Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 28 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 12

 

A CHEGADA da comissão no Açu foi uma tristeza. Vieram destroçados, contando o ataque dos cangaceiros. Estavam no descanso, na caatinga, quando se viram cercados pelo grupo. Pediram dinheiro. Queriam todo o dinheiro que eles tivessem. E como não encontraram, entraram a fazer o diabo com eles. Pegaram o engenheiro-chefe para matar. Um cangaceiro botou o homem a distância e fez pontaria para derrubá-lo. Era só para meter medo. Um negro brincara de enfiar um punhal no pescoço de um outro engenheiro. Faziam pena o estado e o pavor dos homens. O chefe da comissão mandou um portador a Dores pedindo força para se retirar para a capital. O grupo que fizera o serviço era grande.

Bento foi logo procurar Gustavo para saber da coisa. E encontrou o amigo calado. Eles tinham sofrido o que não se podia imaginar. Tinha ouvido falar de cangaceiro, de malvadeza de cangaceiro e pensou que fosse lorota de jornal. Quando se viram cercados pelo grupo foi que ele avaliou o que era aquela gente.

— Me disseram que o chefe deles era o teu irmão. Pois foi o chefe quem tratou a gente melhor. Se não fosse ele , tinham matado todos nós. Fizeram o diabo com o engenheiro-chefe. Botaram o homem amarrado numa árvore e dispararam uma arma por perto da cabeça dele. Nós andamos a pé mais de seis léguas, sem água e sem comida. Os doutores devem estar estragados por muito tempo. Eu aguentei firme. Estava acostumado.

Mas os companheiros caíram em cima de Gustavo:

— Cala a boca! Tu tremias que só vara verde.

— Medo eu tive, continuou Gustavo. Não vou dizer que não tive medo. Mas aguentei. Vi a morte e já estava até disposto a morrer.

Os homens estavam cansados e Bento deixou-os. Foi para casa. No caminho encontrou Joca Barbeiro furioso conversando com outros:

— Terra de monstros, gritava ele para o Major Cleto.

Estavam parados na porta do Major Cleto. E vendo Bentinho, o homem continuou ainda mais forte:

— Terra de monstros, de cobras! O Açu não vai para diante por isto. É esta Pedra Bonita que desgraça o Açu.

Bento quis parar, mas foi andando. E em casa encontrou o Padre Amâncio com visita. Era um homem do interior, de pés no chão, de fala mansa. Ouviu que ele falava da Pedra e que o padre prestava uma grande atenção ao que ele dizia.

— Venha ouvir, Antônio, o que ele está dizendo, lhe disse o padrinho.

O homem contava:

— Pois, Seu Vigário, apareceu este sujeito dizendo que faz milagres. Ele diz que pobre fica rico, que a pobreza vai desaparecer, que o mundo só fica com gente de posses iguais. Tem muita gente descendo para ouvir o homem falar. Ele veio do S. Francisco. Disse que apareceu uma voz mandando ele para a Pedra. E tem curado gente que o senhor não calcula. Lá das minhas bandas tem saído um povão. Sertanejo, quando escuta falar de coisas assim, perde o prumo. O homem só come comida de erva e tem um cavalo branco que ninguém monta nele. O cavalo tudo que deita pra fora, com licença da palavra, serve de mezinha para o povo. A coisa está nesse pé. Pela minha porta passa romeiro como retirante na seca. Tudo atrás do milagre. Estão dizendo que a lagoa vai se desencantar. E vão tirar ouro e pedra dela que dá para enricar todo mundo. Eu ainda não fui ver o beato. Mas minha mulher todo o dia me aperreia para ir. É de manhã à noite com a peitica: "Vamos pra a Pedra, Félix". Os meus vizinhos já foram e viram coisa de arrepiar. Viram um mudo falando, um aleijado sacudir as muletas no mato, bonzinho de seu. A Pedra está coalhada de gente. O velho Zé Pedro que mora por lá há anos falou pra o povo que o homem é igual ao santo dos antigos. Vindo hoje aqui à vila, eu me lembrei de falar com Seu Vigário. Disse para mim: "Vou falar com Seu Vigário da história da Pedra". Estão dizendo também, por lá, que os padres condenaram o homem, mas que ele só obedece a mandado de Deus. Igualzinho ao que sucedeu com meu padrinho Padre Cícero.

O Padre Amâncio ouviu o homem com toda a atenção. Depois lhe falou, dizendo que o povo estava iludido. O tal santo não passava de um aventureiro. Eles deviam se prevenir contra ele . Deus não ia escolher um homem assim para seu instrumento Tudo era mentira, embuste, falsidade.

O homem olhou para o padre, espantado:

— Seu Vigário, e os milagres? João José, meu vizinho, viu o aleijado andando, o mudo falando.

O padre procurou explicar: eram casos de nervosos, falso, doentes, que se curavam pela sugestão. Mas viu que não convencia o homem. E quando ele saiu, Padre Amâncio compreendeu que tinha chegado o trabalho mais sério de sua vida. Olhou para Bento com um olhar de tristeza e foi para o seu quarto. Estava velho, doente, acabado, e viera rebentar a superstição da Pedra Bonita com ele sem força para a luta. O demônio chegara na hora boa. Escolhera o momento oportuno. Padre Amâncio se sentia vencido, dominado. Há vinte anos no Açu, dera ao povo toda a sua mocidade, nunca perdera um instante, nunca fugira ao chamado do povo. Mas sempre pensava numa coisa como aquela que agora aparecia. Era fatal. Ele media a situação e se via na iminência do maior perigo de sua vida. Não podia ficar em casa esperando que o inimigo crescesse, se alastrasse. Teria que agir. Era o seu dever, era a sua missão. Com pouco todo o sertão se incendiaria, como sucedera no Ceará com o Padre Cícero. Todo o poder espiritual passaria para as mãos do fanático, do que era somente instrumento do diabo. Ficou assim pensando, meditando. Fêz cálculos de ação, estudando meios de enfrentar o inimigo. E depois de muito imaginar chamou Antônio Bento para indagar de alguma coisa:

— Enquanto você esteve lá, não ouviu falar deste homem, Antônio?

Bento contou da visita ao velho Zé Pedro. Domício, seu irmão, levara-o para ouvir do velho a história da Pedra Bonita. E ele ficara sabendo de tudo. Mas nesse tempo a Pedra estava vazia de gente. Não havia vivalma. Só mato.

O Padre Amâncio fechou os olhos, como era de hábito quando queria ficar só. E a questão permanecia insolúvel. Teria que tomar todas as providências, agir sem demora, sem tréguas. Ficou na rede até ouvir a primeira badalada das ave-marias. Aí levantou-se e foi para o seu genuflexório e rezou. Baixou a cabeça e entregou-se de corpo e alma à oração. Vinha chegando para ele a grande batalha que Deus lhe reservara há vinte anos. Estava velho, acabado. Mas teria que se meter na luta. A última badalada do sino tremia nos seus ouvidos. Lá dentro de casa sua irmã Eufrásia dava ordens gritando. E o Açu na calma de um fim de dia. Padre Amâncio levantou-se e foi à porta da rua. E viu a paz de sua paróquia. Tudo em surdina, calado. E a noite chegando, os candeeiros de querosene se acendendo pelas casas. Viu as beatas de passo vagaroso subindo a rua depois da reza da igreja. Eram as suas ovelhas mansas. Lá por longe, o rebanho se entregava a outro. Ouvia a voz de outro. O impostor tomava-lhe o lugar. Não seria culpa sua, dele Amâncio, relaxamento de sua parte? Procurara o mais que pudera o povo da Pedra Bonita. Levara até um capuchinho da Penha para uma missão. E tudo fora inútil. Ele nunca deixara de esperar por aquilo. Tardara. Mas um dia ou outro teria de romper. E a coisa veio forte, o incêndio já estava pegado. O povo entregue, obedecendo a um aventureiro, talvez um explorador, como tinham sido quase todos os outros. Criara aquele menino da Pedra Bonita pensando no povo de lá. Quisera que Antônio fosse padre para ver se ele dava um grande exemplo à sua gente. Não pôde chegar a esse ponto. Rompera a crença, como há cem anos. Como se os homens fossem os mesmos de um século atrás. Há um século o Frade Simeão fracassara. Não tivera força para conter a avalancha. Seria com ele , seria com o padre velho do Açu que outra vez Deus experimentaria o poder de seu servo.

— Amâncio, o jantar está na mesa.

Era a voz da irmã chamando. O padre se sentia cercado no deserto, só, sem o auxílio de um mortal. Lutaria até o fim. Não enjeitaria a provocação. Ouviu outra vez a voz da irmã. Sentou-se na mesa e foi comendo.

— O que é que tu tens, Amâncio? perguntou a irmã. Não fôste à igreja agora de tarde, e esta cara não engana ninguém. Estás sentindo alguma coisa?

E a velha botou a mão na testa do irmão para sentir o calor, como se ele fosse uma criança. E falou-lhe como sempre, com aquela sua amargura: era aquela vida no meio de bichos, de gente que não merecia, que fazia o seu irmão ficar assim, acabado. Não vira o que sucedera aos engenheiros? Vinham trazer benefício para a terra, e correram em cima dos pobres como em cima de cachorros danados.

O padre fingia achar graça nas coisas da irmã. Depois do jantar saiu para conversar com o Coronel Clarimundo. Encontrou o prefeito alarmado com a história dos engenheiros. A comissão aguardava ordem de regresso. O doutor lhe dissera que já tinha mandado o seu pedido de demissão.

— Os homens sofreram o que o senhor não imagina, Padre Amâncio! Aliás eu vivia dizendo aqui todo dia: esta comissão só deve trabalhar na caatinga com força a serviço dela. Como é que se solta esses homens pra sofrer o que sofreram?

O Padre Amâncio falou-lhe das notícias que tivera da Pedra Bonita.

— É a desgraça do Açu, Seu Vigário, é aquela gente. O povo de lá só vive assim: quando não é no cangaço, é no fanatismo. Eu não queria dizer nada, mas quando vi o senhor tomar aquele menino pra criar, fiquei dizendo pra mim mesmo: "Padre Amâncio está criando uma cobra."

— Não é só da Pedra Bonita, Coronel. O sertanejo é o mesmo em toda parte. O que se dá é que o povo se impressiona com a situação natural da Pedra. O lugar é próprio para estas coisas, estas superstições. Aquelas duas pedras, como se fossem duas torres de igreja, tudo isso faz virar a cabeça do povo. O erro foi o que fizeram há cem anos atrás: mataram gente, derramaram sangue.

— Mas Padre Amâncio, o senhor não brinque com essa gente. Só deram um ataque na Pedra porque eles estavam cometendo crimes, e o governo só castigou quando foi preciso.

O padre achava que não. Sempre havia a oportunidade para se evitar represália sangrenta. O povo tinha bom coração. Fossem com jeito que tudo se tirava do povo.

O Coronel estava do outro lado. Conhecia com quem tratava.

— Seu vigário, este povo só quer saber de quem maltrata.

O Padre Amâncio voltou para casa com a coisa na cabeça. Teria que agir contra os fanáticos da Pedra Bonita com toda a urgência. Mas temia o fracasso. Não contava com a sua força, via-se fraco, incapaz de vencer, de dominar. Mas teria que lutar. Deitou-se para dormir e o sono não chegou. A imagem da Pedra na cabeça. Lembrou-se de quando estivera lá, com Frei Martinho. Lembrou-se da beleza da Pedra com o sol em cima, dos catolè-zeiros gemendo ao vento, como os coqueiros da praia de Goiana. As duas pedras grandes como duas torres de uma igreja aterrada. Desceu com o frade, andaram a pé. Viram os imbuzeiros enormes, o mato grande cobrindo a terra onde correra sangue de gente. E aquilo parecia-lhe de mil anos atrás. A natureza consertara tudo. Dera um aspecto tão selvagem aos arredores que lhe parecia que nunca andara pessoa alguma por ali. E no entanto a história falava de coisas horríveis. O frade sabia também a história e lhe falara de fatos idênticos por outras terras, por outros cantos do mundo. O homem era um só por este mundo de Deus. O lugar da Pedra era bonito. Era bem moço no tempo em que estivera lá, mas se sentiu acabrunhado, como se a desgraça que acontecera fosse por sua causa, por sua desídia. E Deus reservara para ele a mesma carga, o mesmo destino do Frei Simeão. Um louco tomara conta da Pedra Bonita, fazendo milagres, arrastando o povo para a rebeldia. O Padre Amâncio ligava as coisas, unia os acontecimentos. O governo receberia o ataque à comissão dos engenheiros como uma afronta dos fanáticos e dos cangaceiros. Com pouco a Pedra seria arrasada, viriam forças do exército, desceriam batalhões, atacariam o reduto. Tudo destruído, mulheres, crianças, velhos, tudo destruído. Os cadáveres estendidos no chão para os urubus. Padre Amâncio levantou-se da rede. Os soldados marchariam contra os pobres, ele estava ouvindo, como se fosse uma alucinação, ouvindo disparos, gemidos. Apavorou-se, gritou pela irmã.

E D. Eufrásia chegou. Toda alarmada, encontrou o irmão banhado em suor como se estivesse com um ataque de sezão.

Não era nada, lhe disse o irmão. Mas tivera um sonho mau, um pesadelo horrível.

Pela manhã Padre Amâncio celebrou a missa, pedindo a Deus que lhe desse coragem para a luta em que teria de se empenhar. Bento viu o padrinho alterado, como se uma grande mágoa houvesse aparecido para ele , uma morte de pai, de mãe, um desgosto sério. A igreja estava vazia. Só mesmo as beatas. Depois da missa D. Francisca do Monte veio falar das coisas da igreja, da escola paroquial, dos trabalhos da irmandade. O padre não ouvia nada. Estava ausente. Longe de tudo o que ela lhe falava. Tinha se desencadeado lá fora o temporal, a tempestade que há vinte anos o Padre Amâncio esperava. O temporal tinha-o pegado velho. Mas lutaria. Deus lhe daria energia para o combate. Veio tomar cate, e D. Eufrásia o esperou com as reprimendas de sempre. Ele não podia continuar a fazer o que estava fazendo, estragando a saúde daquele jeito. Bento estava ao lado dele, na mesa. E quando a irmã saiu, o padre falou para o afilhado:

— Antônio, nós temos que ir à Pedra Bonita. Tu ouviste a história do homem. A coisa vai ser bem difícil. O povo, quando perde a cabeça pelo fanatismo, fica absorvido. Não ouve, não escuta ninguém. Mas nós temos que ir até lá.

E levantou-se da mesa. Bento foi para os seus trabalhos cheio de preocupações. Domício acreditava na Pedra. E agora vinha o santo, o homem de quem o velho Zé Pedro falava. O padre achava que ele era um mentiroso, enganando o povo. E os milagres, os aleijados que andavam, os feridentos que se curavam? Via por outro lado a mágoa de seu padrinho. Via a fraqueza dele. O outro arrebatava o povo, enchia o povo de esperanças, de desejos. O padre era bom, era de todo o mundo, mas não oferecia o impossível, uma vida diferente. Domício acreditava. Bento sentia que havia alguma coisa, um mistério qualquer com o qual o seu padrinho não podia. Ele mesmo se assustava, temia que terminasse acreditando nas histórias da Pedra. Andou assim com estas preocupações lhe absorvendo o interesse, todo o tempo de seu serviço. Em casa encontrou D. Eufrásia falando, censurando o irmão. Amâncio estragara a vida, se sacrificara pela gente mais infeliz deste mundo.

A negra Maximina chamou Bento para saber o que se passava Espantou-se, arregalando os olhos:

— Toinho, será verdade mesmo? O tal santo levanta defunto? Aquela Pedra dá santo de verdade.

E ficou em silêncio, como se uma coisa muito importante tivesse aparecido de repente para ela. Quando Padre Amâncio voltou, D. Eufrásia falou-lhe séria. Ele não devia se meter com aquele povo de hereges. Aquilo era trabalho para a força, para soldado.

Bento saiu para a rua. E da tamarineira chamaram por ele . Queriam saber dos fatos. Porque já estavam dizendo que o santo era irmão dele. Respondeu às perguntas e foi andando de rua afora. A casa de D. Fausta estava fechada. Veio-lhe à cabeça a tarde em que ela se pegara com ele , com a boca torta, toda se torcendo em cima dele. No fim da rua viu o caminho que dava para o cemitério. Quebrou para um lado e foi sair na Rua da Palha. Havia mulheres reunidas na porta de uma casa. Chamaram por ele . Teve medo. Medo de verdade, de ficar com o coração frio. Quis fugir do chamado, mas não teve coragem. Eram as raparigas:

— Ele é o croinha, ele é o croinha! disse uma.

— Ele é donzelo, disse outra.

— Cala boca, gente, que ele é irmão do Aparício.

Bento estava meio tonto, sem rumo.

— Cria de padre só sabe ser sonso.

E soltaram uma gargalhada. Depois falaram com Bento, com mais calma. Perguntaram por Aparício. Queriam saber como ele era, se gostava de rabo de saia. Se tivera namorada, se dava em mulher.

— Estão dizendo que ele marca mulher da vida no rosto com ferro de ferrar gado.

— Qual nada! Aparício protege mulher-dama. O negócio dele é com donzela de rico.

Bento já estava no meio delas sem jeito de sair. Uma mais moça aproximou-se dele e as outras debocharam.

— Tu quer instruir o menino? Tu quer instruir o menino, Minervina? Tu vira burra-de-padre!

E desataram na risada.

— Menina, ele é da terra do santo. Dizem que o santo não embirra com mulher como nós. Tudo é igual.

— Qual nada, disse a mais velha. Ele só papa donzela. Não foi mulher virgem, ele não quer. Tu ouviste o que disse à Eulália aquele aguardenteiro? O homem disse a ela que tudo que é moça o santo está emprenhando. Ele tem que botar barriga em mil e uma donzelas.

— Tu conhece ele ? perguntou a mais moça, chegando-se para Bento.

— Ele faz milagre, Naninha!

— Se faz! O povo está correndo pra lá porque ele é mais poderoso que o Padre Cícero do Juazeiro. Esse negócio de vadiar com mulher não quer dizer nada. O padre daqui é que faz espanto com essas coisas. Mulher nasceu foi pra servir aos homens.

Bento deixou-as e foi voltando para casa. Lá estava o Padre Amâncio com um nó para desatar. Com D. Eufrásia gritando. E a negra Maximina alterada com o aparecimento do santo. O quarto do padre estava fechado e a casa vazia. Nem D. Eufrásia nem Maximina. Faltava pouco para o toque das ave-marias. Ele chegou na sala que dava para o quarto do padrinho e ouviu uma coisa estranha que vinha de lá. Chegou para perto da porta e ouviu como se fosse um choro de gente, um choro abafado. Teve vontade de bater e correr lá para dentro do quarto. Ficou parado. Devia ser o Padre Amâncio nas orações. Coitado de seu padrinho. Aquilo era o sofrimento, a dor de não poder com a força que surgia no meio do povo. No oitão da igreja havia gente conversando. Eram conhecidos seus. Antes de entrar, parou um instante para conversar:

— Então Bento, a Pedra virou outra vez terra de santo?

Todos sabiam que ele era de lá. Disse ele o que sabia dos fatos.

— Vai haver desgraça feia, continuou o sujeito. O governo não pode deixar o negócio crescer. Senão vira Canudos.

— É mesmo, atalhou um segundo. Só bala de soldado liquida isto. Agora não pensem vocês que com vinte praças se faz o serviço. Sertanejo, quando acredita em santo briga como onça, O Tenente Maurício não pense que bota o povo de lá pra correr com um tiroteiozinho. O povo cai em cima da tropa com vontade de morrer.

— Bento, tu vieste de lá?

Bento respondeu que sim. E quiseram saber se ele conhecia o santo.

— Andaram até dizendo que ele era teu irmão. Este povo do Açu inventa tudo.

— Não conheço o homem, Seu Juvenal, respondeu Bento. Ele veio de fora.

— Veio mesmo, disse outro. Ontem pararam ali na porta do Coronel Clarimundo uns romeiros que iam pra a Pedra. Gente pobre que vocês não calculam. Pois compraram não sei quantas libras de vela de cera. Eu puxei conversa com o chefe da família e ele me contou tudo. O tal santo desceu da Bahia. Atravessou o S. Francisco no Pão de Açúcar e veio a pé pra a Pedra. Andou a pé pra mais de cem léguas. Dizem que é branco e nunca ninguém viu ele dormindo. Agora estão dizendo que moça donzela na unha dele é mesmo que torrão de açúcar na boca, se desmancha num instante. Esses cabras são uns sabidos de marca. Eles querem é passar bem, comer do melhor.

— Não sei não, Seu Juvenal, disse o outro sujeito. A gente debocha dessas coisas e no fim fica é besta mesmo. Ele deve fazer alguma coisa, senão o povo não estava correndo atrás dele.

— Ora povo! Você vem me falar de povo! Povo é como menino, acredita em tudo. É besta que só aruá. Não está vendo que eu não vou acreditar que este sujeito da Pedra faz milagre!

— O Padre Cícero fez.

— Você viu? Eu quero é ver. Não vou atrás é de maluquice, de matuto leseira. Quem deve estar com a pulga na orelha é o Padre Amâncio. Está mesmo. Onde você encontra um padre como este, um coração assim? Dá tudo aos pobres, é um santo. Lhe agaranto que o Padre Cícero não chega nos pés dele. Pois vá você pedir pra ele fazer um milagre. Pergunte aí a Bento se ele fez milagre. Este santo não passa de um estradeiro de marca.

Estava chegando a hora do toque, e Bento foi saindo. Abriu a igreja e subiu a escada que dava para a torre. Deixara as portas da frente abertas para que as beatas pudessem entrar. Esperou um instante. O coração batia com a subida apressada que fizera. E puxou o badalo para a primeira pancada. O seu pensamento foi direito para as raparigas da Rua da Palha, as mulheres que ele não conhecia. Uma tarde D. Fausta o quisera pegar e ele fugira com medo. Lá embaixo o Açu sofria a influência do seu loque. A vila que ele odiava estava com medo de seu irmão Aparício. Aparício era maior que todos dali. E era seu irmão. O som do bronze ganhava os campos. Fora humilhado no Açu. Estivera na cadeia, sua mãe apanhara dos soldados do Tenente Maurício. Estava na quarta badalada. Tinha que dar duas mais. Ouvira gemido de choro no quarto de seu padrinho. Seu padrinho sofrendo. Devia ser uma dor muito grande. Faltava a última. Falavam em mandar soldados para liquidar o povo da Pedra. Todo o Açu estivera em suas mãos. Fizera todos pensar na vida. E a tarde caía. A tamarineira cada vez mais se esgalhava. A noite vinha chegando. Lá embaixo estavam as beatas rezando alto. D. Francisca puxando e as outras respondendo, fanhosas. O pigarro da beata mestra cortava as orações pelo meio. E os morcegos chiavam. Um deles passeava do altar-mor para a porta da entrada, aproveitando o resto de luz do dia para brincar. Era um vôo meio errado, como se o bicho fosse cair no chão de cansaço.

Bento fechou as portas da igreja. O Padre Amâncio não tinha vindo outra vez rezar as ave-marias na igreja. Quando ele chegou em casa, o padrinho chamou-o:

— Antônio, prepara os cavalos. Amanhã nós vamos viajar.