Pedra Bonita
Do lirismo à épica
Como acertadamente observaram vários críticos, Doidinho significa um passo dado em direção da ficção pura: "Carlos é um personagem entre outros personagens e não apenas o pano de tela dos acontecimentos—muito embora permaneça inextricável a identificação entre autor e
narrador." {11} Ou, noutras palavras: "O narrador não se restringe ao papel de mero espectador dos acontecimentos; ele é o centro de todos
eles, agindo ou condicionando a ação." {12}
Mas a intenção de utilizar os dados da memória para um romance de verdade está ainda mais evidente em Banguê. O escritor teve a coragem de interromper a narrativa da adolescência de Carlos de Melo para no começo do novo livro apresentá-lo homem, com vinte e quatro anos feitos. Essa decisão, criticável num memorialista, justifica-se em se tratando de romance: a personalidade de Carlos ficou perfeitamente determinada pelos fatores psíquicos que sobre ele agiram no engenho e no colégio até chegar aos quatorze anos. Por isso poucas palavras bastam para recapitular o que aconteceu naquele intervalo de dez anos: ele se tornara homem feito, dono de seu destino, formara-se em Direito sem saber fazer nada, e vive no engenho do avô em eternas férias. (Note-se que no romance O Mole que Ricardo, escrito um ano depois, mas de ação anterior à daquela obra, Carlos é apenas entrevisto de relance no ambiente estudantil do Recife, sem que a seu respeito ganhemos qualquer informação substancial.)
Sonhador e abúlico, Carlos de Melo não consegue impedir a decadência total do engenho Santa Rosa, que lhe cabe em herança com a morte do avô. A aventura passional com Maria Alice, tão bruscamente interrompida, só faz aprofundar-lhe a natural tendência para cismar, a sua incapacidade para um esforço sério e persistente. Não são, porém, apenas as taras inatas e os vícios adquiridos na adolescência que o afastam da ação. É que em seu íntimo nasceu, penosa e vagarosamente, um outro ser, diferente de todos os demais: o artista para quem a ação dos outros é espetáculo e que age para fazer sonhar os outros. As manifestações da metamorfose foram quase imperceptíveis: o gosto que Carlos observou em si pelo exagero, o vêzo de deformar fatos, de contar uma história com vantagens. Mas não desconfiara: vinha de uma
família sem letrados, "que fazia da terra {13} a sua única obra de arte", de uma casa onde não havia livros. A seguir chegou aquela admiração às palavras bonitas, ainda no colégio. Depois, nos anos de acadêmico, escreveu uns artigos, mais por orgulho do que por necessidade íntima,
falando da glória de seus antepassados, da civilização que eles criaram. "Tudo literatura." {14} Repare-se na conotação pejorativa desta palavra no contexto. Carlos de Melo (e com ele José Lins do Rego) torna-se escritor a partir do dia e m que de ixa de faze r lite ratura, isto é, quando se resolve a tomar nas mãos a própria vida e a que vê em seu redor, e a refazê-las, a replasmá-las. Essa metamorfose se processa, porém, numa dolorosa cisão íntima, num debater-se entre remorsos por transformar em assunto a decomposição que, por motivos de genealogia e tradição, lhe competiria impedir—e aí ela nos traz à lembrança o avatar de outro grande criador literário, Marcel Proust, tão diferente do nosso autor pelo universo que evoca, mas tão próximo dele quanto ao partido que soube tirar da memória inconsciente. Ao contar como não se resolvia a enquadrar-se no mundo da ação, a desligar-se do papel de espectador e a empreender outra espécie de ação, a que lhe daria a imortalidade, lá estava ele com o romance feito, uma parcela do tempo perdido resguardada para sempre.
Outra semelhança entre os dois escritores: ambos reproduzem a fase final de uma ordem social fadada a desaparecer, e de que guardam uma forte saudade, apesar de lhe compreenderem e porem à vista a podridão. Cada vez mais convencido de nada poder fazer para ajudar os pobres do engenho—que ele é o primeiro a prejudicar com a sua inércia, a sua incompetência, os seus desmandos—, Carlos de Melo vai, em suas reminiscências, multiplicando as observações de alcance geral, as relativas às condições sociais do engenho.
Na terceira e última parte do livro, a mais importante, entremeiam-se com arte consumada o fim de uma raça e a ascensão de outra, na pessoa de Zé Marreira, encarnação perfeita da teimosa energia dos sabidos humildes, assim como o fim de uma classe, a dos senhores de engenho. O engenho Santa Rosa, para salvar-se, tem de se transformar em usina, e os parentes coalizam-se para realizar essa mudança. A personagem Carlos de Melo, vencida, aniquilada, abandona o cenário; nos outros livros do "Ciclo" figurará apenas como lembrança na mente das outras personagens.
Do lirismo à épica
Livre afinal de seu alter ego, agora o escritor está em condições de tomar o caminho do romance épico, pelo qual envereda em Moleque Ricardo, que faz e não faz parte do "Ciclo da Cana-de-Açúcar". Seu herói, uma cria do engenho Santa Rosa, tenta romper o círculo em que o
destino o prende e encontrar o seu lugar no Recife, em meio à nascente civilização industrial. Cavalcanti Proença{15} qualifica o livro de romance satélite do ciclo, mostrando de maneira persuasiva que o protagonista, mesmo na grande cidade, continua a ver o mundo em termos de engenho e se defende dos golpes do ambiente hostil com a lembrança embelecida do Santa Rosa. Seja como fôr, ao mesmo tempo que sai de si mesmo, o escritor amplia consideravelmente o seu mundo romanesco.
Pela primeira vez, protagonista e autor não são idênticos; pela primeira vez, este renuncia ao recurso à primeira pessoa do singular. Entretanto, graças a um prodígio da sua imaginação, ele identifica-se com a sua personagem, cuja maneira de sentir consegue impor ao leitor, fazendo-nos aceitar como naturais as reações do pobre negro analfabeto ao cerco da cidade, das mulheres, do ambiente de trabalho, do movimento operário, da religião de Ogum, outras tantas forças místicas que o ameaçam de envolvimento. Tão completa essa identificação com a personagem central, que o romance enfraquece nos trechos onde esta não está presente, em particular naqueles em que o romancista, em seu próprio nome, evoca a agitação operária e estudantil do Recife de seus anos de acadêmico.
Acontece também, pela primeira vez, o escritor criar personagens em grande número. Nos três primeiros livros elas se contam pelos dedos de uma só mão: além de Carlos de Melo—o avô José Paulino, o professor Maciel e, talvez, Zé Marreira, o moleque chegado a senhor de engenho. As demais permaneciam em estado de comparsas: de tão vivas na memória do escritor, dispensavam ser moldadas, bastando uma simples alusão, um leve toque, para fazê-las ressurgir. Mas, agora, tratava-se de um mundo que não era o seu. Embora dotando cada figurante de traços e ditos conservados no fundo de uma memória inesgotável, o romancista sentia prazer em plasmá-los. O padeiro português Seu Alexandre e sua mulher D. Isabel; os companheiros da padaria: o masseiro Florêncio, o caixeiro Francisco, o negro do cilindro; as duas mulheres que disputam o amor de Ricardo, Odete e Isaura; e, sobretudo, Seu Lucas, o bucólico pai-de-santo, que debalde procura proteger o bom negrinho contra as ciladas do próprio sangue e os malefícios da cidade grande—eis uma galeria de criaturas de extraordinária força vital.