Pedra Bonita
Capítulo 9
DIZIAM na vila que fora a filha do Coronel Clarimundo, educada no colégio das freiras de Garanhuns, que fizera o pai ficar do lado do padre. O juiz passou a dizer o diabo do prefeito. E o Major Evangelista, tão partidário do padre no começo, dera para fazer restrições, a vacilar, desde que o seu inimigo se decidira pelo outro lado. Mas a vida no Açu não perdera de tensão. As picuinhas se sucediam. E Antônio Bento ficou falado com o fato da prisão. Na feira os matutos apontavam o criado do padre que dera motivo ao incidente. Aquilo para Antônio Bento servia como um estímulo. Crescera, ficara mais homem que todos. E assim iam se passando os dias. Na casa do juiz, D. Senhora estava fazendo o mês de maio no oratório particular. Havia devotas. Enquanto na igreja o Padre Amâncio dava a bênção, D. Senhora rezava as suas orações com acompanhamento. A mulher do oficial de justiça, a mulher de Joca Barbeiro, do Major Cleto, do escrivão Paiva não faltavam. A sala se enchia. E o Dr. Carmo ficava na porta de casa, de espreguiçadeira, conversando com os homens. As beatas, D. Margarida, D. Francisca, D. Auta, as duas velhas, não passavam pela calçada do juiz. E Joca Barbeiro passou a fazer oposição ao prefeito:
— O senhor devia, dizia ele ao juiz, apresentar candidatos nas eleições do ano vindouro. Isto de ser juiz não quer dizer nada, não. Havia muitos juizes pelo Estado chefiando política. Não era possível que o Açu vivesse toda a vida naquela miséria. O Coronel Clarimundo não fazia nada, só cuidando dos seus negócios.
Joca ia mais longe: e aquele vapor de algodão? Os cobres da Prefeitura não davam para nada. O Major Evangelista dizia, para quem quisesse ouvir, que o cofre da Prefeitura era na burra do Coronel. Filhas no colégio, luxo de mulher, o comércio nunca deu ali a ninguém no Açu.
O juiz se calava. E a conversa continuava. Na igreja tocava a campainha. O sino respondia com badaladas compassadas. Era o Padre Amâncio elevando o Senhor na bênção. Joca Barbeiro sem querer parava a conversa. De dentro da casa do juiz a ladainha chegava ao fim. D. Senhora vinha para a porta com as devotas do seu santuário. Despediam-se. A mulher do Major Cleto e a do escrivão Paiva ficavam esperando pelos maridos. Pelo outro lado da calçada passavam as devotas da igreja. Para D. Senhora eram elas umas pobres de espírito, gente sem nenhuma importância. E a conversa dos homens continuava animada. D. Senhora na sala de visitas entrava no forte de sua palestra. Não sabia como se podia suportar aquela vida do Açu. Era preciso mesmo muita coragem para se ficar ali toda uma existência. Ela tinha uma promessa a pagar. No dia que saísse dali, chegando ao Recife, iria com todos os filhos à igreja de S. Severino dos Ramos. Nem que fosse a pé, mas ia. A voz de Joca Barbeiro se elevava, crescia. O Major Evangelista, puxando os bigodes, falava pouco. Joca estava achando que o criado do padre criara goga com a ousadia que lhe dera o prefeito. Se o Major Cleto fosse outro, teria arrastado padre e tudo para a cadeia.
— Lá isso não, dizia o Major. Autoridade nenhuma fazia isso. Afinal de contas tratava-se de um vigário, Joca. Onde já se viu arbitrariedade igual a essa que você queria que eu fizesse?
— O Major tem razão e não tem, dizia o juiz, O padre se meteu na coisa para se exibir. Se ele soubesse pesar as responsabilidades, não teria se metido. Quis foi fazer figura. Eu autoridade, não respeitava batina, não respeitava nada. O Major não quis e fez muito bem. É católico, faz parte da irmandade, teve os seus escrúpulos. Agora o Clarimundo é que não devia ter feito o que fez. O cabo estava cumprindo uma ordem. Agora uma coisa eu digo: na primeira vez que esse cabra do padre passar pela minha porta eu dou-lhe um ensino.
— E o senhor faz muito bem, dizia Joca. O senhor não calcula como anda esse bicho por aí. Comigo ele não se meta, porque para quebrar-lhe as ventas não custo.
O Major Evangelista achava que da Pedra Bonita não vinha gente que prestasse. O Padre Amâncio tinha uma cobra dentro de casa.
E a conversa ia assim até que o Coronel Clarimundo fechava as portas do estabelecimento. Às nove horas o Açu se recolhia. A conversa da porta do juiz findava. Apagavam os candeeiros de querosene e vinha o sono pesar sobre os homens e as mulheres da terra infeliz. O Padre Amâncio rezava até tarde. D. Eufrásia ia ao seu quarto com a xícara de chá de laranja. Maximina roncava. E Antônio Bento pensava na vida. Dioclécio dera-lhe uma vida nova, e as perseguições do juiz tinham terminado naquele episódio. Ouvira conversas de preso, caras inchadas, gente falando de inocência, vozes que vinham do outro mundo. Mortos lhe falaram. Dioclécio solto de terra em terra, e o padrinho no Açu, há vinte anos, querendo corrigir uma gente torta. E a Pedra Bonita no fundo de tudo como um mistério, um segredo nefando. Nunca Antônio Bento sentira nada pelas mulheres. Aquela moça de Dioclécio crescia para ele , criava formas, tinha os cabelos compridos, a carne quente. Vinha de noite para a rede dele. Batia na porta, entrava de pés no chão, de camisa branca. Vinha de longe, de terras distantes. Era uma moça como nunca vira igual no Açu. E ficava na rede dele a moça mais bela do mundo. Sonhava com ela. E o sonho continuava noites seguidas. Contara ao padrinho no confessionário. Sonhava com uma moça linda que o beijava, que ele apertava nos braços. E o padrinho não lhe dera penitência maior que das outras vezes. Feliz era Dioclécio. Sujo, de cabelo cobrindo as orelhas, de terra em terra, andando, cantando. Tudo ele teria. Era só querer, só desejar, que teria. De que valia o Coronel Clarimundo com loja de oito portas, com vapor de algodão? De que valia a riqueza do homem mais rico do Açu? Não desejava ser como o Coronel Clarimundo. O Padre Amâncio dava tudo que tinha. Estava velho, acabado. E o Açu fazia com ele o que se via. Era um santo. Para Antônio Bento o seu padrinho não era feliz. D. Eufrásia dizia para quem quisesse ouvir que o irmão não fora bispo porque não quisera. E Antônio Bento fazia força para compreender e não compreendia. Por que o seu padrinho ficara no Açu, sempre no mesmo lugar, no meio de um povo que nem respeito tinha por ele ? Um Joca Barbeiro falando dele nas conversas da tamarineira, um juiz dizendo horrores, um Lula, um maluco, fazendo mangação com o padre no meio da rua. Por que o Padre Amâncio não deixara há mais tempo aquela gente? Vinte anos sofrendo, vinte anos naquela vida arrastada. Dioclécio andava pelo sertão conhecendo de tudo. Quando metia os dedos na viola, mudava as coisas, virava a cabeça, tinha o que desejava. Os cangaceiros abrandavam o coração com a voz dele. E as mulheres vinham de noite para a rede dele. Para Dioclécio não havia grandes, não havia hora, não havia obrigação. Dele era o mundo. E o padrinho nem era dono do Açu. A sua bondade não tinha força. Ele, Antônio Bento, devia abandonar tudo e cair no mundo. Sim, estava virando poeta. Uma coisa começava a existir para ele fora do quotidiano, um desejo de fugir do lugar em que estava. Não era para ser grande, ganhar dinheiro, ser importante. Queria dizer alguma coisa aos outros, botar o seu coração para agir. Porque as coisas começavam a existir com outro aspecto. Acordava de madrugada para fazer os toques de chamada para a missa. Via o Açu dormindo, o povo infeliz de portas fechadas, com o sono cobrindo todas as desgraças da terra maninha. O Açu aparecia assim a Bento como um inimigo que ele pudesse apunhalar sem risco. Tudo fraco, tudo entregue ao acaso. A tamarineira era maior àquela hora, com a copa imensa, com os galhos tremendo ao vento. Ia tocar o sino, chamar as devotas, que já deviam estar se preparando para a missa. Por que então aqueles toques todas as madrugadas? Só elas estariam na igreja. Só elas chegariam na hora certa. Por isso achava inútil o trabalho que tinha. O Padre Amân-cio podia dispensar o trabalho. Mas não. Todos os dias teria que subir à torre, atravessar o coro, ver a lâmpada do Santíssimo e bater no sino grande chamando o povo do Açu para a devoção. Com o primeiro toque o juiz devia acordar. Para o bicho gordo aquilo era uma advertência. O seu inimigo manobrava forças mais tenazes que a dele. O Major Evangelista se torceria na rede e os seus canários começariam a cantar. D. Fausta aí odiaria mais o pai, aquele demente que só cuidava daquelas doidices. Os caixeiros do Coronel Clarimundo, todos os homens do Açu, se lembrariam àquela hora de que havia um padre e um Antônio Bento no sino. Nessas ocasiões Bento se sentia maior que os outros. Com a sua mão tirava do sono a canalha do Açu. O juiz, o miserável, se mexeria na cama e ficava sabendo que ele , Antônio Bento, manobrava, era quem dava força para aquilo.
E assim a vida do rapaz ia variando na valorização que ele estava dando às coisas. No mais, continuava fazendo tudo como dantes. As suas obrigações eram as mesmas. Apenas ele era outro, como descobrira a negra Maximina. A mulher de Dioclécio vivia com ele nos seus isolamentos, nas suas horas de sozinho. Se tivesse forças, faria uma viagem para os reinos do fim do mundo. Um homem de asas, que subisse para os altos, que fosse para onde quisesse, para os recantos de seus agrados, era o que ele desejava ser. A vida assim como a do Açu não valia nada. Mudara, sem saber como. A negra Maximina pegara a sua diferença. Para o Padre Amâncio seria o mesmo. Para o resto não era mais que um criado, um traste da Pedra Bonita que eles todos do Açu suportavam. Um filho do juiz era melhor do que ele . O povo de sua terra era desgraçado. Só do Padre Amâncio não ouvira ali referências desagradáveis ao seu povo. Viera de um ninho de cobras. Ele olhava para si e via todos os do seu sangue, de sua gleba. Por ele verificava a injustiça. Era como todos os outros. Que melhor do que ele tinham os rapazes do Açu? Na escola eram iguais. Os filhos do sacristão Laurindo, mais burros todos que ele . Lembrava-se de Floripes, o mais velho, de sua idade, que hoje era caixeiro do Coronel Clarimundo. Nunca dera uma lição certa. Era uma lêsma. E no entanto estava- hoje de balcão, medindo fazenda, ganhando por mês. O filho do Major Cleto fora para o Recife estudar. E vinha ao Açu metido num fardamento. Acima dele, com uma importância de besta. Na aula de D. Francisca ele tinha ferida de boca e era mais atrasado que ele . As filhas de Joca Barbeiro, feias, de perna cabeluda; as molecas do oficial de justiça querendo passar por brancas, esticando o cabelo. Ele, Antônio Bento, era branco, de cabelos claros. Quando pequeno, ouvira de D. Fausta muito elogia aos seus cabelos: "Que cabeleira tem este menino", dizia a filha do Major. E enterrava os dedos pela cabeleira, enchia a mão, acariciava. O filho mais velho do sacristão tinha impigens, de cabeça raspada. D. Francisca do Monte dizia na escola que ele Bento era bisonho, acanhado:— "Você precisa desasnar, menino, não quero menino assim como você não. Vá brincar com os outros".
Nunca se ligara a nenhum, nunca sentira interesse por nenhum colega. Entrou e saiu da escola sem amigos. Só a negra Maximina e o padrinho gostavam dele. D. Francisca do Monte embirrava. Aquele pigarro seco vinha-lhe doendo nos ouvidos há muito tempo. Era injusta, cruel. D. Eufrásia exigente, colocada de cima, mandando. Só Maximina e o padrinho. Sua mãe era uma sombra. Via-a como uma remota recordação, embora ela viesse ao Açu para as visitas. A mãe dera-o ao padre. Uma vez na escola ouvira um menino chamando-o de enjeitado. Antes fosse. Antes fosse, pensava ele , do que viver agora com aquela recordação na cabeça. Fora dado. Dado como um bichinho, uma cutia, uma paca. A mãe quisera uma vida melhor para ele . Que ele viesse para junto do padre, que o mandaria estudar. Falhara e ficara no Açu servindo de deboche a uma gente ruim. Até cadeia teriam para ele . Viera porém Dioclécio e abrira uma estrada grande para ele , dando-lhe aquela mulher que dormia com ele na rede, quando os ventos das noites açoitavam o imbuzeiro do quintal. Sonhava com ela. Os cabelos caíam até a cintura, a barriga era macia, a carne morna. Nunca conhecera assim mulher nenhuma. Sonhava somente. Um croinha devia ser casto, não pensar nas porcarias do filho do juiz, dos outros meninos do Açu. Olhava para as mulheres da Rua da Palha, como se elas fossem grandes perigos, correntes perigosas que o pudessem carregar para o fundo. Dioclécio dera-lhe porém aquela mulher. Grande Dioclécio, que era maior que todos os homens que ele conhecia. O Padre Amâncio ensinara a amar a Deus, a ser bom e a ser justo. E ele Antônio Bento não amava a ninguém, odiava os outros. Maximina era boa, o padrinho era um santo. Mas não sabia por que se sentia separado de todos, até desses dois.
Uma noite (estavam quase no fim do mês mariano) ouviram uns disparos na rua. Os cangaceiros tinham entrado no Açu. O Padre Amâncio terminou a bênção e as mulheres começaram a gritar com o susto. A igreja se encheu de repente. O sobrado do Coronel Clarimundo cercado, e o pavor tomara conta da vila. O juiz municipal estava preso, o Major Evangelista nas mãos dos cangaceiros. E um soldado do destacamento estendido, morto, na porta da cadeia. Iam matar o juiz. O Major Evangelista havia dado todo o dinheiro da Recebedoria de Rendas e o Coronel Clarimundo abrira as burras para os bandidos. Da torre da igreja Antônio Bento via o movimento da rua. Os cabras, de rifle na mão, atravessavam de um lado para o outro. Na porta do juiz havia um tomando conta. Depois ele viu o Major Evangelista aparecer com um cabra atrás, que o empurrava como se ele fosse preso. Então o Padre Amâncio resolveu sair para ir estar com o grupo. E Antônio Bento o acompanhou. As mulheres choravam. As duas velhas batiam o beiço na reza, com um tremor de doença.
O chefe do bando estava no sobrado, bem sentado na sala de visitas. Quando viu o padre, levantou-se.
— Boa noite, disse o vigário.
— Boa noite, padre-mestre, respondeu o cangaceiro de chapéu na mão. Não é nada não, estou fazendo uma coletinha aqui no Açu.
O Padre Amâncio falou sério. O Açu era uma terra de pobres.
— Pobre o quê, Seu Vigário! Este bicho daqui está podre de rico.— E apontou para o Coronel Clarimundo.
— Meu filho, disse o padre, isso que você está fazendo não se faz. Atacar um lugarzinho destes para tirar dos outros.
— A gente só tira dos ricos.
— Para que mataram o soldado, um pobre homem cheio de filhos?
— Ninguém mandou ele resistir, Seu Vigário. Aí a palavra do chefe estava já mudando de tom, ficando áspera. — Eu não vim aqui para ouvir santa missão, Seu Padre. A gente tem muito que fazer.
Nisto entrou um cangaceiro com o Major Evangelista:
— Capitão, o homem está escondendo o leite!
— Passe-lhe o cipó-de-boi que ele fala, que ele fala direitinho.
O padre se apresentou, o Major não estava escondendo nada.
— Nós queremos é o dinheiro do governo.
O padre explicou com jeito. Não havia dinheiro nenhum. Aquela Recebedoria não arrecadava coisa nenhuma.
— Mandei tudo que tinha ontem, disse o Major, humilhado, com a voz trêmula.
— Mande soltar o homem, disse o padre.
— Soltar coisa nenhuma, disse o cangaceiro que estava com o Major.
— Cala a boca, disse o chefe. O negócio com o vigário é comigo.
O Coronel Clarimundo, amedrontado, parecia um cadáver enterrado na cadeira. Lá para dentro de casa a família se congregara no quarto dos santos, na reza.
— Mande soltar os homens, disse o padre.
— Não tenha pena não, Seu Vigário, o dinheiro tem que aparecer. Nós foi que soltemos os presos da cadeia. Para que o senhor não foi dar de comer àqueles pobres, Seu Vigário? Estava tudo mortinho de fome.
— São criminosos, respondeu o padre.
— Criminosos coisa nenhuma. Criminoso é o governo, Seu Vigário.
O cabra que estava com o Major Evangelista tinha cara de perverso. Com dois punhais atravessados na cintura, de olhos agateados e com um riso cruel:
— Vamos botar o velho no brinquedo, que ele dá para falar que só carretilha.
O Major nem podia mais falar.
— O homem não tem dinheiro, disse o vigário.
— Solte essa gata velha, disse o chefe.
O Major caiu na cadeira como um trapo.
— Às mulheres estão com medo da gente? perguntou o chefe. Pensam que nós somos bichos? Vai lá para fora, disse o chefe para o subordinado. Vai buscar o juiz. A gente vai dar um ensino nele na caatinga.
Nisto entrou D. Senhora e se ajoelhou nos pés do cangaceiro. Estavam dando no marido.
O padre pegou a mulher e levantou-a. O cangaceiro não viarazão para choro:
— Ninguém está dando no seu marido, mulher. Ele não prende o povo? Se estivesse na peia, não queria dizer nada.
Aí o padre pediu pelo juiz. Era uma autoridade, não deviam fazer isso com ele . Já haviam recebido o dinheiro do Coronel Clarimundo? Deixassem o Açu.
— Nós até estamos gostando da visita, Seu Vigário. Pois vou dar uma esmolinha para a igreja. 66 j. l. do r.
E dizendo isto botou um pacote de notas em cima da mesa. E contou. Tirou dois contos e deu ao padre para ele fazer um altar para S. Severino na igreja.
— Quando voltar aqui, quero ver o altar, Seu Vigário! Olhe, eu não brinco não. Quando eu estive na Mata Grande, dei ao padre de lá uma quantia para fazer a torre da igreja. Pois não é que o padre comeu o dinheiro! Me disseram que ele estava com uma fazenda no pé da serra da Jurema. Fui lá. Perguntei ao vaqueiro de quem era aquele gado todo.— "É de seu Vigário, capitão", me disse o homem. Matei tudo. Não ficou uma rês para semente.
O Padre Amâncio guardou o dinheiro e falou para o chefe. Pedia em nome de Deus que ele fosse embora. Não levasse o juiz. Ele nada tinha que ver com o governo. Era tão responsável quanto ele padre. D. Senhora olhou para o vigário admirada.
— Seu Vigário, é o que eu estou lhe dizendo, os meus meninos não estão desgraçando ninguém. O negócio comigo é no direito. As mulheres estão chorando é porque querem. Só faço mal a mulher safada. Não sou Luís Padre não, que anda desgraçando as moças.
E se dirigindo para um cabra que estava de sentinela na porta:
— Manda reunir o grupo. Só toquei fogo na fazenda do Coronel Zé Carmo porque o cachorro mandou soldado atrás de mim. Aqui no Açu até nem tenho inimigos. Me disseram que esse juiz é um safado. Danado para condenar.
Nisto foi aparecendo o Dr. Carmo, acompanhado de dois cabras. Vinha branco, de cabeça baixa, como um preso no júri.
— Me disseram que o Dr. anda fazendo de brabo.
O juiz nem podia falar. Antônio Bento, do seu canto, se lembrava dos gritos que o gordo lhe dera. D. Senhora chegou-se outra vez para o cangaceiro.
— Não precisa fazer penitência não, minha senhora. O vigário aqui já pediu pelo homem. Olhe, Seu Doutor, eu ia levar o senhor para passeiozinho aqui na caatinga para baixar este lombo. Mas o vigário pediu para não fazer nada. O senhor precisa mandar dizer ao governo que a gente não tem medo dele não. Eu lhe agaranto que o governo roba mais do que nós.
O grupo já estava na porta do sobrado. Eram uns dez homens.
— Bem, pessoal, vamos embora. O milho aqui foi ralo. Vamos embora. O Coronel queria até dar uma festinha pra gente. Mas a mulher está numa latomia danada lá pra dentro. O pessoal aqui não gosta de cangaceiro. Se fosse uma força de mata-cachorro, estava tudo de dente arreganhado.
O juiz não dava uma palavra. Suava pelas gorduras, como se estivesse num eito de meio-dia. O Major Evangelista de cabeça baixa.
— Mande enterrar o soldado, seu Doutor, e tirar a conta pra mim.
E saíram de rua afora. Na porta da cadeia dispararam as armas contra a casa vazia. E se foram. O Açu tremia de medo. Era mais de meia-noite e quase todas as casas abertas. Fora o Padre Amâncio que salvara a vila. O Dr. Carmo com a mulher deixaram a casa do Coronel Clarimundo acabrunhados. O Açu conversava em peso sobre o fato. Tudo quanto era mulher, menino, comentava o assalto. Tinham levado dez contos do Coronel Clarimundo. O vigário, na frente de todos, devolveu ao dono o dinheiro que o bandido lhe dera. E ninguém dormiu mais naquela noite. A casa do Padre Amâncio repleta com Maximina dando café ao povo. D. Eufrásia censurava o irmão pela imprudência. Não tinha ele que ir discutir com um homem daqueles. Vinha clareando o dia. Com pouco mais Antônio Bento ia tocar o sino para a primeira chamada. E os cangaceiros estariam por longe. Lá do meio da caatinga não ouviriam as badaladas de Antônio Bento que estava tocando aquele sino, o criado do Padre Amâncio, que pedira ao cangaceiro para soltar o juiz. D. Senhora tinha caído nos pés do cabra e o padrinho pedira pelo gordo. A madrugada cobria a tamarineira de orvalho e começava a chover fino. O sino chamava as velhas, D. Francisca, D. Auta, para ouvir missa. Naquele dia a igreja estava cheia. D. Senhora lá, ajoelhada. Havia até homens na missa. O Major Evangelista batia com os beiços. Antônio Bento nunca vira o velho na igreja. O Açu procurava Deus para agradecer os serviços do Padre Amâncio.
Dias depois espalhou-se a notícia de que D. Fausta estava de cama. Ninguém sabia a moléstia. O Major Evangelista havia ido ao Recife tratar dos negócios da Recebedoria, e a filha caída de cama. Corria que um cangaceiro havia ofendido a moça. E a vergonha dera com ela na cama. Ao certo não se sabia de nada. A criada do Major não adiantava coisa nenhuma. De fato estivera um cabra remexendo no quarto de D. Fausta, atrás de dinheiro. Mas a empregada não ouvira grito, barulho. Mas todo o mundo no Açu estava crente de que a moça fora violada. Debaixo da tamarineira Joca Barbeiro contava detalhes. E comentava:
— A velhota está é ancha. Pegou o seu pedaço sem querer.
O fato é que D. Fausta começou a dar ataques, a gritar como uma desesperada. A primeira vez que sucedeu isso, correu gente para a casa do Major. Depois viram que não era nada. Era ataque de moça, coisa mesmo de mulher. O Major em Recife dera uma entrevista aos jornais. Veio o retrato dele na folha, com a notícia do ataque ao Açu. O serventuário do Estado tinha defendido o patrimônio do governo como um herói. Sofrera o diabo, mas não entregara um vintém da arrecadação. O juiz se fora com a família. Diziam que não voltaria mais. Lula maluco ficara tomando conta das coisas. E de fato, dias após chegava a notícia que ele fora removido para um termo do litoral. E o que mais espantou o povo do Açu foi um artigo do Dr. Carmo, nas solicitadas, onde dizia que fora obrigado a abandonar o Açu porque a vila estava entregue a um padre que se ligara com os cangaceiros. O Padre Amâncio, para se vingar de medidas que ele Dr. Carmo tomara como magistrado, a bem dos interesses da justiça, havia se aliado com um grupo de cangaceiros que atacara a vila, submetendo a povoação a todas as espécies de humilhações. Enganava-se porém o desarmado sacerdote. No cumprimento do seu dever, ele Dr. Carmo ia até ao sacrifício da vida. No artigo o Padre Amâncio era tratado como um perigoso coiteiro. Se houvesse polícia mais vigilante, o cangaceirismo desaparecia do Estado. Bastava que se metessem na cadeia os protetores da espécie do vigário do Açu. Até um perigoso criminoso tinha o padre consigo como criado. Um rapaz de instintos perversos que o acompanhava para toda parte. Um tal de Bento da Pedra Bonita. Os podêres eclesiásticos não podiam permitir que um homem como o Padre Amâncio se mantivesse como vigário daquela freguesia.
Depois do ataque dos cangaceiros, o Açu ficou ainda mais desprezado. Não havia caixeiro-viajante que se arrojasse a ir lá. E corria até que o Coronel Clarimundo procurava mudar de residência, deixando os negócios com o caixeiro, mudando-se para o Câmara. A mulher e as filhas se retiraram. E antes de partir disseram para quem quisesse ouvir: seriam as criaturas mais felizes do mundo no dia em que o marido e pai deixasse aquele inferno. Os negócios do algodão estavam aumentando, plantava-se mais, e o Coronel Clarimundo não podia abandonar para outro o terreno que preparara. Enterrara muito dinheiro no vapor de descaroçar e espalhara com os agricultores adiantamentos. E seria uma loucura deixar o Açu de uma vez. A mulher e as filhas ficariam morando fora dali. Dera educação às meninas, e não seria no Açu que elas pudessem viver na altura da: sua instrução. O Major Evangelista não perdoava o desprezo da família do adversário pela terra que lhe dera a fortuna. E criticava indignado: o povo do Açu merecia mesmo esse desprezo. Vinha aquele Clarimundo, arrasado, sem eira nem beira, enriquecer ali, e quando estava de rabo cheio, mandava a sua gente para longe, porque achava que o Açu era um ôco, uma terra de bichos. O novo juiz ainda não tinha chegado. Duas nomeações haviam sido feitas. E nenhum tivera coragem de assumir o cargo. O suplente, que era o sacristão Laurindo, não botava um papel para diante. E havia gente esperando que a barriga de D. Fausta crescesse. Contavam os dias desde o ataque dos cangaceiros. Fazia seis meses. E nada de aparecer coisa. Outros atribuíam as esquisitices da filha do Major aos antojos. Diziam que ela só comia fruta verde, que não suportava comida de carne. Nada que tivesse vivido. D. Fausta sabia das histórias pela criada, que tudo lhe contava. E rompera relações com D. Margarida, que andava falando dela na casa do sacristão. Tivera vontade de ir na casa da bisbilhoteira e mostrar a barriga lisa.
Mas todo o mundo acreditava no que diziam. Tinham pena da moça: Coitada, parir dum cangaceiro! Que filho infeliz! Contavam a história de Mata Grande: o juiz de lá criava um menino, filho dum cangaceiro. Tinham encontrado a criança chorando na caatinga, ainda com umbigo inteiro. D. Fausta sentava-se na porta da casa, bordando. Quem quisesse que olhasse para ela. E deu para se irritar com os homens que passavam olhando para dentro de casa. E de vez em quando os gritos. Os gritos terríveis, enchendo o Açu. Joca Barbeiro não perdoava:
— Do que ela precisa eu sei, dizia ele para os outros debaixo da tamarineira. A bicha está suspirando pelo cangaceiro.
Quando o Major estava na roda e que a filha começava a gritar, se levantava, deixava o grupo e ia andar por longe. O miserável daquele Clarimundo, ali defronte dele, na casa melhor da terra, com a família longe, gozando a vida, e ele um infeliz, com aquela filha dando desgostos, gritando daquela forma, para todo o mundo ouvir e todo o mundo sabendo a natureza da doença. O Clarimundo sabendo, ouvindo a desgraça dele. O Major andava, ganhava a beira do rio, e quando se sentia cansado, entrava na venda do Salu, no outro lado da rua, para conversar. Salu tinha chegado ao Açu há pouco tempo, Viera botar negócio na vila. Trouxera dinheiro do Amazonas e o comércio dele principiava a prosperar. Depois do Coronel Clarimundo, era o maior comerciante do lugar. O Major Evangelista fizera amizade com ele e só comprava no Salu, aconselhando todo o mundo a fazer o mesmo, chamando a atenção dos matutos que iam à Recebedoria para os preços baixos e a qualidade das mercadorias do rival do Coronel Clarimundo. Lá era que ele parava para conversar, o pobre Major, infeliz com a filha sofrendo daquela doença. Espalharam que o velho se metera de amizade com Saiu para beber às escondidas. A amizade nova do Major tinha esta origem na boca do pessoal da tamarineira. O escrivão Paiva não gostava do velho e espalhava notícias desse gênero. Enquanto o pai sofria por sua causa, D. Fausta mais o odiava. Aqueles pássaros, aquelas flores, cada vez mais a irritavam, a enchiam de rancor. O velho ultimamente parara de conversar sozinho na mesa, sobre os seus grandes cuidados. Na cabeceira da mesa não dava uma palavra. De manhãzinha, ainda do seu quarto, D. Fausta ouvia o pai nas carícias com os passarinhos. Ouvia com desespero o Major dando beijos, assoviando, chiando para os seus queridos. Aquilo era como se fosse para estranhos. Velho doido. E ela se mexia na rede, puxava um pigarro alto para mostrar que estava acordada, que estava ouvindo aqueles enxerimentos. E os pássaros estalavam canto pela casa inteira. O velho mudava as gaiolas para os lugares de sol, mudava o alpiste dos cochos, lavava as tábuas. Depois, passava-se para as orquídeas. Pegava uma por uma e ia ajeitando-as, virando-as, olhando-as em silêncio, sem uma palavra. Aquilo levava a manhã inteira, até a hora do café. Por fim saía de casa e D. Fausta ficava só no meio de todos aqueles inimigos, de seus ódios. Agora com os ataques aumentaram os seus rancores. Se tivesse força, quebraria tudo, mataria tudo. A criada Ursulina lhe contava das notícias que corriam sobre o Major. A filha viu logo que era mentira. Nunca chegara ele em casa com cara de bêbado. Mais uma miséria do povo do Açu. E quando estava sozinha no quarto, olhava para a sua barriga, via-a murcha e gozava com isto a raiva que estava fazendo aos outros. Andavam falando de sua gravidez. Prenhe de um cangaceiro, de um bandido. Se fosse verdade, ninguém teria que ver com isso. Seria ela quem aguentaria as consequências. Podia ser um filho bonito e bom, bem melhor do que todos os meninos do Açu. Aí D. Fausta sentia mesmo que a história não fosse verdade. Mas ao mesmo tempo crescia-lhe a raiva, errava os pontos de seu bordado, voltava atrás, desfazendo os enganos com uma tesourinha. Estava ficando velha. Com pouco seria como as beatas da casa-grande, que nunca tiveram um homem em cima delas, que nunca sentiram o fogo de um homem. E D. Fausta se irritava. Furava os dedos com a agulha. E à tardinha vinha aquela ânsia, aquela palpitação pelo coração, aquela vontade desesperada de ir longe, de se sentir dominada, furada de um lado a outro, e o corpo inteiro estremecia de alto a baixo. Um frio corria-lhe pelas costas. Caía dura e gritava. Gritava como se uma dor nas entranhas lhe apertasse as carnes, lhe espremesse as carnes. Depois chegava-lhe a vergonha imensa, uma tristeza louca. Todas as mulheres do Açu tinham ouvido os seus gritos, todas estariam pensando nas razões de seus gritos. Miseráveis, desgraçadas. Pena que não fosse verdade, que o cangaceiro não tivesse feito dela uma mulher completa, não lhe tivesse enchido a barriga com um menino. Aquele pai fizera a desgraça dela. Fizera-lhe da mãe uma pobre sombra na vida, matara-lhe a mãe. Dentro de casa nada valia para ele. Só os pássaros, só aquelas flores. A mulher se queixava, o marido não sabia que elas existiam, não sabia que existiam a mulher e a filha. Velho mau, velho ruim.
E uma tarde o Padre Amâncio mandou Antônio Bento procurar na casa do Major uma toalha que D. Fausta bordava para a igreja. A moça reparou no rapaz. Lembrou-se daquela cabeleira que ela acariciava nos tempos em que ele era menino. Agora estava um homem. E teve vergonha de olhar para Antônio Bento. Bonito rapaz, bonitos olhos, que corpo forte. Demorou para dar a toalha, reparando em tudo mais que era do criado do padre. E quando Bento saiu, D. Fausta ficou pensando nele. Era um menino para ela. Vira-o criança, enterrara os seus dedos pelo cabelo ondulado de Bento. E agora era aquele rapaz de olhar terno, de pele fina, bem alvo. Podia ter dezessete anos, podia ser seu filho. E assim o rapaz não saía da cabeça de D. Fausta. Dormia com ele , bordava as letras pensando nele. Ficou com medo. Começou a senti-lo pegado a ela, abraçando-se com ela, dormindo na rede dela. Se as mulheres do Açu soubessem que ela pensava no criado do padre, mangariam, fariam debique. D. Fausta era rapariga de um menino. Que mulher fogosa, atrás de um menino para matar os seus desejos! Então ela ficava na janela olhando para a banda da casa do padre. Via o rapaz saindo de lá para a igreja. Ficava olhando para a torre quando ele estava tocando o sino. Se ele soubesse que ela estava com ele na cabeça, mangaria, faria pouco. Deu para ir à missa todos os dias, queria ver Antônio Bento na igreja, olhava para ele perto do padre e voltava para casa cheia de remorsos. Fora à igreja para satisfazer aos seus desejos. Uma debochada, era o que ela era. D. Auta lhe falara uma vez. Parara na porta para conversar:— "Por que a senhora não se confessa, D. Fausta?" Dera uma resposta qualquer. Não teria coragem de contar os seus pecados ao Padre Amâncio. Qual, ninguém ali saberia de seus desejos, da miséria de seus desejos! Quando Antônio Bento passava, um frio corria pelo corpo dela e lá ia ele tão despreocupado, tão alheio ao seu amor. Baixava a vista para o bordado e tinha a impressão de que aquela agulha furava o seu coração, entrava e saía em carne sua. Ouvia à noite o pai roncando, o sopro horrível do Major no sono profundo. Toda a sua desgraça viera dele, que não cuidara da família. A carne de D. Fausta tirava-lhe o sono, fervia-lhe o sangue. Antônio Bento se deitaria sobre ela, machucaria as suas coisas, dobrava-lhe o corpo. Era um amante furioso. O amante com que ela sonhara toda a sua vida. E dormia assim contorcida na rede, com a impressão real de um homem ao seu lado. De manhã começava o suplício ouvindo o velho aos beijos com os pássaros, chiando com os canários, batendo nos cochos. E ouvia o sino chamando para a missa. Antônio Bento puxava o badalo. Vinha-lhe com aquilo uma satisfação física. Parecia que ele estava puxando os seus peitos. Só podia ser coisa de doida, uma maluqueira. Mas todas as madrugadas aquele toque de sino lhe dava essa sensação esquisita. O toque do sino dava-lhe um gozo estranho. Só podia ser que o diabo estivesse atrás dela, metendo-lhe aquilo pelo corpo. Queria fugir do pensamento, das imagens obscenas, mas as bichas eram vivas demais. Voltava sempre da missa com desejos infernais. Via Antônio Bento de perto, com aquela opa vermelha até aos pés, e imaginava que ele fosse um padre e ela a rapariga do padre. Ali no Açu contavam de um vigário como criara família, isto há muitos anos. Tivera mulher dentro de casa. E o povo sabia que altas noites pelo sertão, pelas caatingas desertas, corria com correntes arrastando pelas pedras a mulher do padre encantada numa burra sem cabeça, doida, doida, arrastando as correntes. Antônio Bento era um padre. Mesmo assim ela queria o bichinho. Daria tudo para vê-lo contente. Deixaria que ele pisasse por cima dela, seria para ela mais que um homem. Adorá-lo-ia, pô-lo-ia acima dos santos, de Deus. E parava o bordado, suspirava. À tarde, à mesma hora, vinha-lhe a coisa. O corpo inteiro vibrando, a ânsia, a agonia, o frio pela espinha, e D.Fausta caía para os lados aos gritos. Todas as mulheres, todos os homens sabiam, comentariam, falariam. A filha do Major estava se espojando no chão, como uma cachorra no cio. Depois que aquilo passava, ela vinha à vida como se tivesse voltado de um chiqueiro de porcos. Sentia lama nas entranhas, fedor nas carnes. Uma grande vergonha, como se estivesse nua no meio do povo do Açu inteiro. Aonde estivesse o pai ouviria. Aí D. Fausta sentia um prazer perverso. Queria que o pai ouvisse o grito de sua carne, de seus desejos fracassados. Velho ruim. Era ele o culpado de tudo. O Açu também era culpado. Não era feia. Fora até bonita nos seus tempos de filha de Maria, quando cantara no coro. Só aquele rapaz do Camaru, que viera com um comprador de gado, olhara para ela, quisera se casar com ela. Tivera tanto ciúme! Não era pela sua vontade. Uma coisa estranha vinha lhe exigir, vinha mandar nela. E tanto sofreu e tanto exigiu, que o homem se foi. Nunca mais olharam para ela. Era o pai, um chefe de família que não cuidava da casa, que só dava atenção às suas manias, o culpado de tudo.
E a coisa foi assim dias e dias. Era dezembro. O sol queimava o sertão. As noites eram frescas, soprando um vento bom. Os dias quentíssimos, mas mal o sol se punha, era como se apagasse uma fornalha. Um friozinho caía sobre o Açu, sobre as redes de dormir do Açu. O sino chamava para a missa, a tamarineira estava coberta de orvalho. E Antônio Bento continuava a sonhar com a mulher de Dioclécio, de cabelos compridos, que era quente nos frios das madrugadas. Mais de uma vez falara ao Padre Amâncio, nas confissões, desses seus pecados, dessas suas ligações. Mas o seu padrinho fazia que não ouvia, dava-lhe as mesmas penitências do tempo em que ele não pecava daquele jeito. Tocava o sino, ajudava a missa, sacudia o turíbulo, enchia a igreja de incenso, e sempre quem estava com ele era Dioclécio. Aí se deu a história com D. Fausta. Uma tarde, o Padre Amâncio mandou Antônio Bento buscar uma encomenda de bordado na casa da filha do Major.
— Entre, menino, gritaram lá de dentro.
Ele entrou. D. Fausta estava no quarto. Da porta ele deu o seu recado.
— Entra para cá, menino.
E ele parado, com receio. Foi quando reparou na cara da moça. Notou qualquer coisa de estranho no olhar que o devorava.
— Vem cá Antônio. Não tem ninguém em casa não.
Parou na porta ainda.
— Entra, menino! Estás com medo de quem?
Aproximou-se mais e viu D. Fausta como se fosse outra.
— Anda, vem ver a toalha.
E quando ele se chegou, a mão da mulher estava fria e ela o segurou pelo braço, puxou-o para junto dela, abraçou-o como se quisesse quebrar-lhe o corpo. E foi dando beijos, mordendo-o todo com fúria. De repente D. Fausta levantou-se e fechou a porta.
— Fica quieto. Vem para cima de mim!
E arrastou Antônio Bento. Ele sentiu um fogo pelo corpo. D. Fausta o dominava. Botava a cabeça dele entre os seios, rangia os dentes, gemia, torcia-se toda numa vibração de doida. Por fim ele se deu, entregou-se, deu-se todo, da cabeça aos pés, à fúria da mulher.
— Tu vem amanhã, meu filhinho? Tu vem, meu bichinho, pedia ela.
E beijava a boca, beijava tudo numa sofreguidão de sedenta.
Bento teve medo. Se viesse alguém?
— Pode chegar gente, D. Fausta.
— Não vem não, bichinho. Não vem ninguém não. O velho anda por fora e a criada saiu.
E espalhou-se na cama, grudou-se com o rapaz. Depois, começou a chorar.
— Tu vem amanhã, tu vem?
E escondia o rosto no travesseiro. Antônio Bento se viu num outro mundo, arrastado por um monstro ao fim do mundo. Estranho a tudo, com outro Antônio Bento no corpo. E veio-lhe um pavor súbito, ao mesmo tempo uma vontade de ficar com aquela mulher para sempre, morrer ali. Os pássaros do Major cantavam dentro da casa. Eram vozes de outras terras que soavam aos seus ouvidos. D. Fausta só fazia dizer:
— Tu vem, tu vem?
Abriu a porta e deixou a casa do Major com vontade de correr. Vira o diabo. Tremia, chegando em casa, com impressão do demônio se torcendo como uma cobra na figura de D. Fausta. O Padre Amâncio estava deitado na rede, se balançando, lendo o breviário. Na cozinha Maximina batia ovos para o jantar. Antônio Bento foi para o quarto. O que era o amor de que lhe falara Dioclécio? Seria aquela D. Fausta mordendo, beijando-lhe a boca, a língua, aquele frenesi, aquela ânsia em cima dele? Era casto. Sonhava somente com a mulher de Dioclécio, de cabelos compridos. Nunca mais que voltasse à casa do Major. A cara de D. Fausta era de uma faminta, de uma pobre morrendo de fome e de sede. Dioclécio lhe falara das noites com a mulher do velho, de uma alegria poderosa tomando conta dele.
E os ataques de D. Fausta se repetiam. Depois da história com Antônio Bento ele reparava que vinham se amiudando. Logo que estouravam os gritos, ele se sentia culpado, via a cara da mulher na agonia, sofrendo.
Por outro lado o Major Evangelista andava cada vez mais se esquivando das conversas de rua. Só deixava a Recebedoria para ir bater boca na venda de Salu. O escrivão Paiva, sem juiz na vila, manobrava o suplente como um seu instrumento. Estava prestigioso, falando grosso, dando opinião nos negócios do município. Joca Barbeiro, íntimo dele, começava a encher a cabeça do homem de coisas. O Major Evangelista era uma vítima dessas conversas, das cogitações dos dois. Aquele lugar de coletor precisava de um homem disposto. E o Major não fazia nada, vivia fora de suas obrigações, deixando que os contrabandistas de aguardente passassem pelas barbas das autoridades. O escrivão dizia que o homem para a função era o Joca. O velho precisava se aposentar. O Coronel Clarimundo dera a sua opinião sobre o caso: não se metia. Era inimigo do Major, não se davam, e não daria um passo para aquilo. O Major soube da coisa e foi ao escrivão. Altercaram: não estava velho, era homem para muito mais.
— O senhor não pode falar assim dessa forma, Major. O senhor não cuida dos interesses do Estado.
— Quem não cuida? Eu? Pois fique certo que não vejo ninguém aqui mais capaz do que eu.
— Capaz coisa nenhuma. O senhor não dá jeito nem na sua filha. Vá cuidar dos ataques da sua filha.
O Major quis crescer para o Paiva. Faltou-lhe a voz, recuou. Andou dois passos para a porta da rua. Ali no cartório havia uns sujeitos esperando pelo serviço do escrivão. E o Major foi saindo de rua afora, meio tonto. Na porta do estabelecimento estava o seu inimigo, o Clarimundo, com mulher e filhos no Camaru, de palacete. Entrou em casa, os canários cantavam como doidos. O vento sacudia as orquídeas dependuradas. A filha na sala de jantar bordava de cabeça baixa. O Major foi para o seu quarto e gritou que queria uma xícara de café. A criada não respondeu. Ele levantou-se e viu a filha na cozinha preparando, atiçando o fogo! Pobre filha! Foi andando para perto dela e teve vontade de fazer-lhe um agrado, tinha vontade de tê-la nos seus braços. Coitada! Gritava daquele jeito, sofria tanto.
— O café já vai, disse D. Fausta sem olhar para ele .
A sua Fausta com a voz rouca, áspera.
Olhou para a filha. Ainda persistia o seu desejo. Teve medo. E foi voltando para o seu quarto, com uma coisa esquisita, um sofrimento no coração. E o Major começou a chorar como no dia em que lhe morrera a mulher, com a franja da rede cobrindo a cara para que ninguém visse, para que ninguém soubesse que ele chorava. Defronte estava Clarimundo, dono do Açu. Se Clarimundo soubesse que ele chorava, Clarimundo que era dono de todo o algodão, de toda a riqueza do Açu... Aquele Salu do fim da rua fora a sua esperança. Pensara que ele pudesse fazer sombra ao adversário de vinte anos. Mas qual. Ninguém podia com Clarimundo. Prefeito, tudo ele era na terra. Filhas nos colégios das freiras, educadas, sabendo tocar piano, e a sua Fausta dando ataques, bordando, trabalhando, ridicularizada por um sujeito da marca do Paiva. Terra infame, gente infame. Aí a filha chegou com o café. Deixou-o em cima da mesa e saiu de cara dura, indiferente, com um rancor secreto contra ele . Ainda pensou em chamá-la. Iriam embora dali. Aposentava-se com quarenta anos de serviço. Viveria noutro lugar, onde ninguém soubesse das dores e doenças dela. O Major bebeu o café, o amargo café feito pela filha. Os seus canários cantavam, e ele nem se lembrava de seus canários. Foi para a janela; havia gente na tamarineira conversando. Estava certo que aquela conversa era a respeito dele. Aquela canalha conversava sobre ele e a filha. Miseráveis. Nisto viu o Padre Amâncio que vinha pela calçada de sua casa.
— Boa tarde, Major, disse-lhe o padre e sorriu para ele .
Parou para conversar. O Major convidou-o para entrar. Não quis, e pegaram na conversa ali mesmo. O vigário perguntou pela saúde de D. Fausta.
— No mesmo. O senhor não pode calcular como essa doença me tem aborrecido. A mãe nunca teve nada. Morreu, como o senhor sabe, de febre. Mas esta menina desde mocinha que é doentia. Ah, Seu Vigário, o senhor não pode calcular os meus desgostos! Hoje mesmo me sucedeu uma dos diabos. O Paiva me disse o que não se diz a um cachorro.
— O senhor não deve levar em conta essas coisas, respondeu o padre. Essa gente o que quer é o seu lugar. Tudo vem daí.
Mas o Major queria se abrir. E falou para o Padre Amâncio como se estivesse num confessionário. Ele não era muito da igreja. Não porque não acreditasse. O padre sabia. Nunca dera desgosto a vigário nenhum ali no Açu. Era um infeliz. Nascera aquela filha. Criara a menina como a mãe bem quisera. Não se metera na criação, embora muitas vezes se arrependesse. Fora um grande erro. Devia ter entrado com a sua força. Abandonara a moça. Ela era até bem comportada. E sucedera o que estava sucedendo. Aqueles ataques, a filha calada dentro de casa, como uma muda. Se tivesse recursos, tê-la-ia levado no começo aos médicos do Camaru. Quis levá-la ao Recife, mas os recursos não davam. E agora era o que se via. A Fausta, cada dia que se passava, pior ia ficando. Tinha até medo de uma desgraça.
O Padre Amâncio consolou a sua ovelha rebelde. Gostava do Major. Nada tinha que dizer dele. Há vinte anos no Açu, e sempre lhe fora o mesmo. Se o Major quisesse, sua irmã estava de viagem para Goiana. Podia aproveitar e levar a filha dele para tomar uns banhos de mar em Ponta de Pedra.
O Major agradeceu comovido. E entrou a falar do Açu. Lembrava-se como se fosse hoje da chegada do Padre Amâncio. Ninguém dera nada por ele . Era tão moço, tão cheio de vida, tão alegre. Padre assim nunca tinha aparecido por ali. Desconfiaram logo. Qual, aquele rapaz não daria para o cargo. E não era para elogiar: fora o melhor de todos.
O Padre Amâncio sorria:
— Nada, Major. O que eu tenho é demorado mais tempo.
— É porque esta terra não tem jeito, Seu Vigário. Não é para falar, mas até chego a acreditar no que dizem. Há caveira de burro enterrada por aqui. O senhor veja Garanhuns. Conheci aquilo que era uma tapera muito pior do que isto. Foi a Pedra Bonita, Seu Vigário. Aquilo está pesando em cima da gente. O sangue dos meninos. Os inocentes que eles mataram deram nisto.
O Padre Amâncio explicava:
— Nada, Major, não pense nisto. O que passou passou. Os pobres da Pedra Bonita tinham sido fanatizados, levados ao crime por um aventureiro. Aquilo tanto podia ter acontecido lá como em qualquer outra parte. Há vinte anos que estou aqui e é no que ouço falar todos os dias: o Açu não vai para diante por causa da Pedra Bonita. Isso não passa de superstição. Garanhuns prosperou da maneira que o senhor diz por causa da estrada de ferro. Outros lugares não vão para diante porque não têm os mesmos recursos. Nós por aqui estamos fora do mundo.
O Major se calava, mas não se convencia. Nisto ouviram D. Fausta gritando:
— Pai miserável, dizia ela, pai miserável.
O Major ficou lívido. Quis correr para dentro de casa e ficou embaraçado.
— Padre Amâncio, o senhor me desculpe.
E um barulho de pancadas, de coisas se quebrando, vinha lá de dentro. O Padre Amâncio entrou com o Major e encontraram D. Fausta aos berros, como uma desesperada, quebrando as latas das parasitas, espatifando tudo. O velho correu para as suas preciosidades espalhadas pelo chão. Olhou para a filha e começou a recolher os restos. — Pai miserável.
E entrou nos gritos do ataque, caindo para um canto. Deram-lhe alho para cheirar. E o Major saiu com o Padre Amâncio para a sala de visitas. Era um cadáver o que o Padre Amâncio via, um homem do outro mundo. Teve uma pena enorme do Major e não encontrou uma palavra para dizer. Ficaram sentados, o Major arriado.
— É isto, Seu Vigário, é isto!
E não disse mais nada. O padre se despediu. E a casa do Major num silêncio profundo.
O sino da matriz começava a repicar para um enterro de anjo. Quantas vezes, quando a filha era pequena, não estremecia ele ouvindo aquele repique! Quantas vezes não se assustara, não se apavorara só em pensar na morte da filha,! E verificara naquele instante que Fausta o odiava. Nunca pensara que aquele silêncio tosse uma agressão contra ele . Tomava-o como esquisitice. Agora via que não era. Era odiado pela filha. O sino repicava. Um anjo se ia para o céu. E os gritos de D. Fausta recomeçaram fortes mais estridentes. O Major foi buscar o chapéu no seu quarto é saiu de rua afora. Debaixo da tamarineira estavam os homens na conversa. Estariam falando dele e da filha. Se fosse autoridade, mandaria meter aqueles canalhas na cadeia. Riam-se alto, não respeitavam os sofrimentos dos outros. Aqueles meninos da Pedra Bonita sangrados como carneiros, para lavar a pedra e ensopar de sangue a terra. O Major foi andando, andou muito, até que parou na venda do fim da rua.
— Seu Salu, o senhor tem aí vinho branco?
— Sim, Senhor Major.
— Então me bote um copo.
— Major, lhe disse o vendeiro, é verdade que o Joca vai ficar coletor?
— Por enquanto sou eu, Seu Salu. O senhor me bote outro copo.
Nisto foi passando o enterro do anjo. O caixãozinho azul na frente e os meninos atrás tagarelando.
— Seu Salu, este seu vinho e bom de verdade. É de quinto novo?
— De quinto velho, Major. Então morreu a menina do cabo, Major.
— De quê, Seu Salu?
— Homem, me disseram que foi de uma furada num pé com um prego.
— Morreu mesmo, Seu Salu?
— Morreu, respondeu o homem espantado. O senhor não está vendo o enterro?
— Ah, sim! Pois Seu Salu, o seu vinho é bom mesmo. Me bote outro copo.
O homem entrou para o interior da venda e conversou com a mulher. O que diabo teria o Major?
— Está honrando alguma data hoje, Major?
— Data nenhuma. O senhor precisa é aumentar este negócio, Seu Salu. O senhor precisa é fazer o Clarimundo fechar as portas, quebrar.
O Major estava de pé, de olhos fuzilando.
— O senhor não faz nada. Onde está o seu tino comercial? Vem para Açu e fica como os outros da terra.
O vendeiro compreendeu a situação do velho. Ficou quieto, deixando que ele falasse sozinho. Outros copos vieram. E quando foi à noitinha, o Major estava derreado no balcão, dormindo. Salu e a mulher levaram-no para dentro de casa. Estiraram-no na cama.
O Açu se encheu: o Major Evangelista não aguentava mais a cachaça, estava de cabeça fraca. Caíra com o corpo na venda de Salu. O escrivão Paiva procurou o prefeito para falar. Se aquilo continuasse assim, com pouco mais havia desfalque. E era capaz do governo fechar a Coletoria. O Coronel Clarimundo achava que fora apenas uma extravagância do Major. Não sucederia mais coisa nenhuma.
Uma tarde o Major apareceu debaixo da tamarineira, vindo dos lados da venda de Salu. Os olhos fuzilavam.
— Podem continuar a falar de mim.
— Ninguém está falando do senhor, respondeu Joca Barbeiro.
— Pois podem falar. Sou um homem de bem, sou um homem de bem. Não enriqueci com os cofres da Prefeitura.
Joca Barbeiro quis dizer qualquer coisa.
— Cale-se, gritou o Major. Não vejo aqui um homem que possa levantar a voz para mim. Você, e apontou para Joca, você é uma língua de jararaca.
O outro quis replicar, mas os companheiros fizeram sinal para ele .
— Vocês todos são uns cachorros.
Nisto os gritos de D. Fausta estrondaram no Açu. O Major calou-se, virou as costas para a tamarineira e foi andando, andando.
— Coitado! disseram. Dizem que está dormindo com a garrafa de cachaça debaixo da rede.
D. Fausta continuava gritando.
— Vocês já repararam, disse Joca Barbeiro, que toda a vez que toca o sino, ela abre a goela no mundo? Aquela bicha está precisando eu sei de que é.
E abriram na risada.
O Major Evangelista abandonara os canários, relaxara os serviços. E nos dias de feira mais excitado ficava ainda. De manhã começava a andar de um lado para outro, falando com uns, implicando com os mascates, chamando-os de ladrões. Ninguém pagava imposto. Todos eram uns ladrões. E assim ninguém tinha mais respeito ao Major. Riam-se de seus gritos, de suas impertinências.
Antônio Bento não sabia como, mas se sentia um pouco culpado de tudo. Via o Major embriagado. E julgava-se um responsável por aquela desgraça, porque podia ter dado um jeito a D. Fausta. Mais de uma vez ouvira dizer que a moça ficaria boa se se casasse. Ela só precisava de homem, afirmava Joca Barbeiro. E ele fugira de D. Fausta. Desde aquela tarde medonha em que ela o procurara. Se ele tivesse voltado, o Major não estaria naquele estado.
O Padre Amâncio, quando encontrava o velho cambaleando, gesticulando como um furioso, levava-o para casa. Ia com ele até à porta e D. Fausta aparecia com agradecimentos. Mas mal saía o padre, dizia horrores ao velho. Só mesmo a morte daria jeito a ele . O Major fora de si não dava importância a nada, não ouvia nada. Caía na rede como um molambo.
Era o assunto do Açu. A filha dava no pai, dava de chicote como em cachorro. Havia quem tivesse ouvido até os gemidos dele. Pobre Major. Bebia por causa da filha. E a diaba fazia aquilo com ele .
D. Fausta sabia dos comentários. Fossem todos para os infernos, porque ela não precisava de ninguém para viver. Aquele menino da Pedra Bonita não quisera o corpo dela. E aí vinha na moça uma fome, um desejo desesperado. Se o pegasse outra vez, se o pegasse de jeito, comeria tudo que ele tinha, arrancaria a língua com um beijo, machucaria todas as partes dele com as suas, tiraria sangue do corpo dele. E com esta fome, vinha-lhe a vontade de gritar, de gritar para que todo o mundo soubesse e visse a sua necessidade.
Aqueles gritos chegavam em Antônio Bento como se fossem um chamado de afogado, de gente morrendo chamando por ele .