Pedra Bonita
Capítulo 7
A NEGRA MAXIMINA foi quem primeiro conheceu:
— Este menino está outro. Nem parece o mesmo. Sentira a mudança de Antônio Bento. Ela vinha com ele há doze anos. De fato, ele estava outro, se outro fosse ter Antônio Bento sentido a vida mais sua, com mais gosto. Ele estava usando os seus olhos, os seus braços, o seu coração. Dantes era aquilo que se via, vivendo com os outros mandando nele, tocando sino, lavando cavalo, levando recado, um Antônio Bento que não era nada porque era de todos. Dioclécio viera ao Açu, enchera o criado do padre de uma vida diferente. O cantador teria vida de feiticeiro? Só, no serviço, o rapaz se lembrava dele e queria se esquecer. Esquecer! Seria melhor se esquecer porque ele vinha sofrendo com as recordações. Sofria em se sentir pegado ao Açu, enquanto o outro se dava ao mundo pelas feiras, pelas fazendas, pelas caatingas, fazendo o que bem queria, o que bem amava. Dioclécio. A vida de Dioclécio, as suas histórias. Os rapazes do Açu não sabiam de nada. O filho do juiz falava das mulheres do Recife, os outros dali falavam das mulheres da Rua da Palha. E nenhum sabia das histórias de Dioclécio, das noites de Dioclécio, dormindo com a mulher do velho nos braços. Ninguém vivera como o seu amigo, como se estivesse num sonho, fora da terra. Era aquilo que Antônio Bento sentia. Ajudava missa, sacudia o turíbulo, como se fosse uma coisa comum. Perdera o entusiasmo. Antes, para ele , nas noites do mês mariano, era uma glória ver-se de turíbulo fumaçando na frente do Padre Amâncio, enchendo a igreja de incenso. E os outros meninos com inveja da sua importância. Fôra-se tudo. Que lhe importava o amor de Maximina? Tudo no Açu era contra ele . As mulheres eram aquelas que ele via na igreja. E os homens aqueles homens que não gostavam dele, que falavam da sua terra com um desprezo que irritava. Joca Barbeiro, o juiz, o delegado, o Major Cleto, o Cabo Leôncio. E os meninos? Os de sua idade andavam com as mulheres da Rua da Palha, se gabando, dando a impressão de que eram homens feitos. Não. Antônio Bento só vira mesmo um homem naquele Açu, fora de seu padrinho. E este homem se fora, expulso, corrido, como um malfeitor. Começou então a sofrer, a ficar triste, a ter saudades sem saber de quê. Uma pungente saudade que ele não localizava, não encontrava lugar para pôr. As histórias de Dioclécio, os versos, a viola triste. Lá de cima da torre, puxando o badalo do sino, iam-se com o som para longe os desejos de Antônio Bento. Pensava na vida. O que seria dele, que não sabia fazer o que Dioclécio fazia? Agora só amava, só admirava o que ele vira e gostara no cantador. Ajudar missa, varrer a igreja, tocar sino, tudo já fora para ele um serviço de um ofício maior de todos. Agora, não. Era tudo igual. Deus, Deus... E ficava com a cabeça fervendo. Pobre da Maximina, que acreditava em tudo e que vinha sofrendo desde que nascera. Nada. Deus, do alto, mandava em tudo. Dioclécio vira o Padre Cícero dizendo: "Deus te fez sofrer e Deus te curou". O Padre Amâncio estava ali no Açu porque amava Deus. Ouvira D. Eufrásia dizendo:— "Se Amâncio quisesse, já era bispo, já era um grande, um príncipe". E não. Ficava no Açu para aguentar aquele povo, aquela gente. Montava a cavalo para andar seis léguas com o tempo que houvesse, para confessar um pobre, para salvar uma alma das profundas dos infernos. Se não fosse ele , teria fugido com Dioclécio, teria fugido com o homem mais feliz do mundo. O que andava pela terra, o que amava mulheres lindas e vira um milagre, uma força de Deus se exercendo. Antônio Bento vacilava assim entre o Padre Amâncio e o mundo que Dioclécio descobrira. As terras viajadas por ele , as noites estreladas que cobriam os sonhos de Dioclécio. Deixar o Açu e sair pelo mundo seria grande para ele . Mas não sabia cantar, não sabia tocar viola. Para isso bastava ter coração, lhe dissera Dioclécio, bastava sentir entrar no corpo aquilo que o seu amigo sentira na noite em que a mulher do velho fora deitar-se na rede, amar com ele , dar quente aos seus braços, e às suas pernas. Podia ser um cantador. Por que não? Um cantador. Mas um cantador tinha que fazer muita coisa, tinha que amar, que correr o mundo. E ele nunca amara, nunca sentira o fogo do que Dioclécio falava. Mulher para Bento não existia. Que mulher já lhe dera forças de correr mundo, de se desgraçar, de gemer na viola? Nenhuma. Até aquela data não sentira nada, não sofrerá nada por este lado. Pensava até que fosse um doente. Via os outros de sua idade contando histórias, falando de namoro. E ele frio, alheio, bem de fora. Uma doença. Era criado de padre. Devia ser como um padre? Não podia ser. Estava ali Seu Laurindo com dez filhos, fizera a mulher parir até que o doutor de Camaru aleijara a pobre. Ele, Antônio Bento, perdesse a esperança. Um cantador era coisa mais difícil de ser. Padre não fora. As posses do seu padrinho não deram para tanto. E dava graças a Deus. Vinha-lhe era aquela vontade de ser cantador. Era um desejo violento que lhe tirava a tranquilidade, que lhe enchia as noites de sonhos e as horas de serviço de tédio. Podia estar longe, bem longe do Açu. Com a sua idade Dioclécio mandava em mil homens, tivera a grande história de sua vida, a facada que lhe dera coragem para ir pelas terras distantes cantando, curando a sua dor. Se o Padre Amâncio soubesse dos seus desejos, teria nojo do seu afilhado. Era esta a dificuldade de Antônio Bento. Como receberia o padrinho estes seus desejos, estas suas ambições? Se ele saísse pelo sertão atrás de Dioclécio, procurando o mestre para com ele aprender, o que não ficaria pensando o Padre Amâncio? Não havia dúvida de que aquilo seria uma safadeza e tanto. Ficaria mesmo no Açu, nascera mesmo para sofrer, para enjeitado da sorte. Fora dado pela sua mãe. Ela não tinha que deixar o seu filho em terra alheia. Os outros irmãos não ficaram, não aguentaram o repuxo de 1904? A mãe viera ao Padre Amâncio e deixara o filho mais moço em suas mãos. E aí estava ele odiado pelos homens e as mulheres do Açu, sem amigos, feito somente criado, esperando que Seu Laurindo morresse para ficar no lugar dele. Seria no muito o sacristão do Açu, enquanto vivesse o seu padrinho. E, depois, sem mulher, sem família, só, um traste por esse mundo de Deus. Boa vida a de Dioclécio. Não tinha pai, não tinha mãe, não tinha padrinho. Um dia no Açu, outro no Mogeiro, uma noite na Taquara, nos braços da moça bonita, a outra na caatinga, dormindo com a lua no rosto, com as estrelas no céu, com o vento soprando. Um homem feliz.
E assim andou Antônio Bento os quinze primeiros dias depois da partida de Dioclécio. A primeira noite foi difícil para passar.
Saíra com o Padre Amâncio, estrada afora, atrás do homem doente. Andaram pelo deserto, com a noite escura, pela caatinga interminável. Um silêncio de fim de mundo abafando tudo. O Padre Amâncio na frente e ele atrás. E foram assim até quase de madrugada. Por fim chegaram na casa do homem que mandara chamar Deus para poder morrer. Quando se apearam na porta da casa, havia choro lá por dentro. Não havia mais precisão do Padre Amâncio. O homem se entregara ao Criador com todo o peso dos seus pecados. Choravam junto do defunto estendido na rede. A mulher e os filhos num berreiro triste. O padre foi consolar, dizer umas palavras boas, mas ninguém ouvia. A mulher se queixava alto, fora de si. Era um homem bom o seu marido. Só fizera o bem para todos eles, e viera a morte, Deus viera para o matar. Padre Amâncio saiu para o terreiro. Os cavalos ainda estavam arreados. Não poderiam voltar em cima dos pés. Teriam que esperar ao menos umas duas horas, para dar descanso aos animais. Uma mulher, que parecia a sogra do morto, apareceu com café para eles tomarem. O padre agradeceu. Teria que celebrar ainda naquele dia. A escuridão enchia a noite, mas a madrugada não tardou a chegar. Aquela casa no meio do deserto. Um curral de pedra, pertinho, e a caatinga cercando. A caatinga sem fim, igual, léguas e léguas. E aquela casa, e aquele povo, vivendo sem medo, sem desgosto. O padre sentou-se num banco que a velha trouxera. E Antônio Bento por perto, pensando em Dioclécio, que naquela madrugada ganharia o mundo. A velha começou a falar com o padre. A doença do genro começara com uma dor de lado. Uma dor que tomava o lado esquerdo todo. Ele nem podia puxar pela perna. A bicha vinha forte, mas passava. Ele andava, fazia os serviços, e outra vez chegava a dor. Torcia-se na rede, como um infeliz. E foi assim, até que na segunda-feira veio febre e o pobre perdeu até o juízo, dizendo besteiras. Fora ela quem se lembrara de mandar chamar o vigário. A filha não, queria. A menina estava meio aluada com a morte. Mas se acostumava. A gente ali se acostumava com tudo. Lembrava-se da morte do marido. Pensava que o mundo ia se acabar, que tudo fosse cair por cima dela. E tudo se fora, e ela criara a família. O Padre Amâncio falou para a velha com a sua mansidão de sempre; que era assim mesmo, que cada um podia confiar nos poderes do Alto, na justiça que não falhava. A mulher começou a gritar, os filhos urravam. E a velha levantou-se e foi dizendo para dentro de casa:
— Fica mais quieta, menina. Foi tudo porque Deus quis.
E com pouco mais a madrugada começou a clarear e aquela desgraça toda ficou mais à vista. O curral dos bodes e a solidão daquela casa perdida por ali. Viviam, e a velha achava que nem a morte era capaz de liquidar com eles. O defunto estava na rede, com as franjas cobrindo o rosto. A mulher espichada no chão, como um cachorro dormindo, e os meninos por perto, no sono. Padre Amâncio chamou Antônio Bento. Teria que puxar um pouco, porque ele não podia deixar de celebrar a sua missa no Açu. E vieram andando de caatinga afora. As imburanas verdes, os xiquexiques florindo enchiam a caatinga de vida, e de alegria. O sol da manhã se espalhava pelo verde das árvores, e tudo cheirava, um cheiro bom de mato, de terra, de flores. Tudo estava muito bonito. Os cascos dos cavalos estalavam nas pedras. O Padre Amâncio vinha para a sua missa, e Bento não se esquecia de Dioclécio. Seria bom que ainda o encontrasse no Açu. Poderia ainda abraçar o amigo antes da partida. E às oito horas foram chegando na rua grande. O mercado vazio. Dioclécio se fora para sempre. Antônio Bento sentiu-se roubado de um grande bem. Vira o homem morto, a mulher aos berros, os filhos no pranto, e tudo nada fora em comparação com a fugida de Dioclécio. Foi para a torre da igreja tocar a chamada para a missa. Estava que nem podia ter-se em pé com o cansaço da viagem. E ficou estendido na torre, esperando para tocar a segunda chamada. Acordou com o Padre Amâncio chamando por ele lá embaixo. Tinha adormecido sem querer. Desceu para acender as velas do altar. Na igreja as mesmas pessoas de sempre: as duas velhas, D. Auta, D. Margarida, e o pigarro seco da zeladora. Depois da missa, o padre mandou que ele fosse para casa dormir. Acordou à tardinha com Maximina chamando por ele :
— Vem comer, menino!
Levantou-se. E o que havia de real, de certo, de duro, era a ausência de Dioclécio. O Padre Amâncio havia chamado o sacristão Laurindo para outra viagem. E Maximina falava daquele exagero. Se D. Eufrásia estivesse em casa, teria havido banze. Como era que o vigário, mal chegara de uma viagem de uma noite inteira, saía correndo para outra? Tinham ido nos cavalos do Coronel Clarimundo. Fora o sacristão Laurindo que viera chamar, porque havia um casamento para fazer na fazenda Loanda. E saíram para só voltar dois dias depois.— "Assim", dizia Maximina, "não há cristão que aguente".
Antônio Bento foi para o seu serviço meio tonto. Para que bandas teria ido Dioclécio? O mundo era imenso. Àquela hora o cantador estaria de rota batida para alguma fazenda. Tocaria viola, cantaria para o povo da casa. Haveria uma moça bonita olhando para ele com amor. E Dioclécio seria feliz e nem se lembraria mais dele, do Açu, da terra infeliz. E assim levou os cavalos para lavar no rio com o sol quente. A água do poço chega ardia nas mãos. Cortou capim, fez tudo que era da sua obrigação. E, à tardinha, subiu à torre para tocar as ave-marias. Nunca vira tarde mais triste. Naquele dia debaixo da tamarineira não havia ninguém. O Açu mais calado, mudo. Puxou o badalo e o som foi longe. Pensou nas mulheres se benzendo, na D. Fausta solteira, enjeitada pelos homens, ela que tinha ciúmes até das ovelhas e das vacas. O céu estava escamado de nuvens arroxeadas, de nuvens tintas de sangue. Deu a última badalada e esperou que uma voz respondesse do outro lado do Açu:— "Eu estou aqui, Antônio Bento, estou aqui esperando por ti, para te ensinar os caminhos do mundo, te entregar as cordas de uma viola, te ensinar os meus versos tristes". E nada. O som se foi, se perdeu. E a tarde e a tristeza do Açu. Lá embaixo as mulheres tiravam o terço, as duas velhas, D. Auta, a zeladora. Esperou que elas acabassem para fechar a igreja. A luz do Santíssimo balançava com o vento que vinha da porta aberta.— "Ave Maria, cheia de graça", dizia a voz rouca, cortada pelo pigarro de D. Francisca.— "Santa Maria, mãe de Deus", respondiam as velhas e D. Auta. Por fim se foram e ele fechou a porta grande da igreja, e ficou só, no meio da casa de Deus, com a luz do Santíssimo e o silêncio. Havia morcegos chiando no telhado. Antônio Bento saiu pela porta da sacristia. No oitão da igreja havia gente conversando. Mas ele saiu tão sucumbido, que não via ninguém. Foi-se como um leso para casa e dentro de sua rede chorou. Chorou tão alto que a negra Maximina chegou para saber o que era.
— Dorme, menino, lhe disse a negra. Tu passaste a noite em claro.
Continuou a chorar. Chorou muito, até que se sentiu de peito lavado, como se as suas lágrimas fossem uma enxurrada de chuva de janeiro.