Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 30 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 14

 

A NOTÍCIA de que o Padre Amâncio tinha seguido para a Pedra se espalhou no Açu. Na porta do Coronel Clarimundo parou o Major Cleto para conversar.

— Por mim eu já tinha oficiado para o chefe de polícia. Mas esta história de delegado volante tirou toda a força das autoridades. Coronel, esta história da Pedra pode virar coisa ruim. No fim é o que se vê por aí. Canudos não foi diferente. Sertanejo desencabeçado ninguém amolda com brincadeira não. O Padre Amâncio foi pra lá hoje. Vamos ver o que é que ele diz.

— Tenho fé que o padre acaba com isso, respondeu o prefeito.

— É no que eu não acredito, disse o Major. O padre é bom de verdade. Mas não é pra falar, eu não acredito que ele faça nada. O povo, quando chega ao ponto de andar atrás de santo, fica até com raiva de padre.

— Vamos ver, Major Cleto, vamos ver.

O Major deixou o Coronel e parou na porta do escrivão.

— Entra, Cleto.

E pegaram na conversa. O escrivão era da mesma opinião do delegado. O mal se cortava era pela raiz. A providência melhor era arranjar uns cem homens e liquidar o ajuntamento:

— Você oficie, Cleto, pra o Tenente Maurício em Dores. Se você quiser, eu redijo o ofício detalhando tudo. E o tenente toma logo uma providência das suas.

O Açu inteiro se virava para a Pedra Bonita. O fracasso da estrada de ferro fora um desapontamento cruel. Os engenheiros se foram e diziam que o governo federal mandara estudar a estrada de penetração por outra zona. Era o azar persistindo. Era a Pedra pesando, sufocando a vida no Açu. E as notícias do santo contagiavam de pavor o povo da vila. As mulheres se sentiam ameaçadas, dormiam pensando no saque, num massacre furioso. Contavam-se histórias terríveis. O santo era um monstro que se alimentava com sangue de meninos, que só se saciava em carne de virgem. Outra vez, da Pedra Bonita, saía o demônio em carne e osso. E os homens só tinham uma idéia: o extermínio da raça de cobras, de lobos, de assassinos. Porque dali só saía cangaceiro ou fanático. A ida do padre até o reduto dos romeiros foi tomada como uma temeridade, um esforço perdido. O Padre Amâncio morava ali, diziam eles, há vinte anos e era o mesmo da chegada. Ingênuo, acreditando em tudo que lhe vinham contar. Criara dentro de casa uma pessoa da Pedra. Nunca o Açu perdoou a imprevidência de seu vigário. E agora, acompanhado daquele Bento, se botava para o meio dos fanáticos, pensando que conseguiria mudar a selvageria daquela gente.

D. Eufrásia recebeu visitas no dia da partida do irmão. Veio a mulher do Major Cleto lastimar o gesto do vigário. Veio até D. Francisca do Monte com receio de que sucedesse uma desgraça. O Padre Amâncio, para ela, não devia ter ido.

— Pois eu acho que ele fez muito bem, foi dizendo D. Eufrásia. Amâncio sabe o que faz. Era a obrigação dele.

As mulheres se encolheram. Tinham vindo lastimar. Todas sabiam que o povo da Pedra Bonita era ruim mesmo.

— Ruins são todos daqui, gritou D. Eufrásia. Amâncio veio para este meio contra a minha vontade. Mas já que está, muito bem. Foi para a Pedra e fez muito bem.

As mulheres se despediram alarmadas com aquela agressividade. D. Eufrásia ficou só. Maximina lá para dentro dava conta do seu trabalho. A velha estava só na casa silenciosa. Sabia que o irmão se acabava, envelhecido, doente, sem se queixar. Fizera o possível para virar a vida dele, mas fora inútil. Tinha que ser aquilo que era mesmo. E vinham aquelas sirigaitas dar voto nas coisas que ele fazia. Aquela Francisca do Monte querendo mancar, querendo orientar. Aquela D. Auta, com partes de entender de tudo. Era mais de meio-dia. Maximina teria ainda que matar uma galinha e preparar para o irmão que chegaria com fome. O que teria acontecido ao irmão?