Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 31 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 15

 

 

QUANDO Padre Amâncio botou o cavalo para descer na direção da Pedra, Bento sentiu um frio dentro dele. Donde estavam já ouviam o rumor das vozes do povão lá embaixo. O acampamento parecia de retirantes de uma grande seca. Viam-se latadas cobertas de folhas de catolé, em ruas se cruzando, às doidas. O padre seguia sem parar. Entraram no arraial. E o povo cercou os cavalos. Uma gente quase nua, magra. Um povo que passava fome, pelo ar, pela cara que apresentava. Tiveram que parar ali mesmo. Bento ficou com os cavalos e foi amarrá-los num pé de imbuzeiro, enquanto o Padre Amâncio se via rodeado. Aí o padre falou para o povo, dizendo que estava ali para ver o chefe deles. Apresentou-se um para levar o padre até à latada do santo. Nisto Bento ouviu uma pessoa chamando pelo seu nome. Era Domício, de barba grande, uma figura esquisita. O Padre Amâncio foi andando com o povo atrás dele, e Bento, emocionado, para falar com o irmão. Domício era outro.

— Bentinho, nós viemos pra a Pedra. Os velhos estão ali. O santo é mesmo de verdade. Tu não vai ficar?

Os fanáticos olhavam para Bento com admiração. Admirados dos trajes que ele trazia, daquela roupa de grande. Aquilo, junto da miséria que lhes cobria os corpos, escandalizava. Domício foi saindo com Bento para um canto. Havia gente de todo jeito aboletada por debaixo de árvores, agasalhada pelas latadas. Fazia pena examinar a miséria que estava ali. Uma população de descarnados, de sujos, de feridentos, um resto de vida. E Bento foi sentindo a tristeza de tudo. O ajuntamento fedia. Choravam meninos nus. Velhos estendidos pelo chão. Doentes gemendo. O que havia de desgraça no sertão se reunira, se ajuntara em derredor da Pedra Bonita, à espera da voz de Deus, que desse a todos um quinhão de felicidade, de abastança. Domício não falava. E foi Bento quem puxou a conversa:

— Mãe também acredita?

— Foi ela quem quis vir, Bentinho.

E chegaram num ponto arredado, onde estava a latada dos velhos. Lá estava Bentão numa rede e a velha fazendo qualquer coisa. Quando ela viu o filho, ficou parada, olhando, sem compreender.

— Ele veio pro santo, Domício?

E o filho mais moço se abraçou com a mãe. O velho do jeito que estava ficou. Parecia a ele que Bento estava ali há muito tempo.

— Bentinho, meu filho, tu também acredita?

Bento se calou. Domício disfarçou para um lado, compreendendo a situação do irmão.

— Mãe, ele veio com o padre do Açu.

A velha parou um instante, mas foi falando com todo o desembaraço:

— Olha, Bentinho, eu fiz tudo pra não crer no santo. Eu via teu irmão Domício capiongo pra um canto, aboiando na caatinga, sem que nem mais. Fui ficando com medo de algum sucedido. Aparício já era cangaceiro, sabia o que fazia. Domício podia ficar aluado.

— Qual nada mãe! Mãe pensa em cada coisa! interveio Domício.

— Não é pensar não, menino, é ver. Eu estava vendo que tu te perdia. Foi quando Domício deixou a gente e veio pra a Pedra. Pode ficar tu sabendo que eu fiquei triste. O Araticum estava que só tu vendo. Na noite que teu irmão veio embora me deu uma coisa que nem posso calcular como foi. Queria dormir e não podia. Bentão roncava que só um bacorinho. E nada do sono chegar. Foi aí que me deu uma coisa que não sei como contar. Eu estava vendo uma pessoa me dizendo: "Josefina, tu não crê no milagre? Tu é uma herege". Vi que não era coisa de sono, porque eu estava acordada. E a voz nos meus ouvidos. A casa vazia. E Bentão dormindo. Abri a janela e vi o céu e a terra que era uma beleza. Pensei em tu, Bentinho. Fui dizendo comigo: "Bentinho está de longe. Ele nem sabe o que a mãe está sofrendo. Felizmente que ele não sofre disso que eu sofro". Vi chegar a madrugada. Havia até gente nas oiticicas pernoitando. Bentão levantou-se pra tratar do gado, e a coisa nos meus ouvidos. E só parou de me aperrear quando eu arrumei as trouxas, e vim parar aqui. Ele é santo mesmo, menino. Não se passa um dia que não venha chegando gente. Ele tem a força de Deus.

E quis saber da viagem do Padre Amâncio.

— Ele não vem amaldiçoar o santo não, não é, Bentinho?

Bento lhe falou com jeito. O padre tinha vindo conversar com o santo sobre uns negócios que diziam lá no Açu.

— É mentira, Bentinho. Tudo é mentira. Ele só faz o bem da gente. Ele só faz o que é da vontade de Deus. Pergunta a esse povão por aí. Tudo que dão a ele , ele dá ao povo. Ele não come, não dorme, Bentinho.

Bentão não se separara do bode. Lá estava com ele , dando de comida, sem prestar atenção ao que a mulher dizia. O rumor do falatório chegava aos ouvidos de Bento. Era como se fosse a feira do Açu dez vezes maior.

E Bento teve uma grande pena da mãe. Ela que sempre fizera força para fugir das crenças dos seus, se entregava daquela forma. Quis falar com Domício e saiu com ele andando:

— Domício, como foi isto?

O irmão parou um pouco, olhou para Bento e disse:

— Bentinho, tu não pode imaginar. Naquele dia em que eu te deixei começou o meu sofrer. Lá em cima da serra a vida foi uma desgraça. Só via mato. E de noite era aquela história da cabocla me perseguindo. Danei-me pelo mundo, cantei nas feiras, andei de trem de estrada de ferro, corri terras. O povo gostava do meu cantar. Mas quando voltei pra o Araticum, me deu outra coisa diferente. Aquilo que mãe te contou se passou comigo direitinho. O santo tinha aparecido na Pedra, e a gente é da raça dos Vieiras, que desgraçou o povo. Aquilo martelava na minha cabeça, como um verso que eu quisesse fazer e não saísse. Me lembrava de ti. Tu era o único ente neste mundo que me dava alegria. Não é por eu estar na tua presença, mas era mesmo. Se tu estivesse no Araticum, eu era outro. Qual nada! O santo estava na Pedra. Todo dia passava romeiro pra descansar nas oiticicas. O santo me chamava de noite, na caatinga, aonde eu estivesse. Dei pra aboiar como besta, à toa. Mãe te disse a verdade. Era uma coisa, Bentinho, que não tinha parar. Apertava aqui no coração, apertava como se quisesse me quebrar tudo por dentro. A gente era da raça de sangue ruim. E aquilo me doendo. Pai era aquele cismar de noite e dia. E mãe só pensava em ti. Me vi, sozinho, capaz de fazer uma desgraça, de me desgraçar por aí. E o santo me chamando. Foi quando eu vim na Pedra e vi o milagre. Não tenho palavra pra contar. Tu não pode calcular o que é um milagre. Tu nunca viste. E uma coisa difícil de se contar. Eu vi uma entrevada correndo boinha para o santo. Bentinho, eu vi Deus na pessoa do santo. Na volta pra casa encontrei Aparício na caatinga. Ele me disse que tinha ido ao Açu pra falar um negócio com tu. Aparício matando, roubando. O diabo está no couro da gente. Aquilo que deu em Aparício não foi coisa da terra não. Tu te lembra de Aparício no Araticum? Quem é que ia dizer que ele virava no que virou? Ele mata brincando, Bentinho. Nem disse à mãe que tinha visto o filho dela no estado em que o vi. No Araticum começou o fato do milagre a bulir, a me fazer susto. E só descansei quando cheguei aqui para adorar o santo. Ele é santo, Bentinho, ele é santo de verdade.

Aí a voz de Domício foi se alterando. Falando para o irmão como se estivessem discutindo:

— Eu vi o milagre. Ele é santo de verdade.

Por junto deles passaram os homens que Bentinho tinha visto na estrada. O velho da estrada, com a filha aleijada no caçuá, como uma coisa de venda. Perguntou a eles para que lado ficava a casa do santo. E se foi com o grupo para o meio do povo'. Bento não dava uma palavra, aterrado. Vira a mãe, vira Domício. As duas grandes coisas de sua vida, do Araticum, nos pés do santo. Tinham vindo para salvar-se da desgraça da família, para limpar o sangue de Judas dos Vieiras. Deixaram tudo, o Araticum vazio, o gado morrendo de fome, a casa triste como uma casa de bexiguento. E estavam todos esperando de Deus, do santo, qualquer coisa. Todos que estavam ali tinham uma fé, uma grande esperança. Os restos de gente do sertão, cegos, feridentos, famintos, tudo esperando o grito que abalasse a formação do mundo. Os ricos e os pobres, os sadios e os doentes, tudo ficaria a mesma coisa, o mesmo homem, a mesma mulher.

E Bento se lembrou do padre de quem tinha se esquecido, arrastado que fora pelos seus. E foi com Domício para o lado onde estava a latada do santo. Ao lado da Pedra menor tinham levantado uma casa de palha, com paredes de barro. Havia uma lua e uma estrela pintadas na porta. Era ali a morada do santo. Bento e Domício se aproximaram. Havia gente rondando a casa. Mulheres desgrenhadas, com os peitos de fora, com os vestidos rasgados. Tinham olhares de feras acuadas. Outras, mais calmas, vestiam camisolão de algodãozinho. Eram as guardas de honra do ninho de São Sebastião. Bento quis entrar e não deixaram. Elas se puseram na frente, mas Domício explicou: era o irmão dele que tinha vindo com o padre. Só assim pôde entrar na sala. Lá encontrou o Padre Amâncio falando. E o santo, deitado na rede. Teve medo. Fazia medo. As barbas grandes e o olhar distraído. E o padre falando: vinha ali a serviço de Deus, vinha para arredá-lo da perdição, da heresia. E ele como se não estivesse olhando e vendo ninguém, fitando num ponto fixo. De repente levantou-se. Era pequeno, forte, de mãos gordas, cabeludas. E falou:

— Padre, Deus me mandou, Deus me mandou.

A voz era rouca, rugia como um tigre:

— Deus me disse no dia 20 de janeiro: "Sebastião, é o teu dia. Vai salvar o mundo que se perde. Anda e vai com o teu cajado e faz o mundo andar direito". Padre, andei léguas. Andei léguas e aqui estou. Aqui estou pra salvar o mundo.

O Padre Amâncio compreendeu a situação. Teria que agir com um louco.

— Mas para que não manda o senhor este povo para as suas casas? Se Deus lhe deu força para o milagre, o milagre se fará com o senhor sozinho, separado de todos. S. João Batista esteve no deserto, sozinho.

— Deus me mandou, Deus me mandou, respondeu o santo. Deus do céu que fez a água e o fogo me disse no dia 20 de janeiro: "Pega, Sebastião, e sai com o teu cavalo branco pelo mundo. Vai salvar o mundo, Sebastião".

Tinha as mãos para o ar. Os olhos luzentes, a cabeleira caindo nos ombros. O padre quis voltar à fala mas não pôde. Só o santo falava. O povo espiava pela porta. E ele sentindo o seu rebanho, cresceu a voz dentro da casa de palha, estrondou:

— Deus me mandou, Deus me mandou.

Com pouco mais se ouviu o rugido da multidão cantando o bendito. Padre Amâncio levantou-se. Bento viu a palidez do seu padrinho.

— Deus me mandou, gritava o santo. Deus me mandou.

E o povo urrando lá fora.

— O padre quer levar o santo, disse uma mulher aos berros, o padre quer levar o santo.

A coisa correu pelo acampamento. O padre tinha vindo para levar o santo, e o arraial inteiro começou a se agitar para a casa do profeta. Bento compreendeu o perigo da situação. O santo não parava de gritar. E a multidão urrando na porta. Estavam perdidos.

Aí o padre chegou na porta da casa. As fisionomias que ele viu eram de feras. Era o momento maior de sua vida, a hora amarga. Viu-se perdido. E sem que pudesse explicar, chegou-lhe naquele instante uma vontade de morrer despedaçado, de morrer como os mártires.

Foi quando Domício apareceu. O padre não tinha vindo para levar o santo. O padre tinha vindo a favor deles. E aos poucos o furor da multidão foi abaixando, como se fosse caindo água em cima de uma fogueira.

Padre Amâncio e Bento saíram. E viram os olhos horríveis, as feições de danados dos que olhavam para eles. Bento nem falou mais com a mãe. E Domício ficara no meio dos outros. Lá de cima viram a Pedra Bonita envolta na sombra da tarde. Bento sentiu fome. Estavam com o café da manhã. Padre Amâncio, muito curvo, com o cavalo devagar, chamou pelo afilhado.

— Antônio, vamos parar.

Bento correu para segurá-lo. O padrinho estava pálido, suando frio, com uma vertigem:

— Não é nada, disse baixinho. Isto passa.