Pedra Bonita
Capítulo 6
APARECERA no Açu um homem que não queria coisa nenhuma. Podia ter uns trinta anos e era escuro, com os cabelos cobrindo as orelhas. Trazia uma viola e uma bolsa com uma rede suja. Ficara dormindo no mercado e o Major Evangelista lhe dava de comer. Os meninos correram para perto dele. O homem tocava viola e cantava. Sabia de histórias. A vida dos cangaceiros maiores, de Antônio Silvino, de Jesuíno Brilhante, de Cabeleira. Antônio Bento se demorou mais do que os outros com o homem sujo. Ele viera de longe, sabia mais do que os outros. Estivera no Juazeiro. Conhecera os cangaceiros do Pajeú e os frades das Santas Missões. Chamava-se Dioclécio. Não sabia ler. Mas aprendera tanta coisa, tanto verso bonito, tanta história arriscada! Nunca Antônio Bento conhecera homem igual. Estava embriagado pela vida do andarilho.
— Menino, dizia-lhe Dioclécio, terra da gente viver é lá para as bandas do sul. Tu nunca viste o que é terra bonita. Eu andei de navio, montei em trem de vapor. Vi o mundo, que não era essa desgraça do sertão. Só estou por aqui por causa de família. Menino, família é a perdição de um homem.
E contou a história, a história de sua vida. Saíra de casa pequeno com os irmãos que foram para os trabalhos nos açudes do Ceará. Depois se separaram. Cada um tomou o seu destino, cada um foi viver como Deus queria. Ele ficara no Canindé. A terra era boa, o povo era bom:— Foi aí que eu me perdi. Foi mulher, menino, que me perdeu. Tinha meus dezesseis anos e era assim como tu, sendo que crescera mais, era mais fornido. O diabo da mulher morava com o povo dela pertinho do serviço. Eu era, depois do capitão, o homem mais importante do trabalho. Tu não pense que estou mentindo não. Mandava em mais de mil homens. Não sabia por que, mas o chefe gostava do meu trabalho. Na minha unha os cabras puxavam mesmo no serviço. Eu tinha até um anel de ouro que usava neste dedo. Um relógio de correntão. Tinha uma casa de madeira. Eu mandava em mais de mil homens. Foi quando entrou a mulher na dança.
Dioclécio respirava fundo e continuava na história:
— Todo o mundo dizia que eu era o homem mais feliz da terra. Não sabia nem esconder a alegria que andava por dentro de mim. Tocava viola. Fazia loa, vivia me rindo com o tempo, A moça era mesmo uma lindeza. Nem gosto de falar nisso. Fui infeliz. Tudo se desgraçou por causa dela.
Aí Dioclécio parou e Antônio Bento ficou em suspenso, esperando o resto. Mas ele não contou. Não valia a pena reviver mágoas. E se espreguiçava. Levantava-se da rede suja para olhar o tempo:
— Isto aqui é triste mesmo, menino. Bem que me disseram: "Dioclécio, para onde tu vais?" E quando eu disse que ia para o Açu ninguém acreditou.
Como podia um homem como ele ir para o Açu?
Estava aborrecido do mundo. Viera andando à toa, até ali. Andando como se não fosse para parte nenhuma. Para ele o mundo era igual, tudo igual, tudo triste, tudo acabado. E pegava na viola e tocava. Era triste o que ele tocava. Os versos eram tristes, as mágoas imensas. Às vezes a voz de Dioclécio se sumia na mágoa, se perdia como soluço.
— Para que esconder, menino! O bom é cantar. E dizer tudo.
A vida de Dioclécio era para Antônio Bento uma revelação imensa. Que homem! Sofrerá muito, mas estava como se não fosse com ele , vendo terras e ferras, sabendo de tudo. Se não fosse o Padre Amâncio, iria do Açu como cantador.
O povo da terra começava também a se interessar pelo vagabundo tocador de viola. Pelo sertão tipos daqueles não eram raros. Os cantadores afamados não eram mais do que Dioclécio. As filhas do Coronel Clarimundo, que tinham chegado do colégio, mandaram chamar o cantador para ir à casa do pai. Dioclécio não se fez de rogado. E espantou. Cantou mais do que lhe pediam. A sala se encheu, ficou gente até por fora ouvindo o homem de alpercatas, de cabelo comprido, tocando viola, gemendo, gemendo como um penado. As moças achavam graça e enchiam os olhos de lágrimas. Dioclécio fazia tudo que lhe pediam. A sua veia era rica. As suas mágoas muito grandes para dar sofrimentos aos seus cantos. Depois o Coronel deu-lhe dez mil-réis e ele voltou para o mercado, para a sua rede suja, para dormir e sonhar com as suas histórias.
No outro dia, depois de feitos os serviços na casa do padre, Antônio Bento estava com ele . Nunca um homem fora tanta coisa para ele como Dioclécio. O cantador conheceu de sua força e cada vez mais contava histórias. Fora amigo de cangaceiros. Não dizia nada para não ser tomado como espia. Deus o livrasse de cair na mão de uma volante, de tenente de polícia. Conhecia cangaceiro de verdade. Nem era bom falar. Só dizia mesmo a Antônio Bento para que ele pudesse avaliar da sua força. Os cabras gostavam de ouvir viola nas noites de lua, nos ermos da caatinga. Cantava para eles com paixão. Lá pára as bandas de Princesa estava aparecendo agora um Ferreira, que era um bicho danado. Diziam que ele estava vingando a morte do pai. E que não respeitava nem os coronéis do cangaço!
— Menino, não queira ver cangaceiro com raiva! Dê por visto um demônio armado de rifle e punhal. Eu estava uma vez numa fazenda perto de Sousa. Chegara lá depois de dez léguas tiradas a pé. O homem me deu pousada. Dormi no copiar da casa, na minha rede. No outro dia, mais ou menos por volta das duas da tarde, nós estávamos na mesa, na janta, quando vimos os cangaceiros na porta. A família correu para as camarinhas e eu e o velho ficamos mais mortos do que vivos, estatelados. Era Luís Padre com o bando dele.— "Velho safado", foi ele gritando logo, "se prepare para morrer". O homem se levantou e foi duro como o diabo:— "Estou pronto, bandido, faça o que quiser". Luís Padre perguntou pelas moças. Queria comer. O pessoal estava com fome. E foi andando para o interior da casa. O velho pulou em cima dele como uma cobra. Nisto os cabras se pegaram com ele . — "Amarre esta égua", gritou Luís Padre. As moças e a velha correram para a sala de janta, fazendo um berreiro como se fosse para defunto.— "Meninas", disse o chefe do bando, "nós queremos é de comer. Deixa a velha na cozinha. Nós queremos é conversar com vocês". Nisso a velha caiu nos pés de Luís Padre: — "Capitão, respeite as meninas! Não ofenda as minhas filhas, capitão!"— "Ninguém vai ofender as meninas, velha cagona!" E foi uma desgraça que eu nem tenho coragem de contar. Os cabras estragaram as moças. Ouvi o choro das pobres, os cabras gemendo no gozo, o velho urrando como um boi ferrado. Foi o dia mais desgraçado de minha vida. No começo eles quiseram me dar. Contei que não era dali. O homem me dera uma pousada. Eu era um cantador. Então botaram as moças quase nuas no meio da casa. Tinham que dançar. Nunca na minha vida vi cara de gente como a cara das moças. Estavam de pernas abertas, grudadas nos cabras. Toquei viola e cantei até de madrugada. Fiquei rouco, com fala de tísico. Depois eles deram uns tiros no velho e meteram o pau na mulher. Tive que sair com o grupo até longe. Me disseram horrores. Se a polícia chegasse no Espojeiro, tinha sido coisa minha. Quando me vi solto na caatinga, estava como um defunto, nem podia dar dois passos. Era de noite. O céu do sertão era um lençol de algodão com a lua. Não tive mais coragem de andar. Estendi minha rede debaixo dum pé de imbu e dormi. Dormi tanto, que acordei com o sol na cara. A minha goela queimava como se eu tivesse comido um punhado de pimenta. O meu corpo estava podre. E nem quis mais pensar na noite da desgraça. Menino, dois meses depois, ainda tinha na cabeça o velho esticado no chão, as meninas dançando, a velha chorando. Tive até medo de ficar doido. Foi aí que eu pus a história no verso. E na feira de Campina Grande, quando cantei a coisa pela primeira vez, vi gente chorando e mulher se benzendo. O dono do hotel mandou botar no jornal da Paraíba a cantiga que eu tinha feito. Um sujeito do Ceará mandou um recado. Queria que eu dissesse as coisas para ele passar no papel. O velho Batista da Paraíba fez umas loazinhas parecidas, iguai-zinhas aos versos que ele tirava para Antônio Silvino, e botou para vender nas feiras.
Doutra ocasião Dioclécio contou dos amores de uma ricaça do Monteiro por ele . Não era para se gabar, não gostava de falar nessas coisas porque parecia que ele mentia. Uma vez mandaram chamar Dioclécio para uma festa numa fazenda do Monteiro. Coisa paga. Ele se foi até sem vontade, pois estava muito bem na vila, gozando a vida. Ele cantava todas as noites na casa de um rico do Recife que se curava dos peitos por lá. Mas veio um vaqueiro com o recado do fazendeiro, com o cavalo selado. — O homem queria que eu fosse naquele dia para uma cantata na casa dele. Aceitei e saí com o vaqueiro. No caminho fui sabendo de muita coisa. O dono da casa era um velho casado com uma moça. Fiquei meio aborrecido. Nunca fui com essa história de velho enxerido. Velho é para a gente tomar a bênção, guardar respeito. O homem tinha se engraçado de uma moça, uma menina bonita da cidade de Sousa, e tanto fez que se casou. E vivia agora fazendo tudo que a moça pensava, dando festa em casa, gastando dinheiro com besteira. Tudo para que a mulher não se aborrecesse, não fosse embora. Cheguei de noitinha na casa-grande. Parecia um palácio. Havia tanta luz, que você podia achar um alfinete no chão. Dê por visto um dia claro. A casa cheia de gente, a sala repleta e a dança pegada. Se dançava ali desde a véspera. Fui chegando e fui logo levado para onde estava o velho. Era um homem de respeito, de barba grande. Um homem e tanto:— "Ah! o senhor é o cantador Dioclécio?"— "Sim, senhor", respondi, "sou eu mesmo".— "Pois vamos ter um desafio, com o Manuel Bacurau". Disse ao homem que não cantava desafio, que não gostava do martelo. Era cantador de histórias de loa. Não sabia bater boca com outro, descompor, para fazer os outros se rir.— "Mas a minha mulher quer", disse ele . "O senhor precisa comer alguma coisa. Depois eu mando chamar". A cozinha estava cheia. Havia gente de fora e logo que me viram, me cercaram. Me tomaram logo pelo Manuel Bacurau e todos queriam que eu metesse os dedos na viola. Fui dizendo que só tocava para a sala, que viera ali a chamado dos grandes. Me fiz logo de importante. Uma cabocla foi logo dizendo para a outra:— "É a raça mais besta que eu conheço, essa de cantador." Pouco me importava. Eu estava era com medo do tal desafio. O outro cantador não tinha chegado. Para falar com toda a franqueza, estava com medo do homem. Eu não sabia cantar assim de supetão. Mas na hora em que me chamaram, fui para a sala disposto a tudo. A dona da casa era uma boniteza sem igual.— "Senhor Dioclécio", disse ela com toda a delicadeza, "venha tocar qualquer coisa. O seu rival não chegou". Criei alma nova. Bateram palma quando eu comecei a pinicar a viola. Havia gente muita, menino. Fui logo de entrada cantando a história do Sousa. E vi gente no choro, menino! Gente grande enxugando lágrimas. Botei mais uns versos, intrometi mais umas coisas. Verso tem que ter mentira, menino! Senão fica muito rude. Aí ninguém quis mais dançar. Saía de uma história para outra, e a dona da casa sentada junto de mim, pedindo para cantar mais. Nunca tinha visto uma moça que se parecesse com aquela. Cantei tudo que sabia, inventei o diabo, tudo como se estivesse tonto, como se tivesse entrado em meu corpo uma força de fora. Até que o Coronel chegou para perto e mandou parar. E a dança pegou outra vez. Vi a moça dançando com um lorde de anel no dedo. Era o promotor de Sousa, um tal de Dr. Mariz. Não sei mesmo o que se deu em mim. Estava com ciúmes da moça. Fiquei espiando a dança. E uma coisa esquisita eu notei. A moça não tirava os olhos de mim. Olhei para o lado para ver se era com outro. Mas não tinha ninguém junto de mim. Era mesmo comigo. Nem queria saber. Aquilo era um sonho, só podia ser mesmo um sonho, menino. Uma santa daquelas me comendo com os olhos.
Dei umas voltas pelo terreiro da fazenda. O homem era mesmo rico. O curral do gado grande era enorme. Um rico, um poderoso, e uma mulher daquela. Velho feliz. Estava fazendo um luar de leite. A mulher não me saía da cabeça. Fiquei imaginando. E seria mesmo para mim que ela estava olhando? De longe ouvia o harmônico tocando a quadrilha e os gritos do marcador. Fui dormir com a coisa na cabeça e nem preguei olhos. Ouvi o toque da dança até de manhã. Levantei-me para receber os meus cobres e ir para bem longe dali. Mas o velho pediu para eu ficar, me dizendo que a mulher dele pedira para que eu ficasse por mais tempo. Ela tinha gostado do meu cantar e até queria que eu ensinasse a ela tocar viola. Fique certo, menino, que eu tive medo do velho. Que diabo queria dizer aquilo? Não disse nada, e na hora do almoço não havia mais convidados na casa. Nem parecia que tinha havido dança a noite inteira. O velho e a mulher estavam na mesa. A cara dela era de uma santa, de uma santa de altar. Que olhar, menino! Quando ela me fitava, vinha uma coisa por dentro de mim.
E fui ficando na fazenda. No outro dia começou o ensino de viola. Aquilo não tinha o que ensinar. Tocador de viola só precisa é ter coração. E fui assim pegando nas mãos da moça, tocando para ela ouvir, até que uma noite eu estava no meu quarto, bem descansado na minha rede, quando ouvi um bater na porta. Fiquei esperando e bateram outra vez. Abri, e a moça abraçou-se comigo. Menino, se tivesse caído um raio nos meus pés, não teria sido igual. Era a mulher do homem em carne e osso. Quis recuar, mas não tive coragem. A moça era donzela, menino! Ela me beijava como se quisesse me comer, chorava nos meus braços como uma criança. Queria fugir comigo, ir pelo mundo afora, ser infeliz comigo. Fui franco. Eu era um cantador, um pobre que vivia nas feiras tirando o pouco para viver. E toda a noite era aquele gozar. O velho me tratava com toda a distinção. Tive remorso, eu estava desgraçando aquele pobre homem. Ele bem que podia me matar. Estava no seu direito. Eu já nem tinha coragem de sair da casa-grande. Para onde me voltava, via um rifle em cima de mim. Pensei em fugir daquela perdição. De noite, menino, as vontades do dia eram como se não fossem nada. Quando me lembro dessas coisas tenho até a idéia de que tudo isso é mentira. Mas não era mentira não. E isto foi assim até que me decidi duma vez. Arrumei os meus troços e de noite disse à moça que aquela era a última noite. Ela chorou de cortar o coração. Me abri com ela. A minha ação com o velho não era de homem. Eu comia os pirões dele e ainda por cima fazia aquela desgraça. A moça chorava tão alto que eu tive até medo que acordasse o povo da casa. Podia acordar o velho. No outro dia, de manhã, eu estava no curral bebendo leite. O sol não tinha saído ainda e fazia um friozinho do amanhecer. O gado metido na lama, os bezerros pulando. Quando eu vi foi o velho junto de mim:— "Bom dia, Seu Dioclécio", me disse ele com a cara fechada. Eu disse de mim para mim:— "O homem vai me matar mesmo". Tinha descoberto a coisa e estava doido de raiva. Fiquei estatelado.— "Seu Dioclécio", me disse ele outra vez, "quero falar com o senhor". Saí com ele . Não sei como as minhas pernas me aguentavam. Saímos para um cano do cercado. Havia um pé de juá pertinho. Aí o homem parou. Esperei a descarga da pistola nos peitos. Não quis olhar para o homem. Não tinha cara para isto. Ouvi somente que ele falava para mim:— "Chamei o senhor, Seu Dioclécio, para lhe falar de um negócio sério. O senhor já deve saber do que se trata. Soube que o senhor quer ir embora aqui da fazenda. Por que não fica mais tempo? A minha mulher gostou do senhor e o senhor serve para o que ela quer". Olhei para o velho. Não era possível. Pois era, menino! O velho era um corno! Aquilo no sertão era difícil de se encontrar. Mas uma vez ou outra a gente encontra.— "Não diga nada, Seu Dioclécio", foi ele me acrescentando. "Eu gosto da minha mulher. Ela é uma santa de bondade. Casou-se comigo, veio para este ôco do mundo. E eu não valho mais nada. A pobrezinha sofria tanto antes do senhor chegar aqui! Agora virou outra coisa. O senhor precisa de algum dinheiro para mandar para a sua família? Diga onde está o seu povo que eu mando". Não dei uma palavra ao homem. Vi ele saindo para o curral, alto, de barbas brancas, e tive pena. Ele podia ter me matado, menino. Esperava um disparo de arma e o que saiu foi isto que lhe contei. Na hora do almoço o velho nem parecia que me havia falado coisa nenhuma. Eu é que não tinha cara para fitar aquele homem. Um homem daquele, no sertão do Monteiro, na terra dos homens mais brabos da Paraíba. A mulher estava se rindo com o tempo e me enchendo o prato de comida. E eu comendo aquele pirão, gozando na rede com ela. Qual, menino! Tudo aquilo começou a me inchar na boca. Toda aquela vida parecia um fim de mundo. Não disse nada a ninguém. Mas uma madrugada arrumei os meus troços e ganhei o mundo. E nunca mais soube notícia daquele povo. E nem procurei saber. Aquilo era um arranjo do diabo. Às vezes eu fico pensando comigo mesmo: "Quem sabe, Dioclécio, se toda aquela gente não existia e tudo não passava de leseira da tua cabeça". Quis fazer uns versos com a minha vida na fazenda do Monteiro e não saiu nada. Fiz finca-pé e nada. Qual, aquele velho era o demônio! Ele queria me pegar, me chupar o sangue e me levar para o inferno. Contei essa história para um sujeito que chama os espíritos em Jatobá, e ele me disse que eu não tinha vivido naquele tempo. Era tudo invenção da minha cabeça. Eu é que sei! Que noites, menino! Que mulher, que corpo supimpa!
Dioclécio foi transformando Antônio Bento, descobrindo para o criado do padre um mundo novo. Aquele homem sujo, de cabelos grandes, viera ao Açu para virar a cabeça do rapaz. Na feira de domingo Dioclécio cantou para o povo. Cercaram o cantador para ouvi-lo. A viola nas mãos do homem e as histórias que ele sabia entretinham o povo, arrancavam lágrimas. Era bom de verdade. Muitos ali conheceram outros cantadores de feira. Mas ninguém escutara coisa melhor. E Dioclécio foi ficando. Havia quase duas semanas que tinha chegado. Mas o povo do Açu começou a sentir-se mal com ele . Joca Barbeiro dizia debaixo da tamarineira que não havia autoridade no lugar, porque se houvesse, aquele tipo não estaria ali sem fazer nada, de manhã à noite na rede. Era capaz de ser um ladrão disfarçado, que estivesse experimentando o lugar. Mas roubar o quê? Só se fosse ao Coronel Clarimundo, que era o único rico na vila, que sabia o que era dinheiro. E este mesmo guardava os cobres em burra de ferro. Mas aquilo não podia continuar. Um sujeito sem ocupação, comendo dos outros. E repararam no pegadio de Antônio Bento com o cantador. Aquilo dava em coisa. Capaz do vagabundo estar virando a cabeça do rapaz. O Padre Amâncio que tomasse cuidado. Joca Barbeiro sabia de um cantador, daquele mesmo jeito, que chegara no Limoeiro, com toda aquela goga de poeta. Deram lugar para o bicho dormir, chamaram-no para cantar nas casas dos grandes, encheram o homem de importância. E o que sucedeu foi uma desgraça. Dois meninos da cidade terminaram caindo na sedução do tal. O cabra se servia dos meninos como de mulher. Deram-lhe uma surra de botar sangue pela boca. Por isso ninguém devia confiar em gente que ninguém sabia donde vinha. O amarelo do padre não saía do mercado, atrás do cantador. O sacristão Laurindo se queixou ao vigário: Antônio Bento há uma semana que não varria a igreja. Até a lâmpada do Santíssimo deixara que se apagasse. E o padre chamou o afilhado para um carão. Há tempos que não falava assim com ele . Só tivera voz naquele tom no dia da briga com o filho do juiz. Doeu em Antônio Bento a repreensão. Naquela tarde procurou o cantador. Queria ouvir qualquer coisa que lhe desse alento. Ele sabia de tanta coisa boa para se ouvir. Mas encontrou o cantador Dioclécio de cara fechada, se balançando na rede. Tinham vindo dar ordem para ele deixar o Açu. O delegado mandara um recado pelo cabo.
— Povo besta. Pensar que eu queria passar o resto da vida aqui, neste calcanhar-de-judas. Menino, eu vou até ser franco. Estava por aqui ainda porque gostei de você. A gente anda por este mundo de Deus sem encontrar ninguém para se querer bem. Você me agradou. E esta canalha pensando que eu estava gostando era da terra. Que se danem todos. Bem me haviam dito que gente do Açu não prestava para nada. Amanhã vou fazer uma madrugada. Saio daqui às quatro horas e vou estourar lá no Câmara ao meio-dia. Chego mesmo no dia de feira. Aquilo é que é terra para gostar de cantador. Ali eu posso viver descansado. Os grandes me chamam para cantar, passo de banquete. E não me chega ordem de delegado me botando para fora.
Antônio Bento quis defender, procurando uma palavra para contentar o amigo. Mas ficou calado, triste, ouvindo Dioclécio falar do Açu. No fundo bem que ele gostava daquele ataque. A terra era mesmo uma desgraça. Ele também era odiado. Dioclécio é que era feliz por deixar o Açu para sempre. Mas tinha pena que ele se fosse. Amava aquele homem sujo, de cabelo comprido. Sim. Amava o que ele dizia e o que ele cantava. Tudo que era de longe do Açu estava com Dioclécio. Se fosse possível, iria com ele , ganharia o mundo com ele .
O cantador olhou para Antônio Bento e percebeu a mágoa do amigo. Quis então corrigir, encontrar um meio de acabar com aquilo:
— Não fique triste não, menino. Isto que eu digo do Açu é só para o povo da terra. Você, não. Esse Padre Amâncio bem que eu gosto dele. Padre, só mesmo assim como ele e o meu padrinho do Juazeiro. Padre de batina lustrosa, de sapato espelhando não é padre não.
Dioclécio o que queria era agradar o afilhado do Padre Amâncio, o rapaz gostava dele. Nada tinha que ver com o Açu. E Dioclécio continuava elogiando o vigário:
— Eu já conhecia de fama o teu padrinho. A bondade vai longe, menino. Ninguém pode esconder. Com o meu padrinho de Juazeiro foi assim. Ele era bom. Dava tudo aos pobres. A casa vivia cheia de necessitados. E o bispo mandou chamar ele e passou um carão. Pois bem! O meu padrinho ali mesmo falou sério para o bispo. E disse sem medo que o bispo estava enganado. Ele tinha Deus no céu para juiz. Deus era maior do que os bispos. Ele não estava roubando, não estava matando, não estava mentindo. Só fazia dar aos pobres o que eles não tinham. E aquele pequenininho, de cabeça grande, se abriu. Os padres baixaram a cabeça, o bispo fechou a cara e o meu padrinho veio para Juazeiro e ficou maior do que o bispo. Ele virou santo. Não estou mentindo. Uma vez eu ia para lá a pé e vinha comigo um bando de romeiros. Numa carga, dentro dum caçuá, estava uma moça entrevada. Fazia quinze anos que a pobre estava naquele estado e vinha para o Juazeiro se curar com o meu padrinho. A viagem foi dura. Pois naquele ano a seca estava pegada com força. Nunca vi tanta coragem em gente. Não se comia. E água era mais rara do que vinho de mesa. A moça no caçuá gemia com o mexido do cavalo. Mas a gente chegou no Juazeiro. Foi numa boquinha de noite. O sino da igreja tocava as ave-marias. O meu padrinho abençoava o povão. Pois, menino, eu estou falando a verdade. Eu vi a moça descer do caçuá como se fosse boinha das pernas e correr no meio do povo, caindo aqui, caindo acolá, como se estivesse bêbada, se arrastando, andando outra vez até a porta da igreja, onde meu padrinho estava. O povo que tinha vindo com ela começou a berrar, como se estivesse com o diabo no couro. A moça abraçou os pés do meu padrinho. O meu padrinho pegou ela e foi dizendo: "Deus te fez doente e Deus te curou. Vai agradecer a Deus o milagre". O povo todo de joelhos, rezava, e meu padrinho, pequenininho, foi saindo para casa com o povo beijando a batina. Eu te digo: eu já vi um milagre. A bondade pode fazer isto. Ninguém esconde a bondade não.
Quando chegou em casa, o Padre Amâncio chamou Antônio Bento. Fosse preparar os cavalos, que havia um chamado para confessar um homem às portas da morte no Curral Grande, a seis léguas do Açu. Era um lugar deserto. Falava-se no Açu do Curral Grande como da terra pior do município. Diziam até que os cangaceiros faziam espojeiros pelas caatingas de lá. Antônio Bento foi preparar os cavalos pensando em Dioclécio. O amigo ia-se embora. Doía nele pensar na ausência do homem sujo, mas que sabia mais que todo o mundo do Açu, tirando o padre. O que valia aquela gente toda comparada com ele ? O Major Evangelista criando passarinho, Joca Barbeiro falando da vida dos outros, o Coronel Clarimundo dentro da loja contando dinheiro? O Açu inteiro o que valia junto de Dioclécio, que tocava viola, que vira os cangaceiros, que dormira em rede com mulheres lindas, que assistira a milagres, que cantava, que fazia versos? Que homem! E no entanto ia-se embora a mandado do delegado, o Major Cleto. Botar para fora um homem como Dioclécio!
Os cavalos já estavam prontos na porta da casa, e Antônio Bento mudava a roupa para a viagem. Lembrou-se porém de que não podia sair sem dizer uma palavra do amigo, que de madrugada ganharia o mundo para nunca mais voltar ao Açu. E foi correndo dar um abraço em Dioclécio. Ele estava de rede. Despediu-se:— "Nunca mais a gente se vê".
Mas Dioclécio. sorriu:
— Qual nada, menino! Este mundo é um ôvo. A gente ainda se encontra por aí.
Antônio Bento saiu com o padre, e a noite desceu sobre eles, no meio da caatinga. Com a escuridão, só ouvia as pisadas dos cavalos. E o silêncio imenso, a noite imensa cobrindo as imburanas, os cardeiros, o sertão inteiro. De madrugada Dioclécio ganharia o mundo.