Pedra Bonita
Capítulo 8
FOI quando se deu a briga do juiz com o Padre Amâncio. O assunto apaixonou o Açu inteiramente. As mulheres quase todas ficaram do lado do vigário. O Coronel Clarimundo não quis se meter na briga. O Major Evangelista não vacilou. Quem estava com a razão, dizia ele , era o padre. Mas com o juiz ficaram outros: o oficial de justiça, o Major Cleto, o escrivão Paiva. Os podêres públicos da terra se aliavam. Só o Coronel Clarimundo, que era o prefeito, ficou neutro, sem querer tomar partido. Aquilo era uma briga à-toa, passaria com o tempo, dizia sempre. O Padre Amâncio era um santo, não guardava raiva a ninguém. Mas a luta foi crescendo. O juiz agredindo, fazendo o diabo com o padre. D. Senhora apoiou o marido. As mulheres da terra romperam com ela, acharam uma vergonha vir ela se meter na questão quando fora o marido que dera motivo a tudo. Começou a briga por causa do filho do juiz, que se metia na igreja, abusando da bondade do Padre Amâncio. Depois foi o sermão, o grito de protesto do padre contra o escândalo que o juiz estava dando. O Padre Amâncio não teve dúvida. Subiu ao púlpito e protestou contra aqueles que deviam dar exemplos aos mais humildes e que no entanto davam espetáculos de falta de compostura. Todo o mundo sabia com quem era. Depois disto o Dr. Carmo andou espalhando que rasgaria a batina do padre, e a luta se desencadeou feroz. Todo o mundo esperava que o padre se rendesse ao primeiro golpe. Ali mesmo no Açu, um velho, um dos antigos da terra, tinha botado para fora do lugar um padre que se metera com a vida dele. O juiz mandava no destacamento, era querido pelo prefeito e escrevia notícias para os jornais do Recife. Mas o padre resistiu. Andava pela rua grande, como sempre, saindo para os seus serviços só, desprevenido, aquele sorriso, aquela tranquilidade de sempre. D. Eufrásia havia chegado naqueles dias. Viera desapontada com as notícias. E achava, mais que nunca, que o irmão devia abandonar aquela terra infeliz. O vigário sorria dos exageros da irmã, e o combate marchava sem tréguas. Os partidários do juiz agredindo, e as beatas dizendo horrores do juiz. O padre, no púlpito, aos domingos, martelando no mesmo tema: os grandes da terra deviam dar o exemplo aos mais humildes. O que poderiam exigir dos ignorantes os que sabiam, os poderosos, se eram eles próprios que não se davam a respeito? Apareceram boletins feitos a mão, dizendo horrores do padre. Falavam dos filhos do sacristão, que tinham os olhos azuis como os do Padre Amâncio. D. Auta era chamada de burra-de-padre. A coisa porém chegou ao auge no carnaval. O juiz preparara um bumba-meu-boi para desfeitear o vigário. E o boi andou de rua afora, dançando, cantando. O mateu, no chicote do capitão:
Ô mateu, cadê o boi?
Senhor, o boi morreu.
E lá vinha um padre com uma batina rasgada. O mateu gritava para ele :
"Seu padre-mestre
Não seja tão mau.
Dance aquele passo
Do pinica-pau".
E o padre saía dançando fazendo trejeitos horríveis.
O negócio fora feito para o Padre Amâncio. Quem fazia de padre na função era Lula, o criado do juiz. As mulheres bateram as janelas para o bumba-boi. Mas o bicho ficou dançando por debaixo da tamarineira. Juntou de gente para ouvir. E a figura do padre, debochado, fazendo o povo rir. O juiz, de cadeira na porta, com a mulher e os filhos, assistia de longe à representação que arranjara.
O Major Evangelista dizia para quem quisesse ouvir: se naquela terra houvesse uma autoridade, não aconteceria uma miséria daquelas. E o Lula, de roquete e estola, dando saltos pelo meio da rua, fazendo o palhaço da função. Mateu, o negro fujão, metendo-lhe bexigadas. E o padre gritando, pedindo misericórdia. Contando das ladroeiras que fizera, das mulheres que namorara.
Uma miséria. D. Eufrásia esteve para sair na rua e dar um ensino naqueles cabras. O irmão conteve-a. Deixasse. Aquilo não valia nada. No outro dia era no que se falava. O juiz fizera o diabo.
E a notícia espalhou-se pelo sertão. O bispo mandou o vigário de Flores sondar o que tinha havido. Era um padre moço, cheio de luxo. Não sabia ele como se podia viver ali. Só mesmo uma esquisitice. Padre Amâncio não se queixou. Toda a história não passara de uma leviandade. Estivesse certo o bispo que ele saberia levar tudo no bom caminho. O enviado quis porém ouvir as pessoas do lugar. Foi ao delegado, que ficou todo do lado do juiz. O Coronel Clarimundo botou o corpo de fora. O Major Evangelista não teve meias palavras. Se houvesse autoridade, aquilo não teria terminado como terminara. O Padre Amâncio fora ofendido miseravelmente. Depois o padre moço se foi, e com mais quinze dias não se falava no bumba-meu-boi. Mas o vigário não abandonava o seu tema. Os boletins continuavam com a mesma veemência. Vinham com letra bem talhada, na boa letra da mulher do juiz. Dizia Joca Barbeiro que D. Senhora passava a limpo as verrinas. O juiz escrevia e a mulher caprichava. Lá um dia, porém, o Dr. Carmo mandou um recado ao padre pelo cabo do destacamento:
— Seu Vigário, portador não merece pancada. Mas o doutor me mandou aqui. Eu não vim por vontade não. O doutor mandou dizer para o senhor acabar com a prática.
O padre sorriu, falou brando com o cabo. Ele sabia que o homem não tinha culpa nenhuma. A notícia se espalhou pela vila. O juiz ia acabar com o sermão do Padre Amâncio. No próximo domingo haveria uma desgraça. O padre porém não esperou pelo domingo. Naquele mesmo dia de tarde houve bênção. E o vigário falou para os seus paroquianos. Não provocava. Não insultava, mas no cumprimento do seu dever ia até ao sacrifício da própria vida. Naquele dia recebera uma ameaça. Queriam fazê-lo calar. No entanto ele estava ali para falar em nome de Deus. Não havia força humana que o contivesse. Falaria, viesse o maior poderoso da terra. Falaria. Era fraco e velho. Tinha as mãos limpas de arma, porque as suas armas valeriam mais que as outras. E entrou no seu tema. E naquela noite falou no próprio nome do juiz, expondo o caso com toda a sua nudez. As mulheres tremiam. Não havia homens ali dentro, só o sacristão Laurindo e Antônio Bento. A campainha encheu a igreja de som. O incenso subiu para o telhado, foi embriagar os morcegos. O Padre Amâncio já estava na sacristia para sair. Antônio Bento ao seu lado esperava a hora. As mulheres do Açu, agoniadas, esperando que sucedesse uma desgraça. Depois o vigário saiu com D. Eufrásia. E Antônio Bento fechou a igreja. O cheiro do incenso permanecia. Os morcegos chiavam. O Padre Amâncio era um grande, pensava Antônio Bento. De manhã recebera aquele recado. E não esperara o domingo, fora logo em cima do gordo. Meses atrás o safado passara-lhe aquele carão, ameaçando-o com cadeia e surra. O Padre Amâncio não temia, sorrindo de todas as ameaças do juiz.
E as coisas foram assim correndo, até que o filho do juiz achou que devia entrar na briga. Era num domingo. Antônio Bento havia terminado os seus serviços na igreja e estava na beira do rio lavando os cavalos. Aí apareceu o filho do juiz com mais uns dois outros e se dirigiram para o criado do padre.
— Croinha sem-vergonha, gritou ele para Antônio Bento.
E Bento calado. Então cresceram os desaforos. E ele foi saindo, puxando o cavalo do poço. Antônio Bento sabia. O filho do juiz viera para aquilo mesmo. Teve vontade de fugir, mas não havia jeito. Vieram os três para cima dele. Bento estava com o cabresto na mão. E meteu a corda na cara do agressor. Rolaram pelo chão, apanhou muito. Os três caíram em cima dele com vontade. Mas por fim houve um grito de gente de fora. E ficou só na beira do rio seco. Corria sangue de sua boca. Quis chorar, mas a raiva não deixou. Teve vontade de correr e de faca matar um por um da casa do juiz. A mulher, os filhos, o gordo. Já estava em casa, quando bateram na porta. Ouviu então o Padre Amâncio falando exaltado:
— Diga ao Major Cleto que venha buscar.
A conversa era com o cabo do destacamento. Duas praças estavam na porta.
— Antônio, gritou o padre, venha cá. O cabo veio com ordem de prisão contra você. Disse-me ele que você andou de briga com o menino do juiz. Como foi isto?
Contou tudo. Apanhara dos três, fora insultado.
— Pois, disse o Padre Amâncio para o cabo, diga ao Major Cleto que venha buscar o menino.
Com pouco mais chegou o Major Cleto. O melhor era deixar o rapaz ir com ele . Podia o Padre Amâncio ficar certo que nada aconteceria. Aí o Padre Amâncio cresceu a voz. A sua voz tremia. Os homens que estavam na sala baixaram a cabeça.
— Pois, Major Cleto, irei preso também. Bote-me com ele no meio dos ladrões e dos assassinos. Faça isso para dar gosto ao seu juiz. Vamos embora. Quero que o povo do Açu saiba e veja o seu vigário metido na cadeia. Estou pronto.
E apanhou o chapéu para sair.
— Vamos, Antônio!
O Major Cleto ficou estarrecido e a casa do padre repleta de mulheres. Umas choravam. D. Eufrásia, na sala, não se continha. Eram uns miseráveis. Juiz, delegado, prefeito, todos uns miseráveis. O sacristão Laurindo, amarelo. O padre e Antônio Bento já na porta para seguirem para a cadeia.
— Seu Vigário, falou o Major Cleto, eu não levo o senhor. Vim aqui para prender o criado. Esse rapaz é mau mesmo. O Joca Barbeiro me contou que há pouco tempo ele andou com má-criação. E o menino do juiz é a segunda vez que é agredido por ele . Vim aqui para prender este valentão.
— Não é verdade, respondeu o Padre Amâncio. Posso lhe dizer: é um rapaz como qualquer outro do Açu. Criei como meu filho. Não conheço melhor. Agora esse rapaz de quem o senhor fala é que é um valdevinos.
A negra Maximina apareceu na sala. Parecia fora de si. Os olhos vermelhos:
— Ninguém leva Toinho, cambada de espoletas!
O Padre Amâncio mandou que ela se calasse. Não se calou. Não estava bêbada não. Toinho dali não saía. Ela não tinha medo de soldado. E chegou na porta, gritando para as duas praças:
— Vão limpar os penicos do juiz!
Os soldados riam-se. Foi quando apareceu o Coronel Clarimundo. Pediu ao povo para sair da sala, pois ele queria falar a sós com o padre e o delegado. Agora porém a coisa era outra. Já estivera na casa do juiz e fora franco com ele . Até aquela data fugira de se envolver no caso. O padre era quem tinha razão. Toda a razão. A sua mulher há tempo que vinha lhe falando nisso, aconselhando-o a que ele tomasse partido. Não quisera, pensando que o juiz tomasse juízo. A coisa chegara porém a um ponto que não podia continuar de maneira nenhuma. Dissera mesmo ao juiz.
— Dr., com padre não se bole. O senhor está brincando com fogo.
E a coisa viera dar naquilo. O Major Cleto estava também na sua razão. Autoridade superior mandara uma ordem para ele cumprir. Viera. O padre achava que não, queria ser preso também com o criado. A coisa aí era outra. Ninguém prendia um padre. E depois coberto de razão como ele estava.
— O menino deu no outro, disse o delegado.
— Brigas de menino, respondeu o Coronel Clarimundo. Nunca ninguém foi parar na cadeia por besteiras desta ordem. Então porque o filho do juiz briga na beira do rio, vai se prender o que apanhou, o que está ferido? Prenderam ele , a semana passada, quando quebrou a cabeça dum moleque na feira?
O Major se explicou. Não tinha sabido do caso. O Padre Amâncio não dava uma palavra.
— Padre Amâncio, falou o Coronel Clarimundo, agora eu quero é falar com o senhor. Autoridade não pode ser desrespeitada.
— Mas eu não estou desrespeitando autoridade nenhuma, Seu Coronel.
— Não é isso o que eu digo. O senhor nesta vila só tem feito o bem. Eu levo o menino comigo e tudo fica no que deve ser. É só para não desrespeitar a autoridade.
E a coisa se resolveu assim: Antônio Bento saiu com o Coronel Clarimundo, esteve na cadeia uma hora e depois voltou para casa. Lá, sentado no corpo da guarda, media os acontecimentos. Aquele dia inteiro girou em torno dele. Vira o padrinho violento na sua defesa. Vira D. Eufrásia, a negra Maximina, a casa cheia. O seu padrinho queria vir com ele , se juntar com os presos, sofrer com eles. A cadeia do Açu era aquilo que ele via. Lá dentro, no quarto escuro, estavam os presos. Ouvia a conversa deles, as risadas que davam. Entrava a luz pela grade de madeira grossa. Fedia, vinha um bafo de coisa podre de lá de dentro. De manha cedo saía um deles com uma corrente num pé, um soldado atrás, com uma barrica de sujidade na cabeça para a faxina. Lembrava-se de um criminoso de morte que fugira da beira do rio, numa manhã de chuva. Ninguém soube mais notícias dele. O soldado seguira preso para o Recife como castigo. Sentado ali no banco do corpo da guarda, Bento pensava nessas coisas. Chegou um preso na porta e do buraco falou para ele :
— O que foi que tu fizeste, menino?
O soldado respondeu por ele :
— Nada não. Com pouco mais vai embora.
Bento viu a cara do homem, amarela, inchada, os olhos sumidos. Lá para dentro, para o meio deles, queria o juiz que ele estivesse. Ficaria a vida inteira por lá. Apodreceria, ficaria com aquela cara, se não fosse o seu padrinho. Aí o preso fez um sinal para ele , chamando-o mais para junto de si:
— Menino, eu estou inocente. Me botaram aqui por causa de uma intriga. Eu sou inocente.
A voz era triste.
— Eu conto a minha história. Foi na feira do Câmara que me pegaram. Eu estava sossegado de meu, quando chegou o Capitão Joca de Matos com duas praças. "É este o ladrão", foram dizendo. E me deram de cipó-de-boi para descobrir o cavalo. Preguei uma mentira para me ver livre. Dizendo que tinha vendido o animal na feira do Lajedo. Eu menti para me ver livre da peia. Nunca mais que eu saia daqui. Ladrão de cavalo, quando não morre, apodrece. Não sou ladrão. Se tivesse um doutor, eu me soltava.
A fala do homem era triste de cortar coração. Depois gritou um lá de dentro:
— Deixe de choro, Bolinha!
Aí Bento se lembrou. Aquele era o conhecido Bolinha. Recordava-se da prisão dele. Viera amarrado de Camaru até descobrir o furto. Era o maior ladrão de cavalo dos arredores. Já tinha respondido júri por crime de morte e de roubo. Falando, parecia um santo. Uma pobre vítima. O soldado chamou um outro para mostrar:
— Luisinho!
E apareceu um menino.
— Este está com duas mortes nas costas.
— Qual, Seu Joaquim! O senhor está brincando? Não matei ninguém.
Ainda falava como menino, de voz fina.
— Botaram a coisa pra cima de mim. Quem furou os homens não fui eu. No júri, o senhor vai ver, eu me livro.
O soldado contou o fato. Ele e o pai moravam numa fazenda de um velho no Jenipapo. Brigaram com o vaqueiro e sem que nem mais pegaram o homem com um filho numa emboscada e mataram os dois. O velho morreu na diligência. Só puderam trazer o menino, que nesse tempo podia ter uns quinze anos. Ainda não tinham feito o processo dele. Mas não chegava vivo até lá. Pegara uma tosse na cadeia que não parava. Até sangue botava de quando em vez.
Antônio Bento estava era doido para sair dali. Só à tardinha o cabo mandou-o embora. No entanto parecia que havia cumprido uma sentença de anos. Correu para casa. A negra Maximina estava na cozinha falando só, nos seus azeites. D. Eufrásia, na cadeira de balanço, e o Padre Amâncio no quarto, descansando na rede. Foi para o padrinho com um nó na garganta. Beijou-lhe as mãos.
— Vai tocar as ave-marias, já está quase na hora.
Antônio Bento subiu a torre da matriz. Embaixo estava a vila do Açu, a tamarineira com gente conversando, o Coronel Clarimundo na porta do estabelecimento. Iam chegando as velhas. D. Francisca do Monte apontava no fim da rua. D. Auta, arrastando os quartos, aparecia pelo outro lado. Puxou o badalo. Via os homens da tamarineira de chapéu na mão. D. Fausta teria parado o bordado para rezar. As andorinhas voavam da torre com ó toque, cortavam o espaço, chilreando. Aquele toque para elas era um rumor imenso. Voavam com medo. O Açu está ali aos olhos de Antônio Bento. Submisso aos seus pés, ao som do sino que ele tocava. Homens e mulheres ouvindo a voz do sino. Ele, Antônio Bento, era um instrumento de Deus. Todos, àquela hora, àquele toque, pensariam em qualquer coisa acima da terra. Até o gordo, o juiz, D. Senhora, os presos da cadeia, o ladrão de cavalo, o Luisinho com duas mortes, subiam um palmo acima da terra para pensar na vida que viria depois. Àquela hora, onde estaria Dioclécio? Em que terras estaria ele ? Que mulher estaria amando? Nem se lembraria do Açu, nem se lembraria do amigo que deixara. As mulheres tiravam o terço com o Padre Amâncio no altar-mor puxando a oração. O pigarro de D. Francisca do Monte, e as velhas respondendo, como se gemessem pelas dores do mundo. Bento esperou que todos saíssem da igreja. A lâmpada do Santíssimo parecia imensa na escuridão do templo fechado. Toda a luz do mundo está ali. Deus trancado no sacrário, trancado na igreja, fechado com chaves pelas suas mãos, daria forças ao Padre Amâncio para enfrentar o juiz, daria forças a Dioclécio para varar o mundo e cantar como um pássaro.