Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 18 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 2

 

— EU bem te dizia, Josefina, o menino está perdido. Está aqui há mais de mês e não faz nada.

— Fazer o quê, Bentão? Tu querias que logo no dia que ele chegou aqui ganhasse os campos? Ele não vai ficar aqui não. O padre quando voltar, ele volta também. Tomara que ele já volte logo.

Bento tinha chegado no Araticum e andava ainda tonto com as coisas. Saíra dali com cinco anos e a sua memória não dava para ir muito longe, aos começos de sua infância. Lembrava-se de pouca coisa. Lembrava-se do banho de água fria que lhe dava sua mãe, de manhãzinha. Doía-lhe a água, como um castigo. Pouco ficara nele do Araticum. E agora estava no meio dos seus como um estranho. Não se sentia ligado à gente e às coisas. A mãe fazia cavilação com ele , fazendo dele uma criança, com mimos, com cuidados. Boa criatura. O pai, de cara fechada, sem dar uma palavra. Fora assim desde o dia em que chegara. Ninguém o estava esperando. Chegara no Araticum com o dia alto. A mãe se abraçara com ele , numa alegria imensa. Teve-o nos braços, chorando. O velho deu-lhe a mão para beijar, como se a estendesse para um filho que tivesse acordado naquele instante, seco, indiferente. Só de noite conheceu os dois irmãos e gostou deles. Aparício quis logo saber se ele trazia arma de fogo e Domício o agradou extraordinariamente. Mesmo na noite da chegada tocou para Bento ouvir a sua viola. Foram para fora de casa e Domício encheu o silêncio do Araticum de um canto triste, como de aboio. Os da casa-grande estariam dormindo, e eles dois ali por baixo das oiticicas, gozando a lua. Bento se extasiou com o irmão. Aquele daria um Dioclécio, era da mesma marca de seu amigo. Pediu para o irmão cantar. Pediu histórias, queria ouvir histórias que comovessem, que arrancassem lágrimas. Mas Domício não sabia. Aprendera pouco. O aguardenteiro não tivera tempo de lhe ensinar. Então ele falou ao irmão das coisas de Dioclécio. Domício não conhecia. Nunca ouvira falar desse cantador. Sabia que tinha havido outros, como Romano e um cego do Piancó, que era o maior de todos e que deixara fama pelo sertão. Bento sentiu que ele não conhecesse o amigo. Dioclécio para ele era o maior cantador. Sabia histórias e inventava versos de cabeça. Ninguém como ele . E contou as histórias do amigo, a surra dos cangaceiros no velho, as filhas ofendidas, o sangue correndo no chão. Contou a história da mulher do fazendeiro. Ela era bela e tinha os cabelos que vinham nos pés. E dormiu com Dioclécio, somente porque ele era cantador e tocava viola com sentimento. Domício ouvia tudo calado. Aquele seu irmão sabia de coisas, e foram dormir bem tarde da noite. Roncavam Bentão e Aparício dentro de casa. Entraram devagar, com jeito, e caíram na rede para o sono. Bento quase que não dormiu naquela noite. O Araticum era aquilo que ele via. O pai tinha cara de poucos amigos; a mãe, um anjo; e os irmãos, bem bons. Domício seria seu amigo, seria um Dioclécio para ele . Acordou de madrugada com um barulho no curral. Domício já não estava na rede e dentro de casa ouvia-se o mexido de gente acordada. Levantou-se e abriu a janela. Os pássaros cantavam e o sol vinha chegando para cima dos altos. Pulou para fora e saiu andando. Viu o pai tirando leite, e Aparício e Domício no meio do gado, fazendo outras coisas. Cantava na tigela o esguicho do leite. Fazia frio ainda. Lá para cima subia a serra verde, bem verde. E as nascentes eram para o outro lado, lá para os fundos da casa. A água brotava ali, como se viesse andando léguas e léguas por baixo da terra. Chegava no pé da serra e chorava e gemia, fria e branca, como uma bondade de Deus. Bento ficou olhando um tempão, olhando as nascentes, descendo como uma bica da serra e caindo embaixo procurando o leito para ir correndo, correndo até secar nos pedregulhos de longe, quando a seca estorricava tudo. Depois ouviu o grito da mãe chamando por ele . Tinha-se ficado feito besta olhando a água, ouvindo o cantar das cigarras que ali no sertão só se encontravam mesmo pelas serras. Encontrou o pai e os irmãos comendo de tigela na mesa. Comiam de colher o leite com farinha. A tigela de Bento esperava por ele . Comiam calados. A mãe ao lado do velho, olhando para o filho, embevecida. E quando os outros saíram, ela falou com ele . Teve pena de sua mãe. Estava velha, muito mais velha do que D. Eufrásia. Não tinha dentes, com a boca murcha, com a cara enrugada. Magrinha, de tanto trabalhar para os seus. Mas como ela se enchia de alegria falando dele! Perguntava por tudo, pelo Padre Amâncio. Quando voltaria ele para o Açu? Bento foi lhe dizendo tudo e ela esperava a resposta do filho devorando as palavras. Sentia nela uma escrava que quisesse lhe adivinhar os pensamentos. Pobre mãe! Só restava mesmo dela aquilo que ele via, aqueles últimos dias de vida. Pensou logo que ela não poderia viver muito. Quem sabe se ele não viera para o Araticum assistir à morte dela? Mas aos poucos foi se habituando. E há um mês que estava ali, e já não olhava para a mãe com aqueles pensamentos ruins. Via-a fazendo tudo na casa, na beira do fogo, batendo roupa, e viera-lhe uma confiança nas forças dela, na resistência dela. Não podia se conformar era com a secura do pai. Sabia que era assim com todos, mas não se conformava. Era a tempera dele, como diziam, a sua maneira de ser.

Apesar de tudo, Bento não se acostumava ainda com o pai. O velho não lhe dizia uma palavra. Nem uma vez, durante todo o tempo de sua estada. Falou com Domício sobre aquilo. E o outro só fez lhe dizer que o pai era assim mesmo. Só tinha mesmo coisas com os bichos. De fato, o velho Bentão tratava dos bichos como se fossem gente. Ia para o cercado de tarde tratar dos animais e passava horas e horas alisando-os, cuidando das vacas leiteiras. Criava um bode que andava por dentro de casa como gente da família. O animal só comia milho nas suas mãos. O que o velho Bentão não tivera para os filhos e a mulher, desperdiçava assim, à toa. Por mais que Domício falasse do pai, explicando-lhe o gênio, Bento não se conformava. Que diabo, eles não eram inimigos, não estavam ali na cadeia com o carcereiro tomando conta. Domício saía com ele . Já conhecia os cantos, os lugares de terra como a palma de sua mão. Conhecia tudo e agora dera para ficar em casa, cismando. Sentava-se no copiar horas seguidas, e o mundo lhe passava pela cabeça em quadros, em cenas que ele desejaria viver. Dioclécio solto tirando verso de tudo. Lá embaixo era o Açu, o povo que não gostava dele. D. Fausta aos gritos, querendo-lhe o corpo para se servir, tirar coisas dele; o Major Evangelista morrendo de vergonha; Joca Barbeiro tomando o emprego do velho. E as conversas da tamarineira. D. Francisca do Monte, D. Auta de quartos quebrados pelo ferro do médico, as duas velhas, todo o Açu lhe aparecia como adversário. Só o Padre Amâncio era seu, fazia as coisas para lhe agradar. Maximina era boa e D. Eufrásia dando gritos, mandando como se todos fossem uns negros da Costa. De tarde tinha um sino para tocar. De madrugada acordava o povo do Açu com o seu toque. À tardinha fazia os homens tirar o chapéu, as mulheres rezarem. Era ele que fazia a tristeza no Açu com as suas badaladas. Provocava saudades, recordações, medo da morte. Os homens tiravam os chapéus, e as mulheres batiam os beiços na reza. Era um instrumento de Deus, uma palha que Deus movia. Nas missas, ele e o Padre Amâncio ficavam no altar. Eles dois, e lá embaixo os outros que se ajoelhavam, que se benziam, que batiam nos peitos. Deus estava trancado naquele sacrário, fechado com chave de ouro. Ele sabia onde se guardavam as hóstias consagradas. Vinham do Recife, e o Padre Amâncio as guardava naquelas latinhas. Sabia onde se guardava o vinho, que era o sangue de Deus. Uma vez não se conteve. O diabo o tentou e bebeu do vinho que o Padre Amâncio deixara na sacristia. Sentiu um fogo queimando, o sangue de Deus nas suas entranhas queimando. À noite havia confissão, e contou o que fizera, ao seu padrinho. Não era um pecado tão grande, porque a penitência que teve não foi além das ave-marias e dos padre-nossos das outras vezes. O vinho só era sangue de Deus no instante da missa, na celebração.

Ali no Araticum Antônio Bento verificava que de fato ele valia mais que muita gente. Pelas suas mãos passavam objetos sagrados, com as suas mãos fazia coisas grandes. Há um mês que deixara o Açu e viera viver com a sua gente. E até sentia saudade de lá. Nunca que pudesse imaginar isso que estava imaginando: tinha saudades do Açu. No Araticum havia sua mãe e havia Domício. Sentia-se ligado aos irmãos. Domício era mais velho. Aparício tinha aquelas coisas, mas, no fundo, queria muito bem à velha. Deodato, o que se fora, era como se não tivesse nascido para ele . Não fazia nenhuma idéia do irmão ausente. A mãe falava, se estendia em descrever as qualidades do outro. Era ele quem tomava conta de tudo com mais cuidado que Bentão. Se tivesse Deodato ficado no Araticum, tudo teria ido para a frente. Bentão não se importava com o futuro. Não plantava um palmo a mais no roçado. O que ele fazia quando se casara era o que plantava hoje, com dois filhos homens dentro de casa. Então Antônio Bento nas suas cismas calculava a vida como se ele tivesse ido para o seminário. Seria o maior da família. O próprio pai teria que se abrandar para falar com ele . Era uma coisa que ele queria ver: pai de padre. O filho mandava nas coisas de Deus, era pessoa de Deus na terra, representante de Cristo. E o pai maior do que ele . E o filho obedecendo ao pai. Bentão, com ele padre, mudaria de fala. A mãe moraria com ele . Levaria a pobre para a sua freguesia, e o povo vinha lhe trazer presentes de ovos e de galinhas. Seria a D. Josefina, a mãe do vigário. E a casa se enchia de beatas para agradar a mãe do vigário. Quando ela passasse pelas calçadas, de fichu na cabeça, todos olhavam para ela com respeito:— "Lá vai a mãe do padre!" E seria boa para os pobres, para os miseráveis, não gritaria como D. Eufrásia. A voz de D. Josefina não se elevaria para impor medo a ninguém. Doce, terna, todos veriam na mãe dele uma protetora. Uma vez por outra chegava Bentão para visitar o filho. Daria uma rede para o velho se espichar no alpendre. E na mesa do almoço e do jantar o lugar de honra seria do velho. Conversariam. Bentão falando de suas safras, do gado que mandara vender nas feiras, do ano seco, das vacas leiteiras, dos queijos de coalho, do preço do milho. Aparício e Domício seriam rapazes muito bem casados. Ele, o Padre Bento, casaria os irmãos com as moças das melhores famílias da sua freguesia. O povo do padre não faria vergonha.

Aí um urro de boi, um cantar agudo de pássaro, o chamado da mãe tiravam Bento das cismas. E o Araticum estava a seus olhos, nas suas tardes, nas suas manhãs de todos os dias. Não era tristeza o que ele tinha. A mãe lhe perguntara uma vez. Não era tristeza. Bento não sofria, Bento cismava somente. Domício era o seu grande amigo. O velho passava os dias do mesmo modo que ele . Só de tarde e de madrugada se entregava aos bichos. O bode velho parava junto da rede do senhor e ali ficava horas seguidas deitado. Bentão acariciava a cabeça chifruda do animal, dava de comer na mão, como a filho pequeno. E o bode, de barbas grandes, se sentia um senhor do Araticum. Vivia de sala, comia do melhor. Bentão passava os dias na rede, de pernas cruzadas, olhando o tempo. A água do Araticum corria lá embaixo, não morreriam de sede. As suas vacas lhe dariam leite; a terra, o milho; as carrapateiras, o azeite para a lamparina. Tudo estaria muito bem, tudo ia admiràvelmente, se não fosse o filho mais novo chegado do Açu. Era um estranho na casa, diferente de Aparício e de Domício. Bem que ele dissera à mulher que não deixasse o menino se criar por longe. Mas a seca mandava neles todos como o maior cangaceiro. Dissera a Josefina que o menino não valia mais nada. E não valia mesmo não. Lá estava ele sentado no outro lado do copiar a olhar para o mundo. Por que não se danava pelo mundo como os outros, para acabar com aquelas cismas? Por outro lado Bentão via o filho no Açu como um castigo. Criado de padre, servindo, levando recado. Antes tivesse morrido na estrada, na retirada penosa, com os urubus voando por cima. Antes tivesse ficado enterrado na areia quente. Nunca tivera maior arrependimento. Mas a mulher quisera, e agora era o que se via. Um filho estranho dentro de casa, como se fosse uma criatura que nada tivesse de seu sangue e de sua carne.

Bento desconfiava do velho, sentia as hostilidades, e por mais que Domício lhe dissesse que ele era assim com todos de casa, não se conformava. Se não fosse Domício, o que seria dele no Araticum? O amor de sua mãe não teria força para prendê-lo. Domício gostava também do irmão. Vivera sempre com Aparício como cachorro com gato. Aparício era o mesmo, com outro gosto pelas coisas, outras conversas, outras vontades. Enquanto ele amava a sua viola, gostava de cantar, o irmão mais velho debochava de tudo isso. No dia em que ele voltava de Dores com uma viola comprada de novo, Aparício deu risadas. Tocador de viola! Aquilo era para Aparício uma ocupação humilhante. Domício juntara dinheiro, levara meses, levara um ano, e na noite em que voltou de Dores com o instrumento de seus sonhos, Aparício debochou. Teve ódio do irmão, um ódio de inimigo rancoroso. Mas foi tudo passando e nem se importava mais com as implicâncias do mais velho. Apareceu Bentinho. E Domício encontrou neste o que lhe faltava no Araticum: um amigo. O velho era aquilo se via; a mãe, falando de Deodato e de Bentinho. Se não fosse a viola, já teria se danado no mundo, como os outros rapazes que deixaram o sertão para toda a vida. Viera Bentinho, e Domício exultara. Aquele era diferente de todos, gostava de ouvir a viola gemer, gostava de olhar para as coisas do Araticum como ele olhava. Para a lua, para os matos. Gostava de ver e de ouvir.

Deram os dois para sair juntos. Domício ensinou ao irmão todos os cantos da terra. Fora com ele diversas vezes à serra. E lá do pico viram o mundo se espalhando, a caatinga sem fim e o azulado das serras distantes, das outras serras que eram mais altas que a do Araticum. Agora, porém, Bentinho dera para cismar, e Domício começou a preocupar-se com o irmão, pensando que talvez não estivesse gostando de ficar entre eles, que estivesse imaginando em fugir o mais depressa possível dali. E por isto resolveu vencer as saudades de Bentinho. Muita coisa ele teria de mostrar ao irmão mais moço. Já tinha vinte e cinco anos, era um homem, já podia ter filhos, família grande. Bentinho tinha dezessete. Para ele era um menino.

E Domício começou a levar o irmão para os seus passeios.

— Hoje, Bentinho, vamos à furna dos caboclos.

E de madrugada saíram com bode preparado para um dia inteiro de ausência. A madrugada na serra, com a névoa cobrindo os arvoredos de branco. Domício na frente, chapéu de couro e gibão. E Bento de botas. Pela primeira vez calçavaaquelas botas duras de sola. Foram subindo. Às seis horas toda a serra se cobria de sol e cantava cigarra de aborrecer. Aroeiras, pau-ferro. Atravessaram a mata fechada e com pouco descobriram um descampado. Via-se de longe a ondulação das outras serras e para um canto descia um caminho muito pisado de gente. Pararam por ali. Já tinham andado mais de quatro horas. Debaixo de um arvoredo pararam um bocado. E Domício contou para Bento a história da furna dos caboclos. O povo dizia que a mãe-d'água cantava lá no fundo da gruta. Era uma cabocla bonita, de cabelo arrastando no chão. Não era como a mãe-d'água dos rios, com metade de corpo de peixe. Era toda mulher. Mais de um sertanejo tinha caído ali dentro da furna atrás da cabocla.

Foram andando e com pouco mais chegaram perto da furna. Um imenso buraco se abria na terra. Sacudia-se uma pedra e ouvia-se depois a pancada d'água nas profundezas. A abertura era de uma gigantesca cacimba que fosse se afinando como um funil para dentro da terra. Lá embaixo havia água e diziam que nas grandes secas chegava-se a descobrir ossadas de gente. Domício começou a contar ao irmão o que sabia da furna misteriosa: uma cabocla cantava ali de quando em vez. O canto era tão forte, que acordava gente a cem léguas de distância. Quem ouvia este canto ficava de cabeça virada. Precisava ter força de verdade para ficar senhor de si. Do contrário, se era um vaqueiro, selava o cavalo, se preparava para uma viagem e vinha ouvir a cabocla da furna. E o resultado era encontrarem o cavalo do pobre como doido, vagando pela serra sem o dono. Caíra nas profundezas. Os urubus rondavam por cima. O canto da cabocla tinha pegado o pobre de jeito. Bicho bom fora um vaqueiro do Mussu. Estava ele em casa, de seu, quando ouviu o canto da cabocla. Ele disse mesmo depois: parecia um aboio, um gemido chamando. A princípio pensou que fosse o vento nos carnaubais. Escutou mais. O aboio era como se fosse dentro do cercado. Preparou o cavalo, armou-se de rifle, pois andava com medo de visagens e saiu atrás do canto. Andou uma, duas léguas. E o aboio chamando. Subiu a serra e foi logo desconfiando do chamado da cabocla. Mas não teve medo. Tinha o corpo fechado com oração. E foi andando atrás da cantiga. Agora o canto era mais triste. Era mesmo de enfeitiçar. Um canto de namorada saudosa. Desta vez a cabocla ia conhecer um homem. Chegou-se para perto da furna e viu a coisa mais bela deste mundo. A cabocla nua, de cabelo caindo, com os peitos duros, chamando-o, fazendo sinal para ele . O vaqueiro lembrou dos outros que haviam morrido. Aquilo era uma miserável, uma desgraça, uma pessoa do diabo. Pegou no rifle e deu no gatilho. Disparou a carga toda da arma. E quando acabou, viu a bichinha sorrindo para ele , viu uma lágrima correndo dos olhos dela. Esporeou o cavalo, e o animal não saía do lugar. Quis gritar e não pôde. A língua estava pregada no céu da boca. Aí a cabocla se levantou. Viu o corpo dela, viu as partes como se estivessem a um passo dele. Cheirava o corpo como um pé de jasmim. Estava perdido, quando se lembrou da oração que trazia dependurada no pescoço. Segurou com fé na oração, pediu pelos santos, pediu pelos podêres de S. Cosme, e viu a cabocla se espichando, os ossos estalando. Ela tinha a cara de uma mulher no ato, uma cara danada. Os olhos dela se fechavam, a boca se torcia. O vaqueiro se fez mais ainda nas orações, e quando ouviu, foi o baque da cabocla na furna. Ouviu a água lá de dentro fumaçando como um caldeirão e subiu uma fumaça que foi para as nuvens. E uma chuvinha começou a cair, peneirando. Aquele pedaço de serra cheirava como se todas as flores da terra se estivessem abrindo naquela hora. O vaqueiro vencera a cabocla da furna. Quando ele chegou lá em cima, o cavalo estava alagado de suor. Mas o pobre desde aquele dia que foi ficando aleseirado. Deu para chorar, para gemer, com um canto que ele dizia estar ouvindo. E hoje quem fôr à feira de Dores encontrará ele transtornado, um homem perdido para sempre. Daquela cabocla ninguém escapa.

Bento ouvia o irmão contar a história, meio descrente. Domício lhe falava da aparição como se falasse de uma vaca do curral, de um pé-de-pau do Araticum, com a certeza absoluta da coisa. Subiram para a serra e foram andando calados. Depois Domício falou:

— Tu não acredita, Bentinho?

O irmão sorriu.

— Pois tu devia acreditar. Aparício também não crê. Ele manga dessas coisas, eu tenho medo que suceda uma desgraça com ele .

Bento falou ao irmão com franqueza. Se ele fosse contar aquilo ao Padre Amâncio, o seu padrinho dizia logo que era superstição, ignorância.

— Nada, Bentinho, isso não é coisa de Deus não. Isso vem de outras bandas. A cabocla existe. Existe mesmo. Tu sabe, não é pra dizer besteira não: acredito mais nela que em muito santo.

Nisto apareceram na estrada uns cavaleiros, e eles deram passagem para os homens. Na frente ia um velho e atrás quatro cabras de rifle nas costas.

— É o Coronel Filipe dos Pirins, disse Domício. Ele tem uma fazenda no pé da serra, do outro lado, que tem até subterrâneo. A casa é uma fortaleza. Ê toda de pedra, com buraco para as armas de fogo. Ali nunca esteve cangaceiro, fazendo estrago. E uma vez que ele brigou com o governo, foi a briga maior deste sertão. A tropa cercou a casa, o tiroteio durou três dias e três noites. Já tinha morrido gente como diabo, e quando não pôde mais, o Coronel fugiu com os cabras pelo subterrâneo. E depois só voltou aos Pirins com o novo governo. Quando ele era mais moço, fazia medo. Hoje, não, está velho. E um filho que tinha foi ser padre. É o Padre Quincas que toca flauta. É o maior tocador de flauta do sertão. O velho não gostou da coisa. Amansou de vez. Mas quando sai de casa, é ainda com esse aparato. O padre filho dele não quer outra vida. É tocar flauta e fazer música para se cantar nas igrejas.

Vinham descendo a serra. O sol incendiava. Sol de serra era mais quente, queimava mais. Domício se calara. Bento concentrado. Com pouco mais o irmão falou:

— Bentinho, tu nunca ouviste falar na desgraça da Pedra Bonita?

O outro estremeceu. Era a pergunta que ele se preparara várias vezes para fazer a Domício, mas nunca com coragem de fazê-la. Desde menino no Açu que falavam na Pedra Bonita como de um acontecimento terrível.

— Não, Domício, nunca ouvi falar.

— Lá em casa, disse Domício, ninguém fala nisso. Nem o velho nem a velha. Eu ainda não te levei à Pedra Bonita por isso mesmo. Minha mãe me pediu:— "Domício, tu não fala a Bentinho da Pedra. Aquilo foi há muito tempo, mas a gente ficou com a ferida aberta". Eu não queria te falar. Eu até sou franco. Pouca coisa sei do fato. Dizem por aí que foi uma mortandade sem igual. Agora, quem sabe de tudo, tintim por tintim, é o velho Zé Pedro do Serrote Preto. Dizem até que o velho faz coisas na pedra, que ele conhece os segredos de lá. Nós amanhã podemos ir ver este velho. Mas tu não diz nada à mãe. O velho Zé Pedro vive sozinho no Serrote. Aqui no sertão o povo malda logo quando vê um homem assim sozinho, sem mulher, sem filho. Começam a falar coisas do sujeito. Conheço o velho Zé Pedro há muito tempo. Quando a gente era menino, ouvia lá em casa se falar dele. Um irmão de minha mãe conhecia ele de amizade. E dizia lá:— "Zé Pedro para ser santo só falta a fama. Tu não pode calcular, Fina, que homem é ele diferente da gente. Tu pensa que ele come carne de bode, carne de boi? Qual nada! Ele vive de raiz de pau. E sabe de reza pra tudo que é doença. Tapuru de boi cai das bicheiras com as rezas dele". Amanhã, Bentinho, nós vamos falar com ele . Vontade eu tinha de procurar o velho, mas não tinha companheiro. Nós vamos amanhã. E a gente fica sabendo de tudo.

Vinham chegando. De longe viam a casa-grande, o verdume das oiticicas balançando ao vento. Era mais de meio-dia. O velho Bentão, espichado na rede, olhou para ver quem vinha chegando. E desviou a vista quando os reconheceu. O Araticum estava num dos seus dias de dezembro. Para as bandas do norte formavam-se nuvens escuras. No armador de pau as cordas da rede do velho Bentão rangiam. Sinhá Josefina apareceu no alpendre. Os filhos tinham chegado.

— Vem, Bentinho, mais Domício, comer coalhada com rapadura.

O velho olhou para ela e fechou os olhos. Os armadores rangiam. Bentão cismava. As nuvens escuras para as bandas do norte eram a grande coisa da dia.