daquela forma. Pensava que ainda podia merecer alguma consideração da filha do Major Evangelista. Já que não merecia, que passassem bem. E se foi.

D. Fausta não se mudou. E às tardes, quando o sargento estava na vila, botava as cadeiras na porta, e se sentavam os dois para conversar como marido e mulher muito bem casados. As beatas que passavam para a igreja viravam o rosto para não olhar, para não ver a pouca-vergonha, o desfrute daquela mulher. D. Fausta ficou arrogante. Ameaçava:

— Deixa estar, cambucas velhas! Lourenço vai ser tenente. Vocês vão ver o que é mulher de tenente.

O Padre Amâncio sentia-se velho, acabado. Em outros tempos já teria dado o alarma. Lembrava-se da campanha contra o juiz.

Pensava nisso. Se ele se metesse a censurar o procedimento dos soldados, diriam logo: "Protetor de bandidos. O que ele quer é deixar o Açu livre da força para melhor se entender com os cabras". Estivera três meses em companhia do bispo, na visita pastoral. Era um homem fraco, infelizmente muito da política. Tomaria logo o partido das autoridades. Seria capaz de vir com penalidades para cima dele, só para dar satisfações aos poderosos. O que adiantaria à causa de Cristo o seu sacrifício? Não viria outro padre para ali. Ninguém queria o Açu, e os pobres iam ficar sem a ajuda de Deus. E a igreja entregue aos morcegos, às corujas, ao cupim. Ele bem vira o que sucedera nos três meses em que estivera por fora. Parecia de anos a sua ausência. O compadre Laurindo não tivera o mínimo cuidado com a igreja. O melhor era ir tolerando os soldados, andando com jeito. Um dia iriam embora. E o seu Açu ficaria na paz de sempre, sem esperanças, pobre vila esquecida, no fim do mundo, amada por ele , querida pelo seu vigário, o seu vigário velho. O melhor seria tolerar. E foi o que fez. Arrependeu-se até de ter procurado D. Fausta. A mulher devia estar com ódio dele. Rezaria muito pela filha do Major. No fundo era uma doente, uma pobre doente, e ele sem verificar essas coisas foi procurá-la, ser áspero com ela. Devia pedir desculpas a D. Fausta. Não fazia para não desmoralizar a religião. Era preciso que o povo não desconfiasse de afrouxamentos, da velhice dele. Amava o Açu. Era uma coisa física. Fora de lá, as coisas não lhe pareciam as mesmas. Podia ser um pecado, um grande pecado. Nem o culto, nem as igrejas, nem os homens de outras terras lhe davam a impressão do Açu. A vida era outra. Há muitos anos que dava tudo o que tinha ao Açu. E ali queria morrer. Já escolhera o seu lugar. O pedaço de terra que comeria a sua carne. Para que se meter em lutas com os soldados, aborrecer o tenente? O bispo não lhe daria razão. E ele passaria além de tudo por protetor de cangaceiros. Devia era levar, o Açu, por enquanto, como ele quisesse ir. Nada de rigidez, de querer mudar as coisas de repente. No íntimo, o Padre Amâncio sofria. Ele bem via a Rua da Palha crescendo. Casas novas, mocambos novos na Rua da Palha. O Coronel Clarimundo não se importava. A família estava morando longe e ele mesmo só estava ali por causa do descaroçador de algodão. O escrivão Paiva vivia com o tenente dentro de casa. Com uma filha moça namorando com o oficial. O juiz indiferente. Ali no Açu ele estava por pouco tempo, esperando a remoção. Se ele quisesse tomar uma providência, como padre, estaria só, seria único para agir. E seria criticado por todos. E assim o Padre Amâncio avaliava as coisas.

A negra Maximina dizia todos os dias a Bento:

— Não tarda. Qualquer dia o Padre Amâncio mete a ronca nessa pouca-vergonha.

Mas Bento compreendia a situação, vendo o perigo do momento. Calava-se para não desgostar a negra velha. E se metia no seu trabalho, fazendo agora tudo na igreja, depois da doença do sacristão Laurindo. A igreja do Açu estava toda em suas mãos. Só o Padre Amâncio podia mais do que ele . E com isto se conformava um pouco, vendo-se mais importante, mais acima do que sempre fora. Havia agora um empregado que lavava os cavalos, que cortava capim, que dava recado. Ele Antônio Bento vinha subindo, crescendo de posição. Aparício na caatinga valia muito. Andavam volantes atrás dele, os jornais falavam dos ataques de outros lugares. O seu irmão furando o sertão de lado a lado, dando o que fazer ao governo.

O Tenente Maurício ficara o centro de toda a vida do Açu. Era mais que prefeito, mais que juiz, resolvia tudo. Ficava ele na porta de casa, de lenço no pescoço, espichado na sua espreguiçadeira, dando a sua audiência e resolvendo. O escrivão Paiva tirava proveito da amizade dele. O Coronel Clarimundo entrava no declínio de seu prestígio. Já não era o faz-tudo do Açu. A autoridade do chefe da volante absorvia a sua importância. O Tenente Maurício falava mal da administração do prefeito, dizendo, para quem quisesse ouvir, que se aquilo estivesse em outras mãos, o Açu teria melhorado de vida. A filha do escrivão namorava o oficial. Diziam que ele era casado, mas que vivia separado da mulher. O fato é que a moça se tinha na conta de noiva, o pai na conta de sogro. O prestígio deste crescia. O Padre Amâncio não procurava o tenente, embora vivesse em boas relações com ele . Conhecia o vigário do que era capaz o oficial. Bento é que não era bem-visto pelo oficial. Por mais de uma vez ele fizera o rapaz parar para falar do irmão. Se não fosse o padre, ele veria o que era cadeia. E Bento procurava sempre evitar encontros com o tenente. Mas para o povo da feira o prestígio do criado do padre crescia todo dia. Era apontado. E queriam saber de notícias de Aparício. Não podia sair de casa aos domingos para correr a feira. Os matutos o chamavam para interrogar. E se admiravam, um para outro.

— Ele é irmão de Aparício. É irmão de Aparício.

E ficavam de olhos compridos olhando Bento, respeitando-o.

E assim foi Bento se sentindo alguma coisa de superior, pelo seu parentesco com o cangaceiro. O tenente passava por ele com vontade de meter-lhe o chicote, mas os matutos da feira ficavam de olhos compridos. E a fama de Aparício crescendo sempre. Dera ele um tiroteio com a força do Tenente Lucena em Água Branca. A luta demorou horas e por fim Aparício furou o cerco, atravessando o Rio S. Francisco, invadindo a Bahia. O cangaceiro seu irmão ficara falado. Era o terror das caatingas, o maior de todos os cangaceiros. Nunca mais soubera de Domício. Desde que os velhos se foram para o Araticum que não tivera notícias do irmão tristonho. E era no entretanto de quem mais se lembrava. Do irmão triste, que não tinha feição para o cangaço. Aparício devia ter mudado. Criado outra cara, outra figura. No dia em que estivera com ele na caatinga falara com tanta amargura da vida de cangaceiro, e de repente era o famoso bandido que era. Chegava a não acreditar nas façanhas de Aparício. Vira o irmão tão sem jeito de chefe lá no Araticum que se espantava da fama. Se lhe viessem dizer que Domício virara o maior cantador do sertão ele acreditava. Mas naquela crueldade do irmão mais velho não podia acreditar. Diziam que Aparício nem respeitava menino. Matava tudo, destruía tudo, como um castigo. Lera num jornal o ataque dele a um povoado em Alagoas. Parecia um diabo com podêres na terra. Aparício fizera as maiores misérias. Pobre da mulher que passara o bando inteiro, pobres dos homens amarrados, sangrados como bichos, reduzidos a pedaços, pela fúria de Aparício. Só queria ver Domício para falar com ele dessas coisas. Domício teria o que dizer, o que falar. Aparício fazendo o que fazia, só mesmo estando atuado. Com o diabo fazendo tudo por ele . Então Bento pensava sem querer na Pedra Bonita, no que dissera o velho Zé Pedro. A família Vieira tinha com ela uma desgraça escondida. Sangue de Judas, maldição de Deus andava pelos seus. Era superstição. Por mais de uma vez, sentindo-se escravo desses pensamentos, fora ver o padrinho. Contara tudo. Se abrira, e o velho só tinha aquela resposta: o povo se embriagara de superstição, de fanatismo. Mas Bento duvidava. Lembrava-se dos fatos. Um parente seu saíra da Pedra, correra léguas, rompera caatinga e fora ensinar aos soldados onde estava o Filho fazendo milagres, procurando salvar as misérias do povo. Fora um Vieira, gente de seu sangue. Domício tinha a coisa como certa. Aparício andava pelo mundo como um flagelo. Lá ficara o Araticum, com água corrente, com nascentes d'água doce, com serra verde de inverno a verão, reduzido a uma tapera. Terra maldita, terra que não botava homem para frente. Assim pensava Domício. Assim pensava o sertão. Ninguém queria um palmo de terra do velho Bentão. Por outro lado Antônio Bento se consolava com a importância que criara no Açu. Respeitavam o irmão de Aparício. Joca Barbeiro nem parecia aquele de outrora, tirando deboche com o povo da Pedra, falando do cotoco. Bento verificava que a força de Aparício se estendia da caatinga, das serras, das beiras do rio e dos lajedos até o Açu. Até entre os homens da vila, que tanto o levavam em pouca conta. Fora para eles um criado de padre, um menino enjeitado pelos retirantes da Pedra Bonita. Ninho de cobras, de gente ruim. Aparício matava, atacava cidades grandes, entrara no Sousa, cercava Cajàzeiras e invadira Mossoró. O Açu respeitava o irmão, tinha consideração pelo criado do Padre Amâncio. Ele compreendia tudo. O padre estava velho, ia se acabando aos poucos. Não fora brincadeira a vida que levara na pior vila do Estado. Dera os seus dias pelo Açu, um ôco do mundo, esquecido e desamparado de todos. E Bento se amargurava com isso. Afinal de contas se lhe morresse o padrinho, para onde iria, que rumo tomaria? Havia o Araticum. Sua mãe e Domício. Este, sim, que enchia as suas esperanças. Um dia estariam reunidos outra vez, e tudo que se fosse: fama de Aparício, o Açu, o mundo inteiro. Antes era Dioclécio com as suas histórias que lhe dava ânsias de viver, de ser outro que aquele Bento criado do padre, lavando cavalos, levando recados. Agora era Domício, o irmão triste, que tremia de noite com o chamado da cabocla nua, de cabelos soltos.

E a vida do Açu andando. D. Fausta mais arrogante, se mostrando às mulheres da terra. Ameaçava com o sargento. A primeira que se fizesse de besta, já sabia. Bento caíra nas suas iras. Em casa falava ela ao sargento do criado do padre. Era um irmão de Aparício, irmão de cangaceiro. E o sargento passou a implicar com Bento. E as coisas foram assim, até que se deu o caso entre os dois. Tudo obra de D. Fausta. O sargento mandou chamar o rapaz na cadeia para dizer que acabasse com aqueles debiques com a mulher dele. Ele andava passando na porta dela com ditos. Na primeira vez que se desse aquilo, o cipó-de-boi cantava.

Antônio Bento se alarmou, foi ao padre. O padre procurou o juiz. O juiz foi ao Tenente Maurício. E o oficial foi estar com o vigário, para lhe dizer que o sargento vinha se queixando que a mulher vivia a sofrer debiques do povo da igreja, da mulher do sacristão, das outras beatas. E que Bento passava pela porta dela fazendo pouco. O padre conversou muito com o tenente. Explicou muita coisa. E Bento ouviu a risada do oficial. Tudo tinha se resolvido da melhor maneira. D. Fausta, porém, crescendo sempre de importância, quis impedir que a D. Auta passasse pela calçada. Não passariam pela porta dela para tirar deboches. E ficava de janela na hora da missa e da bênção, esperando a passagem das beatas para se desabafar. Joca Barbeiro na conversa da tamarineira achava aquilo um absurdo. Como era que se deixava uma rapariga daquelas insultar as mulheres casadas da terra? Todos concordavam. Aquela terra era mesmo uma desgraça. Quando vinha uma melhora, era para ficar como estava. Com rapariga morando na rua grande, descompondo gente direita. Por outro lado. D. Auta vivia chorando de desgosto. O filho mais velho, Floripes, estava namorando com a filha do cabo, uma das tais que andavam de saia curta pelo Açu, mostrando as pernas. Floripes era o principal caixeiro do Coronel Clarimundo. Ia tão bem, tão aprumado, e de repente se metera com a filha do cabo. O Padre Amâncio chamou o rapaz para aconselhar. Foi tempo perdido. Ele queria mesmo. E as duas famílias ficaram inimigas. As moças diziam o diabo de D. Auta. Não passavam pela porta da mulher do sacristão. E deram para visitar D. Fausta. O Açu inteiro virado do juízo, com a estada da força. Melhorara o comércio um pouco. Os caixeiros-viajantes chegavam até lá sem medo dos cangaceiros. Mas no resto era o que se via.

O Padre Amâncio não era o mesmo. Isto todo o mundo sentia. A negra Maximina dizia todo dia para Bento:

— Toinho, o padre está mesmo outro. Tu não está vendo? No outro tempo ele teria pegado essa sem-vergonha de jeito. Hoje nem parece que é mais do Açu. Só pode ser doença, Toinho. Pode ser que com a velha aqui ele mude.

Bento andava amedrontado com o Sargento Lourenço. Nunca fizera a menor coisa. Nunca dissera nada ao passar pela porta de D. Fausta. E saíra aquela intrigalhada. Só podia ser mesmo uma invenção para sacudi-lo na cadeia. Pensou até em fugir. Mas teve medo. Se saísse do Açu às escondidas, o tenente botava soldado atrás dele, desconfiando que fosse negócio de coiteiro. O melhor seria ir aguentando a vida assim mesmo. O sacristão Laurindo deixara tudo que era da igreja com ele . E agora, com a história do filho, as enxaquecas do velho se sucediam. Era uma por semana. E Bento fazendo tudo na igreja. O Padre Amâncio acreditava mesmo que o compadre Laurindo não voltava mais ao serviço. E D. Auta falando em saírem do Açu para outro lugar. Não podia se conformar em ver o filho pegado com uma tipa daquelas. Foi quando apareceu a notícia: a força ia se mudar para Dores. Viera ordem para estacionar o destacamento lá. A princípio a notícia fez rebuliço. Joca Barbeiro e o Capitão Paiva não acreditaram. A política do escrivão se baseava na força do tenente. Saindo ele , seria o diabo. Mas o fato se confirmou. Viera ordem para a tropa seguir para Dores. Os cangaceiros estavam agindo ora na Bahia, ora em Pernambuco. A sede do Tenente Maurício devia ficar num ponto mais bem colocado. O Padre Amâncio deu graças a Deus. Não escondeu a sua alegria. Falou com Bento. A força dava segurança contra os cangaceiros, mas estava estragando o Açu.

Depois começaram os boatos. D. Fausta ia com o sargento ou ficava? Naquela tarde da notícia não houve cadeiras na calçada da filha do Major. A tropa tinha três dias para se transportar. E a Rua da Palha se consumiu de saudades. Floripes pensou em se casar às carreiras. E o Tenente Maurício na casa do escrivão, consolando a noiva. Dores estava a uma carreira do Açu. A noiva não precisava ficar com aquela cara de tanta tristeza. E o casamento? Ah! não havia dúvida, voltaria para se casar.

Para o escrivão Paiva tudo estava perdido. Ele compreendia tudo muito bem. A filha servira de isca. Dera uma filha para derrubar o Coronel Clarimundo. E por fim vinha aquilo. O Major Cleto, o delegado, que perdera a força com a autoridade militar no Açu, se regozijava. Dizia a todo o mundo que fora sempre do Coronel Clarimundo. O seu chefe sempre fora ele .

A saída da força, numa madrugada, foi triste. A corneta tocou. E o tenente a pé, na frente da tropa, com roupa que usava nas diligências, de chapéu de couro, de punhal atravessado, e os homens em traje de cangaceiros atrás. E o Açu, naquela madrugada, ficou livre do governo. Veio gente olhar D. Fausta se despedindo do sargento na frente de todos, com abraços e beijos. E se foram. Sumiram no fim da rua.

O Açu voltou ao que era. À sua força natural. O Coronel Clarimundo seria um homem mais rico, o Major Cleto começaria outra vez a prender e a soltar gente, tudo nos seus eixos.

Bento naquela madrugada tocava com mais gosto a chamada para a missa das cinco horas. Tocava com mais força, com mais confiança no bronze. Vieram as beatas para a missa. D. Auta passara feliz pela porta de D. Fausta. A tamarineira continuaria a falar mais livre, sem a pressão de uma grandeza estranha. O Açu respirava pelos seus próprios pulmões. Os grandes e os pequenos da terra eram os mesmos de antigamente.