Pedra Bonita
Capítulo 9
UM dia de sol quente, bateram na porta do padre. Bento estava lá para o quintal. Maximina foi atender. Era um vaqueiro que queria falar com Bento. A negra gritou:
— Toinho, tem um homem te procurando!
Ele compreendeu logo quem era. Correu na certa para falar com Domício. E era Aparício em carne e osso. Estremeceu da cabeça aos pés. Ficou sem falar, estatelado, como se uma bala o tivesse atravessado. O irmão sorriu para ele :
— Diz para o povo que eu sou Domício.
— Entra, disse Bento, vamos lá para trás.
Ficaram no quarto e puderam conversar livremente. O Padre Amâncio andava por fora e Aparício pôde falar à vontade. Estava ali no Açu para saber das coisas.
— Olha, a gente precisa estar de olho aberto. Soube que a força tinha ido para Dores. Os cabras estão pensando que eu estou na Bahia com o grupo. Qual nada! Levei um balaço no braço e precisei ficar descansando aqui por perto. O meu pessoal foi dar um passeio por longe. Depois a gente se ajunta outra vez. Vim aqui falar contigo por causa dos velhos. Porque Domício se sumiu e ninguém sabe onde está. Até me disseram que ele estava com o velho Zé Pedro da Pedra Bonita. Estive lá e não me deram notícia dele. Eu soube que os velhos estão só. Tu para que não deixa isto aqui e não vai para lá? Podia botar gente lá com os velhos. Tu é que devia ir.
Depois Aparício contou muita coisa de sua vida. Fora no tiroteio dos lajedos do Araçá que ele ficara chefe duma parte do bando.
— Deodato não aguentou o repiquête. Se eu não pegasse fixe, a coisa estava perdida. A gente deixou Deodato e eu peguei o pessoal. Cangaceiro não tem que ter coração. Fizemos um serviço de mestre em cima do Sargento Venâncio. Nunca mais ele dá em mãe de homem como deu. Tu já viste as loa que fizeram para mim? Saiu com um retrato. Tu precisa ir para onde estão os velhos. Só se Domício aparecer. Me disse o velho Zé Pedro que enquanto mãe estiver viva, os macacos não podem comigo. O tal Tenente Maurício está precisando de um serviço. Ele deu um fogo com a gente. Foi um fogo danado. O cabra é duro mesmo. Briga gritando, descompondo, como cangaceiro. Mas a gente pega ele de jeito. Deixe estar. Anda no grupo dele um tal de Severino, um rastejador, um cabra que toca viola. Pois aquele cabra foi do grupo. Tem dado o que fazer.
Aparício parecia recear de qualquer coisa, olhava para os cantos, apurava o ouvido para ver se ouvia alguma coisa:
— Estou com o braço meio bambo. A bala entrou e saiu. Só dei fé da coisa quando o fogo parou. O Coronel Joca Abílio me deu pousada. Quis até chamar um doutor para ver. Qual nada, fiquei bom de repente. Na volta do pessoal é que eu vou experimentar de verdade o braço.
Bento olhou para o irmão, reparou bem. Era aquele o seu irmão, que ele conhecera de perto, que saíra das entranhas de sua mãe, que se criara no Araticum. Era mesmo Aparício. E o outro, o do cangaço, o do falaço do povo, dos ataques, das mortes, dos roubos, dos assaltos, só podia ser outro. Ouvia Aparício falando como o irmão do Araticum. Não lhe dava impressão diferente. Quis lhe perguntar umas coisas, saber dos detalhes de lutas que corriam pelo sertão. Não achou jeito de ser Aparício o homem daquelas histórias. Não acreditou.
— Menino, tu precisa é cuidar dos velhos. Isto aqui não serve pra nada. Ainda dou um ataque nesta vila de deixar tudo de papo pro ar. Me disse Deodato que uma vez ele fez um serviço aqui. Deu até dinheiro ao padre para a igreja.
Bento defendeu a terra. Ele não devia fazer nada no Açu. O povo era pobre. Rico ali não havia.
— Não é questão de riqueza não, Bentinho. Tu nunca ouviste o velho Zé Pedro falar deste povo? Olha, ele me disse que toda a desgraça do povo da Pedra saiu do Açu. Foi o povo daqui que acabou com a Pedra.
Aparício viera para que ele , o irmão mais moço, fosse tomar conta dos velhos. O velho Zé Pedro lhe falara na influência da mãe no destino do cangaceiro. Enquanto ela vivesse, nada aconteceria a Aparício. Só mesmo Bento poderia viver com eles, com os pais.
— Olha, Bentinho, quando tu quiser saber notícia da gente, do grupo, procura um aguardenteiro chamado Mariano, que vem todo dia de feira aqui no Açu. Este cabra espia pra nós.
E se despediu do irmão.
O Açu, os três soldados do destacamento, não sabiam que visita era aquela que procurava o criado do padre. O rei do sertão entrara e saíra como qualquer matuto, como um simples vaqueiro, na vila. Bento ficou com medo. Se alguém conhecesse Aparício, a desgraça estava feita. O que podia fazer o irmão, cercado, de mãos abanando? Viu-o perder-se no fim da rua, sumir-se. Era ele , o perigoso bandido, que já tinha retrato nos folhetos que se vendiam nas feiras. O governo andava atrás dele. Forças, tenentes, amedrontando os sertanejos, implantando o terror para acabar com Aparício, que era aquele homem igual aos outros e que há pouco estivera com ele , falando da mãe. Com medo que ela morresse, porque um rezador juntara o destino dela ao seu. Não podia ser verdade. Aparício não podia ser tudo que diziam. O perigo, a coragem, a ousadia, a crueldade, tudo isto podia ser de outro, menos dele. Não. Aparício era aquele rapaz que no Araticum brincava com as esquisitices de Domício. Estivera com ele na caatinga e se mostrara até aborrecido com a vida do cangaço. Ali estivera o irmão e diferença nenhuma encontrara na sua cara, nos seus modos. Um cangaceiro com a sua fama de matador devia parecer outro.
Era já tarde. E Bento precisava tocar as ave-marias. Subiu para a torre, e foi Domício quem o acompanhou até lá, na sua imaginação. Cismava. Domício tinha sumido, deixado o Araticum e ninguém sabia para onde. Lá estavam os dois velhos sozinhos, o pai e a mãe, sem a ajuda de ninguém, para ver tudo, o gado, as terras. Sem dúvida que eles botariam vaqueiro para olhar e cuidar das coisas. Por aqueles sertões não havia lugar mais esquisito que o sítio de sua gente. Em outras terras vinham morar gentes de fora que se enraizavam, que se fincavam para sempre. Ali, era aquele abandono. Só o povo dele, só os Vieiras, o pai, a mãe, dois filhos. Fôra-se um para o cangaço e agora Domício se perdera no mundo. Bento puxou o badalo com força. Irmão de cangaceiro. Fora no Açu desprezado por todos, insultado pelo juiz, estivera entre os presos que Deodato soltara. O Amarelo, o menino da tosse, estava tão fraco que voltara do meio do caminho, para se entregar outra vez. Mudava tudo no Açu. Ele mesmo era outro homem. Viera do Araticum outro bem diferente. Sabia de coisas sérias. Na feira apontavam para ele como para um parente de um grande. O irmão de Aparício merecia atenção. O cangaço trazia-lhe honrarias. Mas Domício se fora. Aí Bento parou. Era a última badalada. Ficou na torre olhando tudo. O sobrado do Coronel Clarimundo na sombra parecia menor. Sem o brilho das venezianas era uma casa pobre como as outras. Via-se bem dali o prefeito, de suspensório, olhando a rua. A família longe, e ele no Açu sem coragem de deixar os negócios. A tamarineira ia aos poucos se cobrindo de noite. Bento demorara-se na torre mais tempo. As beatas já iam saindo, e o Padre Amâncio apareceu pela calçada do Major, devagar. Seu padrinho se acabava, não tinha dúvida. Vinte anos de Açu era como se fossem vinte anos de Fernando Noronha. Não podia abandoná-lo como Aparício queria. É verdade que havia a mãe. Mas a velha sofreria mais se ele abandonasse o Açu para se meter no Araticum. Aparício estava com medo de que ela morresse por causa dele. Não era amor de filho, era o pavor de morrer, de perder a sorte nos combates. Zé Pedro ligara o cangaceiro à vida da mãe. E Bento foi descendo a escada. Ouviu o rumor dos morcegos voando na igreja. Não encontrara jeito de acabar com eles. Faltava vinho para a missa do outro dia. Teria que abrir uma garrafa nova. O sangue de Deus, a carne de Deus. De repente passou-lhe pela cabeça um pensamento de louco. Tudo aquilo era mentira, uma verdadeira mentirá. A Pedra Bonita, Aparício. Ele era quem manobrava com os objetos sagrados. Sabia de que caixa o Padre Amâncio tirava as hóstias que eram o corpo de Deus. Era ele quem abria as garrafas com o vinho que era o sangue de Deus. A lâmpada do sacrário vacilava. Aquela luz de manhã à noite estava ali para que Deus não pudesse ficar às escuras, sem uma luz em seu louvor. Fugiu do pensamento de incréu e fechou a igreja. E sentiu-se o único homem do mundo, cercado de paredes grossas, no meio dos santos, com aquele cheiro de rosas murchas, com aquele bafo de coisas velhas. O silêncio era grande demais. Os morcegos calados, e a lâmpada parada sem o vento que entrava pelas portas abertas. Tudo no fim. Bento deixou a igreja desolado, como se estivesse nu por dentro dele mesmo, sem coisa nenhuma para cobrir as suas vergonhas. Nunca lhe viera na cabeça uma idéia daquela de não acreditar em Deus. Só podia ser um sopro do diabo. Viu Padre Amâncio parado na porta do Coronel Clarimundo, e foi andando para lá. Os dois conversavam:
— O senhor leu, Padre Amâncio, a notícia do Diário, a respeito do ataque de Aparício a Mata Grande? Foi uma danada. O povo reagiu. O grupo atacou cinco horas e não entrou lá. Aqueles Menezes de Mata Grande são homens de verdade. Diz o jornal que Aparício está com mais de cinquenta homens.
Bento saiu com o Padre Amâncio sentindo um desejo louco de dizer que tudo aquilo era mentira. Quis puxar conversa, mas ficou com vergonha. Raramente ele tomava a iniciativa das conversas com o padrinho. Mas daquela vez não se conteve:
— Padrinho, aquilo é mentira do jornal.
— Mentira por que, menino?
— Porque Aparício esteve aqui hoje na casa do senhor.
— Aqui? E você não me disse nada! Eu queria dizer umas coisas a ele . Esse seu irmão está ficando um monstro.
Bento contou tudo como se passara, e o padre falou mais sério:
— Veja você. É um homem que podia estar no seu canto, ao lado dos pais, plantando a sua terra, tratando do seu gado. E vive por este mundo cometendo os crimes mais bárbaros. Antônio, tu tiveste sorte. Podias estar hoje com ele .
Bento falou em Domício, que havia desaparecido. Quis assim mostrar ao padre que o outro era diferente de Aparício. Tinha um irmão que não era aquela fera falada. Domício era bom, tocava viola, cantava, acreditava na Pedra Bonita. Mas Bento teve receio de falar. O irmão acreditava na Pedra Bonita e chorava de noite com o chamado da cabocla nua das furnas.
Maximina, lá para os fundos da cozinha, cantava Margarida vai à fonte. Estaria nos seus dias de azeite. E Bento sentiu-se só, mesmo junto do padrinho. Se ele falasse de Domício, o Padre Amâncio diria o que sempre dizia: superstição, ignorância. Aí ele pensou nos pensamentos maus da igreja. Estava guardando um crime para o padre, para o seu padrinho. Ficou com medo. Lá dentro da igreja, quando procurara uma garrafa de vinho de missa, viera de súbito, como um raio, a idéia da negação. Tudo era mentira, a Pedra, os milagres da Pedra, aquele Deus do sacrário, a hóstia branca que o Padre Amâncio guardava numa caixinha de flandres. Era um monstro como Aparício. Um verdadeiro monstro. Foi saindo do quarto do padre e parou na cozinha. Maximina lavava os pratos e estava de olhos vermelhos:
— Que é que tu está olhando. Toinho? Nunca me viste não? Não sou bicho não, menino. Tu é criado como eu. Tu é irmão de cangaceiro. Tu é da terra dos diabos.
Bento se revoltou. Pela primeira vez em sua vida, teve raiva da negra. Quis dizer-lhe desaforos. Teve vontade de mandar-lhe a mão na cara. Encolheu-se e foi andando para o seu quarto. Era este o seu mundo. Não havia um ente com quem pudesse desabafar. Dioclécio. Desde que aparecera Domício que Dioclécio ficava no segundo plano na sua memória. O cantador de cabelos compridos ficara menor. Domício era o grande, a criatura que estava com ele em todos os momentos. Não pensava em mulher. Podiam dizer que era um aleijado. Mas não pensava nelas, em mulher nenhuma. E lembrava-se da tarde em que D. Fausta pegara-se com ele , com aquela fome, com aquela boca torta, aqueles olhos de D. Fausta. Sofria muito só em pensar naquilo. Pobre de Domício, que tremia de noite com o canto da cabocla nua, pobres dos sertanejos que se perderam nas profundezas da terra, indo atrás do canto do corpo nu. Era Antônio Bento Vieira, irmão de um cangaceiro, afilhado de um padre; sabia ajudar missa, sabia ler e escrever, tinha dezoito anos e sem que ninguém soubesse tocava viola. Aprendera no Araticum com Domício. Lá um dia, se apertasse a agonia, sairia pelo mundo. Teria que se meter com Domício, teria gente em derredor deles, ouvindo as coisas que eles inventassem. Seria maior que Dioclécio, que não cantava desafio. Os cegos cantadores iriam conhecer o valor dos versos dele. E ninguém apontaria para ele como o irmão de Aparício. Seria ele mesmo, Bento, o maior dos cantadores. Domício. Aparício chegara com a notícia de seu desaparecimento para outras terras. E pensou na morte do irmão querido. Reconstruía a morte dele, como tudo se passara: Domício tinha chegado em casa. Estivera na serra, esperando que o tempo corresse. Por fim chegara ao Araticum. Lá estavam a velha e o velho. O pai o dia inteiro agradando o bode, a mãe fazendo tudo dentro de casa. Então Domício começou a sentir-se só e veio a tristeza. Teria se lembrado dele, Bentinho. A noite de lua pedia mesmo uma conversa longa, uma tocada de viola. E Domício sozinho. Via Bento na imaginação, o irmão na calçada do Araticum suspirando. As oiticicas faziam barulho com o vento. E Domício só. De sua rede teria começado a ouvir a voz de longe, como se fosse um chamado de vaqueiro para uma rês perdida na caatinga, uma voz que ia crescendo, crescendo para os ouvidos de Domício. Por fim, ele teria selado o cavalo e corrido atrás da morte. Teria morrido como outros sertanejos. E Bento sentiu, assim, a morte de Domício como uma realidade cruel. Quis chorar, quis sair para pedir ao padre um conselho. Domício tinha morrido. Família infeliz. Era a Pedra Bonita, o sangue de Judas correndo nas veias dos Vieiras. Só uma donzela violada daria cabo à desgraça de todos. Não era possível, não era possível. Não havia três horas chegara até a descrer de Deus, do Deus da igreja, do Deus do sacrário, do vinho, da hóstia, das verdades que aprendera do Padre Amâncio. E vinha aquilo agora, o pensamento na Pedra Bonita. Os Vieiras estavam acabados. Restavam eles no Araticum. E o fim era bem triste. O pai e mãe sofrendo horrores, um filho no cangaço, outro como morto, outro no fundo da terra com a cabocla. As terras com vertentes, com águas correntes, uma serra verde perto, repudiadas pelo povo. Sem dar riqueza à sua gente. E o sono não vinha para Bento. E ele cada vez mais se sentia um derradeiro entre os homens. O Açu inteiro dormia. Dormia o Coronel Clarimundo com a saudade da família, da filha que tirara curso num colégio importante. Dormia o Major Cleto, cheio com os podêres da autoridade reposta. Joca Barbeiro coletor. D. Fausta pensando no sargento, que escrevia, que estava tratando de voltar para o Açu. Todos dormiam na velha vila. Até os mais desgraçados tinham em quem pensar. E ele Bento naquela noite era bem do Araticum. A maldição do Filho de Deus pesava sobre os seus ombros. Os catolèzeiros gemiam, o mato cobrira a terra na Pedra Bonita. O sangue dos mortos ensopara a terra sagrada. E o Judas saíra correndo pela caatinga, cansara cavalos e viera com os soldados massacrar os romeiros. Agora ele pagava. Domício, sua mãe, seu pai, Aparício, todos pagavam. Era a sorte de todos pagar até a última gota de sangue. Pelo sacrifício do que viera desencantar as riquezas da lagoa. Fazer os homens iguais, fazer de todo o sertão um paraíso. Ele mesmo verificava a sua fraqueza pensando nessas coisas. Superstição, ignorância, falta do Deus verdadeiro no coração do povo. E era mesmo. Aparício, o maior dos cangaceiros, estivera com ele, falara com ele , o mesmo Aparício do Araticum. Mentira em tudo. O jornal falava do irmão atacando Mata Grande, e no entanto Aparício de braço doente sem fazer coisa nenhuma. Mentira de todo o mundo. Aparício era igual a ele e a Domício. E o sertão inteiro tremia pensando nele, forças volantes varavam a caatinga com rastejadores cheirando o chão, as pedras, atrás dele. Deus trancado no sacrário. O vinho era o sangue. E o pão era o corpo de Deus. Aprendera tudo no catecismo de D. Francisca do Monte. E não lhe chegava o sono. Por que não lhe vinha um sono que lhe afogasse os pensamentos loucos? Domício. E a saudade do irmão foi chegando devagar, de manso, para perto de Bento. E ele foi dormindo aos poucos. Tudo foi ficando para longe. Tudo foi andando para as distâncias, para o fim. E dormiu.
Naquele dia não acordou para tocar a chamada da missa. As beatas teriam se espantado. O que teria acontecido? O sino não tocara a primeira chamada. Bento dormia ainda, quando Maxi-mina veio chamá-lo:
— O sono te pegou, menino. O padre está te chamando. Ele já está na igreja.
Bento foi correndo. Acendeu as velas do altar, vestiu o seu hábito de acólito e entrou solene com o livro sagrado nas mãos. Ia mais uma vez fazer-se de criado de Deus, pôr-se ao serviço de Deus do sacrário. Tocou a campainha, que encheu de som a igreja. As beatas rezavam alto. D. Francisca pigarreava, puxando a ladainha.