Pedra Bonita
Capítulo 7
ANTÔNIO BENTO parou o cavalo na porta do padre. A casa estava aberta. A negra Maximina gritou contente:
— Só quem adivinha!
Eles tinham chegado no dia anterior. O Padre Amâncio tinha sabido da prisão dos pais de Bentinho e estava esperando o Tenente Maurício, que saíra numa diligência. Mas ela levava comida para os velhos.
Bento botou o cavalo na estrebaria e correu à cadeia para ver os seus. Nem reparou na rua, no povo da tamarineira. Saiu cego de casa para a cadeia. E lá viu o pai e a mãe em petição de miséria. O velho sentado num canto com os outros presos e a velha num quarto com uma doida que viera de longe para ir para o asilo do Recife. Bentão não teve uma palavra. Nem se levantou de onde estava para olhar o filho.
— Bênção, pai, lhe disse Bento.
— Bênção de Deus, respondeu o velho, sem sair de onde estava.
E virou-se para o outro lado.
Sinhá Josefina falou. Chegou para o buraco da porta. A cara com os talhos ainda abertos da surra.
— Tu nem sabe o que foi a viagem, Bentinho. Os praças chegaram no Araticum com a moléstia dentro. Parecia cangaceiro tomando vingança. E o tenente foi logo pegando Bento teu pai e metendo o cipó. Queria saber onde estava Aparício. Nós não sabia de nada. Queria saber onde estava Domício. E foi o diabo. Apanhamos até o sangue espirrar. Os cangaceiros tinham matado dez praças e o Sargento Venâncio. Estavam dizendo que Aparício era o chefe do bando. E viemos apanhando de lá até cá. Quebraram os troços todos da casa. E só não mataram o gado, porque Domício antes de sair teve a idéia de soltar os animais pra o pasto. Senão, ficava tudo estendido para os urubus. Aparício só tem dado desgosto à gente.
Depois a velha quis saber como eles tinham levado o tempo, onde se esconderam e para que lugar Domício se botara.
— Deus queira que ele não siga o irmão. A vida de Aparício deve ser uma vida infeliz. Andando por este mundo de Deus. Matando, escondido como bicho, tirando dos outros. Ah! Bentinho, tu nunca mais deve voltar pra aquelas bandas. O padre teu padrinho já esteve aqui. É um santo. E eu pedi a ele pra não deixar tu sair mais do Açu. Ele ia mandar gente atrás de ti. Sinhá Maxi-mina vem todo dia trazer a comida da gente. Ainda existe gente boa neste mundo.
E voltou a falar de Domício.
— Tenho medo do pobre. Domício tem vez que não regula direito. Teve ataque em menino. Ficou bom por milagre. Eu desconfiava, quando via ele pra um canto, só. Ia pra as festas, e Aparício me contava: "Domício, só faz tocar e cantar pra os outros". Falei pra ele se casar: "Procura uma mulher que te sirva, Domício". E ele nem como coisa. Na viola, nos trabalhos dele. Felizmente não puxou à cara amarrada do pai. Bentão faz medo a quem não conhece ele . Nenhum filho tem essa coisa de Bentão. Até Aparício é um bom menino. Só foi pro cangaço por causa do crime. Quando era menino, eu tirava da cabeça dele essa história de cangaceiro. Um aguardenteiro tinha falado a ele do velho Aparício, o avô que morreu de briga. Os aguardenteiros encheram a cabeça do menino com as histórias dos antigos. E sempre eu dizia: "Aparício, não anda com essa história de armas de fogo". E ele vinha com a história do avô. Até que deu pra coisa. Mas tem bom coração. Não sei mesmo como ele está vivendo no meio de tanto cangaceiro malvado. Coitado do Domício. Tu deixaste ele sozinho, não foi? Ele não aguenta viver só. Ele tem um mal qualquer, uma coisa com ele que me faz medo. Nunca vi menino mais triste. Na retirada de 1904 ele ficava de olho grelado pra um canto, que me fazia medo. Parecia morto. Batia no menino pra ver a pestana bulir. E foi assim até ficar grande. É muito capaz de fazer uma desgraça.
Bento falou com a velha. O padre andava procurando meio de soltar eles todos. Voltariam para o Araticum, encontrariam Domício lá, viveriam bem. Os soldados não iriam mais fazer o que fizeram. O Padre Amâncio falaria com o tenente. O homem deveria ter coração como os outros. Até cangaceiros tinham. Ela ficasse tranquila, que tudo voltaria ao que era.
— Volta não, Bentinho. Enquanto Aparício viver como vive, a gente não tem mais descanso. Tudo que é volante vai fazer no Araticum o que o Tenente Maurício fez. Mas a gente tem é que se conformar com a vontade de Deus.
Bento deixou a cadeia com um nó na garganta. Precisava procurar o padrinho. E foi andando de rua acima. Lá estava a tamarineira. Passou por perto dos homens na conversa. O sobrado do Coronel Clarimundo incendiado de sol nas vidraças. Foi andando. Em casa encontrou o padre, que o abraçou com efusão, dizendo para Bento que o achava mudado, queimado, maior, um homem feito. Perguntou-lhe se já tinha ido visitar os velhos. E deu-lhe esperanças. O novo juiz falaria logo que chegasse o tenente. Pediria para mandar os velhos para casa. E quis saber de tudo.
Padre Amâncio foi para o quarto, puxou uma cadeira para Bento e pediu que ele lhe contasse tudo. O rapaz narrou incidente por incidente. A saída de Aparício, a prisão de Domício, o tiroteio nos lajedos, a destruição do Araticum, a surra no pai e na mãe. Ficou com os olhos molhados narrando, contando as desgraças dos seus. O Padre Amâncio falou emocionado: era aquilo mesmo. Estava há vinte anos naquele sertão e era sempre assim que combatiam o cangaço. Não sabiam escolher os perigosos, descobrir os maus. Iam em cima de criaturas mansas como se se atirassem em cima de feras. Os tenentes não eram culpados. Chegavam ali às tontas, castigando, implantando o terror para ver se davam jeito à coisa. Tudo errado. E o cangaço assim aumentava sempre.
— Domício, seu irmão, se tivesse outra natureza, teria caído no grupo, e você mesmo também. Há meninos que se metem nos bandos por essas coisas. O governo devia agir de outra maneira. Mas não. Pensa que o cangaço é coisa que se acaba matando, dando surra.
Padre Amâncio ficou de olho fechado, como era o seu hábito. Bento levantou-se e foi conversar com a negra Maximina. Queria saber de todas as novidades da terra. A maior de todas era a história de D. Fausta com o Sargento Lourenço da força. O homem era casado no Recife. Mas estava vivendo com a filha do Major.
— O engraçado, menino, é que ele acabou com a gritaria. Tudo era marmota da sem-vergonha. Queria era homem pra dormir com ela. O novo juiz é até um bom homem. Logo que a gente chegou aqui, ele procurou o Padre Amâncio. D. Eufrásia ficou em Goiana. Ela vem depois. Só não me danei no mundo por causa do Padre Amâncio. Nunca vi mulher mais cheia de noves fora. Passei três meses em Goiana na casa dele pra nunca mais botar os pés lá. Aquilo é lá gente! O marido é um banana, um leseira. E a mulher gritando com todo o mundo. Só gostei dela lá uma vez. Tinha visita na casa e o marido deu pra falar do padre. Ele dizia que o padre tinha perdido a carreira querendo ser bom demais. A mulher deu neles uns gritos. A visita baixou a cabeça e o marido veio pra o alpendre endireitar as gaiolas de passarinho. O bicho é doido por passarinho. Não tinha que ver o maluco do Major. Esse negócio de criar passarinho só mesmo para sujeito daquela marca.
Vieram outras notícias do Açu: Joca Barbeiro estava no lugar do Major. E quem estava mandando muito era o escrivão. O tal tenente não saía da casa dele:
— Estão até dizendo que ele namora a filha do Capitão Paiva. Nós chegamos na terça-feira e o tenente ainda estava na terra. O padre nem pôde falar com ele logo. Quando soube da prisão do teu pai e da tua mãe, o homem já tinha saído com a força pra os lados de Dores. Quem me veio contar aqui todas essas coisas foi D. Auta do sacristão. Tem agora também umas filhas dum cabo Laurindo, umas moças do Recife, muito das enxeridas. As bichas andavam na moda e davam dança em casa. D. Fausta se engraçou logo do sargento. D. Auta me disse que ela deu ao homem pra mais de cinco contos pra botar na caixa. Tinha guardado o dinheiro dos bordados que fazia de encomenda. Entregou tudo ao macho. Sem-vergonha. E dizer que vivia na igreja. D. Auta me contou tudo isto. Aquela D. Francisca não me entra. Destas beatas só mesmo D. Auta. Tu já deve saber que nos tempos antigos esta Francisca andou aqui com um caixeiro-viajante. Agora vive aí de crista arriada. Menino, tu não pode calcular como tudo mudou no Açu. É uma pouca-vergonha que não tem termo lá pra as bandas- da Rua da Palha. E as tais filhas do cabo é gente sem eira e nem beira. Com pouco mais tu vai ver o vigário dar um estouro por causa dessa pouca-vergonha. Ele não teve medo do juiz, quanto mais disto.
Bateram na porta. Era um homem que queria falar com o Padre Amâncio:
— Seu Vigário, disse o homem de chapéu na mão. Minha mãe morreu hoje das febres. E eu vim pedir ao senhor o caixão da caridade.
— Pois não, lhe disse o vigário. Bento, vai à igreja e dá o caixão. A chave da igreja está em casa do compadre Laurindo.
Bento saiu com o homem pensando. Era o primeiro trabalho que ia fazer, aquele que tanto o confrangia. Passou pela porta da cadeia, e lá dentro estavam seus pais. Teve vontade de entrar, mas tinha o mandado de seu padrinho a fazer. Abriu a igreja. Há mais de três meses que não fazia aquilo. E sentiu o bafo de casa fechada. Aquele cheiro que ele tanto conhecia. Devia estar mais suja. Três meses sem os seus cuidados, sem a sua assistência. De fato, os morcegos chiavam mais no teto. Devia haver corujas em seus ninhos pelo coro. Foi à sacristia. Abriu a porta do deposito, e lá estava, preto, com uma cruz branca em cima, o caixão da caridade. Empoeirado, coberto de teias de aranha. O homem puxou-o para fora e saiu com ele para o oitão da igreja. Limpou-o, bateu com a tampa e saiu com o caixão na cabeça.
Centenas de outros tinham saído de casa para o cemitério naquele caixão triste e pobre. Bento fechou a igreja e voltou para casa. Teve vontade de voltar para a cadeia e ficar com a mãe. Vendo-a, era o Araticum que ele via. Sem saber por que, estava com uma saudade enorme do Araticum. Chegara ao Açu pensando que fosse se satisfazer, e era do Araticum que se lembrava. Do irmão Domício. Do irmão tristonho, do irmão diferente dos homens que ele conhecera. Estaria ele àquela hora procurando lugar para ficar, perdido no meio da mata, por entre as árvores e os bichos da serra. Quando a mãe e o pai se livrassem, ele Bento iria com eles para sempre. Nada de ficar longe da terra que era sua. Dos seus, dos antigos. Havia a maldição da Pedra Bonita. Não valia nada. Superstição, como mais de uma vez lhe explicara o padrinho. Na primeira confissão que fizesse, falaria disso. E o padrinho lhe diria mais uma vez que tudo não passava de atraso do povo, de falta de religião verdadeira. Deus não podia ser instrumento da ignorância daquela gente. Ele deveria voltar com seus pais e acabar com aquela história de Judas na família. Domício acreditava porque era desprevenido de instrução.
No outro dia a força entrou no Açu, de volta. Eram uns trinta praças e o tenente. Entraram como um bando de cangaceiros; De chapéu de couro, de cartucheira atravessada, de punhal, de rifle no ombro. O Padre Amâncio esperou até a tarde, e foi procurar o tenente em companhia do juiz. Conversaram muito. E por fim o vigário entrou no assunto: vinha ali pedir pelos velhos da Pedra Bonita. Os pobres não tinham culpa da vida do filho.
— Pode ficar certo, lhe respondeu o tenente, que são responsáveis. Aquilo é um ninho de cobra. A emboscada que botaram no pobre Venâncio foi sabida de todos de lá. O povo do Araticum não gostava do sargento por causa duma diligência que ele tinha feito lá.
O padre e o juiz insistiram na defesa dos velhos. Até que o tenente cedeu, dizendo:
— Vou soltar essa gente, Seu Juiz. Mas fique certo que é uma gente perigosa.
E assim os pais de Bento se viram livres. Foram para a casa do padre. Bentão quase que não podia andar de todo quebrado. E a velha ansiosa para ganhar a estrada do Araticum; dando a impressão de que não queria ficar mais tempo com o filho. Era que, para ela, Bentinho não devia ver ninguém do Araticum.
E os dois saíram de madrugada, a pé, destroçados, como se fossem voltando de uma seca. Em 1904 devia ter sido assim. Bento ficou com vontade de acompanhar o seu povo. Mas sabia do desejo imenso da mãe de não querer ver o filho mais pelo Araticum. E cedeu. Em breve eles estariam outra vez senhores da casa velha, do curral, das coisas ínfimas, da terra que lhes deram os antigos. Domício voltaria, e enquanto não passasse por lá outra volante com o diabo no couro, viveriam bem.
O Açu tinha mesmo se modificado, como lhe informara Maxi-mina. Os trinta soldados, um tenente, toques de cometa, tudo isso dera à vila uma cara diferente. O povo melhorou de situação, cresceu de importância. Ali agora era a sede de um destacamento grande. Do Açu saía tropa para o resto do sertão. Diziam até que o governo cogitava de mandar um batalhão para ali. E que iriam construir um quartel. Havia esperança, sonhos de grandeza no burgo apodrecido. Nos dias que paravam descansando das diligências, as praças se divertiam no Açu a seu jeito. Dentro do mercado se aboletaram uns cinco soldados. Eram os mais pobres, os mais novos no ofício. Tinham saído do sertão há coisa de dois meses. O Tenente Maurício queria gente que fosse conhecedora dos segredos da caatinga, rastejadores. Bento sem querer fizera amizade com um deles, um tal de Severino. Este viera do Pajeú. Sentara praça quase sem querer. Fora à feira, e um camarada o influíra para seguir a carreira. Estava cansado de ser aquilo que era sempre, vaqueiro. Correndo atrás de gado a vida inteira, e estava agora com o Tenente Maurício. Severino tinha uma coisa que prendeu logo Bento à primeira vista: tocava viola, cantava. Lá de dentro do mercado saíam para o Açu os seus gemidos, que eram daqueles de Dioclécio e de Domício. E Bento acabou se acamaradando com Severino.
— Menino, eles me botaram pra rastejar. Eu sabia descobrir rasto de boi na caatinga. Aquilo pra mim era besteira. O tenente me disse que o meu trabalho era esse, descobrir pé de gente na terra, nas pedras. E é o que eu faço.
Severino sabia de cantorias que agradaram a Bento.
— Tu é sacristão, menino?
Bento lhe explicou. Era cria do padre.
— O tenente disse à gente que o vigário daqui açoitava cangaceiro. Mas ele não bole com ele . Tem medo. Um oficial que desfeiteou o Padre Cícero não durou um mês. Comeram o bicho na bala.
Bento então quis saber da surra no povo do Araticum. E Severino contou:
— A tropa vinha com sede. A gente ainda viu a marca do sangue na terra. O tenente pegou a pedra que espatifou a cabeça do pobre sargento. Tinha soldado que parecia cascavel com o veneno perdido, trincando o dente de raiva. Se a gente pegasse o bando num raso, não ficava um pra semente. Aí o tenente levou a força pra a diligência. E pegaram os velhos desprevenidos. Pareciam duas gatas, de medo. Metemos o pau nos velhos. O velho aguentou calado. E a velha chorava que só bezerro desmamado. O Sargento Lourenço queria liquidar o pessoal na bala. O tenente não deixou. Fiquei até com pena dos pobres. Eu sou do sertão. Sertanejo vive sofrendo como couro de fazer torrado. É um apanhar que não tem conta. Quando não é cangaceiro, é a força. Eu estou nesta vida, mas estou doido pra sair. Viver de borco aí como calango, cheirando a terra, cheirando o mato, pra descobrir passagem de gente. Isto não é vida. Agora eu digo: melhor é vaquejar. O tenente fica danado quando se perde a batida dos cabras. Cangaceiro tem astúcia do diabo. A gente vai indo atrás do bicho. Lá vai a marca das alpercatas, e quando se dá fé, é como se os cabras estivessem voltando pelo mesmo caminho. E desmancham. Fazem visagem. Escapolem da vista da gente. Aquilo não é pé de boi, que se conhece no maneiro. Muita vez o tenente está pensando que é safadeza. Eu bem desconfio que o homem malda da gente. Capaz de pensar que nós estamos de combinação com os cangaceiros. Te digo com franqueza. Pegando cangaceiro vivo, eu só tenho vontade é de cortar pedacinho. Eles fazem o mesmo com a gente. Tu não viste a desgraça que eles fizeram nas praças de Dores? Cortaram os braços, cortaram as orelhas, as partes dos homens, fizeram farinha da cabeça do sargento.
Severino ia buscar a viola e cantava para Bento e os companheiros ouvirem. Ele sabia de pouca coisa. Mas do que sabia tirava efeitos. Vinha sempre com as façanhas de Jesuíno Brilhante. Era uma história que se dera na seca de 77. O povo estava morrendo no Ceará, morrendo de sede. Morria homem, morria menino, morria mulher. No Sobral não cabia mais gente. Morava até povo na torre da igreja. O imperador mandou dinheiro para salvar o povo. O dinheiro chegou. Mas os grandes da terra comeram, roubaram o povo. Foi quando apareceu Jesuíno Brilhante para castigar os miseráveis. Ele vinha de sertão afora fazendo o diabo com os grandes. Dando ordens. Matando ladrão, salvando o povo.
E vinha na cantoria de Severino a narração dos feitos, da coragem, das grandezas de Jesuíno. Aquilo é que era cangaceiro. Cangaceiro que não andava como este Aparício, matando, desgraçando o sertão.
— Cangaceiro de hoje só faz desgraça por onde passa. Já se foi o tempo de Jesuíno Brilhante. Me disseram que este Aparício está fazendo o diabo.
Bento fingiu desinteresse. Mas noutra oportunidade que teve, quis saber de mais coisas, dizendo para Severino que Aparício não era o chefe do bando. O chefe era outro.
— Qual nada, o bando de Aparício está sozinho agora. Disseram ao tenente que ele é mais feroz que Deodato. Nos ataques que dá, não perdoa ninguém. Tira dinheiro até de cego. Atrás de uma peste desta, eu rastejo de verdade. Porque sertanejo como este Aparício só merece é bala de rifle, é morte. Foi por isto que o Tenente Lucena de Alagoas não deixou semente na família do Zé do Vale do Pão de Açúcar. Matou do pai ao menino de peito. O tenente soltou os velhos de Aparício. Falando com franqueza, não vi jeito de cangaceiro naquele povo. Aquele velho não tinha calibre de cangaceiro. Até me falaram que era um homem de boa família. O filho é que é um cachorro da moléstia. O tenente pegando ele , eu não calculo o que faz.
Era a grande preocupação de Antônio Bento. A fama de Aparício estava crescendo. O seu nome falado, a sua importância subindo. E ali no Açu todos sabiam que ele era irmão de Aparício. Não tardaria que viessem com perseguições para o seu lado. O Padre Amâncio ia muito bem com o juiz, e o tenente andava sempre por fora, com a força, nas diligências. Aparício se transformava para o irmão num verdadeiro herói. Seria possível que fosse aquele monstro das descrições do povo? No Açu exageravam. Os soldados estavam vendo Aparício com olho de medo, aumentando o valor dele. No fundo Bento se sentia orgulhoso do irmão. E uma coisa o impressionava: o povo do Açu começava a olhar para ele sem aquele desprezo de outrora. Era irmão de Aparício. Tinha rifle na caatinga respondendo por ele .