Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 21 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 5

 

QUANDO Bentão apareceu com Domício era noite alta. A velha Josefina chorou de alegria. E Bento abraçou-se com o irmão, como se ele estivesse há um ano fora de casa. Ficaram os dois no quarto, a princípio calados. Depois Domício falou:

— Bentinho, vamos lá para fora. A lua está muito bonita. Pularam pela janela. E Domício contou a sua história: — Tu nem queira saber, Bentinho, o que eu aguentei. Os soldados foram falando em me matar até dentro de Dores. Atravessei esta caatinga toda pensando na morte. Muitas vezes tive até vontade que aqueles pestes me atirassem, me deixassem na terra para os urubus me comer. Era melhor que o que eles foram fazendo. Que culpa tinha eu pela morte feita por Aparício? Passamos por perto da fazenda do Coronel Zé Gomes. O sargento queria ir lá fazer um serviço. O Coronel está de baixo, na política. Ouvi o sargento dizendo que tinha um serviço pra fazer no Araçá. Parece que ele desconfia que o velho é coiteiro deste tal de Deodato. Aparício está é com este cabra. Fiquei pensando em Aparício. Se ele chegasse com o bando dele, não ficava nenhum vivo daqueles soldados. Nunca tive vontade de ser cangaceiro, mas agora eu tenho. Tu não avalia, Bentinho, o que foi que eu passei. Dois dias e duas noites no meio dos pobres. Menino, fedia que tu não calcula. A gente fazia as precisão ali mesmo, num balde. Depois o sargento me levou pra o interrogatório com o delegado. Eles queriam saber onde estava Aparício. Chegou-me vontade de inventar uma coisa, para me ver livre daquilo. Quis até dizer que Aparício estava na fazenda do Coronel Zé Gomes. Mas não tive coragem. Eu não sabia nada. O delegado mandou então que eu voltasse pra cadeia. Sabe quem estava lá, na cadeia? Aquele Dioclécio de que tu me falou! Prenderam ele na fazenda de um coiteiro. Ele me contou coisas dos diabos, Bentinho, tu nem pode imaginar. E tocou viola. Aquilo, sim, que é um tocar. Havia um preso de Vila Bela que disse à gente que cantar como Dioclécio só mesmo o velho Romano. O homem me contou tanta história deste mundo, que me deu até vontade de me danar por aí afora. Ele saiu livre comigo no mesmo dia. Ficou em Dores, porque ia pegar a feira no sábado, procurar tirar dinheiro pra mudar de terra. Chamei ele pra vim comigo aqui pra o Araticum. E ele me falou franco. Em casa de família de cangaceiro não metia os pés. Família de cangaceiro paga por tudo, fica bode expiatório de tudo que o filho faz. Na cadeia me contaram coisas medonhas. Lá estava um doido, um sujeito que tu falando com ele não dizia que era doido. Pois o homem só falava de coisa certa. Mas tempo de lua amarravam ele . Os presos não podiam dormir pensando no doido. Felizmente nos dois dias que passei lá ele não fez nada. Só queria era conversar, saber de tudo. Não sei não. Mas eu tenho pra mim que aquele homem tem é culpa escondida. Bentinho, tu não deve mais sair do Araticum. Sem tu aqui, eu me dano no mundo. Quando o homem me disse que eu estava livre, eu quis ficar com Dioclécio. Ele tocava viola, eu tocava também, a gente cantava e se ia por esse mundo como Deus quisesse. Me lembrei de ti. Só não fui por tua causa.

E calaram-se os dois. A lua ia se sumindo, e com pouco mais começaria a clarear a madrugada. O velame cheirava atrás de casa, e as folhas das oiticicas gemiam alto com o vento,

— Vamos dormir, Bentinho!

No outro dia Domício entrou no serviço como sempre.

— Bentinho, vai preparar o teu cavalo. Vamos dar uma olhada no pasto.

Era a primeira vez que Domício chamava o irmão para o serviço. O velho Bentão já estava de rede quando os dois saíram. Domício todo encourado e Bento de botas. Era de manhãzinha. Domício levava o bode no alforje, porque só voltariam de noite. Já estavam longe da casa, no meio da caatinga.

— Vamos entrar por aqui, disse Domício. Lá pra baixo fica um raso, onde o gado deve estar comendo.

E entraram de mato adentro.

— Cuidado com o rasga-beiço, baixa a tua cabeça.

E foram entrando. Mais para diante ouviram um rumor de vozes. Aproximaram-se. Aí ouviram um grito conhecido. Um chamado pelo nome deles. Era Aparício. No espojeiro com o grupo. Os cangaceiros espichados por debaixo do imbuzeiro. Levantaram-se de repente de rifle na mão, quando viram eles chegando a cavalo. Aparício falou para o chefe. Eram os seus irmãos. E foram para um canto. O irmão cangaceiro queria saber de tudo que se tinha passado. Domício contou tudo. A surra no pai, na mãe, a prisão dele, as lapadas na cara de Bentinho. Aparício ouviu tudo calado.

— A gente tem que dar um jeito nesse sargento, falou ele para Domício. Eu não te chamo pra isto porque tu não tem jeito mesmo. Senão te chamava. A gente só pode se vingar do que ele fez com o pai e mãe no cangaço.

E foram andando mais para longe. Os pássaros cantavam bem perto dos cangaceiros. A caatinga inteira ouvia-os. Voavam periquitos em bando e de quando em quando um grito de alarma enchia o acampamento. Era uma seriema que dava as horas como os jumentos.

— A vida no grupo é ruim, continuava Aparício. A gente come fogo. Tu não sabe o que é passar quinze dias por aqui, comendo carne-sêca com farinha. Se não fosse os imbus, eu nem sei como se vivia. Tive até vontade de ir me entregar em Dores. Mas pensei. Eles me matavam. Pra morrer, eu morro no cangaço. A vida é danada, Domício, mas a gente aguenta. Outro dia nós demo um fogo pra lá da Vila Bela. Morreu dois dos nossos. A tropa era grande. Tivemo que correr cinco dias e cinco noites sem parar. Comendo e bebendo sem parar um minuto. Nesta carreira viemo parar aqui. Nós vimo há uns oito dias quando a tropa passou pra o Araticum. O chefe não quis atacar. Nós estava no descanso. Nós tivemo a notícia por um coiteiro que mandou dizer. Mas não tem nada não. O sargento de Dores vem por estes dias na fazenda do Coronel Zé Gomes. O chefe já teve notícia dessa diligência. O Coronel é amigo do chefe. Vai ser uma carniça dos diabos. O chefe já tem um vigia no caminho para prevenir a passagem da tropa. E nós vamos nos entrincheirar nos lajedos lá em cima. Tu vai saber da desgraça.

Os cangaceiros falavam alto, na jogatina. Aparício mandou os irmãos embora. Domício e Bento saíram impressionados.

— Tu ouviste, Bentinho! Coitado de Aparício. Com pouco mais fica aí de dente arreganhado para o sol. Morre num tiroteio e se acaba de uma vez. Vida desgraçada é essa de sertanejo!

Foram andando. E num raso de caatinga encontraram o gadinho de Bentão comendo. Eram uns dez garrotes. Estavam gordos, de rego aberto.

— O velho deve vender essas reses logo. Tu não ouviste Aparício dizer que vão botar tocaia na tropa? Pois fica certo. Vão cair em cima da gente depois do caso.

Debaixo de uma catingueira se apearam. O raso da caatinga tinha pasto para uma boiada. Soprava um ventinho bom. Domício tirou o alforje, fez fogo e assou no espeto de pau a carne-sêca para ele e Bentinho.

— Coitado de Aparício, disse ele . Não diz à mãe que a gente esteve com ele . Pra que fazer a velha sofrer mais?

A caatinga cheirava por todos os paus.

— Nunca vi tanto pasto, Bentinho. A chuva foi de três dias e tudo está assim. Mas a gente não vai pra diante. A gente fica toda a vida com o Araticum naquela miséria. Não se pode ter nem um vaqueiro. É a história da Pedra em cima da gente. Sangue de Judas, Bentinho. Isso não passa mais.

Bento achava que não. Não acreditava naquilo.

— Tu acredita, Bentinho. Não quer é dizer. Mas tu acredita.

De fato, Bento parecia que acreditava. Ouvira no Açu todo o mundo falando, todo o mundo botando para a Pedra Bonita a razão das desgraças da vila. O grande segredo era aquele. Quantas vezes não se apavoraram com as referências ao seu povo!

Agora estava ele sabendo de tudo. No Açu era a Pedra que respondia pelas desgraças. Na Pedra era a gente dele que trazia consigo o estigma tremendo. Sangue de Judas. Saíra de uma família que dera o vendedor do Filho de Deus. Não podia ser verdade. O Padre Amâncio falava das superstições. A verdade estava na igreja. O mais era heresia, pecado contra o Espírito Santo. Toda aquela gente da Pedra vivia no pecado monstruoso, na mais baixa ignorância. Domício acreditava naquilo como acreditava na cabocla encantada. Ele, que se criara por fora, não tinha o direito de se nivelar com os seus, de se entregar ao que ele sabia errado, uma fraqueza. Devia então estar reagindo contra as crendices do irmão. E assim Bento fazia todos os seus cálculos, tomava as suas providências. Em casa a vida marchava no mesmo passo. Bentão cada vez mais calado. Domício esperando a cada instante a desgraça dos cangaceiros com a tropa, e a mãe doida para que o filho mais moço voltasse para junto do padre, que saísse dali quanto antes. Ela sabia que não teriam mais descanso com a vida que Aparício escolhera. Por qualquer coisa a força da polícia estaria batendo em casa, fazendo absurdos.

Uma noite, sentiram a casa com gente por fora. Ouviram então a voz do filho. Era o grupo de Aparício que vinha de rota batida para o Araçá. Sinhá Josefina levantou-se para fazer café para os homens. Apesar de ver o filho no meio deles, teve medo daquela gente. Infeliz do filho que se metia naquela vida. Os cabras bebêram café, conversaram muito, sentados pelo copiar, e o velho Bentão palestrou com o chefe.

— Ah! capitão, dizia o cangaceiro, o seu filho é macho de verdade. Rifle na mão dele vadeia como um brinquedo. No tiroteio da Vila Bela o rapaz atirou de enjoar.

Aparício lá para dentro conversava com a mãe, que se maldizia da vida:

— Tu não pode encontrar outro jeito da vida, menino? Olha o destino de teu avô.

Aparício se ria com a velha. Tinha que ser. Tudo já estava traçado lá em cima.

E lá para a madrugada saíram. As alpercatas tiniram no barro duro. Bento e Domício ficaram com pena do irmão. Os cabras nem pareciam ter a vida no risco que tinham. Bebiam café no descanso, no deboche uns com os outros. Domício disse para Bento:

— É o que eu te dizia, eles vão botar tocaia no Sargento Venâncio. Tu vai vê é a notícia.

E ficaram acordados o resto da madrugada.

— Bentinho, nós devemos é voltar pra falar com o velho Zé Pedro.

— Falar o quê? Domício, aquele velho vive como doido, dando tudo que é invenção do povo como verdade.

— Bentinho, tu acredita também.

E assim ficaram dias. Bento nas suas cogitações. Domício no serviço, dando conta de suas obrigações, pouco falando da Pedra. Estavam na expectativa da tocaia no Sargento Venâncio. E o Araticum todo verde. Chuvas de bom inverno tinham caído. A caatinga firmara a rama e o gado andava gordo. Bentão na rede cismava. O dia inteiro ali sem dar sinal de vida. Só o bode merecia os seus cuidados. Só ele fazia com que o velho se levantasse para lhe dar a ração de milho. Ou então mudar a água do caco onde o bicho bebia. Corresse o mundo no seu eixo, andassem os cangaceiros pelos serrotes, pelas caatingas, passassem as volantes, Bentão não se alterava. A mulher achava aquilo uma doença, uma moléstia do marido. Todo homem no sertão tinha as suas coisas para dar conta. O seu era naquele cismar desde que se casara.

Agora Bento também tocava viola. Não fora difícil aprender. Nas noites de lua Domício ensinava o irmão:

— Tu precisa é de sentir a música bulindo dentro. A gente fica com ela no corpo, até que ela sai. O verso também sai. É só a gente ter coração para a coisa.

E Bento pegava no instrumento e ia até tarde no aprendizado. Domício fazia verso, inventava. Inventava histórias. Lá vinha ele com as suas histórias, os incidentes com os cangaceiros, com os soldados. Tudo com a doçura de amor.

— Dioclécio, Bentinho, canta como nunca eu vi ninguém, dizia Domício. Lá na cadeia ouvi o bicho pinicar a viola e deitar o peito no mundo. Vi um preso chorando, um ladrão de cavalo. Ladrão de cavalo é bicho duro de chorar. É gente ruim de verdade. Pois o cabra chorou com a história do amarelo. Tu me tinha falado de Dioclécio, e eu pensei que fosse coisa de menino. Não é não. O bicho é cantador de verdade. Aquele cargueiro que toca ali nas oiticicas, aquele cabra, se vivesse no mundo como Dioclécio, ia dar muito muito. Cantador precisa de andar, de correr terra, saber de coisas. Eu aqui no Araticum não dou mais pra nada. Aprendi com os passarinhos. Ah! Bentinho, tu não sabe o que é a gente estar sozinho na caatinga, ficar debaixo de um pé de imbuzeiro, na fresca, e ouvir um bicho deste abrir o bico no mundo. Só mesmo coisa de Deus. Aquilo vai dentro. Tu nunca ouviste uma juriti pela boca da noite cantando. Dá nó na garganta. Eu posso dizer que aprendi com os passarinhos. Quando o bichinho pára e a gente vem andando de caminho afora, a coisa fica no ouvido, fica guardada dentro da gente. Depois o cantador pega da viola, manda os dedos nas cordas e canta, Bentinho. Muita vez eu estava no corte de facheiro pra o gado. A seca está solta no mundo. O sertão pegando fogo. E eu de foice na mão pra o serviço. O céu é uma côr só, azul, azul que não se acaba mais. Eu paro. Fico pra um lado olhando as coisas. Tudo parado, os gravetos, tudo seco. Pois, menino, aí me vem uma vontade de pegar da viola e tocar. Você chega escutar os gravetos se partindo, estalando, como um bordão espichado. Vem uma vontade danada de cantar. Tudo aquilo pega a gente de jeito. Cantador só precisa é de andar. Dioclécio é um baita por isto. Só não me danei com ele , eu te digo, foi por tua causa. Pois não é que estou com a cisma de que não posso mais te deixar ir embora?

Domício parava e Bento mudava de conversa. Domício no Araticum valia para o irmão mais moço por tudo e por todos. Havia a mãe, mas Bento não sabia por que sentia por ela um amor como se fosse uma coisa passada, finda. No irmão vivia tudo que ele mais amava. E tinha pena de deixá-lo, de ir para o Açu e abandonar Domício só no Araticum. Quem o pegaria nas noites em que ele ouvia a cabocla cantando?

— Bentinho, lhe disse uma tarde Domício, tu ainda não fôste a uma festa aqui na Pedra. Pois eu, antes de tu chegar aqui, vivia de festas. Mãe se queixava, dizendo, brincando, que eu só dava mesmo pra festeiro. Não era por isto não. Lá eu entrava e o povo me cercava logo pra ouvir. E é bom, Bentinho, vê gente atrás de nós pra ouvir. Ia mais pra isto. Não tinha fogo pra as outras coisas. Nunca tive vontade numa mulher, numa moça.

Bento quis desviar a conversa, mas Domício insistiu:

— Tu já tiveste?

O outro se calou.

— Menino, eu nada disto sei dizer. A outro eu não falava, mas a ti eu digo. Eu não sei que gosto tem esse bicho de mulher. Eu vi Aparício se pegando nas danças, andar por aí atrás das outras, contar história de namoro. E eu nada. Pensei que fosse doença, e quem sabe se não é? Cantador assim como eu, Bentinho, é mesmo que novilho capado. Tenho desgosto. A voz de Domício era de quem falava para se confessar: — Desgosto eu tenho, pra que negar? Antes de tu chegar aqui, mãe me disse uma vez: "Domício, tu não te casa? Estou ficando velha, e aqui em casa a gente precisa de um adjutório". Me ri para ela. Me ri pra esconder o desgosto. Nunca tive vontade disso. Aquele velho Zé Pedro da Pedra, também falam dele. Eu sei que falam de mim. Podem me chamar de festeiro, mas nas vaquejadas eles nunca me passaram a perna. Mas só vou a festa pra tocar. As moças no começo se danaram. Hoje não. Nem fazem caso de mim. E eu até gostei.

A confissão de Domício era triste. Bento ouviu o irmão compungido. Pobre dele que nem aquilo tinha para viver no Araticum. Seria que ele também fosse assim como Domício? Lembrava-se que nunca tivera namoro no Açu. Criado de padre. Todos falavam que ele iria para o seminário, e havia um certo respeito por parte das meninas para ele . Nunca tivera como os outros do Açu aventuras pela Rua da Palha. Lembrava-se de D. Fausta e daquela tarde em que ela o pegara com uma fome canina. Lembrava-se que sentira uma coisa boa, um frenesi que lhe fora da cabeça aos pés. Ficara com medo. E nos seus sonhos com a mulher do Dioclécio, aquela de cabelos compridos, ele se sentia dono de tudo que era dela. E só. Domício, com mais oito anos do que ele , confessava, se abria naquele sentido com uma voz tocada de vergonha. E Domício, que era mais forte, que derrubava bois, que corria pela caatinga, cortando por cima dos xiquexiques, furando ramadas de rasga-beiços; o irmão, que gritara para o Sargento Venâncio, lhe confessava aquela fraqueza medonha. Então Bento pensou na maldição da Pedra Bonita. Seria mesmo o destino dos seus extinguir-se, levar o diabo? O velho Zé Pedro falava de uma virgem que aparecesse para ser comida por um novo Filho de Deus. Teria que aparecer um novo santo na Pedra, teria que aparecer uma criatura da família Vieira, que desse o corpo e a alma para o santo purificar. Tudo aquilo não passava de superstição, de ignorância do seu povo. Via o velho Bentão com o rosário no peito cabeludo. Domício e Aparício não deixavam os seus rosários. Todos acreditavam em Deus, pediam a Deus, exigiam de Deus o bom inverno e a boa sorte. Sua mãe rezava como as outras mulheres do Açu. Domício rezava antes de dormir com ele . Aparício devia rezar também nas caatingas, por baixo dos imbuzeiros. Deus existia para todos. Era uma força de cima, que dava de bom e de ruim. Eles do Araticum tinham a sua sina. Domício botava tudo para o caso da Pedra, e daquilo ninguém o tirava. Bento lhe dizia que não. Todos precisavam fugir das heresias, das superstições, dos erros. E assim iam. Domício no serviço, Bento acompanhando o irmão. Bentão no copiar, de rede, com o seu bode de lado, como se fosse um filho mais moço. E a vida no Araticum pacífica, doce, com as vacas dando leite, o milho crescendo no roçado e o gado gordo. Tudo muito bem. Há três meses que Bento chegara ali e nada de aparecer notícias do Padre Amâncio. Ele mesmo muitas vezes desejava voltar. Afinal de contas nada tinha que fazer por ali. O seu lugar era mesmo na igreja do Açu, ligado com as coisas de Deus, com o seu padrinho, com a negra Maximina. Sentia falta do Açu. Há três meses que estava na Pedra e vira muito e soubera muito. Lembrava-se de Domício e esfriava nos seus desejos. Tinha o irmão, que era uma coisa nova para ele . Aquele irmão forte, corajoso, sem medo da morte e tremendo de noite por causa de um canto de uma cabocla que não existia. Domício que derrubava bois na caatinga, que furava os espinheiros brabos, com medo da cabocla nua que chamava os vaqueiros para o fundo da terra. Como ficaria Domício sem ele ? Aparício se fora. Apesar de tudo, ele era dentro de casa uma força, um encosto para os outros. Domício ficaria sozinho, e quem sabe se não iria atrás dos cantos da cabocla nua, não se perderia para sempre? Mas tinha que ir para o Açu. O pai não gostava dele. Estava ali há três meses, e nem uma palavra o velho lhe dissera. Via-o com ódio, com raiva, naquela rede com o bode ao lado. Um homem infeliz. Pobre da mãe, que vivia quase sozinha naquela casa. E Bento ficava pensando nestas coisas, sentado no alpendre, do lado oposto ao velho. As abelhas zuniam na boca do cortiço. Dizia Domício que elas estavam com os favos cheios, com a obra do ano terminada. Quando Deodato estava ali, sabia fazer os serviços dos cortiços. Agora o velho Bentão entregava à mulher aquele trabalho. Ali no Araticum não havia assalariado. Só a família. Mesmo ninguém queria tomar terras por ali. Havia água, havia a serra verde. Mas o povo não queria saber das terras dos Vieiras. Era uma raça marcada por uma desgraça qualquer. Se ele ficasse, pensava Bento, podia ajudar a Domício. Ser uma força a mais no Araticum. Tinha idade e aprendia as coisas com toda a facilidade. Seria útil aos seus, à sua gente. Vinham-lhe, porém, as saudades do Açu. De manhã com a madrugada os toques de sino, as chamadas para a missa. A importância que havia adquirido na vila. Seria sacristão, mandando na igreja, ajudando missa, sabendo latim, alguma coisa acima de muita gente. Ali no Araticum havia Domício. E o irmão tomava conta de suas preocupações. Domício acreditava na Pedra e no destino infeliz de sua gente. Domício não amava, não tinha forças para o amor. Ali do alpendre, onde estava, Bento ouvia o pai dormindo. E a paz do Araticum era imensa. Agora com a tarde escutava, vindo da caatinga, o aboio distante de Domício. O aboio para o gado, mas era tão triste que parecia que era para um ente querido. Aparício no bando, nos lajedos, esperando a hora do fogo. Bentão roncando. E a mãe na mão de pilão. E Domício atrás do gado, com aquele canto que era como se fosse para adormecer um amor.